Preparativos da festa

1453 Palavras
Preparativos da festa — Ele foi fazer compras para uma festa. — Explicou dona Maria. — Eu sei, ele me avisou. — Espero que seja só isso. — Eu lhe trouxe Dom Casmurro e para mim, Capitães da areia. — Jorge Amado é um pouco pornográfico mesmo, eu não ia querer. Soltei uma gargalhada. — Pornográfico foi ótimo! Ela começou a ler depois de sorrir enquanto eu não consegui sair da primeira frase. As desculpas dele ficavam voltando a minha memória. Aquilo era o que eu menos queria ouvir na vida, pedir desculpas por ter me dado um beijo e pior, bêbado. Mas, podia existir coisas piores. Tentei esquecer. Quando ele voltou, já passava do almoço. Nós tínhamos almoçado sem ele pois já passava das três da tarde quando voltou. Dona Maria não podia esperar tanto por causa da glicose e nem nós. O almoço tinha sido silencioso com aquela megera da Laura à mesa. Dona Maria tinha convidado já que ele não estava. Que mulher pedante, chata, implicante e neurótica. Sempre estava inventando que sabia de coisas que mais ninguém sabia, que sabia da vida dos vizinhos, do quilombo e até de Matteo. Dona Maria a corrigiu quando fingiu saber mais que nós sobre ele. Dei graças a Deus quando o almoço terminou.  Maria do Rosário estava dormindo quando ele chegou. Saí do quarto sem fazer barulho e fui ver se precisava de ajuda, antes da megera. Ela já estava lá. Como era rápida! Aproximei-me da caminhonete toda sorrisos e observei o que ele tinha comprado. Ele me olhou e sorriu. — Isabela, preciso que faça uma lista dos meus convidados, meus fornecedores, colegas de faculdade, vizinhos, está tudo no meu computador. Detesto isso mas quero alegrar minha mãe. — Dizia ele enquanto tirava caixas de cerveja da caminhonete entre outras coisas. Não entendi que parte do “eu era enfermeira” ele não tinha entendido. Eu não era uma faz tudo. O grande problema é que ele tinha pedido ajuda e eu tinha aceitado. Agora devia me calar e fazer o que ele pedia. Acessar seu computador não seria uma tarefa r**m, lá deveria ter fotos dele guardadas e que eu, obviamente, ia roubar para mim, enviando para meu email. Essa era a parte boa, afinal eu não tinha nenhuma foto dele.  — Certo. Levo sua mãe para o escritório? Ele fez uma carinha de cachorro que caiu da mudança que me deixava louca. — Pode fazer a noite? Eu trouxe uma coisa que queria há muito tempo mas só hoje tive coragem de comprar. — Ele me mostrou um sorriso triste inclinando um pouco a cabeça — Meu presente de aniversário que estou me dando. — Ah entendi. É sempre o melhor presente de aniversário né? O nosso? — Com certeza. Ele ainda descarregava coisas. Eu ajudei carregando alguns engradados de cerveja para a cozinha e ouvindo os resmungos de Laurinda. — Nunca deu festa, agora vem com essa história... só para me dar mais trabalho. — Por causa da mãe, mulher, para de ser reclamona... — Arri égua! Voltei ao quarto. Quando dona Maria acordou, preparei seu banho. Medi a temperatura da água, joguei alguns sais na banheira de louça e deixei preparado sabonete líquido, shampoo e fralda. O único trabalho seria o de Laura, carregar Maria para a banheira. Empurrei a cadeira até bem próximo para que ela não tivesse trabalho, embora soubesse que ela jamais faria o mesmo por mim. Mas era ai que morava a diferença entre nós duas, eu era um ser humano e ela era uma cobra. Fui chamá-la. Ela foi, cuspindo abelhas, colocar dona Maria na banheira. Pobrezinha, fazia umas caras horríveis para mim. Somente quando ela saiu, eu terminei de despir a senhora, já dentro da água. Ela descansou a cabeça na louça e ficou satisfeita que a água estava gostosa.  — Você é perfeita. Matteo nem sabia esquentar a água, era uma briga todo banho. — Eu imagino. Queria perguntar como tinha descoberto o tumor, se estava controlado, como Matteo tinha se comportado mas não queria tocar em feridas recentes. Aquele assunto era já difícil demais para ela para que eu ficasse fazendo perguntas. Ao terminar o banho, tentei eu mesma segurar dona Maria e a tirar da banheira, mas tive medo de deixá-la escorregar e bater a cabeça ou quebrar alguma coisa. Chamei Laura. Não houve jeito de não ver dona Maria nua, algo que eu queria evitar. Assim que ela saiu, Maria xingou muito. — Bruta...vaca... Eu contive meu riso ao ouvi-la xingar Laura de tudo que eu queria xingar. — Vamos colocar uma roupa e tomar seus remédios.  Sequei seu cabelo com o secador, a vesti com uma camisola bonita e roupão e depois administrei os remédios da noite. Anti-hipertensivos, ansiolítico, antidepressivo. Ela devia tomar e jantar para depois relaxar e dormir. — Isabela... — Sim? — Eu levava a toalha molhada para o banheiro e secava tudo. — Quando vai seduzir meu filho? Saí do banheiro com os olhos arregalados. — Eu não vou seduzir seu filho, como posso fazer isso? É meu patrão. — Meu bom Jesus, você é muito certinha, Isabela, eu tenho medo de uma pistoleira fisgar meu Matteo. — A senhora não tem que pensar nisso, tem que se concentrar em ficar bem, a ansiedade é r**m. — Eu estou ansiosa porque sei que você não está fazendo nada! Eu tinha voltado outro dia. E ademais ela nunca saberia se eu ia voltar ali um dia. — Eu nem sabia que podia voltar, dona Maria. — Mas está aqui e está desperdiçando sua vez. — Prometo melhorar, está bem? Segurei suas mãos enquanto a olhava nos olhos ainda ofegante depois de secar o chão do banheiro e trocar sua roupa.  — Agora vamos jantar. Ela começou a empurrar sua cadeira sozinha e por isso notei que estava chateada comigo. Só que ela não podia fazer aquilo, era muito esforço para suas costas e coração. Rapidamente a alcancei e empurrei sua cadeira. Ela bufou e largou as rodas. Às vinte horas em ponto, Matteo apareceu para jantar. Ele parecia agitado, eu diria até feliz. Ele se sentou rapidamente e derrubou vinho em sua taça sem esperar que Laurinda fizesse aquilo como todas as noites.  — Boa noite. Mãe quis comer à mesa hoje? Todas reparamos que ele estava diferente. Alguma coisa tinha acontecido em sua vida. Todas cumprimentamos e o jantar foi servido. Aquela noite foi espaguete ao sugo, bem italiano, do jeito que Giovanni tinha ensinado a Laurinda. Matteo amava a culinária italiana e fechou os olhos ao provar. — Delicioso, Laurinda. — Eu fiz o molho. — Respondeu Laura. Ele a olhou, reparando no profundo decote do vestido dela. Olhei Maria e ela cerrou os olhos para mim. A olhadela dele fora rápida mas todas notamos que ele tinha notado o decote da megera. Em seguida, ele me olhou, reparou na minha blusa um pouco molhada. Eu não tinha tido tempo de tomar banho antes do jantar. — Vou deixar o computador aberto para você ver minhas anotações de hoje e fazer a lista que pedi, certo? Apenas assenti com a cabeça.  O jantar tinha terminado. Em silêncio. Laura recolheu os pratos e sua mãe foi lavando. Matteo deu um beijo na testa da mãe e disse que estava arrumando algo que comprou na cidade e que precisava sair da mesa. Ele levou a garrafa de vinho. Ela me olhou com uma expressão de “descubra o que é”. Bem, eu não podia ir ao quarto dele mas enquanto fizesse a tal lista podia tentar ver alguma coisa. Acabei  por me distrair de tanta gente que era para listar e também para tentar roubar fotos dele para mim que esqueci de ver o que ele fazia. Estava arrependida de ter aceito aquela incumbência. Tinha realmente fotos dele no computador, a cavalo, com as vacas, em leilões, em premiações de novilhos mas havia muitas mais com a falecida esposa, Claudia. Ele parecia bem mais feliz do que agora. Aliás a expressão nas fotos era idêntica a do jantar daquela noite. Era como se tivesse resgatado a alegria que já tinha sentido na vida. Eu nem sabia se Matteo tinha respondido criminalmente pelo acidente. Nada constava no seu computador e era bem estranho que ele estivesse me deixando mexer. Talvez confiasse muito em mim e nem devia. Eu estava roubando fotos suas para ficar apreciando de noite na minha cama. Bem, aquilo nem era grave portanto eu nem devia me preocupar. Claudia era bonita. Branca, de olhos azuis igual os dele. Uma mulher muito bonita. Ele devia sentir falta dela. Senti muito ciúme. Queria terminar logo aquela lista de convidados.
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