Capitulo Cinco
THOMAS DINESH
Jace não apareceu na escola.
Nem no dia após a briga, nem nos outros três seguintes.
Olho para sua cadeira vazia, o meu coração palpita e dói por sua falta. Antes que a professora pudesse concluir a frase, Tyna abriu a porta da sala com um olhar assustado. Os seus cabelos voavam como se estivessem a levitar ao seu redor, e eu sei que algo aconteceu. Todos os olhares vão para ela.
— Thomas, você precisa vir comigo. — Deu uma pausa para respirar. — Jace está no hospital.
Sem conseguir processar direito a informação, pego a minha mochila e deixo o local sem olhar para trás.
Travis nos esperava no estacionamento, o rosto sério. Assim que me vê, apenas entra no seu carro e o liga.
— Ele tá bem? — Pergunto.
— Não. Ele não está. — Travis responde. — O meu pai me ligou assim que ficou sabendo. Ele tentou se m***r. — Travis m*l conseguia pronunciar as últimas palavras, a sua garganta parecia estar seca.
Olho para Tyna, e ela não esconde as lágrimas. Tudo que vem na minha mente é a briga que tivemos. Se aquilo não tivesse acontecido, ele provavelmente estaria bem agora.
Seguimos o caminho sem trocar nenhuma outra palavra, o clima estava tenso, e não conseguíamos pensar em outra coisa. Travis não tirava os olhos da estrada, Tyna ainda chorava no banco de trás. O meu coração se apertou ainda mais ao vê-la assim, já que costumava sempre ser animada, e nunca a vi tão machucada quanto agora.
Eu só queria saber qual era o estado dele, mas aparentemente Travis não sabia muito sobre, apenas que Jace estava muito m*l. Pensei no que as pessoas estariam fazendo na sala de aula neste momento, já que Tyna falou para todo o mundo. Mas agora, esse era o menor dos nossos problemas.
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— Vai ficar tudo bem, estou com você nisso. — Jace disse quando o homem se retirou.
— Não vai, c*****o, estou fodido. — Bufei.
— Você vai ficar bem, Thomas — ele sentou-se na minha frente e segurou as minhas mãos trêmulas — confie em mim. — Seus olhos verdes me olharam profundamente.
Era impossível não me sentir levemente confortável ao olhar de volta para eles.
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Travis desliga o carro ao deixá-lo no estacionamento do hospital, e assim que entramos, somos recebidos pelo pai de Jace.
— Vocês chegaram. — Seu rosto está vermelho, e vejo a mãe dele sentada num banco, o olhar fixo no chão. — Antes que entrem, saibam que ele ainda está muito sensível. Tentem não tocar muito no assunto, ele não está pronto para isso ainda... Só... — Ele passou a mão pela barba grisalha.
— Tudo bem, Sr. Miller. Teremos cuidado, não se preocupe. — Falei, os dois concordando comigo.
Eu não sabia da existência desse hospital. Era muito bonito, organizado e limpo. Mas é claro, a família de Jace é rica, e fico contente por ele estar tendo os cuidados necessários.
— Eu o encontrei no seu quarto. A porta estava trancada e passei horas o chamando, até que abri com a chave reserva. Os médicos disseram que... Se eu tivesse demorado mais um pouco, ele não estaria vivo. Isso é tudo o que precisam saber. Venham, vou os levar até o quarto onde ele está.
Dito isso, o homem de cabelos brancos e olhos extremamente verdes nos entregou crachás e nos guiou até um longo corredor, deixando a Sra. Miller encarando o chão.
Todo o hospital era bem iluminado, mas não exageradamente. As decorações variavam entre branco e tons de azul, passando um conforto através das cores. Nos aproximamos da porta do quarto 3B, onde Sr. Miller nos deixou.
— Ele vai gostar de ver vocês — o seu olhar demorou uns segundos em Travis — sejam delicados.
Ele estava dormindo.
O quarto onde estava era super arrumado. Ele estava em uma maca, haviam alguns aparelhos ligados ao seu lado, duas poltronas extremamente confortáveis e uma mesa de cabeceira no local.
A janela com grades no lado norte da sala deixava escapar um vento levemente frio, e as persianas, mesmo que parcialmente fechadas, balançavam e batiam entre si. Entretanto, ele estava coberto por um edredom.
