Apesar de belo, Annwn não era um país seguro para se viver, especialmente na parte em que Gisella vivia com sua então, família.
Não poderia dizer o mesmo de outras regiões do reino, mas aquela, sem dúvida, era a parte mais sombria. Havia mais escuridão que luz e os dias eram sempre cinzentos e frios. Frequentemente, hordas de zumbis (não eram “zumbis”, mas Gisella os chamava assim por causa de sua aparência e de sua predileção por carne e sangue; na verdade, estes seres eram almas vampirizadas por vampiros de energia ou demônios) passavam por ali e quem se atrevesse a ficar em seu caminho era perseguido e se capturado, tornava-se um deles. Estes seres eram guiados por seus mestres até o umbral. Mas o que faziam por ali? Buscavam almas humanas de viajantes astrais (especialmente os que viajavam de forma inconsciente) e também de algumas pessoas que conseguiam fugir do umbral.
Como se não bastassem os zumbis, havia ainda, os ladrões que agrupados em cinco ou mais ficavam a espreita nas esquinas e na primeira oportunidade que tinham, abordavam e assaltavam as pessoas.
Gisella foi assaltada duas vezes, na primeira, acompanhava Valda ao mercado. A escuridão se aproximou e Gisella, pressentindo que algo r**m aconteceria, alertou Valda e ambas correram. Valda voou, envolta em uma névoa branca rapidamente e deixou Gisella para trás. Certamente, se esqueceu que ela não conseguia mais voar nem correr tão velozmente quanto antes.
Dois homens cercaram Gisella e ela tremeu, achando que eles fossem arrastá-la para algum lugar deserto e abusar dela. Felizmente, eles só roubaram a bolsa dela e fugiram. Com certeza, se desapontaram mais adiante porque na bolsa dela só tinha doces, um dicionário e outras coisas insignificantes para quem só queria dinheiro.
Gisella achou estranho que sua mãe sequer tivesse retornado para saber se ela estava bem. Voltou para a casa e encontrou-a preparando o almoço como se nada tivesse acontecido.
— Oh, você demorou! Por que demorou? — Valda disse, sorrindo.
“Vai ver, foi porque eu estava ocupada, sendo assaltada”, Gisella quis responder, mas conteve-se. Não sabia nada sobre as fadas e tudo que achava que sabia, estava errado, romantizado demais.
“Mas se fosse Evin nunca teria me deixado”, pensou Gisella antes de balançar a cabeça chateada.
A segunda vez que foi assaltada, Gisella estava na frente de casa com sua prima, Madison. Seis estranhos com uma aura sombria se aproximavam e a lerda da Madison se atrapalhou na hora de abrir o cadeado. Dessa vez, perderam suas bolsas com dinheiro e também alguns salgadinhos que tinham trazido para a família.
Gisella teria desistido de sair de casa se não fosse Valda tê-la matriculado no colégio. Gisella não queria mais estudar, em sua opinião era inútil. Melhor seria começar a trabalhar ou nem isso. Ela estava casada. d***a. E Kadir insistia em ser uma dor de cabeça para ela, então, nada mais justo que ele a mantivesse. Senão, qual o sentido de se casar em um lugar como aquele?
Humanos são naturalmente independentes e Gisella viera de uma família onde as mulheres eram todas independentes. Se a vissem agora se escondendo atrás de um homem, com certeza, a julgariam. Mas aquele era outro mundo. Um mundo onde todos tinham poderes e eram “perfeitos”. Um mundo onde mulheres solteiras não eram respeitadas como deveriam. O que ela podia fazer?
O único trabalho que conseguira enquanto vivera com os elfos fora como faxineira em um supermercado. Ela gostava do trabalho, mas ganhava pouco e tinha de dar tudo a Evin.
Agora, graças a sua avó Evandra, estava trabalhando como vendedora em uma loja que vendia variados objetos de decoração. Ganhava menos ainda e quando ofereceu o dinheiro a Valda, ela sorriu e disse que não precisava, então, pensou – e Gisella, pela primeira vez, ouviu seu pensamento – que não poderia fazer nada com aquela esmola.
Como ela nunca conseguia juntar dinheiro para comprar roupas, sapatos ou o que fosse, gastava tudo em doces. Com o tempo, deixou o emprego miserável e se dedicou apenas ao colégio que era no período noturno.
Gisella ficava indecisa sobre pedir ou não certas coisas que precisava a Kadir. Se por um lado, achava que deveria extorquir ele até ele se cansar e lhe dar o divórcio, por outro lado, seu orgulho não lhe permitia aceitar qualquer coisa que fosse dele. Por isso, ela pediu a Valda para falar com Tiffany para saber se Madison não teria algumas peças em seu guarda-roupas que não usava mais para lhe doar.
Dois dias depois, Tiffany trouxe algumas roupas novas e as entregou a Gisella, dizendo que era um presente. Gisella desconfiou que fora Kadir que comprara as roupas, mas como estava precisando muito usar algo decente para que as fadas em seu colégio deixassem de olhar com pena para ela, fingiu que acreditou na boa ação de sua tia.
O colégio era interno, mas a permanência nele não era obrigatória, portanto, Gisella retornava todas as noites para a casa. Em uma dessas noites, ela sentiu que estava sendo seguida, mas não deu muita importância, achando que fosse Kadir. Não era raro ele segui-la só para se certificar que ela não o estava traindo. Apesar de irritante, Gisella não reclamava porque se sentia protegida.
Uma vez, quando ela voltava do antigo trabalho e cruzava uma ponte sobre um córrego foi abordada por um anão impertinente que insistiu em lhe cantar. Para se livrar dele, Gisella disse que era casada com um homem muito ciumento que não suportava nem que olhassem para ela e mentiu que ele tinha uma coleção de olhos que guardava em potes de vidro com água em seu armário.
Disse que seu marido acabaria com ele sem a menor piedade, e para que tudo o que dissera soasse ainda mais convincente, falou que só o estava advertindo porque ele parecia ser uma boa pessoa. O anão deixou ela passar e no dia seguinte, quando a encontrou, pediu perdão por seu comportamento inconveniente.
Estava aí uma vantagem em ser casada com Kadir, a simples menção dele, espantava qualquer infeliz.
Alguém agarrou Gisella por trás e tapou sua boca, arrastando-a para escuridão. Gisella tentou resistir, mas sentiu uma corrente elétrica percorrer todo o seu corpo e perdeu a consciência. Ao recobrá-la, percebeu que estava em uma casa abandonada. Tentou se levantar e sentiu uma dor lancinante em sua perna direita. Um pouco acima do joelho havia um corte profundo feito por uma lâmina. Estranho como ela não sentira nada antes.
Uma pontada na cabeça e alguns flashes vieram em sua cabeça… Um djinn estranho a levara até aquela casa onde Dilek esperava por eles. Gisella despertou ao sentir a lâmina da faca perfurando sua pele e encontrou Dilek em cima dela sorrindo com malícia. A djinn disse algumas frases em seu idioma nativo antes de agredir Gisella e roubar sua vitalidade. Por isso, ela estava tão confusa porque perdera grande parte de sua energia.
Olhou ao seu redor procurando por uma saída. Havia duas portas, mas por trás de uma delas, certamente estaria Dilek. Gisella não podia arriscar e, por isso, preferiu a janela. Enquanto se arrastava até ela, uma das portas se abriu e por ela passou Dilek.
— Oh! Você acordou! Finalmente! — Dilek disse enquanto se aproximava segurando uma faca. — Achei que estava morta!
Gisella recuou, assustada e bateu as costas em uma parede. Dilek se agachou ao parar diante dela e aproximou seu rosto do dela. Gisella fechou os olhos com força se preparando para o pior. Dilek riu e disse:
— Não vou beijá-la, então… Pode abrir os olhos.
Gisella não queria abrir os olhos, mas achou melhor obedecer.
Dilek disse alguma coisa em seu idioma e Gisella achou que foi algum insulto.
— Eu disse que ia te m***r, não disse?! — Dilek fez questão de traduzir o que dissera há pouco.
— Pensei que fossemos amigas. — Gisella disse.
— Uma amiga de verdade não deixa a outra para morrer. — Falou Dilek.
— Eu não sabia. Ava mentiu para mim. — Disse Gisella.
— E você acreditou? Deveria ter voltado! Eu voltaria! — Dilek disse.
— Me perdoe? — Pediu Gisella.
— Só se você me perdoar depois que eu matá-la… — Dilek tocou a face de Gisella, drenando sua vitalidade.
A visão de Gisella começou a escurecer e seu corpo ficou dormente. Ela já não sentia mais dor, apenas cansaço e sono, mas sabia que se adormecesse, morreria.
Os sons de sirenes fizeram o cúmplice de Dilek vir correndo, informá-la que o esconderijo deles fora descoberto.
— Temos que ir, Dilek! — Falou o djinn, nervoso.
— Ainda não acabei com ela! — Disse Dilek com raiva.
— Problema seu, então. — Falou o djinn, antes de fugir pelos fundos.
Seis viaturas pararam em frente à casa e também um carro preto que as seguira até ali. Os policiais entraram prontos para capturarem os djins – depois que Gisella saíra, uma de suas colegas fora atrás dela para convidá-la para irem em um pub que inauguraria aquela noite e viu o djinn levando ela, ligou para polícia imediatamente – e flagraram Dilek drenando a vitalidade de Gisella.
— Se afaste dela! — Disse um dos policiais.
Dilek encarou o policial e seus olhos azuis flamejaram antes de ela sair correndo pelos fundos sendo seguida pelos policiais.
Gisella reuniu o restante de suas forças e saiu da casa. Quando estava na varanda, se aproximando do portão, viu sua família esperando por ela. Estavam todos ali, Valda, Kadir e suas irmãs. Ela caiu algumas vezes antes de ser amparada por Kadir e levada para o carro, onde, logo ao entrar, desmaiou.