Ananda
O sol já estava alto quando resolvi me aventurar um pouco sozinha pelo morro. Laís e os outros estavam ocupados ajudando com pequenas tarefas, e eu quis explorar, me acostumando aos caminhos e vielas.
No começo, tudo parecia familiar. Mas depois de virar duas esquinas e passar por uma fila de crianças brincando, percebi que tinha me afastado mais do que queria. As vielas estreitas se confundiam, cada curva parecia igual à anterior, e logo me dei conta: eu estava perdida.
— Ótimo, Ananda… — murmurei, tentando não entrar em pânico. — Isso não vai acabar bem.
Enquanto tentava achar o caminho de volta, ouvi vozes e passos. Me escondi atrás de uma porta velha, encostando-me na parede fria. E então, a cena que me fez prender a respiração: Khalil estava ali, em outra viela, junto com uma mulher. Eles pareciam íntimos, próximos demais, rindo e sussurrando.
Meu coração disparou. Tentei não fazer barulho, mas cada músculo do meu corpo parecia gritar. Não queria ser vista, não queria que ele percebesse que eu tinha visto aquilo.
— Eu não deveria estar vendo isso — sussurrei para mim mesma, recuando devagar. — Melhor desaparecer daqui…
Comecei a me afastar silenciosamente, mas acabei pisando em uma garrafa que se quebrou com um estalo alto. Khalil parou imediatamente, olhando em volta, como se tivesse sentido algo.
— Ananda? — chamou, a voz firme, mas com aquela tonalidade que me fez gelar. — Quem tá aí?
— Eu… eu não vi nada! — gritei rapidamente, tentando fugir pela viela. — Eu juro que não vi nada!
Mas ele não me deixou ir tão facilmente. Khalil apareceu na minha frente, bloqueando o caminho.
— Espera! — disse, pegando meus braços levemente. — Me escuta!
— Eu não quero ouvir nada! — retruquei, puxando os braços. — Você tava… tava com ela! Eu não queria ver!
Ele suspirou, olhando nos meus olhos, tentando que eu entendesse.
— Eu sei que parece… mas deixa eu explicar, Ananda. Não é como você tá pensando.
— Então me explica agora — disse, respirando pesado, ainda com o coração acelerado. — Mas não tenta mentir, Khalil.
Ele deu um passo pra trás, respeitando meu espaço, mas mantendo os olhos em mim, sérios e intensos.
— Ela é… uma amiga, tá? Não tem nada demais. Eu não queria que você visse assim, mas juro que não é o que você pensa.
Respirei fundo, tentando processar. Ainda me sentia traída, confusa, mas ao mesmo tempo havia algo na forma como ele falava, naquela sinceridade na voz e nos olhos, que me fez hesitar.
— Tá… — murmurei finalmente, ainda desconfiada. — Mas… eu não quero isso acontecendo de novo.
Ele assentiu, sério.
— Prometo, Ananda. Não vai acontecer de novo.
Ainda tremendo, comecei a caminhar de volta, sem saber se acreditava totalmente nele. Mas algo me dizia que aquela noite, aquela viela e aquela revelação seriam só o começo de muito mais tensão e mistério entre nós dois.
Voltei para casa da Laís com passos rápidos, tentando digerir tudo o que tinha visto. Meu coração ainda batia acelerado, e meu rosto estava quente de vergonha.
— Ai meu Deus… — murmurei sozinha, passando a mão no rosto. — Eu não devia ter visto aquilo… Eu não devia ter visto nada!
Cada passo me lembrava da cena na viela: Khalil com aquela mulher, tão próximo, tão íntimo. Mas o que realmente me confundia era o jeito que ele se explicou pra mim.
“Ele não precisava… a gente se conhece há três dias! Por que ele está tentando se justificar comigo?!” pensei, franzindo a testa.
Sentei na cadeira da cozinha, tentando me acalmar. Laís me olhou preocupada:
— O que houve, Ananda? Você voltou pálida.
— Nada, só… me perdi — falei, evitando olhar nos olhos dela. — Só que… eu vi algo que não devia e… — engoli o que restava de coragem — e ele veio atrás de mim pra explicar.
Laís arqueou uma sobrancelha, curiosa.
— Ele explicou?
— Sim… — murmurei, sem conseguir completar direito. — Mas… eu achei tão estranho. A gente se conhece há três dias! Ele não precisava se justificar. Por que ele se importa tanto?
— Hm… — Laís sorriu, tentando disfarçar a diversão. — Ele gosta de você. Não precisa entender agora, só aproveita.
Sorri de leve, mas ainda me sentia estranha, misturando vergonha e confusão.
— Gostar de mim? — perguntei, em dúvida. — A gente m*l se conhece…
— Pois é — disse Laís, rindo baixinho. — Mas ele parece ser desses que se importam rápido.
Me senti embaraçada, percebendo que meu coração batia mais rápido só de lembrar da forma intensa com que ele me olhou na viela. E o mais estranho de tudo? Eu nem conseguia ficar irritada com ele. Pelo contrário… uma parte de mim queria saber mais, mesmo sem entender direito.
Suspirei, passando a mão pelo cabelo.
— Ai, que confuso… — murmurei. — Eu nem sei o que pensar.
Laís deu de ombros.
— Normal, Barbie. Confusão faz parte de se acostumar com o morro… e com algumas pessoas que aparecem na sua vida.
Olhei pela janela, tentando me concentrar no sol que iluminava as vielas. Mas no fundo, algo dentro de mim sabia que aquele episódio com Khalil não seria esquecido tão fácil. A vergonha, a tensão, a curiosidade… tudo isso parecia estar só começando.