MORTE NARRANDO
Já perdi a conta de quantos nasceram e morreram aqui dentro desde que eu entrei.
Mas tem uma coisa que ninguém esquece: meu nome.
Lá fora, no Complexo do Alemão, os moleque ainda tremem quando escutam “Morte” sussurrado no beco. Mesmo depois de dez anos fechado, o morro sabe de onde veio a lei. A favela pode ter mudado de cara, mas o sangue ainda corre na mesma direção — e corre por minha ordem.
Meu nome de batismo ninguém lembra mais. Nem eu. Na boca do povo, sou o Morte. E se morrer é o fim pros outros, pra mim sempre foi o começo.
Tô com 38 anos. A maior parte do tempo passei cercado por ferro, concreto e mentira. Mas nunca fui preso. O corpo tá dentro, mas a mente nunca se deitou. Aqui dentro, quem manda sou eu. No presídio, na rua, no Alemão, e nos outros picos da firma. Meu lugar sempre foi no topo. E não foi dado. Foi tomado.
A cadeia é um mundo à parte. Quem pensa que é castigo, não entendeu o jogo. Aqui é onde o poder se filtra, se prova. E aqui dentro, eu sou o primeiro da cadeira. Acima de mim, só Deus — e mesmo Ele, quando pisa aqui, pede licença.
Sou chefe do Comando Vermelho, junto com mais dois irmão que cresceram comigo no crime. Mas mesmo entre eles, o que pesa mais é minha voz. Eu sou o que aponta. O que define. O que sentencia. E fora do portão, minha voz ecoa no rádio dos vapor, no celular dos gerente, e na alma dos que me devem.
Quem carrega meu sangue — ou meu nome — carrega peso. O Wander , meu filho adotivo, que o povo chama de Larva, é um deles. Moleque de 15 anos, criado na lama, mas com cabeça afiada. Eu tirei ele da boca quando ele tinha uns sete. Tava largado, fedendo a cola, tentando vender pedra que não era dele. Ia morrer. Mas eu vi o que ninguém viu: fome de viver.
Adotei. Criei. Ensinei. Hoje, é meu sangue sem ser meu. E é ele que vai herdar, quando o tempo pedir minha retirada.
Mas até lá… o nome Morte ainda pesa.
A rotina aqui é sempre igual: acordar com grito de guarda, café azedo, cheiro de mijo no corredor, e os fraco tentando sobreviver com as migalhas. Mas na cela 7, onde eu tô, é diferente. Aqui tem respeito. Tem geladeira, fogão, TV de plasma, cama de verdade. Tudo comprado com medo — e mantido com lealdade.
Na tranca, ficam comigo dois: o Gordo Abelha e o Nenzinho dos Campos. Gordo é meu segurança pessoal. Nenzinho, meu braço direito. Nenhum dos dois respira sem minha ordem.
Hoje é quinta-feira. Dia de visita íntima. A que vem hoje é a Lara. Morena, 1,70, rabetão, tatuagem até no lábio. É lá do Juramento. Subiu na firma vendendo droga e descendo calcinha pra subir de cargo. Eu não julgo. Cada um com a arma que tem.
Ela vem só por prazer. Não tem amor aqui. Eu não repito mulher. Uma por semana, no máximo. Me apaixonei uma vez na vida. Me custou cadeia. Não erro duas vezes.
Gordo — Chefe, chegou a Lara — avisou , na hora do almoço.
Dei um gole na coca gelada, respirei fundo. O cheiro dela já subia antes dela entrar. Perfume doce. Quase me enjoa. Mas corpo de mulher me distrai — e isso é perigo. Então já sei a regra: só usa. Nunca sente.
Quando ela entrou na cela, olhou com aquele jeito dela, sem vergonha, puxando o cabelo pra trás.
Lara — E aí, Morte. Tava com saudade da minha sentada? — ela sorrir — não te vejo desde quando estava na rua — ela soltou, se jogando no meu colo.
Segurei firme no pescoço dela, puxei devagar.
— Saudade não entra aqui, Lara . Aqui só entra t***o — Ela riu. Um riso debochado, atrevido. E eu deixei. Porque o controle ainda era meu.
Na cadeia, tudo se ouve. Mas quando é comigo, o silêncio impera. Ninguém questiona. Ninguém espiava a porta. Sabiam que ali dentro, o dono da p***a toda tava ocupado.
Quando ela foi embora, arrumando o vestido no corredor, o Nenzinho bateu na grade.
Nenzinho — Chefe, o radinho tocou. Tem problema lá no Alemão. Disseram que tão subindo uns moleque novo, batendo de frente com os nosso vapor.
Fechei a mão.
— Larva e o Cadu tá lá?
Nenzinho — Tá sim. E pediu pra ouvir sua ordem — Suspirei. A raiva veio quente, mas o controle era mais forte.
— Diz pro moleque que quem desafia nosso comando, cava a própria cova. Queima o líder e deixa os resto correr ..
Nenzinho — Confirmado — Fiquei ali, sentado na beirada da cama, olhando pro chão.
Tem dia que o peso do mundo é leve. Mas tem dia que até eu me pergunto: até quando?
Mas logo lembro. Eu sou o Morte. O fim de quem pensa que pode nascer livre.
O radinho do crime toca mais alto que o som da igreja.
Lá de dentro, escuto tudo. O que acontece no morro, o que acontece nas bocas, até quem deu calote na firma e tentou sumir. Não tem esquina no Complexo que não passe pelo meu comando.
Tem gente que acha que porque tô preso, tô afastado. m*l sabem que tem gerente na rua que não caga sem me mandar mensagem primeiro. O morro não precisa da minha presença, precisa da minha ordem.
E a minha palavra, quando sai, é lei.
Faz tremer até os que nasceram sem alma.
(…)
Hoje, depois da visita da Lara e da ordem dada sobre os moleque folgado que tão subindo errado no morro, sentei no canto da cela e pedi silêncio.
Gordo e Nenzinho entenderam na hora.
Peguei a carta do Larva, que tinha chegado no corre da manhã. O moleque não escreve muito bem, mas dá pra entender. Ele desenha mais do que fala — os rabiscos de fuzil, pipa, cachorro, e até de mim com coroa na cabeça.
“Pai, o morro tá mudado. Os menor tá sem respeito. Tô tentando fazer do jeito que o senhor ensinou. Só queria que o senhor tivesse aqui pra ver com os próprios olhos.”
Dobrei o papel devagar e deixei do lado da cama.
Ele me chama de pai, mesmo sabendo que o sangue dele é de outro homem. Mas pra mim, o que vale é quem cria, não quem goza.
O Larva é esquisito. Fala pouco, anda calado, mas tem um olhar que parece que escuta até pensamento. É frio. Mas eu vejo o fogo lá dentro. Ele só não aprendeu ainda a controlar.
O medo que eu tenho?
É o que vão fazer com ele quando eu não tiver mais aqui pra segurar a coleira do mundo.
Por isso, cada passo meu é pra garantir o que vem depois. O trono não pode cair na mão errada.
Bati na grade duas vezes. O Nenzinho veio.
— Manda subir o Cezinha da Penha , o baixinho que tá tentando se infiltrar na nossa boca?
Nenzinho — Esse mesmo.
— Quero ver nos olhos se ele é homem ou rato — Ele assentiu e saiu.
Enquanto isso, encostei na parede, respirei fundo. Cadeia fede. Mas eu já me acostumei a esse cheiro.
A liberdade fede mais. Fede a gente falsa, a promessas, a mulher que diz que ama e some quando tu cai.
Aqui dentro, pelo menos, eu sei com quem tô lidando.
Aqui dentro, eu sou rei.
Lá fora, eu era só um nome com fuzil.
Mas o tempo muda o homem. E o tempo aqui é diferente. A gente vive cada segundo como se fosse o último. E, ao mesmo tempo, morre devagar.
É uma contagem regressiva que nunca chega no zero.
Cezinha entrou algemado, dois agentes atrás. m*l olhou na minha cara.
— Me olha, p***a — falei baixo.
Ele levantou o rosto. Tinha medo no fundo da pupila — Tá achando que vai tomar espaço no meu morro?
Cezinha — N-não foi isso, Morte. Juro. Eu só… eu tava obedecendo o Manga. Ele disse que o senhor tava fora do jogo.
Eu ri.
Baixo. Lento. Quase carinhoso.
— Então o Manga mentiu pra tu… E tu acreditou? —!Ele não respondeu. A perna tremia — Gordo — chamei —, resolve.
Foi só isso. Cezinha saiu dali carregado, babando sangue e sem vida ..
Esse era o meu modo de resolver as coisas ..
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AMORES ME SIGAM NO INSTA @AUTORA_KE_POEYS