Estrelas no estômago
Acordei sentindo o peito pleno de felicidade. Nem sei como tinha conseguido dormir. Demorei muito a pegar no sono e ainda por cima sonhei com ele. Era domingo. Levantei-me e fui direto escovar os dentes, trocar de roupa e ir ver dona Maria. Lá estava ela na cadeira de rodas quando Laura passou por mim e me afrontou.
— Foi você não é?
Ela sussurrava.
— O que?
— Que me indicou para ser cuidadora dela?
Eu queria rir mas só o fiz por dentro.
— A ideia foi dele.
— Garota, você me paga. Me aguarda.
Ela saiu do quarto e eu permaneci séria do jeito que estava. Olhei dona Maria.
— Ela está de cuidadora da senhora?
— Está. Matteo me fez isso. Eu preferia você, minha filha.
Senti dó.
— Dona Maria, é só para lhe pegar porque eu sou magra e não tenho tanta força. Todo o resto é comigo.
— Ah está bem, va bene... como dizia o meu sogro.
— Já tomou café?
— Não, me leve até a cozinha?
— Claro.
Empurrei sua cadeira até a cozinha e vi Laurinda preparar nosso café da manhã. Ela estava um tanto contrariada.
— Laura está cuspindo abelha. — Comentou.
— Sua filha é muito m*l agradecida, Laurinda. Ela está sendo paga. — Respondeu dona Maria, mostrando um gênio antigo, da minha época de criança.
— Eu falei isso para ela, senhora. Não aprovo isso.
Eu não via a hora de ela tomar logo seu café da manhã para podermos ir para seu quarto. Estava morta de medo de Matteo aparecer me tratando m*l pela noite anterior. Mas Maria do Rosário teve a brilhante ideia que eu jamais imaginaria que ela tivesse.
— Onde está Matteo?
— Ainda não saiu de seu quarto, senhora.
— Isabela, pode ir ver porque ele não acordou?
Chacoalhei a cabeça. Pelo canto dos olhos notei que Laura olhou para mim. Todas estavam me olhando.
— Não, dona Maria, peça qualquer coisa, menos isso.
— Porque? Brigaram?
— Claro que não, mas eu não...
Olhei para todas e elas me olhavam com expressão de questionamento. Porque ela fazia isso comigo? Então, levantei e fui. Parecia que a cada passo que eu dava, voltava dois para trás tal era minha velocidade de tartaruga querendo chegar ao quarto dele. Bati na porta. Não obtive resposta. Mexi na maçaneta e ela se abriu. Quando botei a cabeça para dentro, vi que Matteo ainda dormia, naturalmente se refazendo da ressaca que só eu sabia que ele teve. Mas estava nu. De bruços. Bati a porta e voltei rapidamente para a cozinha. Percorri o longo corredor até o final da casa como se nunca fosse terminar.
— Ele... Ele está dormindo.
— Acorde ele, Isabela. Meu filho está bem?
Notei que ela começou a se preocupar então me apressei.
— Está bem, está só dormindo. Mas está nu!
Laura deu uma gargalhada sonora batendo com o pano de prato na mesa, se divertindo. A mãe dele sentiu vontade de rir. Eu era uma piada.
— Está bem, eu volto lá, meu Deus...
— Eu posso ir se for muito incômodo ver nosso patrão pelado! — Laura falou alto.
— Laura! — A mãe a repreendeu.
Foi nesse momento que senti a necessidade urgente de ir acordar aquele homem. Entrei rapidamente em seu quarto. Ele babava no travesseiro. Dei a volta na cama, percorrendo com os olhos aquela b***a linda, as coxas torneadas, as costas fortes, os ombros largos que apertavam o travesseiro, de bruços. Agachei-me do lado da cama e levei a mão ao seu rosto, sorrindo, sentindo amor. Acariciei o rosto bonito pela primeira vez na vida. Estava feliz de fazer aquilo, com carinho. O problema seria quando acordasse pois ele estava nu e ia me fazer me sentir uma pervertida. Tomei a decisão de cobrir seu corpo com o lençol. Mordi o lábio. O corpo era perfeitamente esculpido para me atazanar a vida.
— Matteo... — Chamei baixinho
Acariciei seu rosto e ele despertou, abrindo somente os olhos, sem mexer mais nenhum músculo do corpo ou da face. Assim que me viu, fechou os olhos novamente.
— Senhor?
— Eu acordei, Isabela, pode dizer a minha mãe. Se puder pedir a Laurinda para me trazer um café forte...
— Sim, claro.
— E um remédio para dor de cabeça, um da minha mãe.
— Certo.
Eu já estava quase saindo, quando ele me chamou novamente. Parei e fiz um bico com a boca. Gesto de quem esperava más notícias.
— Sim?
— O que aconteceu entre nós... me desculpe.
Eu me virei para ele enquanto ele se virava para cima e o lençol, m*l ajeitado, saiu de cima de seu corpo me proporcionando um show de nu frontal do homem da minha vida. Rapidamente ele puxou o lençol mas eu ja´tinha visto tudo. De novo. A diferença é que dessa vez ele estava sóbrio. Pude ainda ver o rosto dele empalidecer. Abri a porta e fechei rapidamente. Quis rir mas não era certo. Fui para a cozinha e avisei a Laurinda os pedidos dele.
— Ele só bebeu a mais ontem a noite, dona Maria. Está de ressaca.
— Mas meu Deus, isso tem que parar. Todo final de semana.
— É final de semana não é? — Tentei acalmá-la — Todo homem bebe final de semana, não é nada demais.
Laurinda foi fazer o que ele ordenou enquanto eu fui levar dona Maria para a varanda. Eu sabia que ele ia pedir desculpas, praticamente contava com aquilo. Mas o beijo ainda estava impresso como uma tatuagem na minha boca. Eu sentia ainda seus lábios e seu perfume misturado a bebida. Dona Maria estalou os dedos na minha frente.
— Oi?
— Fazenda D´Ouro chamando Isabela do planeta Matteo.
Nós rimos.
— Pode falar, anda menina, o que aconteceu?
— Nada, quer dizer, ele me beijou ontem.
— O que?! — Ela falou alto e olhou para os lados.
— Dona Maria!
— Como assim, ele te beijou?
— Ah, eu ajudei ele a se trocar, estava muito bêbado, eu acordei quando o carro dele chegou. Não foi nada demais, ele já pediu desculpas.
— E você vai aceitar desculpas dele assim?
Eu arregalei os olhos olhando para ela sem entender.
— Não tenho que aceitar?
— Se for tonta, ele é seu patrão e te assediou!
Ela gargalhou. Só então percebi que estava brincando.
— Não foi bem assim, eu preciso aceitar.
— Isabela, o que te falta é audácia.
Eu sorri cruzando os braços querendo entender do que ela falava.
— O que eu devo falar para seu filho?
— Que quer outro beijo, ora.
Gargalhei, jogando a cabeça para trás. Ela era louca. Louquinha.
— Ah está bem. A senhora é mais ansiosa do que eu.
— Vai esperar a Laura tomar a frente? Tentar tirar de você o homem que você quis a vida toda?
— Dona Maria, ela não é mulher para ele. Se ele der uma chance a essa mulher, sabe que não vai dar em nada. Eu sei que ele é meu.
— Mas acordamos muito confiantes essa manhã, ein! Esse beijo te fez bem.
— Talvez...
Baixei os olhos para o chão, nada confiante como aparentava. Eu era funcionária e quinze anos mais nova. Ele jamais ia me levar a sério.
— Precisamos comemorar lendo.
— Ah com isso eu concordo mas não posso deixar a senhora sozinha. Vou chamar a Laurinda.
