Pré-visualização gratuita Capítulo 1
Don Giovanni Moretti estava longe da cidade — uma viagem de negócios que duraria alguns dias. Para Sarah, isso significava liberdade total. Sem o olhar vigilante do pai, ela transformou a cobertura da família em uma festa que logo se tornaria lendária.
O som alto da música eletrônica invadia cada canto, enquanto Sarah, com um copo de vodka na mão, dominava a pista improvisada. Seus amigos riam, bebiam e celebravam a noite, mas para ela, tudo era um ato de desafio — uma forma de gritar ao mundo que não era a herdeira perfeita que todos esperavam.
Em um impulso, ela subiu no pole dance montado no canto da sala. Rindo alto, dançava com uma ousadia que só aumentava a adrenalina. Foi quando a blusa, já frouxa e encharcada de bebida, escorregou, expondo-a diante das câmeras que não perdiam nenhum momento.
Na manhã seguinte, o choque foi brutal.
“A herdeira problema dos Moretti — escândalo na festa da cobertura!” estampava a manchete de todas as revistas.
Quando Don Giovanni recebeu a notícia, não pensou duas vezes. Cancelou tudo e voltou para casa em um voo às pressas, a raiva crescendo a cada quilômetro percorrido.
Ao chegar, encontrou a casa tomada pelo silêncio tenso e o ar pesado de decepção.
— Sarah! — sua voz ecoou pelo corredor quando a encontrou na sala, com o olhar desafiante, ainda vestida para a festa. — Você destruiu tudo! Nossa família, nosso nome... como pôde?
Ela cruzou os braços, o desprezo estampado no rosto.
— Eu não destruí nada, pai. Eu só vivi a única coisa que me permitiram: a festa, a mentira e a solidão.
— Você vai se casar com Luca Vieri. — ele falou firme, a decisão já tomada. — Não por escolha, mas por obrigação.
— Nunca! — ela respondeu, a raiva explodindo. — Você matou minha mãe com seu orgulho e sua sede de poder, e agora quer me prender com um casamento? Pode tentar, mas eu não vou ceder.
O pai, tomado pela fúria, deu um tapa que estalou no rosto dela. Sarah não recuou. Com os olhos marejados, jogou na cara dele a verdade que ninguém ousava dizer.
— Você é o responsável. Sempre foi. E eu? Eu vou lutar contra você até o fim.
Don Giovanni a encarou, um homem que havia tudo conquistado, mas que naquela hora perdia a filha para a própria guerra que criou.
Don Giovanni ficou parado, encarando o rosto marcado pela raiva e pela dor da filha. Por dentro, um peso esmagador apertava seu peito — a culpa que ele carregava há anos, a lembrança da noite em que perdeu a mulher que amava.
Ela não havia morrido por acaso. Foi vítima de uma emboscada c***l dos inimigos que tentavam abalar o império Moretti, inimigos que ele, com sua sede por poder e recusa em recuar, havia provocado. Sua obstinação custara a vida dela.
A ausência de sua esposa se tornara um vazio profundo na casa, um silêncio que ecoava nos cantos onde Sarah crescera. Don Giovanni sabia que sua filha não era só uma jovem rebelde — ela era uma criança ferida, órfã de mãe e de afeto verdadeiro, criada em meio a regras rígidas e expectativas sufocantes.
Ele tentou ser forte para ela, mas havia falhado.
Sarah, por sua vez, vivia essa dor como um fogo que consumia tudo. A falta da mãe era um abismo que ela tentava preencher com festas, bebida, roupas caras e homens descartáveis. Era um grito mudo contra o pai que não soube proteger o que ela mais amava.
Agora, o que os dois tinham era um nó de ressentimentos, silêncios pesados e palavras afiadas.
Don Giovanni queria salvar a filha da própria destruição, mesmo que isso significasse controlar cada passo dela.
Sarah queria se libertar da sombra do pai e da dor da perda, mesmo que isso significasse desafiar tudo — inclusive ele.
Ambos presos em um jogo c***l, onde amor e mágoa se confundiam, e o destino da família pendia por um fio.
Don Giovanni respirou fundo, tentando conter a dor que ameaçava transbordar. Aproximou-se lentamente de Sarah, como se cada passo pesasse toneladas.
— Eu não queria que você crescesse assim — sua voz saiu rouca, quase um sussurro. — Eu quis te proteger, do mundo, dos inimigos, até de mim mesmo. Mas falhei.
Sarah o encarou, os olhos brilhando, mas sua voz não vacilou.
— Você não falhou só comigo. Falhou com ela. Com mamãe. E comigo, que fiquei sozinha pra aprender a viver sem ninguém me segurando.
— Eu sei. — ele baixou a cabeça por um instante — Sei que a culpa é minha. Que a minha guerra custou a vida dela. Mas, por favor, entenda, tudo que faço, é pra proteger você. A família. Nosso legado.
Ela riu, uma risada amarga, cheia de desdém.
— Proteção? Isso não é proteção, é prisão. Eu não quero esse legado se for pra viver sufocada.
Don Giovanni fechou os olhos, exausto. Por mais que quisesse ser firme, o amor por sua filha era mais forte.
— Então, por isso, eu preciso que aceite o casamento com Luca. Ele vai te ajudar a carregar esse fardo, a fortalecer nossa família. Não é só por você, Sarah. É pelo futuro.
Ela o olhou como se ele fosse um estranho, uma mistura de raiva e tristeza rasgando seu peito.
— Você não manda em mim. E não vai decidir minha vida por mim. Se o futuro é essa prisão, eu prefiro quebrar as correntes — disse, virando as costas.
Don Giovanni sentiu o peso da derrota, mas sabia que a guerra estava só começando.
— Então é isso. Se não for comigo, será contra mim. — disse, com uma voz que não admitia contestação.
Sarah não respondeu. Lágrimas que ela se recusava a mostrar ardiam em seus olhos, enquanto a noite caía pesada sobre a mansão Moretti, onde a linha entre amor e ódio era mais fina do que nunca.