Ananda
Segui caminhando pelas ruas do morro, ainda saboreando o restante do meu sorvete, quando percebi um barulho de risadas vindo de um pequeno parquinho próximo. Curiosa, fui me aproximando devagar.
E então… meus olhos quase saltaram da cara.
Lá estava Khalil, abaixado, rindo e segurando uma menininha pela mão enquanto ela descia no escorregador. O sorriso dele era completamente diferente daquele que eu via quando estava provocando ou me olhando com malícia. Ali, ele era só um pai, cuidadoso e atento, brincando com sua filha.
E quando olhei melhor para a menininha, meu coração quase parou: era a mesma garotinha que tinha trombado comigo minutos atrás, derrubando meu sorvete.
— Ei, olá… — falei, um pouco sem jeito, tentando não chamar atenção demais. — Ela… você… ela é sua filha?
Khalil se virou, surpreso, e logo reconheceu meu rosto.
— Ananda? — disse, arqueando a sobrancelha, mas ainda com aquele sorriso suave que me deixou sem jeito. — O que você tá fazendo por aqui?
— Eu… só estava… passeando — respondi, tentando parecer casual, mas minhas mãos suavam e o sorvete estava quase derretendo nas minhas mãos. — E… não sabia que era sua filha…
Ele sorriu, olhando a garotinha.
— É… e você a conheceu de forma… um pouco dramática, pelo visto — disse, piscando para mim. — Foi você que levou um trombão da minha pequena guerreira Bebel?
— É… — admiti, corando. — Eu nem queria olhar, mas… ela é… adorável.
A menininha correu até mim, abraçando minhas pernas.
— Desculpa de novo! — disse, olhando pra mim com aqueles olhos enormes e cheios de sinceridade.
— Tudo bem, pequena — falei, abaixando para retribuir o abraço. — Mas da próxima vez, olha por onde corre, tá?
Khalil me observava com atenção, um misto de diversão e curiosidade no olhar.
— Ela te perdoou rápido — comentou, cruzando os braços. — Acho que você tem jeito com crianças, Barbie.
Revirei os olhos, tentando não demonstrar que o comentário dele me deixava nervosa.
— É só uma coincidência — falei, desviando o olhar.
Ele deu um passo mais perto, ainda mantendo distância respeitosa.
— Coincidência, né? Mas você parece diferente quando tá perto dela… menos assustada com o mundo, mais… natural.
Senti minhas bochechas queimarem, e não consegui responder de imediato. Enquanto a garotinha corria de volta pro escorregador, percebi que, por mais que eu tivesse visto algo que não devia antes, agora estava olhando para outro lado de Khalil — um lado humano, paternal, intenso e completamente inesperado.
E naquele instante, uma coisa ficou clara: o Khalil que eu conhecia não era só provocação e mistério… ele também tinha uma vida que eu ainda precisava compreender.
Enquanto Bebel corria de volta pro escorregador, eu fiquei parada alguns segundos, tentando disfarçar a surpresa que ainda me tomava. Respirando fundo, tentei colocar um tom casual na voz.
— Uau… — falei, sorrindo de leve — Não sabia que você era pai de uma princesinha.
Khalil arqueou uma sobrancelha, olhando para mim com aquele sorriso torto que sempre me deixava sem jeito.
— Princesinha, é? — ele repetiu, divertido. — Acho que você está se referindo à Bebel.
— Sim, Bebel… — balancei a cabeça, ainda tentando parecer natural. — Ela é muito fofa… não esperava isso de você.
Ele riu, passando a mão no cabelo, com aquele jeito que era impossível não reparar.
— E por que não esperava? — perguntou, inclinado ligeiramente na minha direção, com aquele tom provocador. — Achava que eu era só o durão do morro, sem jeito pra coisas… fofas?
— É… mais ou menos isso — respondi, tentando manter a pose. — Quer dizer… você parece intenso, misterioso, sabe? Mas ver você assim… com ela… muda totalmente a imagem.
Khalil deu um passo mais perto, mas ainda mantendo distância respeitosa, e olhou para mim com intensidade.
— E o que você acha disso? Que imagem prefere manter, Barbie? A de durão ou a de pai dedicado?
Sorri, corando sem querer, e olhei para Bebel que ria no escorregador, completamente despreocupada.
— Acho que vou ter que me acostumar com as duas — falei, meio brincando, meio séria.
Ele riu baixo, e aquele som ecoou diferente. Não era provocação, nem ameaça, nem charme… era simplesmente ele sendo ele, e eu ainda não sabia direito como lidar com isso.
— Então… — continuei, tentando desviar um pouco a tensão — você não me contou que tinha uma princesa escondida por aí. Acha que deveria ter me avisado antes?
— Talvez — respondeu ele, divertido, dando de ombros. — Mas parte da graça é ver sua reação surpresa agora, não acha?
Balancei a cabeça, rindo baixinho, sentindo uma mistura de vergonha e curiosidade.
— Pois é… surpresa total — admiti. — Mas… gostei de conhecer essa parte sua também.
Ele sorriu, quase satisfeito com minha resposta, e se abaixou para chamar Bebel.
— Princesinha, vem cá! Avisa a Barbie que a sessão de escorregador ainda não acabou.
E assim, enquanto Bebel corria feliz, Khalil e eu ficamos alguns segundos ali, observando a menina e trocando olhares silenciosos. Algo estava mudando entre nós, de forma inesperada e intensa. E eu sabia que aquela descoberta sobre ele só aumentava minha curiosidade — e, sem querer, minha tensão.