Os seus cabelos pretos caíam por seus olhos fechados, a sua boca estava branca, e a sua pele, mais pálida que o normal.
— Vou comprar algo para comer. O que vocês querem? — Tyna perguntou.
— Só um café, por favor. — Travis respondeu e sentou-se na poltrona.
— Também, mas descafeinado. — Tentei sorrir e acenei com a cabeça, sentando-me ao lado de Travis. — Você acha que ele vai demorar a acordar? — Digo, olhando para meus dedos e mordiscando o lábio inferior.
— Espero que não. — Respondeu. — Ele é f**o de olhos fechados.
Rimos baixo, apenas para descontrair.
— O seu... O seu nariz, Travis. — Escutamos uma fala arrastada.
Jace, que antes estava de costas para nós, se vira com certa dificuldade.
— Jace — me levantei — precisa de ajuda com algo? Como você está se sentindo?
Os seus olhos estavam inchados e vermelhos.
— Nah, tá tudo bem. Eu tenho horário para comer, as enfermeiras entram aqui umas cinco vezes ao dia com comidas com gosto de plástico com corante. Se eu pudesse, já estaria comendo um cachorro-quente, daqueles bem podres. — Falou enquanto se ajeitava, apoiando as costas no travesseiro. — Chegaram agora?
— Sim — Travis respondeu — agorinha. Tyna saiu para pegar café, já deve estar voltando.
— Vocês devem estar me odiando agora, não é? — Ele parecia envergonhado. — Me sinto e******o.
Me lembrei do dia em que vi as marcas no seu pulso. Obviamente ele não estava bem, e eu simplesmente ignorei. Não falei nada, como pude ser tão i****a e egoísta? Passei tanto tempo o julgando por seus erros e olhando para meu próprio umbigo que apenas dei as costas quando ele precisava de mim.
— De forma alguma, Jace.
— É, não viaja, cara. Estamos aqui pra você. — Travis respondeu.
Nesse momento, a porta foi aberta e Tyna entrou segurando uma bandeja com três copos de café.
— Oh, Jace, você acordou! — Ela largou a bandeja no meu colo e foi até o garoto deitado na maca. — Estou tão feliz por te ver bem — disse enquanto o abraçava.
— Tyna, relaxa — ele falou — não chore, vamos. Pare. Isso me faz sentir pior... Por favor, não chore. — Ele a olhou, desconfortável.
A garota secou as lágrimas e riu nervosamente. Era estranho os ver tão próximos, já que sempre percebi que Jace possuía uma certa apatia por Tyna, mas me sinto feliz por saber que somos agora todos bem unidos.
— O importante é que você está aqui. — Ela disse, os olhos azuis marejados como um oceano. Travis se levantou para que ela pudesse sentar, e em seguida pegou um dos copos de café. — Sinto muito, eu não trouxe para você...
— Eu não posso, de qualquer forma — Jace a interrompeu. — Relaxe, por favor. Então, o que perdi?
Eu, Tyna e Travis nos entreolhamos. Os dias haviam sido difíceis, e nem sabíamos por onde começar.
— No primeiro dia em que você não foi para aula, muita coisa aconteceu. Nós sabíamos que você se entregou pra Billie sem querer, mas... Tá tudo bem. Ela ia descobrir de qualquer forma — Travis falou — além disso, eu já estava planejando contar para Gabriel.
— É reconfortante saber isso — Jace não nos olhava diretamente, provavelmente com vergonha — achei que tinha estragado tudo.
— Tudo já estava estragado de certa forma. — Respondi. — Porque entreguei vocês a Gabriel no outro dia. Estava cansado de guardar, e bem, ele me deu um soco no meio da fuça que me fez girar. Ele sabia que eu não estava envolvido, mas ficou puto por eu ter escondido. — O mostrei a marca que ainda estava no meu rosto.
— Por pouco ele não conserta o seu nariz. — Jace deu uma curta risada, e o olhei com carinho. Foi a primeira vez que o vi sorrir de verdade nessa semana.
— E dai Travis me achou. Eu estava caído na grama do campus, meu rosto ensanguentado. m*l sabia soletrar meu nome.
— Descobrimos que o pai era o Gabriel. Tem noção disso? Isso é fofoca forte... — Tyna disse enquanto balançava os seus cabelos exageradamente. — Ian ficou triste e não olha mais na cara deles. Está a sentar sozinho. Quer dizer, ele ainda tem o seu irmão, mas não acho que conta.
Impressão minha ou vi um vislumbre de decepção no rosto de Jace?
— Isso é deprimente.
— Derisse lançou as notas, e pegamos as suas. Parabéns, não está de recuperação. Só Travis, porque ele dorme durante todas as aulas e não sabe a diferença entre um tubarão e um pássaro.
— Você realmente vai me chamar de burro na minha frente, Tyna?
Enquanto os dois fingiam uma discussão, apenas olhei para Miller novamente. Aparentava estar fraco, os olhos perdidos pelo quarto. Ele não estava aqui, não estava presente. Consegui sentir que ele estava a tentar ao máximo, mas algo estava entalado no seu peito. Ele estava gostando de estar com os amigos, mas precisava mais que isso. Precisava de espaço para ser ele mesmo. A minha dúvida é se ele sente ter esse espaço comigo.
Sei que somos bem próximos, mas é diferente. Nem sei se ele está pronto para conversar sobre isso comigo. De qualquer forma, o que importa é que ele está tendo ajuda de médicos, enfermeiras e psicólogos. Profissionais que podem, de fato, o ajudar.
— Quando você vai sair?
— Preciso ficar aqui por mais uns dias, em observação. Depois, o psicólogo vai me dizer se posso ir pra casa ou para uma clínica.
— De qualquer forma, vai ficar tudo bem. Estamos aqui, okay? — Tyna disse, sentando na beirada da maca.
Ela o abraçou novamente, e me juntei. Em seguida, Travis se aproximou também. Senti as lágrimas aquecerem as minhas bochechas, mas as limpei na manga da blusa. Não queria que Jace me visse assim. Logo nos separamos, um pouco constrangidos.
— Eu preciso ir, mas voltarei pra te visitar. Mande mensagens. — Travis falou.
— Você pode me dar uma carona? Logo a minha irmã chega em casa, e preciso cuidar dela. Como sempre. — Tyna ri, mas claramente está esgotada.
— Claro, você também quer carona, Thomas? — Travis olha para mim enquanto coloca a alça da mochila no ombro.
Seria bom pegar uma carona com ele. Esse hospital é bem longe da minha casa, e não faço ideia de como pegar um ônibus por aqui. Olho para Jace, que está deitado olhando para a janela. Bem, bem longe daqui.
— Não, obrigado. Dou um jeito depois. — Agradeço.
Os dois se despedem novamente de Jace, e ficamos alguns minutos em silêncio. Sento na poltrona, olhando na mesma direção que ele. Mando uma mensagem para minha mãe, dizendo que chegaria mais tarde, e envio a minha localização. Falo também que Jace está m*l. Em seguida, ele começou a falar.
— Sobre aquele dia...
— Tá tudo bem, Jace. — Respondi. Ele se virou para mim, o seu nariz estava vermelho como o de um palhaço.
— Não está. Eu falei coisas horríveis para você, e você não mereceu nada daquilo. Não deve me desculpar só porque tô todo fodido e está com pena de mim.
— Eu sei, e não estou fazendo isso. Estou dizendo que tá tudo bem porque quando soube que você estava aqui, percebi que era mais fácil deixar essa m***a de lado do que te perder. Não tenho pena de você, Miller. — Dei uma fraca risada.
Levantei e fui até a janela, abrindo totalmente a persiana. O dia lá fora está lindo.
— Posso te desenhar? — Perguntei.
— Você nunca pediu permissão para isso antes.
Me sentei novamente, peguei o sketchbook na mochila e fiz um lindo desenho de Jace deitado na maca, a janela e a paisagem do outro lado. Enquanto desenhava, Jace me contou o que havia acontecido no dia sem eu ao menos perguntar. Ele estava desabafando. Estava sentindo o espaço comigo.
Eu queria o ajudar. Queria poder tirar toda a dor do seu corpo, mas eu infelizmente não tenho essa habilidade. Mas eu estou aqui; e ele está vivo. Pensar que eu quase o perdi para sempre fez com que lágrimas atrapalhassem a minha visão, mas cuidei rapidamente delas. Então, ficamos ali. O sol entrando sorrateiramente pelo quarto, os cabelos pretos de Jace completamente bagunçados, e ele olhando na minha direção de uma forma que nunca vi antes.
JACE MILLER
Tommy foi embora na hora do almoço. Foi ótimo ver os três novamente, e saber que pelo menos isso estava resolvido. Apesar desse momento bom, a minha garganta continua a queimar, os meus olhos ardem e sinto como se estivesse com febre o dia inteiro.
Cada parte do meu corpo precisa de muito esforço para se movimentar, e é uma luta para ir ao banheiro - com ajuda das enfermeiras, claro. m*l consigo ficar em pé.
O psicólogo que está me atendendo, Sr. Clark, diz que muitos sintomas que estou apresentando são resultados da minha instabilidade emocional. ''Quando as emoções são muito fortes, elas extravasam, e o nosso corpo sente também'', foi o que ele disse. Devo ficar aqui por mais um tempo, e se eu não for pra alguma clínica, irei pra casa.
Não liguei muito para o almoço, porque já que nada aqui é temperado, não sinto o gosto de nada. Tudo parece h******l, exceto o pudim de chocolate. Cara, o pudim de chocolate é como cocaína. Talvez eu troque a maconha por pudim de chocolate.
— Está acordado? — Escuto a voz do meu pai. Ele está usando as mesmas roupas do dia anterior, e é a primeira vez que conversa comigo a sós. — Eu queria conversar com você, se quiser também...
— Você nunca me tratou com esse tom de voz, fale logo. — Respondi, ainda de costas para ele.
Não escutei a sua voz de imediato, apenas o som da poltrona sendo arrastada para perto da maca.
— Precisei quase morrer pra você me tratar com o mínimo de respeito — comecei a falar — não me importo com o que tem pra me falar agora. Tarde demais pra isso. Tarde demais pra qualquer coisa.
— Jace, eu sinto... Sinto muito que as coisas tiveram que ser dessa maneira. E sim, admito que passar por tudo isso me fez acordar. Eu quase te perdi, e me sinto h******l por saber que isso teve que acontecer para eu... Para eu perceber que... — Ele estava a segurar o choro. Estava nítido. — Enfim, eu contei para sua mãe. Contei sobre a Sra.Willis.
Isso fez com que eu me virasse e, por mais que eu não quisesse conversar com ele, não consegui segurar a língua.
— E então?
— Ela já sabia, quer dizer, suspeitava. Falou que por mais que odeie isso, devo manter esse caso até vendermos a fazenda. Ela não quer que eu atrapalhe mais do que já atrapalhei. E depois que vendermos, bem, não sei o que vai acontecer.
— Você vai mesmo continuar isso por causa da p***a de uma fazenda? — Estava me controlando para não gritar. Minha garganta queimou mais ainda.
— É importante para sua mãe, Jace. Você não entenderia. — Eu enxergava nos seus olhos um leve brilho de arrependimento. Ele poderia estar falando a verdade, mas a culpa disso tudo é dele.
— Realmente não entendo, mas se ela não liga para o próprio marido, quem sou eu para interferir. Vocês dois são um ótimo exemplo para eu não me casar. — Suspirei. — Quer dizer, tudo parece ser tão difícil, tão trabalhoso e pesado. Acho que a vida ao lado de alguém que você escolheu amar não deveria ser assim.
O meu pai olhou para a janela, parecendo pensar. Em seguida, ele riu.
— Acho que é a primeira vez que te escuto falar algo sensato. Mas é, não deveria ser assim, mas é muito mais complicado do que você consegue enxergar. Algum dia entenderá isso, mesmo que não esteja casado. E Jace... — falou enquanto se levantava — não acredito que escolhi amar a sua mãe. Eu sempre a amei. Ela que me escolheu. — Comprimiu os lábios em uma fina linha, refletindo no que acabara de me dizer. — Você tem visita. — Foi a última coisa que falou quando passou pela porta.
E ela entrou. Os seus cabelos loiros escorregando pelo rosto, as mãos cruzadas na frente do vestido azul, quase infantil.
— O que você está fazendo aqui? — Perguntei.
Não esperava vê-la tão cedo após tudo o que aconteceu, muito menos que viesse me visitar no hospital.
— Toda a escola já sabe o que aconteceu, e Gabriel me passou o nome do hospital. — Sua voz estava diferente, soava até como uma pessoa normal.
Me endireitei na maca, o dedo pronto para chamar uma enfermeira. Por que ela estava aqui? E não compro a ideia de se importar comigo, porque não sou i****a o bastante para acreditar nisso. Depois de tudo o que aconteceu... Eu não entendo. Ela veio pra me m***r, só pode ser.
— Deve estar se perguntando o motivo da minha presença — andou lentamente até a janela, a noite iluminando o seu rosto — nem eu sei, na verdade. Só senti que deveria vir. Talvez eu tenha compaixão por você, Jace, apesar de tudo.
Me esforcei para sair da coberta e me sentar na maca. O vento frio percorreu por minhas pernas, mas não me incomodei.
— Eu não acredito nisso.
— Escute — ela subitamente se aproximou, ficando de joelhos na minha frente. — Eu te odeio, Jace. Te odeio muito. Você me entregou para meus pais, destruiu o meu jardim, trouxe à tona algo que eu não estava pronta para dizer à minha família, nem à Gabriel e Ian. Você fodeu a minha vida. Agora sou obrigada a frequentar a igreja, estudar até tarde e fazer todas as tarefas de casa. Só saio se a minha irmã for junto. Os meus pais não confiam mais em mim, e a culpa é sua. Sua, de Travis e da Tyna. E eu juro, juro que vocês irão pagar por isso.
Seus olhos estavam a lacrimejar, mas ela não foi fraca o suficiente para deixar as lágrimas caírem. Uma tensão passou por todo o meu corpo, e engoli seco.
— Não vou pedir perdão, porque eu não me arrependo, Billie. — Falei. — Levante-se do chão, tem uma poltrona ao seu lado se quiser sentar. Pare de ser dramática. — Ela fingiu não me escutar, e continuou o seu discurso.
— Eu não iria ter essa criança. Você nunca teve nada a ver com isso, e ainda não tem. Minha decisão, foi... Única e exclusivamente minha. — E as lágrimas caíram. Ela não aguentou por tanto tempo. — Eu sou muito nova para enfrentar tudo isso, e você acha que eu tive ajuda de alguém? De algum médico? Eu não queria que ninguém soubesse. — Billie se levantou e voltou até a janela, olhando para a paisagem.
— O que? Como assim?
— Fiz tudo sozinha enquanto os meus pais estavam em uma viagem. Perdi tanto sangue que quase morri no banheiro da minha própria casa. Se algo tivesse acontecido, a minha irmã teria achado o meu corpo. Imagine isso, Jace. Quer dizer, você não tem compaixão alguma por ter feito o que fez. — Olhou em volta. — Não imaginou como seria para seus pais, não é? Contei á eles que você fez aquilo na minha casa. Eles, claro, vão pagar por tudo, desde as paredes pichadas até os danos morais. Imagine só a vergonha. Esse é apenas o começo, Jace. Eu não vou facilitar a vida de vocês.
A lua estava a brilhar como nunca, e senti uma pontada de ansiedade.
— f**a-se. — Ela me olhou com indiferença quando falei. — Se você vai me infernizar ou não, f**a-se. Se meus pais vão pagar todas as contas, também não é da minha conta. Eu não poderia me importar menos com a sua vida de m***a. — Deitei e puxei o cobertor até o meu pescoço. — Faça o que quiser, você é minha última preocupação no momento. Se não reparou, já estou bem fodido e, sinceramente, a sua existência não faz diferença. Agora, se me der licença, faça o favor de ir embora antes que eu chame uma enfermeira.
Enquanto contornava o quarto, o som do seu salto ecoou pelo cômodo. Não sei dizer o que ela estava pensando, mas sei que estava desapontada e constrangida.
— Gabriel mandou um oi. — Foi a última coisa que me disse, e saiu do quarto.
Eu nunca terei paz. Minha barriga se contorce de ódio, e a minha garganta só quer colocar tudo pra fora. As minhas mãos começam a tremer, e só queria poder socar algo ou alguém. Frustração, nojo, medo. Tudo isso dentro de mim, me amarrando fortemente e me pendendo de cabeça para baixo, me sacudindo até que eu fique tonto.
Eu odeio essa garota, odeio aquela escola e odeio estar vivo. Ela sabe como deixar alguém irritado, e menti quando falei que não me importava com ela. Eu me importo, mas não no bom sentido. Me importo o bastante para fazê-la pagar por toda essa m***a que vem fazendo comigo e com os meus amigos. Se ela não aprendeu a lição com o que aconteceu naquele dia, vai aprender de outra forma.
— AAAAARRRGH! — Gritei. Permiti a raiva sair de mim, e soquei a maca até perder as forças. — p***a, m***a! — E as lágrimas rolavam pelo meu rosto.
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Jane Rainbow conversava com Thomas em um canto, o consolando. Era impressionante como a garota era diferente da irmã em vários aspectos, e não sei como isso aconteceu. Ela riu timidamente (ou fingiu) e levemente bateu no ombro de Dinesh. Não pude evitar e revirei os olhos.
— Algum problema? — Me assustei com a voz de Travis.
— Não, problema algum. — Respondi.
— Pare de olhar fixamente para ela, cara. Eles estão juntos. — Não pude evitar, não consegui segurar a risada. Pare de olhar fixamente para ela. Que piada.
— Como quiser. — Foi o que falei. Não estava á fim de dar-lhe muitas informações.
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Virei de um lado e do outro, mas não conseguia dormir. Pensei que era o nervosismo, mas eu já havia tomado os meus remédios. Olhei para o lado e vi o meu celular em cima da poltrona, deixado por minha mãe quando ela entrou no quarto. Me estiquei o suficiente para conseguir o pegar sem sair da maca, e eu tinha algumas ligações perdidas e notificações não lidas.
A tela queimou os meus olhos, e rapidamente diminui o brilho. Olhei as horas, 01h23.
Abri as mensagens de Thomas, que apenas disse esperar que eu melhorasse rápido, e que voltaria para me ver amanhã à tarde. Travis me mandou memes e um áudio onde estava bêbado, cantando Britney Spears. Tyna exagerou nos emojis e nas frases prontas.
Quando eu ia bloquear o celular e tentar dormir novamente, o meu celular vibrou.
''Estou vendo que está online. Podemos conversar?''
01:25
Gabriel.
Eu poderia o ignorar e tentar dormir, mas me deixaria muito ansioso.
''Sim.''
01:25
''Estão te tratando bem no hospital?''
01:25
Respondendo rápido? Que coisa.
''É, estão. É mais legal que a escola.''
01:26
''Imagino. Comida r**m, lágrimas, gente gripada e cheiro de cloro. Parece promissor.''
01:27
''Como você está?''
01:27
''Nunca estive melhor.''
01:27
''Estou uma m***a, o que pensou?''
01:28
''Vai devagar. Não precisa disso.''
01:28
''Obrigado pela preocupação, Gabriel, mas se realmente quiser ajudar, pare de passar o nome do hospital para todo o mundo, a p**a da sua namorada já apareceu aqui hoje.''
01:29
''O que? Ela fez o que?''
01:29
''Vocês que se fodam. Ela veio aqui e me ameaçou. Chutar cachorro morto é s*******m. Já falei para as enfermeiras não deixarem ela entrar outra vez.''
01:30
''Eu não sabia que ela tinha ido aí. Sinto muito, sei que é a última coisa que você precisa.''
01:30
''Vou conversar com ela.''
01:30
''Coloque uma coleira no seu animal. E parabéns por não ter virado o papai do ano. Deveria escolher melhor as pessoas com quem você... faz. É bom se certificar de que ela não vai acabar matando o seu filho.
01:31
''p***a, Jace.''
01:31
''Novamente, obrigado pela preocupação. Tchau, Gabriel.''
01:31
''Posso te visitar algum dia?''
01:31
Li a última mensagem e bloqueei o celular. Eu estava cansado disso, dessa briga ridícula e das provocações, mas eu não vou ser um covarde e deixar Billie fazer o que quiser e sair impune com isso. Se ela quer jogar, eu vou distribuir as cartas.