O beijo foi interrompido quando os dois estavam sem fôlego. Nicolas olhou para Melissa com ferocidade, sentiu raiva dela, pois por um momento imaginou que sua Alicia estava de volta em seus braços. Podia sentir o leve aroma de flores, mas na realidade era somente resquícios dos sais de banho impregnados em seu corpo. Dando dois passos para trás, murmurou uma desculpa e saiu do cômodo deixando-a sozinha.
Andando às pressas pelo corredor, Nicolas chegou na última porta, onde se encontrava seu estúdio. Digitando a sequência de códigos em um painel do lado da porta. Quando ao abrir entrou e trancou-se do lado de dentro, escorou na parede e deslizou até o chão. Seu coração batendo freneticamente doía em sua caixa torácica. As emoções há muito enterradas vieram a superfície de uma vez.
As luzes automáticas se acenderam e mostrou inúmeras imagens que ele mesmo tinha pintado de sua Alicia. A dor da morte dela veio à tona novamente, crua doida, como uma ferida aberta. A vergonha abriu espaço. Vergonha por desejar outra mulher. Nicolas colocou suas mãos na cabeça em uma tentativa de suprimir as lembranças, que o inundaram de uma vez. A caixa de pandora estava aberta.
***
Melissa estava sentada no sofá abraçando os próprios joelhos, sua mente confusa pelos acontecimentos anteriores, ela não entendeu as atitudes do Nicolas. Tentando se distrair alcançou o controle remoto da grande televisão que ocupava metade da parede da sala.
Só podia ser a casa de um homem, pensou ao ligar a televisão. Na tela uma imagem sua e de novas amigas era transmitida. Melissa aumentou o volume e escutou a reportagem completa.
— A bagunça no necrotério teve seus resultados — falou Nicolas entrando na sala. Seu cabelo molhado indicado que ele tinha acabado de sair do banho, de jeans preto e com camiseta. Sentou do lado de Melissa no sofá. — Gostaria de pedir desculpas pelo meu comportamento.
— Não há nada a se desculpar — Melissa não tirou os olhos da televisão enquanto falava.
— Sim eu preciso. — Encostando a cabeça no sofá e fechando os olhos começou a falar — Eu confesso estou atraído por você, porém quando eu te beijei eu senti que essa atração estava traindo a memória de minha Alicia.
— Quem é Alicia? — Melissa levantou o rosto para olhá-lo.
— Minha falecida noiva. — Suspirou com pesar.
— Como ela morreu? — Tocando o seu braço se desculpou — não precisa me dizer.
— Preciso. Ela foi morta para ser um receptáculo para um Elemental.
— Como assim?
— Antigamente, quando era chegada a hora, os anciões de cada elemento escolhiam jovens mulheres e as matavam para que os elementos pudessem surgir. Dava um veneno que parava o coração. — Nicolas abriu os olhos e olhou. Melissa jurou que eles mudaram para verde, foi tão rápido que não deu importância. — As meninas tem que morrer na mesma hora e lugar ou muito próximas. Deixar essa decisão para o destino é muito arriscado.
— Isso é tão c***l. Como as meninas eram selecionadas? — Melissa estava indignada.
— Um nome em uma sacola. O máximo que os anciões permitiam que o destino comandasse. — Raiva o cegou novamente, contra a impunidade do ato — As meninas não sabiam quem seria escolhida. Eu e Alicia, nós iríamos fugir da Vila onde morávamos, mas não deu tempo.
Melissa não aguentou, lançou seus braços ao redor de seu pescoço e o abraçou transmitindo todo seu carinho. Nicolas a puxou para o colo e deixou-se ser confortado. O que ela não viu foi o sorriso diabólico que se formou em seus lábios.