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1197 Palavras
Falcão Narrando Saí de casa com a cabeça já em movimento, mas parei no meio do caminho. Dei dois passos para fora, senti o calor da Rocinha batendo no rosto, e voltei. Não dava pra ir daquele jeito. No morro, bermuda larga e Kenner resolvem. Na Barra, não. Entrei no quarto de novo e troquei tudo sem pressa. Vesti uma bermuda mais alinhada, um tênis limpo, camisa simples, dessas que não chamam atenção demais, mas deixam claro que o cara sabe o que está fazendo. Coloquei os óculos escuros, os cordões de ouro no peito, o relógio pesado no pulso. Não era ostentação. Era identidade. A arma ficou na cintura, bem encaixada, invisível pra quem não sabe olhar. Quem manda não anda desarmado nem quando finge que é só empresário. Peguei a chave do carro e desci. O motor ronronou baixo quando liguei, daquele jeito que só carro bom faz. Saí da favela sem pressa, cruzando o túnel, vendo o cenário mudar aos poucos. O concreto velho dando lugar ao vidro espelhado, o som do morro ficando distante, substituído pelo barulho limpo do asfalto. É sempre assim. Dois mundos separados por poucos quilômetros e por um abismo que dinheiro nenhum fecha completamente. A boate ficava na Barra. Fachada imponente, iluminação pensada, segurança discreta, nada gritante. Vitrine Lounge. Casa de bebida, música ao vivo, DJ, gente bonita e muito dinheiro rodando sem levantar suspeita. Era uma das joias do império do meu pai, vitrine pra elite que gosta de luxo sem sujeira aparente. Encostei o carro no estacionamento reservado e desci. O segurança me reconheceu antes mesmo de eu chegar perto. — Bom dia, senhor Montenegro. — Bom dia — respondi, passando direto. Lá dentro, tudo funcionava como deveria. Música no volume certo, garçons treinados, bebida cara passando de mão em mão, mulheres bem vestidas, homens com cara de quem acha que manda no mundo. Caminhei devagar pelo salão, observando cada detalhe. Não era só presença. Era leitura. Negócio m*l gerido entrega erro nos detalhes. Chamei o gerente num canto. — Meu pai pediu pra eu dar uma geral — falei baixo. — Quero saber como tá tudo. Ele ficou um pouco tenso, como sempre ficam quando escutam isso. — Tá tudo em ordem, senhor. Movimento bom, fornecedores entregando certinho, caixa fechado… — Eu quero ver — cortei. Fomos para a área administrativa. Conferi notas, contratos, fornecedores de bebida, pagamento de funcionários. Ajustei coisa pequena aqui, cobrei coisa maior ali. Uma entrega atrasada, um fornecedor querendo subir preço sem aviso, um funcionário dando mole demais com cliente importante. Tudo foi resolvido ali mesmo, sem escândalo. Negócio bom não precisa de grito. Passei pela área VIP, cumprimentei alguns rostos conhecidos, gente influente que gosta de ser vista ao meu lado sem saber exatamente quem eu sou de verdade. Ali, eu era só o herdeiro do magnata do entretenimento. E funcionava. — Seu pai vai gostar de saber que você passou aqui — comentou o gerente, tentando soar tranquilo. — Ele gosta é de saber que nada foge do controle — respondi. Antes de sair, dei mais uma volta pela casa. Olhei o palco, o bar, os camarotes. Tudo funcionando, tudo rendendo. Era isso que meu pai queria. Que eu entendesse que poder não está só em território armado, mas em saber fazer dinheiro girar sem chamar atenção. Voltei pro carro com a sensação conhecida de dever cumprido. No morro, eu mandava pelo respeito e pelo medo. Ali, eu mandava pelo silêncio e pelo contrato assinado. Liguei o motor e segui em frente. Porque enquanto todo mundo se distraía com música, bebida e luz baixa, eu cuidava do que realmente importava: garantir que o império continuasse de pé em qualquer terreno. Sai de uma e fui pra outra, parei o carro em frente a uma das casas do meu pai. Nada de letreiro chamativo, nada de escândalo. Do lado de fora, parecia só mais um prédio bem cuidado na Barra, desses que ninguém desconfia de nada. Por dentro, era negócio grande. Dinheiro rodando o tempo todo. E, como sempre, problema. Desci do carro com calma, óculos no rosto, postura de quem não chega pedindo licença. Ali, eu não era o Falcão do morro. Era o herdeiro Montenegro. Outra linguagem, outra máscara, outro tipo de poder. — Bom dia, senhor — o gerente veio rápido demais, o que já me acendeu um alerta. — Dia — respondi seco. — Vim dar uma olhada geral. Meu pai pediu. Ele assentiu, mas o corpo estava duro. Gente nervosa sempre entrega antes da boca abrir. Entrei sem pressa, passando pela recepção impecável, pelo bar ainda sendo organizado, pelas áreas comuns cheirando a produto de limpeza e perfume caro. Tudo muito bonito. Tudo muito limpo. Limpo até demais. Enquanto caminhava pelo corredor principal, ouvi. Choro. Parecia abafado, contido, vindo de trás de uma das portas no fundo. Não era alto, mas era insistente. Um som que não combinava com aquele lugar. Parei. — Que p***a é essa? — perguntei, sem olhar pro gerente. Ele demorou meio segundo a mais do que deveria para responder. — Nada demais, senhor. Uma das meninas se machucou. Coisa pequena. Olhei pra ele pela primeira vez. — Machucou como? — Escorregou no banheiro — respondeu rápido demais. — Torceu o pé. Hoje foi vetada de trabalhar. Já estamos mandando ela de volta pra casa. Algo ali não encaixava. Continuei andando na direção do som, mas o gerente se adiantou, abrindo os braços de forma discreta, bloqueando o corredor. — Não precisa ir lá — falou, tentando manter o tom respeitoso. — O senhor sabe como funciona. Essa parte não é acessível. Eu sabia. E aquilo sempre foi assim. Eu tinha acesso a números, contratos, funcionários, gerência. Nunca às meninas. Nunca ao “produto”. Meu pai sempre deixou isso bem delimitado. Cada setor com sua função. Cada porta com sua chave. Mesmo assim, o choro continuava. — Ela tá chorando por causa de um pé torcido? — perguntei, agora mais baixo. — É a frustração de perder o dia de trabalho — ele respondeu. — Acontece. Inclinei um pouco a cabeça, ouvindo melhor. Não era choro de raiva. Era choro de desespero. De quem perdeu algo maior do que um dia de dinheiro. — E por que ela não fala com alguém? — insisti. — Isso aí tá parecendo outra coisa. — Já está tudo resolvido, senhor Montenegro — ele reforçou. — Vamos cuidar dela. Levar pra casa. Amanhã ela volta quando estiver melhor. Casa. A palavra soou estranha. — A casa dela? — perguntei. Ele engoliu seco. — A… a residência onde elas ficam. Assenti devagar, sem discutir. Por fora, aceitei. Por dentro, algo tinha se deslocado do lugar. O choro cessou de repente, como se alguém tivesse mandado calar. Silêncio demais costuma gritar mais alto que barulho. Olhei mais uma vez para a porta fechada, depois voltei o olhar para o gerente. — Resolve direito — falei. — Não quero problema aqui. Nem hoje, nem depois. — Pode deixar, senhor. Dei meia-volta e segui pelo resto da casa, fingindo atenção nos detalhes de sempre. Bebida, limpeza, segurança, fluxo de entrada e saída. Tudo funcionando. Tudo rendendo. Continua..
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