Capítulo 09

881 Palavras
Ananda Segui caminhando pelas ruas do morro, ainda saboreando o restante do meu sorvete, quando percebi um barulho de risadas vindo de um pequeno parquinho próximo. Curiosa, fui me aproximando devagar. E então… meus olhos quase saltaram da cara. Lá estava Khalil, abaixado, rindo e segurando uma menininha pela mão enquanto ela descia no escorregador. O sorriso dele era completamente diferente daquele que eu via quando estava provocando ou me olhando com malícia. Ali, ele era só um pai, cuidadoso e atento, brincando com sua filha. E quando olhei melhor para a menininha, meu coração quase parou: era a mesma garotinha que tinha trombado comigo minutos atrás, derrubando meu sorvete. — Ei, olá… — falei, um pouco sem jeito, tentando não chamar atenção demais. — Ela… você… ela é sua filha? Khalil se virou, surpreso, e logo reconheceu meu rosto. — Ananda? — disse, arqueando a sobrancelha, mas ainda com aquele sorriso suave que me deixou sem jeito. — O que você tá fazendo por aqui? — Eu… só estava… passeando — respondi, tentando parecer casual, mas minhas mãos suavam e o sorvete estava quase derretendo nas minhas mãos. — E… não sabia que era sua filha… Ele sorriu, olhando a garotinha. — É… e você a conheceu de forma… um pouco dramática, pelo visto — disse, piscando para mim. — Foi você que levou um trombão da minha pequena guerreira Bebel? — É… — admiti, corando. — Eu nem queria olhar, mas… ela é… adorável. A menininha correu até mim, abraçando minhas pernas. — Desculpa de novo! — disse, olhando pra mim com aqueles olhos enormes e cheios de sinceridade. — Tudo bem, pequena — falei, abaixando para retribuir o abraço. — Mas da próxima vez, olha por onde corre, tá? Khalil me observava com atenção, um misto de diversão e curiosidade no olhar. — Ela te perdoou rápido — comentou, cruzando os braços. — Acho que você tem jeito com crianças, Barbie. Revirei os olhos, tentando não demonstrar que o comentário dele me deixava nervosa. — É só uma coincidência — falei, desviando o olhar. Ele deu um passo mais perto, ainda mantendo distância respeitosa. — Coincidência, né? Mas você parece diferente quando tá perto dela… menos assustada com o mundo, mais… natural. Senti minhas bochechas queimarem, e não consegui responder de imediato. Enquanto a garotinha corria de volta pro escorregador, percebi que, por mais que eu tivesse visto algo que não devia antes, agora estava olhando para outro lado de Khalil — um lado humano, paternal, intenso e completamente inesperado. E naquele instante, uma coisa ficou clara: o Khalil que eu conhecia não era só provocação e mistério… ele também tinha uma vida que eu ainda precisava compreender. Enquanto Bebel corria de volta pro escorregador, eu fiquei parada alguns segundos, tentando disfarçar a surpresa que ainda me tomava. Respirando fundo, tentei colocar um tom casual na voz. — Uau… — falei, sorrindo de leve — Não sabia que você era pai de uma princesinha. Khalil arqueou uma sobrancelha, olhando para mim com aquele sorriso torto que sempre me deixava sem jeito. — Princesinha, é? — ele repetiu, divertido. — Acho que você está se referindo à Bebel. — Sim, Bebel… — balancei a cabeça, ainda tentando parecer natural. — Ela é muito fofa… não esperava isso de você. Ele riu, passando a mão no cabelo, com aquele jeito que era impossível não reparar. — E por que não esperava? — perguntou, inclinado ligeiramente na minha direção, com aquele tom provocador. — Achava que eu era só o durão do morro, sem jeito pra coisas… fofas? — É… mais ou menos isso — respondi, tentando manter a pose. — Quer dizer… você parece intenso, misterioso, sabe? Mas ver você assim… com ela… muda totalmente a imagem. Khalil deu um passo mais perto, mas ainda mantendo distância respeitosa, e olhou para mim com intensidade. — E o que você acha disso? Que imagem prefere manter, Barbie? A de durão ou a de pai dedicado? Sorri, corando sem querer, e olhei para Bebel que ria no escorregador, completamente despreocupada. — Acho que vou ter que me acostumar com as duas — falei, meio brincando, meio séria. Ele riu baixo, e aquele som ecoou diferente. Não era provocação, nem ameaça, nem charme… era simplesmente ele sendo ele, e eu ainda não sabia direito como lidar com isso. — Então… — continuei, tentando desviar um pouco a tensão — você não me contou que tinha uma princesa escondida por aí. Acha que deveria ter me avisado antes? — Talvez — respondeu ele, divertido, dando de ombros. — Mas parte da graça é ver sua reação surpresa agora, não acha? Balancei a cabeça, rindo baixinho, sentindo uma mistura de vergonha e curiosidade. — Pois é… surpresa total — admiti. — Mas… gostei de conhecer essa parte sua também. Ele sorriu, quase satisfeito com minha resposta, e se abaixou para chamar Bebel. — Princesinha, vem cá! Avisa a Barbie que a sessão de escorregador ainda não acabou. E assim, enquanto Bebel corria feliz, Khalil e eu ficamos alguns segundos ali, observando a menina e trocando olhares silenciosos. Algo estava mudando entre nós, de forma inesperada e intensa. E eu sabia que aquela descoberta sobre ele só aumentava minha curiosidade — e, sem querer, minha tensão.
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