Caminhei pela estação de metrô em busca do próximo horário.
Alguns grupos de mulheres conversavam e riam alto, eu as encarava imaginando como deve ser uma pessoa comum, sem problemas em aparecer na rua do jeito que quiserem. Eu tenho que me preocupar até se minha roupa não está um pouco amarrotada, porque se estiver seria um desastre. Eu podia ser uma pessoa comum por um tempo, gostei da idéia. Gostei de viajar e explorar novos horizontes.
— Eu falei para você, Brenda. — Uma delas falou alto suficiente para que eu conseguisse ouvir.
— Realmente não tinha como... Minha nossa! — Ouvi uma outra mulher começar a falar e se interromper logo em seguida. — Quem é aquele cara gato? — Sussurrou.
Eu ri pelo nariz. Elas deviam estar flertando com um cara qualquer, "cara muito gato" como estavam dizendo. Patético.
Senti alguém esbarrar em mim com força ao ponto de me fazer dar alguns passos para frente. Olhei para trás frenética a procura de quem esbarrou em mim.
Eu já estava preparada para dizer poucas e boas, mas me senti altamente desarmada quando meus olhos encontraram dois lindos pares de olhos castanhos.
Por longos segundos senti que eu havia esquecido completamente de tudo o que planejava falar. Me senti intimidada pelo homem, ele mantinha um olhar animado e sensual para mim, um olhar... Cafajeste? É, um olhar cafajeste sem menor sombra de dúvidas.
Abri a boca querendo dizer algo mas não conseguia emitir nenhuma palavra.
Alto, forte, os ombros largos igual uma geladeira de quatro portas. Boca extremamente bem desenhada e corada, lábios encantadores, eu diria.
O homem suspirou sem paciência, semicerrou os olhos para mim e colocou o celular que estava em sua mão no bolso da jaqueta de couro preta. Ele quase me levou junto com ele porque estava mexendo no celular enquanto andava, irresponsável.
Ele tinha um cigarro entre os lábios no qual ele brincava com a sua língua.
Eu ainda estava de pé em sua frente esperando um pedido de desculpas, mas ele apenas se ajeitava, dava alguns tapinhas na roupa como se eu estivesse suja e tivesse manchado suas roupas.
Ergui a sobrancelha e semicerrei os olhos para ele se tocar. O homem apenas me encarou com uma expressão neutra, abaixou o olhar para meu corpo. Encarei um ponto longe dalí e fechei meu sobretudo. Ele sorriu, os dentes brancos e bem alinhados combinando muito bem com ele.
Duas mechas loiras do seu cabelo caídas sobre seu rosto o deixavam mais atraente e chamativo do que ele já era em si.
Ele apenas voltou a caminhar novamente batendo o seu ombro no meu novamente me fazendo dar um passo para trás de novo.
— Saia do caminho, loirinha. — Ele murmurou rude.
Fiquei sem acreditar, mas que babaca! Nenhum pedido de desculpas, e nem pelo menos uma expressão de que sentia muito pela própria irresponsabilidade dele. Ele só esbarrou em mim, não vou esquentar cabeça com isso.
— É um gato, mas é muito grosseiro. Nem se desculpou com a moça. — As mulheres voltaram a conversar.
Então esse era o cara gato? Que i****a. A grosseria acaba com a beleza que ele tem, na verdade não tem beleza nenhuma alí, ele é só um padrãozinho metido que se acha um galã de cinema.
O metrô parou na estação, caminhei com postura com um pé na atrás do outro como uma dama que eu tenho que ser agora. Coluna reta e o queixo erguido, ah e é óbvio que não poderia faltar o nariz empinado.
O metrô estava lotado e haviam apenas alguns espacinhos entre as pessoas. Me acomodei entre um espacinho e me segurei em um apoio que estava alí exatamente para essas ocasiões. Muito desagradável estar com uma mala em um metrô lotado.
Eu admirava a sensação do metrô se movimentando, pensava sobre a vida e o que eu poderia fazer nesse meio tempo que estava praticamente "de férias".
De repente, assim do nada senti uma aproximação estranha. Olhei para trás e notei um homem no qual eu nunca havia visto antes, tão próximo de mim que eu podia sentir calor desagradável. Eu gelei, acabei ficando tão nervosa que não sabia como reagir e nem o que dizer.
Tentei me afastar indo um pouco mais para frente, mas acabei me aproximando demais de uma moça que estava posicionada em minha frente. Ela me encarou com desdém e eu me senti tão envergonhada que provavelmente devo estar vermelha.
— Me desculpa, por favor. — Sussurrei para ela.
A moça não me xingou nem nada, apenas forçou um sorriso e voltou sua atenção para o celular.
Respirei aliviada, mas infelizmente o meu alívio passou quando senti a aproximação atrás de mim novamente. Tentei de todas as formas possíveis, coloquei até mesmo minha mala atrás de mim para que ele me largasse de mão. Mas ele apenas afastava minha mala e voltava a se esfregar em mim.
— Moço, você está me incomodando. Se afaste por favor. — Pedi em alto bom som para as pessoas que estavam em volta notarem que eu estava desconfortável e que não estou gostando.
O homem era meio gordinho, não muito, mas ele era. Uns dois centímetros mais baixo que eu, barbudo, a barba por fazer e branco, extremamente branco. Camisa xadrez. Quem usa camisa xadrez no dia a dia? Só pode ser um doente.
O homem se aproximava cada vez mais e eu não tinha mais controle, eu não sabia o que fazer. Minha vontade era de pegar o celular, gravar o que ele está fazendo e postar no meu i********: e acabar com a vida desse doente.
Eu olhava em volta para vê se alguém notava o que ele estava fazendo, e sim, as pessoas estavam notando mas não falavam ou faziam nada. Isso me corrói por dentro, saber que muitas mulheres passam por isso no dia a dia.
O assédio em metrôs é um problema sério que afeta muito o psicológico de uma mulher. Infelizmente, é comum importunação s****l e assédio nos sistemas de transporte público. É importante que todos estejamos atentos e conscientes para combater esse tipo de comportamento inaceitável. Se você ou alguém que você conhece passar por uma situação de assédio no metrô, é fundamental buscar ajuda das autoridades ou funcionários do transporte público. Todos merecem se sentir seguros ao utilizar esse serviço. Mas infelizmente nós mulheres temos um grande problema que é sentir vergonha, nos sentimos indefesas e frágeis. Sentimos vergonha.
Sinto uma mão subir por metade da minha coxa até estar quase no meu quadril. Não me segurei, eu não vou me calar.
— Me larga! — Gritei enquanto segurava firme sua mão e a arremessava com força para o lado, para bem longe de mim. Não tão longe assim, mas o suficiente para me livrar do seu toque nojento.
— Qual o seu problema, sua i****a? — O homem gritou de volta.
Senti um suas mãos encostarem em meus s***s e me empurrarem com força para trás, me fazendo virar e meu corpo colidir dolorosamente contra o chão.
Eu fiquei em choque, não soube como reagir. Fiquei longos segundos encarando ele com minha expressão de espanto, pode ter demorado apenas alguns meios segundos, mas para mim foi uma eternidade como se tivesse acontecendo em câmera lenta.
— Oh, seu babaca! Vaza daqui! — Em meio ao barulho da minha própria cabeça ouvi uma voz grossa falar com o barbudo babaca nojento.
— E quem você é? Vá para o seu lugar e não se meta. — O barbudo insistia.
Levantei meu olhar para vê o rosto de quem me defendia do barbudo, e me admirei ao ver o loirinho também babaca de hoje mais cedo. Eu nem reparei que ele tinha entrado no metrô junto comigo.
Ele encarava o homem barbudo como se ele não fosse absolutamente ninguém, como se ele não o abalasse ou sequer o intimidasse.
Ele ignorou o barbudo totalmente e se posicionou em minha frente esticando sua mão em minha direção. Eu encarei seus olhos de mel e sua mão por longos segundos ainda em choque, sem acreditar no que estava acontecendo.
O barbudo veio em sua direção pronto para lhe bater.
— Cuidado! — Gritei.
O loiro ligeiramente virou-se e lhe depositou um soco no rosto que o fez virar para trás. Um soco depositado com tanto ódio que fez até mesmo aquele barulhinho de efeito sonoro dos filmes.
Olhei em volta e todas as pessoas em volta nos olhavam espantadas, com seus rostos mostrando seus espantos. O que me deixa com raiva é que há minutos atrás não estavam olhando assim para esse mesmo homem quase me estuprando aqui mesmo entre essas pessoas que agiam como se fosse uma coisa normal do dia a dia. Mas quando alguém finalmente reagiu, tudo o que fizeram foi olhar com espanto e desdém. Olhavam com o olhar mais julgador possível.
Nunca imaginei que uma simples viagem me traria até a delegacia.
O delegado foi à algum lugar e nos deixou sozinhos em sua sala. Olho para o lado e vejo o barbudo com um saco de gelo no rosto com uma expressão de dor e alívio ao mesmo tempo. Ele me encara com ódio nos olhos, e tudo o que eu faço é ignorar sua presença totalmente.
Olho para o outro lado e vejo o rapaz que me ajudou, de repente eu me senti arrependida de o julgar tão m*l. Ele me ajudou enquanto todos apenas ignoravam como se não estivessem vendo absolutamente nada demais.
Eu estava me limitando de falar com ele, perguntar como ele estava ou até mesmo agradecer por ter me ajudado.
O loiro estava encarando um ponto fixo da mesa desde quando chegamos. Ele possuía um olhar neutro sem nenhuma única expressão do que estava pensando. Esse homem tem expressões e formas de se comportar que nos fazem se sentir intimidadas justamente por isso, por não sabermos o que ele pensa ou o que está sentindo. Não o conheço mas posso notar como ele não parece muito disposto a deixar claro sobre o que está pensando.
Tomei coragem e finalmente olhei para ele, pois até agora a pouco eu estava encarando seus pés. Olhei algumas vezes de soslaio mas nada muito direto.
— Você... — Tentei falar mas me senti muito nervosa e acabei travando.
O loiro desviou o olhar da mesa e encarou meus pés, me olhando disfarçadamente de soslaio. Ele tinha o maxilar trincado como se estivesse com raiva, ele está assim desde que esbarrou em mim, não faço a mínima idéia se esse é o jeito dele.
Respirei fundo tentando tomar coragem novamente, cocei a garganta e pigarreei tentando me recompor novamente para falar com ele.
Abri a boca diversas vezes e nada das palavras saírem, nessa altura ele já encarava a mesa novamente.
— Você está bem? — Questionei.
O loiro não se deu o trabalho de responder. Me senti envergonhada, o que custava responder um "sim"? Ou "Humhum". Grosseiro, já estou com raiva novamente. Não me arrependo de ter julgado ele como um i****a grosseiro.
— Você está? O empurrão deve ter doído. — Ele questionou depois de quase dois minutos de vácuo que ele me deu. Mas mesmo assim ele não me dirigia o olhar.
— Estou bem. — Respondi no mesmo instante.
Fiquei refletindo como uma i****a sobre ter respondido tão rápido, ele me deixou no vácuo por quase três minutos. Falando assim até parece que estamos nos falando pelo celular, mas essa ignorada fez parecer que estamos conversando pelo celular.
— A sua mão... — Tentei falar pouco igual ele, me referi a mão dele que estava inchada e tinha alguns ameaças de hematoma. Ela possuía algumas tatuagens, delicadas. Me pergunto se ele teria mais algumas pelo restante do corpo.
— O meu nariz pode ter quebrado, não vai perguntar como eu estou? Está se preocupando com a pessoa errada. — O barbudo se pronunciou.
Cerrei os punhos com força na cadeira. Esse i****a está mesmo agindo como se fosse a vítima da história?
O loiro continuava encarando a mesa como se alí tivesse alguma coisa muito interessante e que ele não pudesse mudar o olhar de direção. Ele também ignorou o barbudo totalmente, fingia que ele nem existia.
Ouvi o barulho da porta se abrindo e me acomodei na cadeira. O homem que me defendeu continuou com sua pose lânguida. Enquanto o homem escroto permaneceu com sua pose de inocente e vítima segurando seu saco de compressas de gelo encostado no nariz.
— Muito bem. — O delegado se acomodou na sua cadeira giratória e entrelaçou as mãos em nossa frente. — Senhor Charles, o senhor irá pagar uma multa de 10 mil dólares por assédio e violência. E Senhor...
— O que? — O tal Charles interrompeu o delegado. — Isso não é sério, é? Eu que fui agredido e quase quebrei o nariz por esse delinquente!
Olhei para o lado e vi o homem ao meu lado cerrar os punhos com força ao ponto de seus dedos ficarem brancos.
— Já está decidido, não me interrompa se não quiser ficar detido também. — O delegado deu um fecho nele e pude ouvir um suspiro bravo e logo em seguida a porta sendo fechada após sua saída. — Senhor Jack...
Jack. O nome do loiro, dono do lindo par de olhos castanhos marcantes que me defendeu no metrô é Jack.
— Senhor Jack, você agiu em legítima defesa, o senhor Charles ia agredi-lo. Pode ir, mas não saía da cidade por enquanto. — O delegado prosseguiu e Jack levantou da cadeira brutalmente e saiu pela porta a batendo um pouco com força.
— E quanto a mim? — Questionei.
— Você não é a vítima? — O delegado ironizou. — Sei quem você é, se quiser ir para casa em uma de nossas viaturas para não causar escândalos para você, fique a vontade.
— Ah, tudo bem. Obrigada! — Levantei da cadeira arrastando minha mala para fora da delegacia.
Minha mala fazia um barulho nada discreto no chão de cerâmica, mas eu não podia fazer nada. Eu só queria ir para casa e descansar.
A maldita casa que Castiel comprou para quando a gente viesse de viagem paga cá e passou para meu nome. Mas não faz diferença, nunca viemos então a casa não tem nada dele e muito menos lembra ele.
Caminhei até o lado de fora da delegacia, quando estava na calçada notei Jack alí fumando um cigarro. O sol já ameaçando nascer. Jack encarava a estrada como se nada tivesse acontecido há minutos atrás. Eu não sabia se seria uma boa idéia até lá falar com ele, agradecer pelo que ele fez por mim.
Ele não tem educação, mas eu tenho. Ele não se desculpou por ter quase me desmontado em um esbarrão, mas eu só conseguirei dormir hoje se eu o agradecer pela ajuda.
Caminhei lentamente na direção dele um pouco receosa. Ele abaixou a cabeça e me olhou de soslaio e continuou me encarando até que eu estivesse finalmente perto dele. Não vou mentir que me senti totalmente intimidada, não porque ele me dê medo, mas sim porque ele tem um olhar sedutor demais. Isso me deixa intimidada e totalmente sem jeito.
Ele me encarou quando eu estava longe, mas agora que eu estava próxima dele, nem ao menos dirigia o olhar para mim. Encarava qualquer ponto, menos a mim.
— Eu queria... — Mas que merda! Por que minha voz sempre fraqueja? Por que minha voz trava?
Respirei fundo novamente e tentei forçar as palavras a saírem.
— Eu queria agradecer por... — Eu estava indo bem mas ele me olhou inclinada na parede.
Encarei seu rosto, ele tem um rosto muito bem alinhado e bem desenhado. Um rostinho bem marcado, mas ao mesmo tempo delicado como de um anjo. Está mais para anjo caído. Queria saber como ele conseguia parecer um anjo e um bad boy de filmes de romance ao mesmo tempo, como ele conseguia essa proeza?
Notei que ele tinha uma argolinha delicada e prateada em um dos lados do nariz.
Só depois de uns segundos, eu notei que ele estava me encarando esperando por uma frase completa, na qual eu falei pela metade.
— Bom, desculpa. — Encarei o chão pois eu não conseguia mais olhá-lo. — Eu queria agradecer por ter me defendido daquele i****a. Se não fosse você eu não sei que rumo as coisas teriam tomado. Sério, muito obrigada!
Jack desviou seu olhar do meu e encarou o chão, e novamente longos segundos em silêncio. Ele tinha essa mania de demorar para falar como se seu raciocínio fosse lento.
Ele deu uma longa tragada em seu cigarro e soltou a fumaça para cima, me dando uma visão perfeita de seu magnífico maxilar super definido.
— Está bem. Era só isso? — Ele respondeu sem muita importância.
De repente, me senti com raiva de mim mesma por não ter ido embora sem agradecer. Estou envergonhada e sem jeito, estou de pé em sua frente como uma criança de 4 anos, é assim que me sinto conversando com ele. Como uma criança de 4 anos.
— Sim. — Gesticulei com a cabeça e saí andando fechando os olhos com força me sentindo ridícula.
— A sua mala! — Ele gritou alto suficiente para que eu ouvisse.
Olhei para trás e notei que esqueci minha mala ao lado dele. Tudo bem, eu estou me odiando três vezes mais nesses momento.
— Ah, minha mala! — Forcei um sorriso e ele apenas me olhava com seu olhar neutro.
Ele segurou minha mala esperando que eu fosse até lá buscar. Quando toquei no cabo dela minha mão encostou na dele, automaticamente olhei para ele e ficamos alí nos encarando por longos segundos.
Enquanto eu olhava para ele toda nervosa, ele me olhava normalmente. Totalmente neutro.
— Você já estava indo embora? — Ele questionou como uma forma sútil de me mandar ir embora.
— Sim, eu estava.
A forma dele de agir faz com que eu pareça algo fútil, e tudo o que eu falo ou faço parece ridículo quando na verdade é algo normal e nada fútil. Não gostei dele. Ele é irritante, age como se fosse o centro do mundo e como se a gente fosse obrigados a esperar o tempo dele até para responder uma mísera pergunta. Ele acha que é o centro do universo.
Segurei minha mala e saí quase correndo dalí, andei até a outra rua para poder conseguir um táxi. Eu não queria ficar perto dele por mais nenhum instante, esse homem me intimida.