Capítulo 6 Você Me Deu Carta Branca

1953 Palavras
A noite... —Katia Maria, precisamos ter uma conversinha. Senta aí. —Que foi dessa vez? Já deram com a língua nos dentes, só pode! —Ninguém faz nada aqui sem antes me consultar. Meus soldados estão ao meu serviço, portanto precisam falar. —Entendo, General. Mas eu não fiz nada de errado; ainda vou pedir permissão ao senhor. —Sem ironias. Eu sei que você teve boa intenção; mas oferecer um curso grátis é bom. Mas prometer grana e cesta básica pra um monte de moleques que os pais vivem dormindo bêbado ou drogados, já é outra história. —Pera lá! Então, você fornece o produto, eles consomem e ainda faz críticas? Ou fazemos um sacrifício pra salvar uma pequena porcentagem desses meninos; ou serão os próximos a virarem seus soldados. —Não é crítica. Eu poderia distribuir um caminhão de cestas básicas, dá um auxílio mesada e ainda assim; eles se tornariam soldados. Já tem essa idéia fixada na mente. —Cara, me admira muito você não vê a bobagem que saiu da sua boca. Não acredita em reabilitação? Acha mesmo que eles não tem chance de mudar com um esporte, música, dança, luta; assim não dá pra te entender! —Claro que muitos já tentaram e na primeira decepção, voltam pro tráfico. Pra eles o resultado é mais rápido. Acha que ostentar kilos de ouro e tênis de mil sai de onde? Eles seguem os que vê os outros fazerem; tipo uma lavagem cerebral. —Mas eu vi os olhos deles brilhando quando falei que podiam subir de faixa fazendo capoeira. Só são meninos. Não tô falando dos caras maiores, esses infelizmente; estão na mira de uma vida curta. —Como acha que vou sustentar cestas básicas pra várias famílias com outros moleques menores em casa? Esse patrocínio; vem do tráfico garota. Se liga! —Eu só quero que faça algo bacana. Sei que não posso mudar o mundo; mas daqui já saíram várias artistas e esportistas. Eles podem ajudar. Se tú me liberar pra correr atrás, dou as aulas num turno e tenho um brother que ama o social, ele vai topar na hora vir aqui duas vezes na semana. O máximo de tempo que esses meninos ficaram fora das ruas, é mais um dia de vida ganho; sem contar que voltarão para as aulas. —Você não tem mais o que fazer não? Sua vida lá embaixo deve ser corrida. —Agora é você que está com ironia. Eu acabei de chegar de viagem. Fiz o que tinha de fazer e ponto. Quero trabalhar com o que gosto e sei fazer: Projetos arquitetônicos. Mas isso é no meu tempo, sou profissional liberal. —Olha Kátia... Eu vou ver se isso pode dar certo ou não. Primeiro preciso da autorização dos pais. Depois tú vai checar direitinho o procedimento deles e daí a gente fala se cesta básica; que na verdade muitas dessas famílias já recebem. —Eu prometo fazer tudo nos conformes. Só quero que me arrume gente sua pra arrumar o galpão e tintas para eu pintar o local, eu sou uma excelente grafiteira. Pode ser? —Algo me diz, que não me livro de você só em uma semana. —Pode ter certeza! Mas, vamos jantar o quê, miojo? —Claro que não! Sou lá homem de comer baboseira? Vai se trocar que vou te levar num restaurante muito conhecido no Vidigal. Lá tem uma vista maravilhosa a noite, principalmente! —Jantar fora? Eu e você, só pode ser curtição. —Se não quer, vou pedir uma pizza. —Eu quero, eu quero! Vou só jogar uma água no corpixo. — Jogar água; até parece que é vapt e vupt. Vou até me sentar pra não dormir em pé. —CONTA NO SEU RELÓGIO AÍ: QUINZE MINUTOS TÔ PRONTA.- Ela grita de lá do banheiro —Quero só ver! E não é que a danada foi rápida! —Vamos? —Vai pra onde assim com esse short?! Veste algo mais composto. Atrás de mim não vai vestida igual a essas ralés! —Oxi cara, esse short me custou caro , aliás minhas roupas são caríssimas! —Imagino o porquê? —Não entendí?! —Rapaz! Que saco viu. Vai logo vestir algo menos indecente Katia Maria, olha a hora! —Caraca mano, você é muito arcaico. Devia de soltar mais. Veja se essa Mine saia tá legal? —Tá, veste isso mesmo. Pelo visto não há nada melhor na sua mala que isso. —Poxa vida! Eu só trouxe roupas ao estilo vidigal. Não sabia que precisava um traje de gala. —Vamo embora? Você fala demais! Varanda da Bethânia —Uau! Estiloso esse lugar, nem parece uma lage. —Venho aqui porque é mais sossegado durante a semana. —Você já trouxe alguém aqui? —Tá perguntado pra quê? Não te devo explicações das minhas saídas. —Você é um grosso, nunca que ia querer ser sua namorada. —Não me faca rir, Kátia Maria. —Que merda! Me chama de Katinha. Parece minha mãe falando...Kátia Maria faça isso, Katia Maria isso tá errado... Um saco! Que nem você. —Ela deve ter os seus motivos. —Eu tô afim de comer um salmão defumado com legumes. — Hum! Boa pedida. Eu vou de feijoada mesmo. —Vai encarar uma feijoada agora? —Né de Salvador não? Lá a gente comia feijoada as 4:00 madrugada numa vã chamada quatro rodas. Eu era molequinho quando me arrastavam nessas barcas. Meus pais gostavam de curtir e me levava junto. Mas com o tempo, minha mãe entrou pra igreja, aí não saía pra beber, mas faziam outro tipo de programa. —Sua família parece que era unida, ou ainda é. Me fala dos seus pais! —Ah, tem muito que falar não. Minha mãe lecionou história até ficar doente por causa de um AVC . Meus irmãos como já mencionei: Um é DJ aqui nos fluxos e lá no asfalto; o outro é mais reservado, já arrumou um namorada na igreja. Meu velho morreu há dez anos. —Nossa, faz um tempão. Eu tava com nove anos. —É, eu sei! —Sabe como? —Eu sou bom de matemática. Aliás não é difícil calcular pela sua idade atual né cabeção! —Mas que modos são esses Queóps! Sou uma lady. —Boa noite bahiano, boa noite senhorita. Já escolheram? —Boa noite Urias, eu vou de cerveja. —Hum! Servem Campari? Eu quero com gelo raspado e duas rodelas de limão. —Ok, servimos sim! E pra jantar? —Ela quer o Salmão no forno a lenha com os legumes pra defumar, eu vou de feijoada preta. Capricha no molho lambão. —Com certeza! Me dêem licença. —Sua boca vai arder ! —Eu bebo cerveja e passa. —Mas se eu quiser te beijar? —Acho que vou tomar de colheradas esse molho. —Nossa!! Já entendi. Wanda chega e se aproxima da mesa —Oii bahiano, você por aqui? Milagre! —Oi Wanda, milagre por que; você por acaso anda seguindo meus passos? —Ei, não em foi você que eu dei uma rasteira lá embaixo ontem? —Licença aqui bahiano, vou procurar um mesa. Detesto barracuda. —Ah, sai mesmo sua horrorosa! Vaza. —Não estou entendendo qual foi da rasteira. Ninguém me falou sobre isso! —Pra tú vê que nem tudo lhe é informado. —Você seu mesmo uma rasteira nela; qual o motivo? —Essa p*****a sarará, me sacaneou na frente dos teus caras. Só faltou me chamar de garota de programa. Daí eu apliquei um golpe de leve nela que se esborrachou no chão. —Na moral, essa eu queria ver- risos —Ah, não é do meu feitiu agredir ninguém. Mas ela veio pra arrancar meus cabelos, são naturais cara, ia doer pra c****e. —A Wanda já é uma velha conhecida por armar esse tipo de situação. Você não é a primeira. —Tú já chegou alí, foi isso? —Nunca!! Ela vive se oferecendo não é de hoje... —Então, a partir de hoje, ela vai me pôr na sua lista n***a. Devo ter medo? —Quem vai se atrever a mexer em você? Ela não é nem doida! —Queóps, eu tô gostando da idéia de ensinar para a mulecada. Não vejo a hora de começar. —Ainda falta muita coisa até chegar lá. Vamos por partes. —Tá bom! Mas já vou logo avisando que o galpão vou pintar. Vê se descola o bocadillo pra dar a pintura geral e depois eu vou grafitar. Deve tá uma zona esse local. —Nem sabe se continua vazio, e já está fazendo planos. —Veja, só não vale me barriar. —Vamos comer que é bem melhor, Maria Kátia —Essa frieza me angustia demais. —No tráfico se aprende que perder tempo é escassez de vida. Então, pra quê ficar jogando conversa fora? Deixa acontecer primeiro pra depois cantar de g**o, ou de galinha, se preferir. —Quéops. —Ham? —Tú me chamou de galinha, foi? —Maria Kátia, vê como essa calabresa picante dá outro sabor ao feijão, prova aqui um pouquinho, vai! —Engraçado, você pode fr um morrendo que ajuda acabar de matar com seu cinismo. —Ai aí, eu mereço! —Quéops. —Fala, mas deixa eu comer em paz! —Queria conhecer tua mãe, posso? —Ela não é sua sogra, pra quê conhecer. Se encontrar minha mãe por aí, vê se não toma liberdade. —Ei! Não sou nenhuma kenga das que tu traça por aí não! Já perdi a vontade de conhecer. Quero mais não! —Hum que delícia está essa feijoada! —Meu peixe está bom. Quem será que prepara? —A esposa do Urias. Ela e sua irmã, são bem talentosas na cozinha. —Quero sobremesa! —Já comeu? Nossa, que gulosa! —Feche sua cara, Quer comparar um filezinho de salmão com essa bacia de comida que tá ingerindo? É hoje, que não saio daqui! —Pede logo sua sobremesa, eu já estou farto. —Sabe de uma coisa... Eu tô começando a gostar desse lugar. —É o que todo mundo diz! —Mas eu tô levando a sério! —Tú não acha, que eu posso conseguir clientes aqui? Acho que a galera ia se amarrar em ver as mudanças em suas casas. —Ah sim, eles iam se amarrar e quem pagaria as reformas? —Cada coisa no seu tempo. Não é você mesmo que me diz isso? Veja bem! Os moradores vão ter uma acessória para melhorar suas casas. Idéias de como organizar melhor o espaço físico sem gastar muito. Eu mesma posso verificar as que se já estão em andamento e dar umas dicas pra economizar até no consumo de água, luz. Não vai me custar nada fazer isso. —É, vejo que vou me surpreender ainda com você. Sua vontade de colaborar é sem dúvida muito comovente; mas deixa eles começarem a pedir coisas. Aí não venha me chatear. —Mas eu vou te chatear. Até agora tú não ajudou com material de construção e outras paradas? Então continua! Eu só vou te ajudar a diminuir os gastos que teria com esses pedidos. Isso já te deixa no lucro. —Está bem Kátia, vou te dar uma chance. Mas não venha me extorquir. Tudo têm que está dentro do orçamento que eu propôr. “ Ao menos em parte, estavam se entendendo. Bahiano estava observando os passos da garota pra ver como agiria depois com seu pai. Decidir entre a emoção e a razão nunca foi empecilho pra ele; mas essa garota era tudo que ele não queria se envolver”
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR