Ananda
A tarde estava tranquila. Eu e Laís estávamos sentadas na varanda da casa dela, tomando suco e observando a movimentação do morro. Mas eu não conseguia tirar Khalil da cabeça. Cada olhar, cada provocação, cada detalhe daquela noite na viela ainda rodava na minha mente.
— Laís… — comecei, hesitante. — Me diz uma coisa… o Khalil… ele… tem alguém? Tipo, namorada ou algo assim?
Laís me olhou, arqueando uma sobrancelha, surpresa com a minha pergunta. Depois, suspirou e deu um gole no suco antes de responder.
— Ah… entendi. Você quer saber da vida do nosso Khalil, né?
— É… eu só quero… entender melhor. A gente se conhece há tão pouco tempo, mas ele… é diferente — expliquei, ainda meio sem jeito.
Ela sorriu, lembrando da própria história com ele.
— Bom, então presta atenção. Ele foi casado… lá atrás, uns cinco anos. Tinha uma filha, pequena na época. Mas a mulher dele… morreu num acidente. Desde então, ele não deve nada a ninguém.
— Nossa… — murmurei, surpresa. — E ele nunca mais… teve alguém?
Laís deu de ombros, divertida.
— Ah, alguns casos por aí, nada sério. Mas ele nunca mais se envolveu de verdade. Algumas mulheres até se acham a mulher dele… Mas a verdade é que ele guarda a própria vida pra ele.
Sentei um pouco mais perto, tentando processar.
— Então… ele não tá ligado em ninguém, mas também não se envolve de verdade…
— Exato — disse Laís, sorrindo. — Ele é assim. Forte, fechado… mas quem conquista a confiança dele, sabe que tem alguém leal do outro lado.
Fiquei em silêncio, absorvendo tudo. O coração ainda batia mais rápido só de pensar nele. E a confusão aumentava: Khalil, com toda a pose de durão, aquele jeito provocador e misterioso, na verdade tinha uma história pesada e humana por trás.
— Sabe… — falei, mais pra mim mesma — não sei se fico irritada ou curiosa com ele. Mas agora… — sorri de leve — só quero entender melhor.
Laís riu, cutucando meu braço:
— Vai com calma, Barbie. Conhecer o Khalil de verdade não é fácil. Mas você parece ser teimosa… então vai se divertir tentando.
Suspirei, olhando para o morro lá fora. Aquelas vielas, o cheiro de comida, a movimentação da favela… e ele, Khalil, com todos os seus mistérios. Uma parte de mim queria fugir da tensão, mas outra parte, menor e mais atrevida, já estava curiosa demais pra deixar passar.
Dia seguinte
O sol já estava alto, e eu caminhei sozinha pelas ruas do morro, sem destino certo. A verdade é que eu ainda não sabia direito o que fazer da vida naquele lugar. O mundo da favela era diferente, intenso, barulhento, e ao mesmo tempo cheio de pequenas coisas que me deixavam curiosa.
Senti vontade de tomar um sorvete. Caminhei até uma pequena barraquinha no final da rua, o cheiro doce me atraindo, e pedi um de morango. O vendedor sorriu e me entregou, e eu caminhei devagar, tentando aproveitar aquele momento tranquilo, apenas observando as crianças brincando e o vai e vem das pessoas.
De repente, uma risadinha alta e apressada chamou minha atenção. Uma menininha, com cabelos bagunçados e roupas simples, corria pelas ruas sem olhar pra frente… e se chocou contra mim, derrubando meu sorvete no chão.
— Ai! — gritei, recuando um pouco, assustada, mas logo percebi que ela estava mais assustada do que eu.
— Desculpa! — a menina choramingou, quase tropeçando em si mesma. — Eu não vi…
— Tudo bem! — falei, agachando para ficar na altura dela. — Você tá bem? Não se machucou?
Ela olhou pra mim, os olhos grandes cheios de lágrimas, e balançou a cabeça.
— Não… só caiu mesmo.
— Tá bom — disse, sorrindo. — Mas da próxima vez, olha pra frente, tá? Não quero que ninguém se machuque.
Ela sorriu timidamente, e eu estendi a mão pra ajudá-la a se levantar.
— Obrigada, senhorita! — disse ela, sorrindo de verdade agora.
— De nada, pequena — falei, sentindo um calor gostoso no peito. — Agora vai brincar com cuidado, tá?
Ela correu de volta, rindo, e eu fiquei ali por alguns segundos, olhando o movimento das ruas. Sorri sozinha, percebendo que, por mais que tudo ainda fosse novo pra mim, pequenos momentos como aquele me faziam sentir que o morro também podia ser um lugar cheio de vida e humanidade.
Segurei meu sorvete — que, infelizmente, estava parcialmente perdido — e dei uma pequena risada. Talvez eu ainda não tivesse respostas pra tudo, talvez ainda estivesse perdida… mas naquele instante, eu sentia que podia encontrar meu lugar ali, mesmo que devagar.