Capítulo Dezoito
GABRIEL WILLIS
Eles não sabem que eu sei. Eles pensam que são tão espertos, tão cuidadosos, tão...
Argh.
Tudo bem, Jace seguiu com a vida, e era exatamente o que eu queria para ele. Felicidade. Paz. Um recomeço. Mas Thomas... Ele não é a pessoa certa. Acredito que ele não seja o suficiente, simplesmente porque percebo que ele e Jace m*l estão conversando. Quando eram apenas amigos, havia muito mais carinho e desejo.
Agora, Thomas se comporta como uma criança irritada. Talvez seja por causa da convivência, ou simplesmente se cansou e não sabe como resolver. De qualquer maneira, está óbvio que ele não deveria estar com uma pessoa como Jace Miller.
Antigamente eu não teria moral para me meter nisso, muito penos para pensar no que Jace faz com sua vida. Mas depois de tudo que aconteceu, é diferente. Nos reaproximamos e nos importamos um com o outro.
Dou mais um gole no meu cantil, e agradeço ao universo por ter uma garrafa inteira ao meu lado, caso esse pequeno garoto acabe.
— Quer mais? — Estendo o cantil em sua direção.
Estou zonzo. As folhas das árvores parecem monstros me observando.
— Sim — ele pega da minha mão e dá longos goles.
— Eu não sabia que você bebia assim, Dinesh.
— Nem eu. Mas estava precisando.
— É.
Ele também está bêbado, e como não tem o costume de beber em grandes quantidades, ficou r**m muito cedo. Tenho que tomar cuidado, ou logo estarei tendo que cuidar de uma pessoa passando m*l.
De início, o chamei aqui para que ele desabafasse, e assim contasse o que realmente tem em mente. Mas, agora, sinto vontade de socar seu rosto.
— Agora você sabe de mim e Jace — diz — não tem ciúmes?
Dou uma risada sarcástica.
— Ciúmes de quê? Dessa relação fracassada?
Ele bufa.
— Todo o mundo sabe que você ainda é apaixonado por ele.
Thomas está sentado na grama, com as costas no tronco de uma árvore.
— Você não sabe nada sobre mim. E todo o mundo pensa que você e Jane estão namorando, não é? Mas a verdade é que você está se escondendo da verdade. Eu percebo as coisas, Dinesh. Sei que, no fundo, você não quer que ela desminta esse boato. Você gosta de ter o que tem.
O garoto se levanta e se aproxima.
— É mesmo? E o que você pensa que sabe sobre mim?
Seu tom de voz está elevado, e sinto que não é uma boa continuar deitado. Me levanto, e o encaro frente a frente.
— Eu sei que você ficou com Jane Rainbow, mesmo que Jace tivesse praticamente insistido para você não fazer isso. Se lembra de Suzie, a garota da biblioteca? Eu que a apresentei a ele. E ela dizia a verdade, mas você nem quis saber. Só tinha olhos para aquele r**o de saia. Mas, afinal, você havia atraído uma garota. Por quantos anos não desejou isso? — O cantil se esvazia. Pego a garrafa de vodca e, com um pouco de dificuldade, a abro.
— Você é um i****a sem moral alguma para apontar o dedo para as outras pessoas. Não foi você que fez bullying com Jace? Comigo? — O seu rosto começa a ficar vermelho.
— Pode dizer o que quiser, mas mesmo assim, Jace se sente mais confortável comigo. Por que você acha que ele está sempre atrás de mim, querendo saber como estou, querendo cuidar de mim? — Dou um gole na bebida, que queima minha garganta. — Você não fez nada por ele, muito menos por vocês dois.
— Cale a boca, seu desgraçado! — Ele me empurra, e cambaleio para trás, batendo as costas em uma árvore.
Sinto seus galhos me arranharem, e isso me deixa puto. Deixo a garrafa cair no chão, e parto para cima dele.
— Você nem deveria estar aqui, seu merdinha! — O empurro, e ele cai.
Não consigo me importar com os barulhos que faço, o pior que pode acontecer é um monitor nos ouvir e nos mandar para a cabana. Eu não ligo de levar uma punição se Thomas também levar uma.
Me jogo por cima dele, e começo a socar sua cara.
— Ei, que p***a é essa? — Jane surge do nada. — Eu estava conversando com Tyna e do nada escutei vocês gritando, que m***a tá acontecendo? Gabriel, sai de cima dele! — Ela tenta me puxar pela blusa.
É óbvio que ela não consegue, e continuo no mesmo lugar. Thomas me dá um chute entre as pernas, e isso faz com que eu caia para o lado, e a dor que sinto é imensurável.
Porém, sou mais rápido que ele e consigo ignorar as pontadas de dor que ainda sinto, e volto para cima de seu corpo, dando socos sem parar. Estou pegando leve, porque sei que esse garoto morreria bem aqui se eu estivesse brigando pra valer.
— GABRIEL! — Jane grita quando vê que o nariz do garoto começou a sangrar. Ela tenta, novamente, me puxar, mas a pego pelo braço e a empurro.
Estava prestes a continuar desferindo golpes em Dinesh, quando escuto algo cair. Ela cair.
— Jane? — Corro até a garota.
Sua testa está sangrando, e Thomas corre até ela.
— Jane? Acorda, Jane! — Ele a sacode.
— Para de fazer isso, seu i****a — afasto suas mãos, e ele me encara com muita raiva. Tento ignorar, e verifico os batimentos cardíacos de Jane. — Ela está viva. Só desmaiou.
Solto o ar que nem sabia que estava prendendo.
— Olha só o que você fez... Gabriel... Você podia ter matado essa garota. — Ele arregala os olhos, que já são gigantes.
— EU?! — Aponto para o seu rosto. — Se você não tivesse vindo para cima de mim, para início de conversa, nada disso teria acontecido, seu b****a! Agora me ajuda a levá-la até a enfermaria. ANDA!
Quando eu e o i****a do Thomas nos aproximamos de Jane, ela começa a tossir, e me assusto um pouco. Está sangrando muito, e o sangue se espalha pela grama, pela pedra e por seu rosto. Ela abre os olhos lentamente.
— