Abandono

2276 Palavras
Quando abriu os olhos, o rosto sorridente de Júlia foi a primeira coisa que Gisella viu. — Juju? — Gisella? Não se esforce. Como se sente? — Júlia disse, preocupada. — Um pouco cansada. — Respondeu Gisella. — Você perdeu muita energia, por isso, tivemos que te doar um pouco. — Falou Júlia. — E a Dilek? Pegaram ela? — Gisella perguntou, nervosa. Estava com medo de adormecer e ser surpreendida outra vez pela djinn. — Sim, a pegaram. Não se preocupe. — Falou Júlia. Gisella respirou aliviada e se permitiu voltar a dormir. Acordou quando começava a escurecer e percebeu que estava sozinha no quarto. Se descobriu e quando se sentou na cama e estava prestes a calçar os chinelos, percebeu com horror, um corte profundo um pouco acima do joelho esquerdo. Dava para ver parte de seu osso, embora não sangrasse. Aquilo não era nenhum pouco normal. — O que é isso? — Foi quando um flash invadiu sua mente. Dilek causara aquele ferimento. Mas será que aquilo voltaria ao normal ou cicatrizaria? — Não se preocupe? Isso cicatrizará em breve. Eu prometo. — Disse Kadir. Gisella ergueu a cabeça e viu Kadir parado em frente à porta. — Acha que consegue caminhar? — Kadir perguntou. — Quero que veja uma coisa. — O que? — Gisella perguntou, curiosa. — Vem comigo? — Kadir disse. Gisella seguiu Kadir até o porão, caminhando com dificuldade porque ainda se sentia frágil. O que viu a seguir a deixou atônita. Dilek estava ajoelhada em um canto, presa por uma coleira no pescoço – não qualquer coleira, e sim aquela que inibia seus poderes -. Furiosa, a djinn ameaçava a todos, falando em seu idioma. — Paguei aos policiais para que eles me entregassem ela. — Falou Kadir. — Por quê? — Perguntou Gisella, desconfiada. — Ela é uma djinn! — Falou Kadir. — Não tem ideia dos poderes dela! — Sei… Você quer bancar o Alladin agora? — Disse Gisella. — Quem? — Kadir não entendeu a referência e balançou a cabeça. — Não. Acredite que sei o que estou fazendo? Além do mais, ela é perigosa demais para ficar a solta. — Concordo. Vamos ligar para o hospital psiquiátrico? — Disse Gisella. — É inútil. Ela já fugiu antes. Fugirá de novo. — Kadir disse. — Sim, e vou rasgar sua garganta quando escapar dessa maldita coleira. — Dilek ameaçou Kadir. — Você vê? — Kadir disse a Gisella. — Se eu a deixar ir, ela nunca nos deixará em paz. Gisella encarou Dilek tentando encontrar em seu olhar qualquer resquício de arrependimento, mas tudo o que viu foi revolta, então se voltou a Kadir e assentiu, movendo afirmativamente a cabeça. † † † Alguns dias se passaram e Gisella convalesceu. Retornou ao colégio e se esforçou mais que nunca, conseguindo um bom desempenho. Realizou uma prova e, assim, terminou o colegial. Ingressou em uma universidade e conseguiu um estágio como enfermeira em um posto de saúde. Ela gostava do trabalho e também de seu uniforme – ela acabou se acostumando ao branco -.           Uma noite, chegou uma jovem fada para dar à luz. Era loira, com olhos azuis e pele pálida. Deu à luz a um menino lindo de olhos iguais aos seus.           Uma particularidade sobre os bebês feéricos é que todos nascem com o mínimo de inteligência e são capazes de falar ainda recém-nascidos, embora não o façam muito. Felizmente, Gisella sabia disso, por isso, não se assustou quando Ângelo – sua mãe ainda não havia lhe dado um nome, mas todos no posto de saúde o estavam chamando assim por causa de sua aparência angelical – perguntou por sua mãe. Gisella pegou o bebê e o levou até o quarto de Hannah – era esse o nome da mãe do pequenino -. Uma assistente social tentava convencê-la a não abrir mão da guarda do menino. — Eu já disse que não tenho condições de cuidar dessa criança. Fugi de casa. Meus pais nem sabiam que eu estava grávida. — Disse Hannah. — E o seu namorado? — Perguntou a assistente social. Hannah deu de ombros. Gisella suspirou, triste. Parecia que se via ali no lugar de Hannah. Não era nada fácil assumir uma responsabilidade como um filho, mas o pior, sem dúvida, era ter de se desfazer de uma criança inocente. “Não precisa ser assim”, Gisella pensou, “ela não precisa cometer o mesmo erro que eu, não precisa se separar de seu bebê”. — O que ele está fazendo aqui? Eu disse que não queria vê-lo, que seria mais fácil assim. — Falou Hannah virando o rosto. — Mamãe? — Disse Ângelo estendendo a mãozinha, tentando inutilmente alcançar sua mãe que agora chorava. — Segure o seu bebê? — Pediu a assistente social que se chamava Érica. — Não posso. — Disse Hannah. — Eu imagino o quão difícil isso seja para você, mas se escolher ficar com ele, os dois podem ir para um abrigo até você conseguir um emprego. — Falou Gisella. Ainda relutante, Hannah se virou e encarou seu bebê antes de pegá-lo e abraçá-lo. — Acho melhor os deixarmos a sós por um tempo. — Falou Érica a Gisella. As duas saíram do quarto, parando no corredor. — Que bom que ela mudou de ideia! — Falou Gisella. — Sim. — Concordou Érica. — Seria triste se outra criança acabasse em um orfanato. Vejo muitas adolescentes abandonando seus recém-nascidos porque não tem condições de cuidar dos mesmos. — Sim, isso é triste. — Falou Gisella. — Esse mundo é dominado pela pobreza, a ignorância e o machismo. As mulheres e as crianças são as que mais sofrem. O pior é que os governantes não se importam. Gisella voltou e empurrou a porta devagar, espiando por entre uma fresta Hannah e Ângelo. Ela brincava com seu bebê, o jogando para o alto e o pegando enquanto o pequeno sorria, contente. Gisella recuou, emocionada antes de ir atrás da enfermeira que a supervisionava.           Alguns minutos depois, Gisella foi mandada até o quarto de Hannah para saber se estava tudo bem e, também para levar um lanche a ela. — Oi? Olha só o que eu trouxe para a mamãe! — Gisella disse sorrindo enquanto se aproximava da cama da paciente. — Muito gentil, obrigada. — Hannah sorriu amarelo. — Tudo bem se eu ir rapidinho ao banheiro? — Tudo bem. O banheiro fica no fim do corredor. — Gisella pegou o bebê. — Obrigada. — Disse Hannah, antes de sair. Gisella percebeu que as fraldas de Ângelo estavam sujas e ficou com pena dele. Os olhinhos de Ângelo se encheram de lágrimas e antes de ele fazer um biquinho fofo, disse: — Quero brincar… Mamãe. — Calma, anjinho? Vou trocar suas fraldas antes. — Gisella deu um beijo no rostinho dele. Gisela trocou as fraldas dele e o ninou até que ele adormecesse. Então, se sentou na cama, esperando por Hannah. Ela estava demorando a voltar.           A porta se abriu bruscamente e um médico e uma enfermeira vieram nervosos. Antes que Gisella perguntasse o que aconteceu, a enfermeira disse que Hannah fugira. O médico perguntou se Gisella e a criança estavam bem, se Hannah não feriu nenhum dos dois quando fugiu porque ela parecia fora de si. Gisella respondeu que os dois estavam bem. A enfermeira saiu, deixando o médico e Gisella a sós. — E agora? — Gisella perguntou. — Terei de informar as autoridades e o menino, infelizmente, irá para um abrigo. — O médico balançou a cabeça, chateado. — Esses lugares são horríveis. — Ah, meu Deus! — Gisella encarou o bebê que dormia em seu colo. — Ou… — Disse o médico. — Um de nós pode levá-lo para a casa. Podemos dizer que a mãe voltou e o levou. O que me diz? Se não o quer, eu quero. Gisella desejou aquele bebê desde que o viu pela primeira. Ela já tinha perdido três bebês (o filho de Theodred e os gêmeos de Kadir) e Ângelo surgira de repente como um presente, mas ela não podia ficar com ele. Um dia, Hannah se arrependeria – como Maria se arrependera – e voltaria para reclamá-lo. Também tinha Kadir que poderia não aceitar criar um filho que não era seu. O casamento de Gisella era uma farsa que a qualquer momento terminaria e, novamente, o seu destino seria incerto. Que futuro poderia oferecer a uma criança? Nenhum. — Minha esposa é estéril, é por isso que eu o quero, mas você perdeu uma criança recentemente, não perdeu? Posso ler isso em sua aura. — Disse o médico. — Não posso ter um bebê porque não tenho nada para oferecer a ele. — Gisella entregou Ângelo ao médico. Ela nem era sua mãe, mas sofria porque também o estava abandonando. — Eu prometo que cuidarei dele como se fosse meu. — O médico disse a Gisella. — Eu espero que sim. — Gisella disse, enxugando as lágrimas que irrompiam de seus olhos. † † † Enquanto voltava para a casa caminhando de cabeça baixa e com as mãos nos bolsos de seu sobretudo, Gisella teve uma lembrança que a deixou ainda mais triste… Antes… Quando Maria tinha dezesseis anos se desentendeu com um primo mimado que era filho de Tiffany e por isso foi expulsa de casa. Naquela época, sua mãe vivia na casa de Tiffany. Maria fazia todo o possível para tolerar aquele pirralho m*l criado, mas um dia, quando ele gritou a plenos pulmões no ouvido dela, ela se estressou e lhe deu um t**a. Isso foi o bastante para que Tiffany a considerasse a vilã ali, ignorando que seu filho era um demônio encarnado.           Maria ficou vagando por aí usando roupas cafonas que conseguia graças a doações ou mesmo no lixo. Se sentia como um gato vira-latas abandonado pela própria família e tudo por causa de um pirralho maldito.           Um casal de sem teto cruzou seu caminho. A mulher disse a Maria que também sentia falta de suas roupas. Os dois aconselharam Maria a voltar para a casa e para o colégio para que tivesse um futuro melhor. Maria decidiu ouvi-los e voltou correndo, toda feliz, sonhando novamente com um futuro melhor, ela seria alguém importante e buscaria a filha que abandonara e juntas, seriam muito felizes.           Quando passava por um estacionamento, Maria viu os dois rapazes que trabalhavam lá, conversando. Eles tinham mais ou menos a sua idade e eram dois gatinhos. Maria e Júlia gostavam deles. Maria se atreveu a fazer o que sempre desejara fazer, mas que nunca tivera coragem: mandou um beijo soprado para o moreno antes de sair correndo outra vez. — Ei? Ninguém manda um beijo para mim e depois foge! — Falou o moreno rindo e foi atrás de Maria. Maria riu, achando aquilo divertido e se escondeu atrás de um muro, observando o moreno parado no meio da rua, de costas para ela. Ela fugiu, agora, um pouco nervosa. Talvez não tivesse sido uma boa ideia brincar assim com alguém que ela m*l conhecia.           Maria dobrou a esquina e chegou em sua casa. Não tinha portões, então, ela passou pelo jardim e seguiu pela varanda. Encontrou a porta da cozinha encostada e entrou. Tomou um susto ao perceber que sua família havia se mudado e a abandonado a própria sorte. Restaram apenas uns poucos móveis na casa como uma mesa redonda, um colchão e outras coisas que eles certamente não precisavam mais. Parecia que sabiam que Maria retornaria e, por isso, mesmo, foram embora, porque ela era um estorvo para eles. — Ah! Achei você! Então é aqui que você mora? — Disse o moreno que a seguira até ali. Maria se virou e o encarou, chorando. — Ei? Eu assustei você? Desculpe? — Ele disse sem graça. — Não foi minha intenção. Olha… Eu já vou. Está bem? — Não estou chorando por sua causa. — Falou Maria. — Posso saber por que então? — Ele inquiriu. — Minha família me abandonou. Fugiram de mim! — Maria disse. — Eu sinto muito. — Ele disse se aproximando dela. — Qual o seu nome? — Ana Maria. — Ela respondeu. — Você tem pra onde ir, Ana? — Perguntou ele. — Por enquanto ficarei aqui até o proprietário aparecer e me chutar para fora. — Maria respondeu. — Se quiser… Pode vir comigo. Eu posso arranjar um emprego para você na casa onde minha mãe trabalha. — Ele disse. — Eu não conheço você. — Maria disse. — E ainda assim, me mandou um beijo? — Ele riu. Maria virou o rosto, envergonhada. — Eu conheço você… — Ele disse. — É a garota mais bonita do bairro. Todos os finais de tarde, você passava pelo estacionamento quando voltava do colégio e olhava para mim antes de sorrir, mas apesar de sorrir, havia sempre um brilho triste em seus olhos. Nunca entendi porque se você parece ter tudo… Ou parecia. Maria deu de ombros. Nunca seria feliz porque sua vida era um inferno. — Eu sou o cara do estacionamento, isso você sabe. — Ele riu a fazendo rir. — É um prazer, meu nome é Adrian. Agora… — Adrian? — Gisella se lembrou de quando o conheceu e suspirou. Mais uma vez se perguntou como pudera trocá-lo por Kadir? Gisella entrou em casa e encontrou Valda na sala sentada no sofá e tomando chá. — Gisella? Tudo bem? — Valda perguntou ao perceber que ela chorava. — Não finja mais que se importa. — Disse Gisella antes de fechar a porta com uma batida e ir direto para o seu quarto.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR