Pré-visualização gratuita 📖 Capítulo 1: O Brilho do Sol da Meia-Noite
Alguns Anos Antes do casamento com o Estevão seu noivo.
O vento quente daquela noite de verão batia no rosto de Rhaissa, bagunçando seus cabelos ondulados na altura dos ombros. Ela estava com o tronco para fora do teto solar do carro de Leo, rindo alto enquanto o som do rádio tentava competir com o barulho do motor. A pele morena, com aquela cor dourada de quem passou o fim de semana inteiro no sol, parecia brilhar sob os postes da avenida deserta.
— Rhaissa, entra nesse carro antes que a polícia pegue a gente ou você perca a cabeça! — Leo gritou do banco do motorista, revezando o olhar entre a estrada e o retrovisor, embora um sorriso estivesse estampado em seu rosto de 23 anos.
— Deixa de ser careta, Leo! A faculdade acabou por hoje, a gente tá livre! — ela respondeu, rindo e finalmente escorregando de volta para o banco do passageiro, transbordando uma energia que parecia não caber dentro daquele carro.
Eles não tinham um destino certo. A verdade é que aquela era mais uma das fugas improvisadas dos dois melhores amigos. O destino final acabou sendo o teto do prédio residencial de Leo. Depois de subirem as escadas correndo e driblarem o zelador, eles finalmente alcançaram o topo. A cidade se estendia diante deles como um mar de luzes acesas.
A Fotografia do Grupo (O Encaixe dos Opostos)
Rhaissa se sentou na mureta de concreto, balançando as pernas sem medo da altura. Ela era o espírito livre, a faísca que puxava Leo para as maiores loucuras da vida acadêmica e pessoal. Leo, por outro lado, era o racional. Ele fingia reclamar, dizia que era a última vez que cedia aos impulsos dela, mas era sempre o cara que garantia que os dois voltassem para casa em segurança, segurando a bolsa de Rhaissa ou trazendo uma garrafa de água para o meio da pista de dança.
Eles eram a sinergia absoluta. Um equilíbrio perfeito entre o caos e a calmaria.
— Se o Estevão souber que a gente tá aqui em cima a essa hora, ele enfarta — Leo comentou, sentando-se ao lado dela e abrindo duas latas de refrigerante.
Rhaissa revirou os olhos, embora o sorriso não tenha saído de seus lábios. Estevão, seu noivo, era um homem super sério, fechado e pragmático. O oposto exato de Rhaissa. Ultimamente, ele vinha deixando claro o seu incômodo com a proximidade entre ela e Leo, tentando, sutilmente, cortar os laços daquela amizade.
— Ah, o Estevão precisa relaxar — Rhaissa deu de ombros, bebendo um gole do refrigerante. — Ele sabe que você é meu irmão de alma. Ele vai ter que aceitar, porque nós vamos ser amigos inseparáveis para sempre. Fim de papo.
Leo olhou para ela, sentindo um misto de gratidão e uma pontada leve de preocupação que preferiu guardar para si. Ele também tinha seu próprio compromisso; era noivo de Emanuela, uma estudante de 25 anos que estava prestes a se formar e vivia imersa na pressão dos últimos meses de faculdade. O mundo dos adultos sérios estava cobrando o preço ao redor deles, mas ali, em cima daquele teto, o tempo parecia parar.
O Dispositivo Narrativo: O Clique da Polaroid
Rhaissa puxou a velha câmera Polaroid que sempre carregava na bolsa. Ela esticou o braço, puxando Leo pelo pescoço para bem perto de si.
— Olha para cá e finge que me ama! — ela brincou.
Leo riu, mostrando os dentes, e Rhaissa piscou para a lente, com seus cabelos ondulados voando no rosto de ambos.
Click.
O som mecânico cortou o silêncio da noite, e o quadrado de papel fotográfico saiu da base da câmera. Rhaissa o pegou, balançando-o no ar enquanto a imagem lentamente ganhava cor sob a luz do luar.
Na imagem analógica com tons levemente azulados pela noite, Rhaissa e Leo aparecem espremidos no enquadramento. Ela, com a pele dourada iluminada pelo flash e um sorriso gigante que fechava seus olhos; ele, pego de surpresa no meio de uma gargalhada genuína. Ao fundo, o borrão das luzes da cidade parecia uma constelação particular feita só para os dois. No rodapé em branco, Rhaissa escreveu com caneta permanente:
"Para sempre. Sem discussões."
Rhaissa guardou a foto na carteira, que já estava estufada com dezenas de outras fotos dos dois em momentos parecidos: na biblioteca da faculdade, jogados na grama, comendo pizza fria na calçada.
Olhando para o horizonte, o silêncio se instalou entre eles, confortável e seguro. Uma promessa silenciosa pairava no ar daquela madrugada: o mundo lá fora podia tentar impor suas regras, os casamentos podiam estar chegando e a vida adulta batendo à porta, mas nada, absolutamente nada, seria capaz de mudar o que existia entre Rhaissa e Leo.
O Peso da Realidade
A magia daquela bolha suspensa no topo do prédio começou a se dissipar quando o celular de Rhaissa vibrou no banco do carro, lá embaixo, e o som do alarme do relógio de Leo avisou que já passava das duas da manhã.
No dia seguinte, a realidade cobrou o preço.
Rhaissa chegou em casa tentando fazer o mínimo de barulho possível, mas a luz da sala estava acesa. Estevão estava sentado no sofá, com um tablet na mão e a postura impecável, mesmo àquela hora. O rosto dele, sempre muito sério e expressivo em sua rigidez, se contraiu ainda mais assim que ela passou pela porta, exalando aquela energia elétrica e o vento da rua.
— Onde você estava, Rhaissa? — a voz dele foi baixa, porém firme, sem espaço para brincadeiras.
— Estava com o Leo, conversando no teto do prédio dele. A faculdade puxou muito a nossa energia hoje, precisávamos espairecer — ela respondeu com naturalidade, deixando a bolsa sobre a mesa. A carteira acabou se abrindo um pouco, revelando a borda da Polaroid ainda fresca daquela madrugada.
Estevão seguiu o olhar dela e fixou os olhos na foto. Ele a pegou pelo rodapé, lendo a frase "Para sempre. Sem discussões." escrita com a caligrafia apressada de Rhaissa. O maxilar dele travou. Ele olhou para a imagem dos dois rindo, tão íntimos, e depois para a noiva.
— "Para sempre", Rhaissa? Nós estamos organizando um casamento. A sua prioridade devia ser construir um futuro comigo, não passar madrugadas em tetos de prédios com outro homem — ele disse, devolvendo a foto à mesa, não com raiva escancarada, mas com um tom gélido e cortante. — Esse relacionamento com o Leo está passando dos limites aceitáveis para alguém que vai casar. Você precisa começar a cortar esses excessos.
Rhaissa sentiu o estômago revirar, mas bateu o pé, mantendo o queixo erguido:
— O Leo é meu melhor amigo, Estevão. Isso não tira o que sinto por você. Ele não é um "excesso", é a minha vida.
Enquanto isso, do outro lado da cidade, o clima no apartamento de Emanuela era diferente, mas igualmente tenso. Leo havia acabado de enviar a foto no grupo de mensagens que tinha com Rhaissa, e Emanuela viu a notificação brilhar na tela do celular enquanto revisava os últimos capítulos do seu TCC.
Ela olhou para Leo, que entrava no quarto com duas xícaras de chá para tentar acalmá-la do estresse dos estudos. Emanuela suspirou, uma expressão de cansaço misturada com uma pontada de insegurança cruzando seu rosto de 25 anos.
— Outra foto com a Rhaissa, Leo? — ela perguntou, com a voz mansa, mas visivelmente murcha.
— É, a gente acabou subindo no teto depois da aula... — Leo começou, sentando-se na ponta da cama.
— Eu sei, fico feliz que você tenha com quem se distrair — Emanuela o interrompeu, dando um sorriso fraco, daqueles que não chegam aos olhos. — Mas eu estou aqui, prestes a me formar, pensando na nossa vida de casados, em contas, no nosso futuro... E parece que você ainda está preso nessa vibe de adolescente que não tem hora para voltar para casa. Às vezes sinto que a Rhaissa tem mais do seu tempo e da sua alegria do que eu.
Leo segurou a mão de Emanuela, tentando confortá-la, mas a sensação de estar dividido entre o futuro que estava construindo e a amizade que o definia começou a pesar nos seus ombros.
O sol da meia-noite tinha se posto. E a tempestade estava começando a se formar.