Serena Bianchi
Depois de um tempo que parecia uma eternidade, a porta do meu quarto se abriu lentamente. O empregado que entrou trazia uma bandeja nas mãos. Meu estômago roncou ao perceber o cheiro inebriante de comida quente, e minha mente se encheu de perguntas. O que era aquilo? Eu não conseguia me lembrar da última vez que comi algo que não fosse um resto ou um pedaço de pão mofado.
Quando ele deixou a bandeja na mesinha ao lado da cama, eu quase não acreditei. Havia uma sopa fumegante, um pedaço de carne suculenta e até mesmo uma fatia de pão fresco. Meus olhos se arregalaram, e uma onda de vergonha me invadiu. O que eu havia feito para merecer isso? Comi tão pouco nas últimas semanas que agora, diante de uma refeição digna de um banquete, sentia que a comida não era para mim.
O empregado saiu, deixando a porta entreaberta, e eu me permiti um momento de hesitação. Meus instintos gritavam para que eu não tocasse na comida, que não era para pessoas como eu. Mas a fome era mais forte que qualquer pensamento autodepreciativo. Com as mãos trêmulas, peguei a colher e comecei a comer, cada garfada sendo um desafio e uma delícia ao mesmo tempo. Nunca havia saboreado algo assim antes, e a cada colherada, uma mistura de gratidão e confusão invadia meu coração.
Enquanto devorava a comida, minha mente vagou. Pensei em Damiano, em seu olhar intenso e na maneira como ele parecia tão seguro e no controle, mesmo quando estava cercado de pessoas. Ele era um mistério para mim, um enigma que eu m*l conhecia. E agora, de alguma forma, eu estava presa a ele. O pensamento me deixou inquieta, e eu não sabia se deveria me sentir aliviada ou angustiada.
Assim que terminei de comer, a porta se abriu novamente. Damiano entrou, e meu coração disparou. Ele estava tão confiante, como se estivesse no seu território. Mas a confiança dele contrastava com a vulnerabilidade que eu sentia.
— Como você está? — perguntou, seu olhar se prendendo no meu.
Eu apenas balancei a cabeça, sentindo as lágrimas ameaçarem escapar novamente. Ele se aproximou e parou na porta, observando-me. Percebi que ele notou meu olhar avermelhado e os vestígios de lágrimas em meu rosto.
— Você chorou? — ele perguntou, a preocupação visível em sua voz.
Eu não conseguia responder. Na verdade, eu não queria. As palavras estavam entaladas na minha garganta, e tudo que eu queria era desaparecer. Damiano se aproximou e, por um instante, pensei que ele iria me bater ou algo do tipo. Mas, em vez disso, ele apenas ficou ali, imóvel, como se estivesse tentando decifrar o que se passava em minha mente.
— Não se preocupe, Serena. Isso vai passar. — disse ele, com uma voz suave, mas ainda firme.
Assim que ele saiu do quarto, um alívio e uma tristeza mista tomaram conta de mim. Sentei-me na beirada da cama, sentindo o peso da realidade novamente. O espaço era grande demais para mim, e a cama macia, que parecia tão convidativa, me fez sentir uma angústia imensa. Eu não me sentia digna de estar ali. Então, em um impulso, deitei-me de qualquer jeito, permitindo que o sono me dominasse. Dormi com a cabeça pesada e o corpo tenso, tentando ignorar as lágrimas que ainda se acumulavam em meus olhos.
Acordei com um ruído na porta. Uma empregada entrou, e eu me sentei rapidamente, tentando limpar o rosto e esconder os sinais de fragilidade. Ela sorriu gentilmente, mas a expressão em seu rosto mudava rapidamente.
— Bom dia, Serena! O Senhor Damiano a espera para o café da manhã — ela disse, animada.
Meu estômago se revirou com a ideia. O que ele queria comigo? Senti um frio na barriga. O que eu estava fazendo ali? Não era digna de sentar à mesa com ele e seus irmãos. Eu era apenas uma mercadoria, uma troca.
— Vamos, você precisa se arrumar — a empregada continuou, percebendo minha hesitação. — A mesa está posta, e eles estão te esperando.
Levantei-me devagar, olhando em volta do quarto, tentando me recompor. O reflexo no espelho mostrava uma garota perdida, com olheiras profundas e o cabelo desgrenhado. O que eu iria vestir? O que se esperava de mim? Um turbilhão de inseguranças se aglomerou em meu peito.
Quando cheguei à sala de jantar, o aroma do café fresco e do pão quente preenchia o ar. Damiano estava sentado na cabeceira da mesa, e ao seu lado estavam Domenico e Donatella. Ambos pareciam confortáveis, conversando e rindo como se nada estivesse acontecendo.
— Olha quem chegou! — disse Donatella, com um sorriso acolhedor. — Você é linda, Serena.
Agradeci com um aceno de cabeça, mas a verdade é que me sentia um desastre. O que eu estava fazendo ali? Não pertencia a esse mundo. A mesa era um espetáculo de comida, com pratos que eu nunca havia visto antes. Todos se serviam, mas eu apenas observei, o nervosismo crescendo a cada segundo.
Damiano olhou para mim, e por um momento, nosso olhar se encontrou. Ele me estudou com a mesma intensidade de antes, e isso me deixou inquieta. A sensação de estar à mercê do seu julgamento era sufocante. Eu não era nada mais do que uma garota comum que havia sido trocada como moeda de troca.
Quando o café da manhã avançou, eu m*l consegui tocar nos alimentos. A timidez me dominava, e a presença deles me fazia sentir como se estivesse invadindo um lugar sagrado. Donatella parecia perceber minha luta interna.
— Você pode comer o que quiser, Serena. Não precisa ter medo — disse ela, com um tom suave. — Aqui você pode ser você mesma.
Eu sorri timidamente, mas não consegui encontrar coragem para pegar algo. O olhar de Damiano estava fixo em mim, e isso me deixava ainda mais nervosa. Ele, por sua vez, parecia contido, mas ao mesmo tempo, havia uma leve compaixão em seus olhos que eu não conseguia entender.
Depois de alguns momentos em silêncio, Damiano se levantou.
— Serena, gostaria que você se juntasse a mim e Domenico no escritório após o café — ele disse, sua voz firme, mas sem a frieza que eu esperava.
Eu apenas balancei a cabeça em resposta, tentando não mostrar o quanto estava nervosa. A ideia de estar sozinha com ele e seu irmão me deixou em alerta. O que ele queria de mim?
O café da manhã continuou, e a conversa girava em torno de coisas que eu não entendia completamente, mas, em meio a isso, senti o olhar de Damiano em mim. Ele estava observando, e eu não sabia o que isso significava.
Com o coração acelerado e uma pitada de ansiedade, eu sabia que o que estava por vir seria importante. Era um mistério e um pesadelo ao mesmo tempo, e m*l podia esperar para descobrir o que Damiano e Domenico tinham em mente para mim.