Capítulo Quatro
THOMAS DINESH
A rua está deserta, e o medo percorre por minha espinha. E se eu trombar com Gabriel? Não... Isso é impossível. Mas e se for qualquer outra pessoa que apenas queira quebrar a minha cara?
Quando o vento gélido bate na minha pele, instantaneamente me arrependo por não estar usando uma blusa de frio. Esfrego as minhas mãos nos meus braços, mas não surte efeito. Estou a perambular por ruas que nunca vi antes, mas decorei o caminho. Em pouco tempo, estou passando pela casa de Tyna, e em alguma hora estarei em casa.
Ando o mais rápido que posso, os meus olhos alertas capitam qualquer movimento por mim. Passei por algumas pessoas enquanto andava, mas nenhuma pareceu se importar com a minha presença. Bom para mim.
O que Jace estava pensando quando fez aquilo? É muito mais que invasão de propriedade, também é dano ao patrimônio privado, e sabe-se mais o quê! Que i****a. Nunca que eu pensaria que ele faria algo assim. d***a, é Jace! O garoto tímido, quieto, deprimido... Eu não pensava que ele poderia pensar em fazer isso. Foi uma brusca mudança de comportamento. Eu não sabia que ele tinha esse lado.
Porra!
Chuto uma lixeira pelo caminho, e derrubo toda a tralha dentro dela. O odor rapidamente se alastra, e ando apressadamente quando vejo a luz de uma varanda se acender.
Eu não conseguia pensar em outra coisa a não ser isso. Que cuzão do c*****o! Ele sabe muito bem o medo que sinto, e mesmo que Billie tenha sido i****a conosco, ele não é diferente fazendo o que fez. Nem Tyna, nem Travis. Os meus pais estavam certos: sou eu por eu. Ninguém irá me entender, ninguém irá ficar do meu lado de verdade.
São apenas babacas com complexo de salvadores, mas que não passam da farinha do mesmo saco de onde Billie e Gabriel saíram.
Os meus olhos se enchem de lágrimas e, após andar tanto ao ponto de sentir os meus pés doerem, chego em casa. O meu pai ainda não havia chegado, como eu já esperava, e a minha mãe abre a porta com uma expressão confusa.
— O que aconteceu? — Ela me impede de correr até o meu quarto. — Tommy?
— Jace. Ele é um i****a, eu não devia ter acreditado nele. — Estou furioso, e as palavras saem depressa. — Eu não acredito que ele possa ser tão... Tão... Argh! — Cerro os punhos. Sinto a raiva se espalhando por todo o meu corpo, como uma doença.
Minha mãe abre caminho e me jogo no sofá, aos prantos. Estou chorando, mas não de tristeza. As lágrimas salgadas me fazem querer, ainda mais, dar um soco em Jace.
— Aqui. — Ela me entrega um copo de água. Em seguida, senta ao meu lado e passa a mão pelas minhas costas, em uma tentativa inútil de me confortar.
Após engolir um pouco da água, suspiro profundamente.
— Estávamos na casa da Tyna, como te falei. Fomos até lá porque ela estava triste com tudo o que havia acontecido com Billie. — Ela assente.
Eu sempre contava tudo para minha mãe. Bem, quase tudo. Ela é a pessoa que mais me entende, mesmo que não passe pelas mesmas coisas que eu e o meu pai passamos, ela simplesmente tem um ar de confiança, e me sinto á vontade para falar com ela sobre a m***a que quiser. Ela nunca julga, apesar de ser apreensiva. Além disso, é uma ótima conselheira.
— E ele disse que iríamos em um lugar, e que seria surpresa — prossigo — todos fomos para o seu carro, e eu percebi que Travis estava segurando uma caixa com tinta spray, mas pensei que já estava no carro, ou que sei lá, apenas nos divertiríamos com isso. Pensei que, como Jace sabe que gosto de desenhar, tivesse pensando em fazer algo legal, sabe?
— Sim. — Ela diz tão baixo que sai como um sussurro.
— Mas quando vi, estávamos na casa de Billie. Para você ter ideia, ele a seguiu hoje cedo, depois da aula. As tintas eram para nós picharmos sua casa. Eu simplesmente não acreditei naquilo. Não acreditei. Não sei como eles foram criados, bem... Jace é um mimado. Sente que tem poder sobre tudo e todos, é o que parece. — Revirei os olhos e terminei com a água. — Ele pediu para que eu ficasse no carro, vigiando a rua. — Meus pés doeram novamente, e tirei o tênis. — Eu não falei nada, esperei eles estarem longe o suficiente e fui embora.
Minha mãe apenas olhou para mim, e depois comprimiu os lábios, pensando no que falar.
— Você agiu certo voltando para casa. Mas... O que te faz pensar que Jace está errado em puni-la? — A forma que ela perguntou, não foi acusadora. Ela não se posicionou, ficou nítido que apenas queria a minha opinião.
— Se pagarmos os ''vilões'' com a mesma moeda, o que nos diferencia deles? — Fiz aspas com os dedos. — Todo o mundo pensa que é necessário vingança, se impor de forma violenta, e que se fizermos o oposto estaríamos a aceitar o papel de oprimido. Mas essas pessoas não sabem o que falam. — Coloquei o copo na mesa, encostei no sofá e encarei a luz até que os meus olhos ardessem. — Eu escolho ser bom. O tempo todo. Me esforço, pelo menos.
— Eu entendo, Thomas, de verdade — Levantou-se e foi até a cozinha. A segui com os olhos. — Mas tome cuidado, okay? Você precisa se defender quando for necessário.
— Sei disso. — Levantei e senti o doce aroma do jantar. — E mãe, eu tirei total em um trabalho hoje. — Não evitei um sorriso.
— Você nunca nos desaponta, querido. — Disse.
Como é bom estar em casa.
No outro dia, acordo com os pés latejando. Não me impressiono ou fico espantado, eu havia andado muito na noite anterior. Seria difícil olhar para Jace (e Tyna e Travis), até mesmo para Billie. Eu apenas sentia uma grande revolta dentro de mim.
Tomei um rápido banho e decidi que hoje eu ficaria bem comigo mesmo. Cuidaria de mim, porque será sempre assim. Estava cheiroso, com o cabelo perfeitamente arrumado, roupas limpas e novas, e sinceramente, estava feliz com a minha aparência pela primeira vez em muito tempo. Eu deveria fazer isso com mais frequência.
Ao pegar o meu celular, vi que tinham diversas mensagens dos três, mas ignorei. Peguei a minha mochila e andei pelas ruas do bairro.
O tempo estava do jeito que adoro; o céu limpo com algumas nuvens, nem muito quente, porém frio o suficiente para usar um moletom. Nos meus ouvidos, Flora Cash está tocando You're Somebody Else pela terceira vez - fazer o quê? Me identifiquei.
Eu havia me acostumado com a escola, com as pessoas e até mesmo com Gabriel. Ainda sou ansioso, e vivo com medo de algo r**m acontecer comigo ou com a minha família. Esses pensamentos levam-me de volta ao dia anterior. m***a.
Aumento o volume do celular e paro na calçada. Fecho os olhos, sinto o sol por meu rosto e o vento me refrescar.
Sou obrigado a remover os fones de ouvido no instante em que piso no prédio.
— VOCÊ É UM o****o! FILHO DA p**a! — Billie está aos prantos. O seu cabelo está parcialmente preso em um r**o de cavalo, o rímel escorrendo pelo rosto e está a tremer como nunca. Gabriel está parado na sua frente, com uma expressão de puro desentendimento. É claro que não está entendendo nada.
— Billie, podemos conversar em outro lugar? Eu não sei do que... — Gabriel aproximou-se dela e tocou o seu braço. Cara, tá pedindo para morrer?
No instante em que ele faz isso, Rainbow o dá um t**a no rosto. Foi tão alto que poderia ser ouvido de alguma sala de aula. O rosto de Gabriel cora, ficando fortemente vermelho na região atingida. Ele apenas ficou boquiaberto e afastou-se dela.
Os alunos ao redor estavam chocados, alguns filmando. Ninguém iria tirar ela dali?
Ao passar os meus olhos pela multidão enquanto Billie continuava a gritar, vi Jace. Ele estava afastado, encostado nos armários com a expressão séria. Se divertindo, aposto. Não achei Travis nem Tyna, talvez estejam se escondendo, com vergonha do que causaram.
Eu poderia acabar com isso. Poderia falar a verdade. Assim que dei um passo para frente e abri a boca para falar, senti o meu corpo ser puxado para trás.
— Vem agora. Anda.
Uma garota loira, muito parecida com Billie, havia me tirado de seu caminho e passou na minha frente. Agora, ela estava a puxar Billie para o banheiro feminino, e em poucos segundos as pessoas cansaram e voltaram a fazer o que estavam fazendo.
Ao olhar para onde Jace estava, não o encontrei.
Na sala de aula, o professor de biologia deu uma palestra sobre preservativos.
Todos da escola já sabiam que Billie havia realmente abortado e o que havia acontecido no seu jardim, mas ninguém se atrevia a falar muito sobre. Era Billie, a garota mais velha, popular e ex de Ian Anderson. Poderia acabar com a vida social de quem quisesse.
Antes que o professor pudesse finalizar a sua sentença, batidas vieram do outro lado da porta. Enquanto ele se ocupava para ver quem era, Tyna começou a me chamar.
— Thomas, por favor, fala comigo — ela bufou. Revirei os olhos e arrastei a minha cadeira para frente. — Você não pode fugir para sempre.
Me segurei para não olhar para o outro lado da sala e ver Travis, ou olhar para o canto no fundo e ver Jace. Mesmo assim, sentia os seus olhares sobre mim. Fechei os olhos e respirei fundo.
— Aluna nova? Sorte que ainda estamos no início do bimestre, não é mesmo? — Ouvi o Sr. Coast sussurrar.
A garota que eu havia visto mais cedo puxando Billie (e percebi que também era a que vi no vídeo que enviaram no grupo) entrou na sala. Cabelos ondulados e loiros que percorriam até a cintura, olhos castanhos e um rosto perfeito. Parecia aquelas sereias de filmes fictícios que te encantam e, assim que colocam as unhas em você, te devoram.
— Pessoal, conheçam Jane Rainbow. Ela será a nova colega de vocês. Sente-se, querida. — O professor falou com o seu forte sotaque. Jane olhou em volta e andou até a minha fileira, indo para a última cadeira. Quando passou por mim, os meus pelos se arrepiaram com o vento frio.
Ela é semelhante á irmã em alguns aspectos físicos, mas, ao mesmo tempo, é extremamente diferente. Os cabelos de Billie são lisos, sempre aparentam estarem sujos, e por onde ela anda, se vê caos. Possui amargura apenas no olhar, sempre com pose de superioridade. Já a mais nova, tinha a serenidade de uma bailarina. Mas ela estava presente no vídeo, então não deve ser a pessoa que aparenta.
O meu corpo se movimenta para trás, apenas para eu vê-la encarando-me de volta. Ficamos assim por exatos cinco segundos - não que eu tenha contado - até que a minha visão foi para Tyna, mas ela não manteve o seu olhar fixo ao meu por muito tempo.
— Posso ir ao banheiro? — Tyna levantou a mão.
No intervalo, a mesa estava desocupada. Fui até lá e me sentei. Faz tempo que não desenho, foi o que pensei quando toquei no meu caderno. Felizmente, nunca ando sem meu sketchbook. Passo o meu polegar por ele até encontrar uma folha branca. Pego o lápis e deixo os meus sentimentos guiarem-me.
Faço linhas, esfumo, rodopio a ponta do lápis e, antes que eu possa finalizar, escuto um pigarro ao meu lado.
— Gabriel? O que está fazendo aqui? — Pergunto.
O garoto parecia transtornado, o rosto com algumas partes vermelhas e arranhadas.
— Eu preciso saber o que aconteceu. Você sabe de algo que não sei? — Seus olhos desesperados encararam os meus. Pareciam implorar por ajuda. — Thomas, sei que me odeia, mas por favor, eu não sei o que está havendo. Billie não quer falar comigo, e...
— Sinto muito, Gabriel. — Falei. — Mas não posso te ajudar com isso.
— Ele já sabe, o Ian. Sabe que ela esteve grávida, e p***a, não era. É meu. Quer dizer, era. Eu acho. — Se inclinou, sussurrando. — E eu nunca faria isso com ela. Se Billie realmente fez o que as pessoas estão a dizer que ela fez... Eu nunca a perdoaria por não ter me contado antes. Então me fala, Thomas. Travis está sabendo de algo? — A sua mão foi para meu punho, apertando-o.
— Travis não é meu amigo, nunca me contaria algo se soubesse. Eu realmente sinto muito por tudo. — Respondo, e ele finalmente me solta.
Antes de se levantar e ir embora, Gabriel bufa e apenas resmunga algo como ''m***r quem fez espalhou isso''.
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Silêncio.
Ninguém se atreve a abrir a boca quando o homem alto e furioso caminha pelo salão.
— ONDE ESTÁ MINHA FILHA?
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O céu já não está como antes. O sol se esconde timidamente entre as nuvens, e antes de ir embora, deito na grama gelada. As folhas da árvore em cima de mim tampam a claridade. Lembro que não havia finalizado o meu desenho, então pego o caderno e o termino.
Uma bailarina.
— Está ocupado? — Não preciso olhar para cima e ver que Jace está bloqueando a pouca claridade como uma nuvem n***a.
Não o respondi, apenas fechei o caderno e me sentei. Mantive os meus olhos fixos no tronco em minha frente enquanto ele se sentava também.
— Eu sei que... — Jace parou de falar quando a sua voz falhou. — Eu sei que está chateado comigo. Não espero que me desculpe, mas espero que algum dia possa olhar no meu rosto novamente e não sentir enjoo.
Vendo que eu não responderia, Jace apenas pegou o meu caderno e o folheou, até parar no seu desenho. Ele com o seu moletom de sempre, sentado em uma cama e tocando guitarra.
— Oh, eu não vi isso antes — olhou de perto — ficou muito, muito bom.
— Dá para parar de puxar o meu saco, Jace? — Disparei. Foi a primeira vez que o olhei desde que se sentou ao meu lado.
— Eu n... — Ia dizer algo, mas fechou a boca.
Jace apenas se encostou no tronco na minha frente e bufou.
JACE MILLER
Falar com ele era difícil. Primeiro porque eu não tinha as palavras certas, e segundo porque, na verdade, eu não me arrependia.
Encostei no tronco na sua frente e pensei direito. Ele não quer as minhas desculpas, não quer que eu insista, eu já o conheço o suficiente para saber isso. Ele quer que eu pague pelo que fiz.
— Vi o meu pai traindo a minha mãe hoje. — Falei. — Não sei por que digo isso, mas eu precisava falar com alguém, e só confio em você.
Thomas olhou para mim, e pude ver pena nos seus olhos.
— Como foi? — Perguntou.
Ah, eu me lembro bem como foi. Nunca irei esquecer.
— Levantei mais cedo porque precisava terminar um trabalho, e assim que passei pelo corredor para ir ao banheiro, os vi pela janela. Ela estava indo embora, estavam se despedindo. Minha mãe estava na outra fazenda resolvendo papeladas para a venda.
Não mencionei que a mulher que estava com o meu pai era a Sra. Willis, mãe de Gabriel e Travis.
— c*****o, sinto muito. Você vai contar para ela?
— E ver a minha família se separar? Nem fodendo. Vou ser mais esperto e ameaçar o b****a do meu pai. Ele vai ficar na minha mão por um bom tempo, sabe? Ele não quer se divorciar porque tem medo de morrer sozinho.
— Isso é errado, Jace. — Ele falou com julgamento.
— Sabe o que é errado, Tommy? — c*****o. — Você achar que o mundo será justo com você apenas porque você tenta ser bom. Eu estou pouco me fodendo se alguém que não gosto está recebendo o que merece, isso acontece uma hora ou outra. O que faço é me importar com as pessoas que amo e cuidar delas, custe o que custar. Não vem tentar dar uma de superior, você não entende p***a nenhuma de Kansas City, ou de Estados Unidos! — Me levantei.
As minhas veias estavam pulando, o meu pulso coçando e implorando para ser arranhado novamente. As lágrimas brotavam nos meus olhos, não pela raiva, e sim porque pensei que ele entenderia.
— Vá se f***r, seu b****a. — Thomas também se levantou, pegou o caderno de desenhos e arrancou o desenho que fez de mim. O amassou e jogou no chão. — Você não passa disso, de qualquer forma. Um grande merdinha, que acha que jogar as suas insatisfações em outras pessoas é o certo. f**a-se você, f**a-se Tyna, f**a-se Travis e f**a-SE ESSA ESCOLA! — Thomas saiu, me deixando parado o olhando ir.
E fiquei ali, boquiaberto, vendo Thomas andar pela passarela, passar pelo estacionamento, cruzar a rua e virar a esquina, sumindo de vista. Ele havia surtado de vez.
Eu não sei o que vou fazer para ganhar a confiança de Thomas novamente. Não sei o que devo falar, e aparentemente sempre que tento melhorar algo, acabo piorando. Me sinto impotente, fraco, e simplesmente não sei de onde tirar forças para continuar. E nem sei se devo.
Ando pelo estacionamento com Tyna e Travis, nós três sem trocarmos uma única palavra até encostarmos na minha picape.
— Pelo menos ela desviou um pouco da sua atenção — Travis falou — melhor ela cuidar da vida dela, do que da nossa. — Observei os músculos do seu braço de baixo daquela blusa azul marinho, e segui até o seu cabelo loiro. — Perdeu algo, i****a? — Perguntou. Balancei a cabeça várias vezes e desviei o meu olhar até o outro lado do estacionamento.
Gabriel, Ian, Dave e Jane Rainbow estavam encostados em uma BMW preta, provavelmente conversando sobre Billie. Antes que eu pudesse pensar em outra coisa, Gabriel veio na nossa direção.
— Deixem comigo. — Travis olhou para nós.
— Vocês sabem de algo. Eu sei que sabem! — Gabriel apontou o dedo no rosto de Travis. — Desembucha, irmão.
— Eu não tenho nada para te falar, c*****o — Travis deu um t**a na mão de Gabriel — sabe o que aconteceu? Você e Ian estavam comendo a mesma garota, ela engravidou, abortou, e agora está doida da cabeça porque além dos pais quererem a m***r, ela ainda não sabe quem era o pai.
Nunca vi um pulso girar tão rápido na minha vida. Travis foi atingido uma, duas, três vezes até eu conseguir raciocinar e tentar segurar Gabriel.
— PARA COM ISSO, p***a! — Gritei.
O puxei pelos braços, e precisei usar toda a força do meu corpo para fazer Gabriel sair de perto dele.
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Nunca vi Thomas dessa forma. Transtornado, cheio de adrenalina e medo.
— Precisamos sair daqui, vamos, Thomas — tento o puxar, mas é em vão. Decido não forçar nada, porque só o deixaria pior.
— É minha culpa, estou morto, Jace. — E, em um ato de desespero, ele puxa a minha blusa.
Ficamos abraçados naquele banheiro, a pia repleta de sangue e uma blusa jogada na lixeira. A sua pele está fria, e apenas consigo pensar no que vem pela frente.
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Dirijo até os fundos da escola, onde geralmente os drogados ficam. Deixo o carro estacionado de mau jeito e sinto o meu baseado no bolso.
Antes essa era a quadra, mas agora é apenas um espaço abandonado, com a grama amarela e arquibancadas caindo aos pedaços. A nova quadra da escola fica dentro do campus, o que impossibilita que estanhos a invadam, como aconteceu com essa.
Um grupo de adultos sentados no chão me olham com curiosidade, mas passo por eles e não mantenho contato visual. Sigo até a ponta da arquibancada e me sento lá. O céu está fechado, e logo uma tempestade vai cair. Consigo sentir.
Tiro o cigarro do bolso da calça e o isqueiro do moletom. Cara, como senti falta disso.
Me acomodo na arquibancada, mas qualquer posição me deixa desconfortável, então apenas deito. Aos poucos, sinto os meus olhos ficarem diferentes e a minha respiração ficando lenta.
— Me passa essa m***a. — Escuto a voz de Billie.
Depois da briga no estacionamento, a vi correndo para cá, a pé. Eu já sabia que ela não passava de uma drogada ridícula, e talvez a minha mente esteja muito pesada desde o que aconteceu. Mas não me arrependo.
Dei uma longa tragada e passei para ela. Não me dei o trabalho de abrir os olhos e enxergar onde estava, mas senti que estava ao meu lado.
— O que é isso no seu pulso? — Perguntou. d***a, deve ter visto quando estiquei o braço.
— É autoexplicativo. — Respondi, e ela colocou o cigarro de volta nos meus dedos.
— Você é i****a pra c*****o, Jace. Eu sei que foi Travis, e que você sabe disso. — Meu coração parou nesse momento. Juro, eu pude sentir.
— Como descobriu? — Tentei ficar calmo, mas era impossível.
Ainda de olhos fechados, a escutei sussurrar no meu ouvido:
— Foi um blefe.
Em seguida, a escutei descer da arquibancada com o som agudo das suas botas contra a madeira.
Porra.
Em casa, não me importei se estava com cheiro de maconha. Os meus pais já sabiam dessa m***a.
— De novo, Jace? — Escuto o meu pai perguntar. Não dou a mínima, apenas continuo a andar pela gigante casa. — Ei, estou falando com você! — Ele me empurra contra a parede. Não consigo segurar a risada. — Está rindo do que, c*****o?
— Nem a mamãe fica tão brava quando eu fumo. — Digo e ele me solta.
Observo o jardim pela janela, sempre bem cuidado. Ninguém imagina o que se passa dentro dessa casa.
— Ela se importa muito com você. Só não quer ser chata e fazer com que você a odeie.
— Uhum — digo, passando pela cozinha. Abro a geladeira e pego o leite.
— Você está pelo menos ouvindo o que estou dizendo, p***a?
Coloco o leite lentamente no copo. Que fome.
— Não sou s***o. — Fecho a garrafa de leite e a guardo na geladeira. Em seguida, agarro um pacote de cookies. — Assim como você não é. Então escute o que tenho para te dizer: senhora Willis. Familiar, não é?
— Claro que é familiar. Ela é a compradora da fazenda. — Ele pareceu confuso, o que me fez rir ainda mais.
— Ela é muito familiar para você, aposto. — Dei um gole no leite. — Da próxima vez, a mande sair pelos fundos.
Coloquei o copo e os biscoitos na mesa e me joguei na cama. Que dia cansativo, p***a.
Não consigo parar de pensar no Tommy, na m***a que fiz ontem, na minha mãe, na Billie... Estava tudo desmoronando, caindo aos pedaços, e mesmo que eu tente pegar os pedaços e colocá-los juntos, nunca é o suficiente.
Conhecer Thomas mudou a minha vida. Finalmente, eu tinha uma pessoa para conversar, desabafar, uma pessoa que não me julgasse e me entendesse completamente. Mas então, estraguei tudo.
Abro a mochila e vejo o desenho que ele havia feito de mim. A guitarra está idêntica à minha. Ele puxou o papel tão forte que quase rasgou a página. Me endireito, sento na cama e vejo o meu reflexo no espelho ao meu lado; estou balançando ou é a maconha? É a maconha.
As minhas olheiras pioraram, o meu cabelo nunca esteve tão bagunçado e aparento fraco. Não apenas aparento, estou fraco. É uma m***a me sentir assim, porque apenas pareço um ingrato. Talvez eu seja.
Pego o meu celular, e vejo que não há notificações. Nem mesmo de Billie me xingando, de Travis querendo me dar um soco por admitir, sem querer, que havia feito aquilo. Nada.
Acho que ser eu é estar ciente que a minha vida sempre será assim. Um grande e profundo nada. Uma solidão interminável, saber que sempre estarei sendo abandonado, sempre serei um i****a e as pessoas sempre irão sair da minha vida. Ninguém ficará. Nem uma única alma sequer.
Abro a gaveta da escrivaninha ao meu lado, e de um comprido pote tiro um estilete. Retiro a blusa de frio, e deixo os meus olhos se acostumarem com as marcas, que se estendem até o meu antebraço. Ridículo, um monstro. Não tenho mais espaços.
Por que não termino o trabalho? Não há mais nada aqui, de qualquer forma. Não preciso me preocupar com cartas, bilhetes... Talvez um para minha mãe. Ela merece saber que o seu filho é um fodido. Pelo o menos, não estarei mais aqui para ver a sua reação.
Enquanto pego um pedaço de papel e escrevo, espero lágrimas caírem. Mas nada. Um absoluto nada.
Não há nada que me pare agora, estou certo de que está na hora. Não tenho esperanças em mim, me decepciono assim como decepciono a todos que estão, de alguma forma, inseridos na minha vida. Seria tão mais fácil se tudo... Desaparecesse.
Dobro o papel e o deixo em cima da cama. Com passos fortes e decididos, vou até o meu armário e despejo todos os remédios que tenho em cima da cama. Remédios para dor, problemas de estômago, ansiedade e antialérgicos. Cinco cartelas, cada uma com cinco ou sete comprimidos.
Tiro os remédios das cartelas. Ao mesmo tempo que estou com medo de dar errado e eu ficar com sequelas, não vou dar para trás. Não vou ser um covarde bem agora. Portanto, tomo os remédios com a ajuda do leite que estava ao meu lado.
Olho para a janela, vendo a minha mãe cuidar dos cachorros. Em seguida, puxo a cortina e o quarto parece ser engolido pela escuridão. Tranco a porta e deito em minha cama.
Apenas apago quando a chuva aparece.