Capítulo 2

673 Palavras
Serena Bianchi Eu sabia que isso acabaria sobrando para mim. Era sempre assim: quando as coisas ficavam difíceis, eu era a solução mais fácil. Enquanto observava o rosto frio dos meus pais, percebia que a decisão já estava tomada. Eles me entregariam de bom grado, como quem se livra de um peso indesejável. E quem sou eu para contrariar? Apenas uma peça defeituosa do quebra-cabeça que é a família Bianchi. Quando chegamos à mansão de Damiano, senti-me pequena, insignificante diante da imponência do lugar. O portão era maior do que qualquer coisa que eu já havia visto, e as paredes de mármore brilhavam como se quisessem me cegar. Eu não passava de uma mercadoria que estava sendo transportada para seu novo proprietário. Tentei manter minha expressão neutra, como sempre fazia. Aquele olhar vazio que aprendi a desenvolver ao longo dos anos, fingindo que aquilo não me afetava. Damiano nos recebeu à entrada da mansão. O olhar dele era penetrante, mas não demonstrava nenhuma emoção, apenas uma espécie de curiosidade controlada. Ele estava ali durante todo o trajeto, foi ele quem aceitou o acordo, mas ainda assim parecia me analisar, como se quisesse entender o que havia sobrado de mim. Com um aceno breve, fui levada para dentro. — Você sabe por que está aqui? — A voz de Damiano me trouxe de volta à realidade. Ele havia me conduzido até um escritório, afastando os outros. Eu ergui a cabeça lentamente, encontrando os olhos dele. Balancei a cabeça afirmativamente, sem emitir som algum. Claro que eu sabia. Era o pagamento pela dívida dos meus pais. Uma dívida que nunca foi minha, mas que agora eu teria que pagar com a minha vida. — O que seus pais te contaram sobre nós? Sobre a máfia? — ele perguntou, a curiosidade finalmente aparecendo em sua voz. Eu não queria falar sobre isso, mas também não via escolha. — Quase nada, — murmurei, a voz saindo baixa e trêmula. Não sabia muito além dos boatos. O suficiente para temer, o suficiente para saber que uma vez que estivesse aqui, não teria mais volta. Ele me estudou por um momento antes de se levantar e caminhar até a janela. Eu permaneci imóvel, os olhos fixos no chão, tentando controlar minha respiração. Eu queria desaparecer, mas tudo o que eu podia fazer era esperar. — Você vai ficar aqui por enquanto, até eu decidir o que fazer com você, — ele finalmente disse, sem olhar para mim. — Terá um quarto nesta casa e seguirá minhas ordens. Não tente nada que me desagrade. Assenti de novo, sem emitir qualquer palavra. Não havia muito o que dizer, e eu não queria provocar nada que pudesse mudar o tom da conversa. Eu precisava me manter quieta, acuada, como sempre fui. Meu corpo parecia responder automaticamente a tudo aquilo, já acostumado a ser invisível, a se moldar ao que os outros queriam. Um empregado foi chamado para me acompanhar até o quarto que me foi designado. O caminho era longo, passando por corredores decorados com obras de arte e móveis caros. Eu não me atrevia a olhar para os detalhes, apenas seguia o empregado, com o olhar baixo e as mãos tremendo levemente. Quando finalmente chegamos ao quarto, ele abriu a porta e fez um gesto para que eu entrasse. O ambiente era maior do que qualquer cômodo da casa dos meus pais. Havia uma cama enorme, coberta com lençóis que pareciam mais macios do que qualquer roupa que eu já tinha usado. Não era um lugar para mim. Era como se eu estivesse invadindo algo que não tinha o direito de tocar. O empregado me deixou sozinha, e foi só então que eu permiti que as lágrimas rolassem. Eu não conseguia segurar mais. Sentei no chão ao lado da cama, abraçando meus joelhos, e chorei silenciosamente. Todo o medo, toda a humilhação, toda a incerteza se manifestaram em soluços abafados. Ninguém estava ali para ver, e pela primeira vez em muito tempo, eu não precisava fingir ser forte. Eu estava perdida.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR