Capítulo 2

1338 Palavras
Eu tinha sete anos quando conheci Margarete, mas foi como se, naquele instante, o mundo ganhasse mais cores. Ela estava ali, no jardim, com os cabelos castanhos balançando ao vento e os olhos curiosos mirando cada detalhe, como se aquela casa guardasse segredos que só ela podia desvendar. A primeira vez que a vi, lembro que pensei: ela parece diferente de qualquer outra pessoa que já conheci. Talvez fosse a calma com que olhava para tudo, ou a forma como ouvia cada palavra, sempre como se fosse a coisa mais importante do mundo. E a gente se tornou inseparável. Todos os dias, eu procurava uma desculpa para ir até o jardim, ou para aparecer na cozinha onde ela estava com a mãe. Era como se um pedaço de mim tivesse encontrado o lugar onde pertencia. Mas aquele dia… aquele dia em que ela foi embora, eu não esqueço. Quando vi minha mãe gritar com a Maria e expulsá-las, senti um nó no estômago, algo que eu ainda era pequeno demais para entender. Eu estava assustado, sem saber como ajudar. Quando Margarete me olhou pela última vez, com os olhos cheios de lágrimas, eu só consegui ficar parado, congelado. Queria correr até ela, mas não sabia o que fazer. A mãe dela a segurava tão forte… Parecia que nunca mais eu iria vê-la. Depois que elas foram embora, a casa ficou estranha. Cada canto parecia vazio, como se o som das nossas risadas tivesse sido levado junto. À noite, eu ficava pensando no rosto de Margarete, e a saudade apertava tanto que era difícil dormir. Eu perguntava aos meus pais por que elas tinham ido, mas eles nunca me respondiam direito. Nos anos seguintes, a vida continuou… eu tive amigos novos, a escola me mantinha ocupado, mas a lembrança de Margarete nunca ia embora. Nos meus pensamentos, ela ainda estava lá, esperando no jardim ou escondida atrás de alguma árvore, sorrindo para mim. Eu achava que um dia, de algum jeito, ela voltaria. E foi aos 10 anos, na quarta série, que ela voltou. Era um dia como qualquer outro, e eu estava no pátio da escola com os amigos, trocando piadas e falando besteira. De repente, meu olhar caiu sobre uma menina sentada sozinha em um dos bancos. Ela estava com os ombros um pouco curvados, como se tentasse se esconder, e os cabelos castanhos, agora na altura dos ombros, balançavam ao vento. Tinha uma franja caindo sobre os olhos, e a cada vez que ela a afastava do rosto, eu sentia uma estranha familiaridade. Era impossível desviar o olhar. Meu coração começou a bater mais rápido, uma espécie de ansiedade se espalhando pelo meu corpo. Será que era… Margarete? Mas não podia ser. Ou podia? Eu tentei me convencer de que estava só imaginando coisas, que era apenas uma coincidência. Mas, ao mesmo tempo, eu não conseguia deixar de pensar: aqueles olhos, aquele jeito de olhar ao redor, tentando se esconder e, ao mesmo tempo, observando tudo, eram dela. — E aí, Ângelo, tá babando, é? — disse Thiago, um dos meus amigos, rindo e cutucando meu ombro. Os outros também riram, fazendo piadinhas e tentando chamar minha atenção, mas eu m*l conseguia ouvir o que eles diziam. Eu continuava encarando a menina, tentando ter certeza. — Deixa o Ângelo, galera, ele tá apaixonado pela menina nova — zombou Lucas, rindo alto e atraindo ainda mais atenção para a situação. — Cuidado aí, hein, Ângelo, vai acabar levando um fora — provocou outro, e a risada deles ecoou ao redor. Eu não sabia o que dizer, porque eu mesmo não sabia o que estava sentindo. Era um misto de alegria, medo, saudade. Se realmente fosse Margarete… e se ela me tivesse esquecido? Será que ela lembrava da gente, das nossas brincadeiras e risadas? E, mais importante, o que eu diria para ela? A cada minuto, eu sentia uma confusão maior. Por um lado, queria correr até ela, perguntar se era mesmo a Margarete que eu conheci e por quem esperei todo esse tempo. Por outro, eu sentia um medo inexplicável de descobrir que, de alguma forma, ela não era mais a mesma ou que não me reconheceria. Por fim, ela olhou na minha direção. Nossos olhos se encontraram por um segundo que pareceu uma eternidade. Mas, antes que eu pudesse sequer sorrir ou fazer qualquer gesto, ela desviou o olhar, como se não me visse. O riso dos meus amigos ao fundo parecia distante agora. No fundo, eu sabia que algo grande estava prestes a acontecer, algo que iria mudar minha vida novamente. Eu me aproximei devagar, sem saber exatamente o que dizer ou como agir. Meu coração estava a mil, e, quanto mais perto chegava, mais a sensação de que era realmente ela se tornava inconfundível. Parei em frente ao banco onde ela estava sentada, e ela ergueu os olhos, um pouco surpresa. — Margarete? — perguntei, quase sem fôlego. Ela piscou, me observando com aqueles olhos amendoados que eu jamais tinha esquecido. E então, como um raio de sol atravessando uma nuvem escura, ela sorriu. — Ângelo? — respondeu, e eu senti o mundo parar. — Você se lembra de mim? — perguntei, a voz meio trêmula, tentando conter a euforia. Ela riu baixinho e balançou a cabeça, os olhos brilhando. — Claro que lembro. Como eu poderia esquecer? Naquele momento, tudo ao nosso redor desapareceu. Senti uma felicidade tão grande que era quase impossível descrever. Me sentei ao lado dela, e logo começamos a conversar como se o tempo não tivesse passado. — Lembra de quando a gente tentava pegar as borboletas no jardim? — ela disse, rindo, enquanto ajeitava a franja atrás da orelha. — Claro! — ri também, balançando a cabeça. — A gente nunca conseguiu pegar nenhuma, mas mesmo assim você sempre me convencia a tentar. Eu acho que era só uma desculpa pra gente correr de um lado pro outro. Ela riu, e eu senti como se estivesse de volta ao jardim de casa. Era como se aquele tempo tivesse voltado só para nós dois. — Mas… e aquele dia em que você foi embora? — perguntei, hesitante. — Eu queria ter feito algo, sei lá… mas fiquei parado, sem saber o que fazer. O riso dela desapareceu um pouco, e seus olhos ficaram mais sérios. — Eu lembro de você lá, me olhando… Eu queria voltar, Ângelo, mas minha mãe… ela estava tão abalada. Eu também fiquei. Por muito tempo, senti um buraco aqui dentro. — Eu também — murmurei, minha voz baixa. — Fiquei esperando você voltar, como se fosse só um sonho r**m, sabe? Mas o tempo foi passando, e eu achei que nunca mais veria você. Ela assentiu, pensativa. — Depois que fomos embora, minha mãe encontrou trabalho em outra cidade. A vida não foi fácil, mas a gente se virou. E você? Como foi esse tempo todo? Fiquei em silêncio por um instante, tentando organizar as palavras. — Acho que tentei continuar, sabe? Fiz amigos, me ocupei… mas sempre tinha aquela sensação de que faltava algo. Era como se você tivesse deixado um espaço vazio que ninguém mais conseguia preencher. Margarete sorriu de um jeito triste, e percebi que ela entendia exatamente o que eu queria dizer. Ficamos em silêncio por alguns segundos, ambos mergulhados nas lembranças. Então, eu ri para quebrar a tensão. — E lembra de como você me desafiava a subir na árvore mais alta do jardim? Ela riu alto dessa vez. — Lógico que lembro! E sempre que você conseguia, eu gritava pra minha mãe não ver, pra ela não mandar a gente descer. Começamos a lembrar de outras aventuras, dos segredos que compartilhávamos e das pequenas travessuras que nos uniram. Cada memória trazia de volta um pedaço de nós dois, como se estivéssemos reconstruindo uma história esquecida. Ali, sentados no banco, rindo e lembrando, eu percebi que algo tinha mudado para sempre. Margarete estava de volta, e eu sabia que, desta vez, eu não a deixaria ir embora sem lutar.
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