— Certo. — Clara sentou em uma mesa em um lugar que ela achava ser o refeitório, já que tinha inúmeras mesas com banco que caberia brincando umas cinquenta pessoas. — Somos elementares e blá, blá, blá, temos que salvar o mundo, energizando a terra. Como Karen disse, isso está parecendo um episódio de Capitão Planeta e os defensores da terra.
— Na verdade, o trabalho de você é um pouco mais complicado. — Um idoso de cabelos branquinhos adentrou o lugar junto com Adam.
— Meninas este é João o último ancião. — Adam apresentou cada uma das meninas e depois de ajudar o velho a sentar acomodou do lado de Karen, na frente de Clara e Liz separados pela mesa.
João começou a contar para as meninas tudo sobre os elementais e o processo de seleção de recipiente.
— Isso é muita crueldade. — Liz reclamou ao termino do relato. — Vocês escolhiam sacrifícios.
— Hoje eu vejo o quanto estávamos errados, minha querida. — Todo o pesar que o senhor sentia, foi transmitindo em seu semblante. — Há mil anos algo terrível aconteceu e vimos que a forma como estávamos tratando este assunto não era a maneira correta.
— O que que aconteceu há mil anos? — Perguntou Karen ao mesmo tempo temerosa e fascinada com a história.
— Fizemos a seleção. Escolhemos quatro jovens distintas que pertenciam ao clã...
— Que clã? — Clara afastou seu prato e perguntou.
— Antigamente, os guardiões dos elementais viviam em um único lugar. Éramos uma grande comunidade. Humanos superdotados que conseguiam manipular os elementos se reunirem neste lugar e aprendiam a controlá-lo. Nós lobos trocamos de forma, os magos do fogo, da água e do ar podiam manipular os elementos. Dentro desta comunidade quatro jovens entre vinte há trinta anos seriam escolhidas para serem os receptáculos, as jovens se sentiam honradas por esta dádiva — João começou a tossir.
Adam levantou e foi buscar um copo com água e entregou para o ancião, após beber voltou ao seu relato.
— O ancião da água foi desonesto. Ele manipulou as peças do sorteio das meninas. Sua filha e primogênita foi escolhida para representar o povo da água. Vendo aquilo tomou a decisão de mudar as coisas, colocando o nome de outra jovem no lugar.
— Nossa, mas que filha da p**a — disse Karen colocando a mão na boca logo em seguida — Desculpe — Seu rosto tingiu de vermelho. Adam soltou um rosnado com a visão dela o que não passou despercebido ao ancião.
— Sim, minha jovem. Falou bem, nós não sabíamos disso naquela época. — Suspirou cansado. — Não sabíamos também que a jovem escolhida estava com seu casamento marcado.
— Ah, não acredito — Exclamou Liz
— Os noivos tinha planos de fugir da aldeia no dia seguinte da seleção. Se isso acontecesse, outra seleção seria feita, o mago da água antecipou a morte das meninas. O noivo ficou desolado com a morte dela, queimou a própria casa e saiu pelo mundo. Um mês depois desta tragédia ele voltou, mas estava diferente.
— Perder alguém que ama deve ser a coisa mais terrível do mundo. — Clara murmurou.
— É sim — João bebeu mais um gole de água. — Em uma noite escura, ele invadiu a sessão do conselho e obrigou ao mago da água confessar seus pecados na frente de todo mundo. Enquanto estava dentro da sala, uma horda de mortos-vivos atacava a aldeia. Ninguém foi poupado, apenas alguns, assim como eu sobreviveu. Isso só aconteceu porque éramos crianças.
— Qual a sua idade na época vovô? — Adam perguntou com extremo carinho em sua voz.
— Doze anos na época. Só sei desta história porque adorava me esgueirar por entre os lugares e ficar escondido e ouvindo os assuntos dos adultos. Nunca vou me esquecer daquele dia, o mais promissor dos magos do fogo estava possuído por algo, seus olhos anteriormente verdes, estavam completamente negros, não dava para ver a parte branca. Sua voz animalesca e seus poderes mais fortes. Ele prendeu todos os anciões na parede enquanto torturava o mago da água atrás de respostas. E quando conseguiu queimou tudo, antes de eu sair correndo para salvar minha própria vida, vi seu corpo se transformando em lava pura.
— Deve ter sido uma imagem, ao mesmo tempo, fascinante e aterrorizante. — Karen estava com os olhos arregalados.
— Então, alguém nos matou para podermos receber os espíritos elementares? — Perguntou Clara com os punhos cerrados.
— Não, minha querida. — João teve um acesso de tosse. — Vocês foram escolhidas ao acaso, como deveria ser. Morreram porque tinha que morrer, não porque alguém escolheu por você. Aprendemos com os nossos erros.
— E agora? — Liz perguntou — O que temos que fazer.
— O universo é guiado por duas forças, a do bem e a do mal...
— Yin-yang — falou Clara.
— Exato. Quando o mundo se formou, estes dois poderes estavam presentes aqui. Porém a escuridão estava levando grande vantagem contra a luz. Sendo assim quatro jovens deram suas vidas para aprisionar a escuridão e assim salvar a terra da destruição total. E foi assim que os espíritos dos quatro elementos apareceram.
Há quem diga que são cinco elementos. O quinto é o espírito da alma, aquele que reuniu os outros quatro e juntos conseguiram criar uma barreira mística. E é por isso que vocês estão aqui. Para fortalecer esta barreira e assim manter todo o m*l do outro lado. — João olhou pausadamente para cada uma das meninas. — Sinceramente eu não sei dizer o porquê vocês, donas dos receptáculos continuam ainda neste plano. As almas de você deveriam ter transcendido e assim deixar o corpo material para traz, mas pelo que meu neto contou, acredito que a alma humana e a alma elementar estão fundidas em uma só.
— Por que acho que isso é um grande problema? — Liz perguntou nervosa.
— Porque, acredito que desta vez, se vocês morrem, os espíritos elementais vão junto.
“Ele está certo” — Lupus confirmou na mente de Karen.
— Senhor. — Pat entrou no refeitório chamando por Adam. Atrás dele, Lucas veio caminhando. Vestindo uma camiseta preta justa e calça jeans. Suas asas não eram visíveis.
— As motos estão concertadas. — Ele rosnou. — Ainda pego os filhos da mãe que cortaram as correntes.
— Não tem problema algum, por agora. — Adam levantou da mesa. — Clara, no quarto onde você estava tem roupas comuns, vista-se. — Olhou para o relógio — São quase três horas da tarde. Para irmos até onde o mago do fogo está, levaremos uns quarenta a cinquenta minutos para chegarmos até lá. Iremos sair daqui às dezesseis horas em ponto para irmos até o polo petroquímico do ABC.
— Como iremos achar o mago do fogo? — Liz ainda olhava embasbacada para o loiro alto.
— Os seres sobrenaturais emitem uma aura diversificada. — Lucas comentou. Seus olhos prateados focados exclusivamente em Liz. — Você tem uma luz esverdeada ao seu redor.
Lucas caminhou até ela e colocou suas mãos em seus ombros. Liz estremeceu com o toque.
— Quero que você feche os olhos. — Esperou a jovem fazer o que foi pedido. — Agora se concentre na sua respiração. Deixe o ar entrar pelo seu nariz e sair pela boca. Abstraia tudo ao seu redor e relaxe, quando você estiver pronta abra-os e veja.
Liz tomou seu tempo, respirou fundo várias e várias vezes. Sentiu a atmosfera ao seu redor mudar, algo bem sutil. Quando achou que estava pronta, abriu os olhos devagar. A primeira pessoa que viu foi Karen, ao redor dela tinha uma luz amarronzada assim como em Adam e em João, Clara tinha uma luz azul bem fraquinha, tão fraca que quase não dava para ver. Olhando por cima do ombro para Lucas viu que ele estava circulado com a verde.
— Eu vejo — disse com um sorriso triunfante.
— Ótimo isso é muito bom, mas temos um horário a cumprir e não quero ficar do lado de fora ao anoitecer. — Adam deu a volta na mesa e ajudou João levantar. — Estejam todos prontos para saírem no horário.