Pré-visualização gratuita Capítulo 1: Universidade de Corações
Por Thomas Parker
A primavera chegou tarde naquele ano, como se estivesse com preguiça de florescer, mas ainda assim, trouxe consigo os ventos carregados de aromas doces e a esperança quase inconsciente de que algo estava prestes a mudar. Na cidade universitária, onde as horas se mediam em páginas lidas e cafés esvaziados, o tempo parecia correr com uma cadência particular — ora acelerado, ora suspenso — como se o próprio relógio estivesse indeciso.
Naquela tarde de quarta-feira, o campus vibrava no seu ritmo habitual: estudantes apressados, bicicletas rangendo entre as alamedas, o som abafado de passos nos corredores ladeados por colunas. A biblioteca principal, com suas janelas altas e gárgulas de pedra vigiando do alto, era meu refúgio predileto. Silenciosa, austera, organizada. Um santuário para mentes lógicas como a minha.
E foi exatamente lá, entre prateleiras antigas e estantes que cheiravam a couro envelhecido e papel de décadas, que a minha vida tropeçou — literalmente — em algo fora da equação. Ou melhor, em alguém.
Estava absorto em fórmulas sobre mercados emergentes e a volatilidade do iene quando virei o corredor e choquei-me com um corpo inesperadamente vibrante.
—Ai! — exclamou uma voz feminina. Um livro caiu. Depois outro. Um salto estalou contra o chão de madeira.
—Céus, cuidado!
O choque tirou-me do transe dos números. Ao olhar para baixo, vi uma figura agachada entre os livros caídos — uma jovem recolhendo volumes como quem colhe flores num campo desordenado.
O cabelo dela era... rosa. Rosa de verdade. Vibrante, quase irreal, como algodão-doce sob o sol. Seus fios ondulavam em cascata sobre os ombros, caindo sobre um suéter branco que trazia manchas de tinta nas mangas, como se ela tivesse tentado pintar o mundo com os dedos. As unhas eram de um azul sereno, céu de verão. Uma caneta pendia dos lábios. E os olhos aqueles olhos eram uma tempestade silenciosa de curiosidade e crítica.
—Você devia olhar por onde anda, senhor robô. — disse ela, com uma sobrancelha arqueada em sarcasmo leve, quase divertido.
Fiquei ali, paralisado por um segundo.
—Desculpe, eu... — agachei-me apressado, atrapalhado, começando a pegar os livros com mãos que, de repente, pareciam não me pertencer. —Estava distraído. O meu nome é Thomas.
Ela me encarou por um segundo que pareceu mais longo do que realmente foi, como se estivesse decidindo se eu era real ou apenas mais uma das sombras anônimas do campus.
— Rosalia. Mas todo mundo me chama de Rosa. Ou Pink. Pode escolher. — Sorriu, e algo dentro de mim pareceu perder o compasso. Foi um sorriso que não pedia licença para entrar, apenas entrava.
Estendi a mão, ela hesitou por meio segundo antes de aceitá-la. Sua palma era quente. E viva. Senti um leve tremor, uma reação tênue e inexplicável — como se algo dentro de mim tivesse sido acordado após um longo inverno.
—Rosa... — repeti, experimentando a palavra como se fosse estrangeira.
—Sim, igual à cor. Aquela que você provavelmente detesta, não é? — Ela observou meu terno cinza, meu relógio discreto, a pasta de couro impecavelmente fechada.
Ela não estava errada.
—Confesso que nunca fui fã — disse, sincero, franzindo a testa.
Ela se levantou com os livros nos braços, ofendida em tom de brincadeira.
—Que audácia! Você não apenas atropela a cor do meu mundo como ainda a chama de... enjoativa?
Corei. Um pouco. Cocei a nuca, tentando encontrar palavras.
—Eu quis dizer... é uma cor difícil. Intensa. Quase... provocativa.
Ela riu. Não um riso qualquer, mas um que preenchia o espaço como uma pintura sendo feita ao som de jazz.
—Exatamente por isso eu amo. — E, como se tivesse dito tudo que precisava, virou-se com um floreio leve e voltou para sua mesa.
Antes de sentar, lançou um olhar por cima do ombro.
—Você devia deixar o controle de lado às vezes, Thomas. Viver. Quem sabe... eu te mostro como?
Fiquei ali parado por um momento. O corredor, antes cheio de fórmulas e teorias, agora parecia mais... cor-de-rosa.
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Nos dias que se seguiram, continuei frequentando a mesma ala da biblioteca. A desculpa era a proximidade com as seções de finanças, mas, honestamente, m*l lembrava dos títulos que levava para a mesa.
Ela estava sempre lá, com fones grandes enfeitados com adesivos e pilhas de livros que variavam de Crime e Castigo a revistas de arte. Usava marca-texto como se colorisse sentimentos nas páginas. Riscava frases inteiras com entusiasmo, falava sozinha quando lia e, de vez em quando, gargalhava alto, ignorando as reprimendas silenciosas ao redor.
—Por que você sublinha um romance? — perguntei certa vez, curioso.
—Porque às vezes uma frase é tão bonita que merece ser lembrada. E a vida é curta demais pra não marcar aquilo que te toca.
Ela falava com uma convicção desarmada. Eu apenas assentia, como se cada palavra dela fosse uma variável nova que eu ainda não sabia calcular.
Aos poucos, Rosa deixou de ser um evento aleatório para se tornar rotina. E depois, algo mais.
🎀🌸🌺💗💟
Naquela sexta-feira, ela arrastou-me para fora da biblioteca.
—Hoje você vai caminhar comigo — anunciou, puxando a minha manga como se eu fosse um boneco desajeitado.
—Mas o céu está carregado. Vai chover — protestei, olhando o céu cor de chumbo.
—Perfeito. — Ela sorriu como se isso fosse uma bênção.
Caminhamos pelo parque ao lado do campus, árvores se curvando sob o vento, folhas dançando ao redor dos nossos pés.
—Você não tem medo de molhar os pés, robô? — ela provocou.
Parei. Olhei para ela, que andava de braços abertos como se o mundo fosse um palco.
—Tenho medo de não saber o que fazer com você, Pink.
Ela estacou. Me olhou arregalados. E, como se o universo tivesse ouvido, a chuva começou a cair.
Mas Rosa não correu. Gritou algo que não entendi, girou no próprio eixo, braços abertos como uma criança. Gargalhava. O suéter branco grudou na sua pele, os cabelos pingavam, mas ela parecia absolutamente feliz.
Me aproximei, relutante.
—Você está toda encharcada...
—E você está seco demais. — respondeu, puxando-me pela gravata.
O beijo veio sem ensaio, sem aviso, sem razão. Foi molhado, ruidoso, imprudente. Teve gosto de liberdade e loucura, de algo que nunca pensei desejar — e agora não queria perder.
Naquele instante, compreendi: não se tratava de lógica, de gráficos, de previsão. Rosa era tudo que a minha mente evitava. E tudo que o meu coração, silenciosamente, sempre buscou.
Naquela tarde chuvosa, pela primeira vez, o rosa não era enjoativo. Era essencial.