Em outro canto da cidade no bairro do Bixiga, Clara acordava depois de dormir por algumas horas, sua cabeça entorpecida devido ao poder dos silfos. Olhou ao redor do quarto simples onde só tinha uma cama e um guarda-roupa pequeno, tudo em madeira esculpido a mão. Outra vez, não sabia onde se encontrava. Tentou levantar, porém sentiu o quarto girar. Sentou de volta na cama e fechou os olhos. A imagem do seu pai veio nítida em sua mente, a desaprovação constante dele ficou bem clara para ela.
Desde que nasceu Clara sofria de um problema no coração. Filha única de uma tradicional família chinesa tinha o fardo de honrar o nome da família. O fato de ter nascido mulher já era um ponto contra ela, mas devido ao seu problema de saúde e de não poder fazer tudo aquilo que ela considerava que o seu pai queria a deixava com sentimento de fracasso. Tentou de inúmeras maneiras ser a filha perfeita. Os estudos, a única coisa que podia fazer sem se esforçar muito, apesar do seu empenho, sempre ficou na média.
Com casamento marcado como um homem de uma família tradicional, garantiria a continuidade dos seus antepassados, seria, em seu ponto de vista a única maneira de satisfazer plenamente os seus pais, trazer orgulho, mas o ataque cardíaco frustrou seus planos e agora estava presa em um mundo confuso e mais uma vez sendo um fracasso. O que ninguém sabia é que ela não conseguia entrar em contato com o seu elemental. Tentou de várias maneiras, mas nada.
A porta abriu-se e por ela passaram as duas outras meninas que estavam na mesma situação que ela.
— Onde estamos dessa vez? — Perguntou sem rodeios.
— Nós estamos — Karen tentou procurar uma palavra para descrever o local — Não sei o nome certo que se dá a casa de lobisomens.
— Em que mundo nós estamos, onde existem lobisomens, corpos-secos. Qual é o nome daquelas coisas com penas? — Indagou.
— São silfos — esclareceu Liz. — E não diz com penas — fez careta — diz alados.
— Eu só quero ir para casa. — Clara suspirou cansada.
— Você não pode — Karen responde.
— Além de tudo agora eu sou prisioneira? — Clara encarou as duas meninas.
— Não é isso. — Liz sentou do lado dela na cama. — Nossa morte está nos noticiários.
— Como?
— Acho melhor mostramos a ela. — Karen disse e foi caminhando para o lado de fora.
As meninas saíram em um longo corredor terminava em uma escadaria. A mansão onde se encontravam tinha três andares e um porão. Clara foi levada ao segundo andar aonde situava uma ampla sala de controle. Quando chegou encontrou vários monitores com inúmeras imagens de toda São Paulo, jornais do Brasil e do mundo, páginas da internet e uma garota olhando para tudo aquilo.
— Esta é Nala — apresentou Karen — uma hacker lobisomem. Seu trabalho aqui é monitorar todas as ações suspeitas de sobrenaturais. — Nala alta e loira, portadora de olhos cor de mel. Acenou em direção as meninas. — Você pode nos mostrar o vídeo do noticiário.
— Claro! — Falou a loira. Executando uma série de comandos ela colocou um vídeo em uma tela gigante.
Chico Pinheiro começou a falar sobre o vandalismo que aconteceu na madrugada de hoje no IML Cidade Jardim. Ele mostrou imagens do estado deplorável a qual ficou a entrada do prédio, Ana Paula discursou sobre o sumiço dos corpos das quatro jovens que se encontravam nas geladeiras esperando por autópsia. Mostrou imagem das quatro famílias pedindo mais esclarecimento para a polícia. Clara ficou extremamente emocionada quando o seu pai em lágrimas falou sobre a perda do corpo dela. Ele pedindo para que os vândalos devolvessem e assim sua filha poderia descansar em paz.
— É por isso que não podemos voltar para nossas famílias — disse Karen — imagine nós aparecendo em casa, vivas.
Clara ainda estava absorvendo as palavras do seu pai, nunca tinha ouvindo-o falar com tanto sentimento. Olhou para as meninas e balançou a cabeça afirmativamente.
— Você deve estar com fome — Liz tocou seu braço — São duas horas da tarde. Você perdeu o café da manhã e o almoço.
— E a culpa foi de quem? — Perguntou irritada — Quem foi que me apagou.
— Ah! Esse foi o Lucas — Liz olhou com ar de desculpas.
— Já acharam a Melissa? — Perguntou Clara.
— Ainda não. Isso é um outro assunto que temos que tratar. — Falou Karen. — Assim que Adam consertar as motocicletas nós iremos para o ABC atrás de um mago do fogo e assim achar Melissa e salvar e o mundo.
— Salvar? O mundo? viramos X-Men? — Indagou sarcástica.
— Estamos mais para Capitão Planeta — Karen riu — Aliás, p**a coincidência você controlar a água.
— Por quê? — Confusa Clara seguiu as outras meninas, elas caminhavam em direção a cozinha.
— Porque, a Gi do Capitão Planeta era a j*****a que controlava a água — respondeu Karen com uma careta.
— Na verdade, ela era tailandesa e eu sou chinesa — retrucou Clara.
***
Não muito longe dali, Júlia Peres de Oliveira estava sendo enterrada por seus familiares e amigos. Seus pais davam graças a Deus por poder dar o descanso para sua amada filha. Ela não tinha sido vítima do estranho roubo de corpos do IML onde estava. No cemitério da Vila Formosa, dois homens jogavam punhados atrás de punhados de terra até cobrir todo o caixão. Todos os presentes observavam o trabalho. O que ninguém viu foi a estranha runa que significava vida nas cores, vermelha, azul, marrom e verde aparecendo no ombro esquerdo da jovem.