Beatriz narrando Eu sempre acho engraçado como o avião pousa e, em quinze minutos, eu saio da Suíça e volto pro Brasil mas, na verdade, eu não volto pra lugar nenhum. Eu vivo num mundo suspenso há anos: nem mais do morro, nem totalmente do asfalto. Quando o motorista para em frente ao nosso prédio na Barra, a portaria já está aberta, o porteiro quase se curva, o elevador social já me espera destrancado. Vidro, mármore, cheiro de flor importada espalhada por uma arrumadeira que eu nem lembro o nome. Tudo muito bonito, muito perfeito, muito “dona Beatriz Montenegro”. Mas por dentro, eu ainda sei exatamente como é o cheiro do barro molhado da Rocinha depois da chuva. Isso ninguém tira. Entro em casa e antes mesmo de ver gente, eu ouço o barulhinho das patinhas. — Minha Nina… — o sorriso