Sai correndo e fui chamar Laurinda, que já estava de volta a cozinha e pedi que ficasse com Maria do Rosário. Subi as escadas, correndo para ir a biblioteca que ficava no segundo andar da casa. Eu já tinha estado ali centenas de vezes na minha vida mas foi bem diferente ao reparar pela primeira vez que Matteo mantinha um quarto trancado ali em cima. Ao final da escada, havia um hall pequeno com uma escrivaninha e flores já murchas em um vaso pequeno. Quando se adentrava ao corredor de quartos se podia ver que haviam quatro. Dois quartos de cada lado do corredor e ao final o quinto cômodo que era a biblioteca do senhor Giovanni. Eu ainda morava naquela casa quando os quartos superiores eram quase todos ocupados. Naquela época sempre havia hóspedes e tudo era muito iluminado e barulhento. A casa agora tinha apenas nós, as mulheres que trabalhavam. Os nossos quartos sempre foram os do térreo, onde agora eles ocupavam. Entretanto ali agora tinha um quarto que estava trancado. Curiosa, entrei nos quartos naquela manhã, já que Laurinda estava com Maria. Três deles tinham mobília coberta por lençóis brancos mas aquele último quarto do lado direito estava trancado. Era a segunda vez que eu ia até a biblioteca e a curiosidade era um bichinho chato. Forcei a maçaneta e nada. Olhei pela fechadura e vi poucas coisas sem lençóis cobrindo. Vi uma linda cama e uma parte de um armário brancos. Melhor seria deixar para lá mas lembrei que eles sempre deixavam a chave na parte superior do batente. Ao ouvir a voz dele pelo corredor de baixo, abandonei a ideia de bisbilhotar e fui para a biblioteca. Ouvi ele perguntar por mim e ouvi seus passos subindo a escada. Como desejei que aquela biblioteca tivesse uma passagem secreta para outro lugar para poder desaparecer dali. Fingi estar escolhendo livros afinal não tinha como realmente pensar em escolher livros sabendo que ele estava vindo ao meu encontro.
— Isabela?
Virei de frente para ele. Aquele olhar azul estava preocupado.
— Sim?
— Temos que conversar.
Pensei bem no que responder.
— Eu já sei o que vai dizer. Não precisa se preocupar. Eu já esqueci.
Ele arqueou uma sobrancelha e em seguida cerrou os olhos.
— Então era sobre isso, eu estava bêbado e queria te pedir desculpas da maneira certa e não sem roupa.
Eu nem queria as desculpas, só queria a parte do sem roupa.
— Tudo bem, senhor Matteo, eu também peço desculpas se... se...
Comecei a ficar nervosa com o que ia dizer e não consegui mais dizê-lo.
— Se correspondeu?
Senti o rosto corar fortemente. Ele se lembrava de tudo, safado...
— Ahmm, é.
Ele respondeu aquilo de forma mais baixa e mais suave, como se fosse um segredo gostoso, o que me fez arrepiar toda.
— Eu acho que você correspondeu.
— Ér....
— Sim, eu sei, você pediu desculpas, eu fui um abusado, eu faço qualquer coisa para me redimir.
Não precisava. Mesmo.
— Não, o senhor estava bêbado.
— você.
— Você estava bêbado. E eu sei como são essas coisas. Pode ficar tranquilo.
— Certo, mesmo?
— Mesmo.
— Então, se puder me ajudar em uma coisa...
— Ajudar?
— Eu vou a cidade comprar algumas coisas para a festa que minha mãe quer. Lembra? Meu aniversário.
— Claro!
— Se puder me ajudar a organizar, não entendo nada disso.
— Mas é claro, sen...Matteo. Eu ajudo.
Ele sorriu esfregando as mãos.
— Então vou até lá e já volto.
— Perfeito.
Ele saiu me deixando com aqueles pensamentos na cabeça. Ajudar no que? Fazer lista de convidados? Lista de aperitivos? Do que ele falava? Eu nunca tinha feito isso na vida. Enfim, escolhi dois livros e desci as escadas. Ainda deu tempo de ver a caminhonete dele saindo da fazenda pela porteira.