Damiano Ricci
Fiquei sozinho no escritório, o peso da decisão ainda pairando no ar como uma névoa densa. As paredes eram forradas com livros, e o cheiro do couro dos móveis misturava-se com o aroma do charuto que havia fumado antes de eu sair de casa. O que eu havia feito? Aquela garota, com seu olhar vazio e semblante abatido, agora estava sob minha responsabilidade. Ela não era apenas uma moeda de troca; havia algo mais profundo em seu ser que me inquietava.
Enquanto olhava pela janela, observei a cidade à noite, iluminada pela luz do luar. As sombras se alongavam nas ruas, e o brilho da lua parecia intensificar a solidão que eu sentia. Eu não conhecia Serena a fundo, mas, com o que havia visto, sabia que sua vida até agora não havia sido fácil. Um pensamento se repetia em minha mente: ela não merecia isso. Fui treinado para ser frio, para não me deixar levar pela compaixão, mas essa ideia estava se tornando uma sombra que me seguia. Só conseguia pensar na minha irmã em seu lugar.
Neste momento de reflexão, meus irmãos entraram na sala. Domenico, sempre com aquele olhar sério, e Donatella, a princesa da família, como costumávamos chamá-la. Ela tinha o jeito leve e alegre que contrastava com a atmosfera pesada do escritório.
— E aí, Capo? — Domenico perguntou, sentando-se na cadeira à minha frente, enquanto Donatella se apoiava na mesa, com um sorriso travesso.
— Estamos aqui para conversar — continuou Donatella, balançando a cabeça. — O que você vai fazer com a garota?
— Isso ainda é uma decisão minha — respondi, tentando me manter firme. — Não se esqueçam disso.
— Mas ela precisa de cuidados — Domenico insistiu, cruzando os braços. — Você não pode deixá-la à mercê de qualquer um.
— Eu sei disso, Domenico. É por isso que vou pedir que você providencie roupas e algumas coisas para ela — disse, voltando minha atenção para Donatella. Ela pulou de alegria, como se tivesse sido convidada para uma festa.
— Posso fazer isso! — exclamou, seus olhos brilhando. — Adoro compras. Vou escolher algo bonito para ela.
— Apenas certifique-se de que não seja nada extravagante — adverti, já imaginando como ela poderia exagerar. Sabia que Donatella tinha um gosto refinado, mas não era esse o ponto. Serena não era uma princesa, e não deveria se sentir como tal.
— Ela deve se sentir confortável — acrescentou Domenico, sempre preocupado com o bem-estar dos outros. — Isso pode ajudar.
— Eu entendo, mas a decisão final sobre tudo isso é minha — reiterei, firme. — Não se esqueçam de que, por mais que queiram ajudar, a responsabilidade é minha.
Donatella se animou com a ideia de ir às compras, enquanto Domenico e eu trocamos olhares significativos. Ele sabia que a situação era delicada.
— O que mais você precisa resolver? — perguntou Domenico, mudando de assunto.
— Temos algumas pendências com a máfia. Precisamos revisar a entrega de cargas e lidar com alguns problemas com fornecedores. Não posso me afastar por muito tempo. Amanhã cedo sairei. E, por favor, vigie Serena enquanto estou fora — respondi, firme.
Domenico acenou com a cabeça. — Vou garantir que ela esteja bem. Não se preocupe.
Donatella, por sua vez, já estava em um mundo próprio, imaginando as roupas e os acessórios que poderia escolher. Ela sempre teve esse jeito sonhador, como se vivesse em um conto de fadas, mas a realidade da máfia era bem diferente.
— Não se preocupe, vamos cuidar disso! — disse Domenico, enquanto saíamos do escritório. Eles estavam prestes a sair, mas antes de ir, olhei para Donatella e acrescentei: — E, por favor, tente não deixá-la muito assustada.
— Vou ser a melhor irmã possível! — ela respondeu, piscando para mim antes de desaparecer pelo corredor.
— Não se esqueçam de preparar algo para comer para ela — falei para os empregados que prontamente assentiram. — Ela deve estar com fome.
Com os irmãos fora, voltei à minha mesa, rodeado pela penumbra do escritório. O que eu realmente sabia sobre Serena? A imagem dela em sua posição vulnerável não saía da minha mente. O que aconteceria com ela? E, principalmente, o que eu faria?
Enquanto pensava sobre a vida de Serena, a lembrança de como ela se comportou em nossa primeira interação me atingiu. O medo em seus olhos, a maneira como ela parecia se encolher sob a pressão de nossa situação. Eu sabia que a vida dela não havia sido fácil e, agora, ela estava presa a mim por uma dívida que não escolheu. O que faria um homem como eu para protegê-la? Seria capaz de fazer o certo?
As horas passaram lentamente enquanto eu lutava com essas questões. O peso da responsabilidade estava sobre meus ombros, mas não era apenas a pressão do papel de capo que me incomodava; era o bem-estar de Serena que realmente me preocupava. O que poderia acontecer se eu não estivesse por perto? O que a esperava naquela casa cheia de pessoas como eu, que podiam ser impiedosas e cruéis?
Quando finalmente deixei o escritório, uma sensação de inquietação me acompanhou. Eu precisava resolver as pendências da máfia, mas minha mente estava em outro lugar. Enquanto caminhava pelos corredores, as sombras dançavam nas paredes, refletindo a confusão que sentia por dentro. Eu queria ser o homem forte e decidido que todos esperavam que eu fosse, mas uma parte de mim se sentia perdida.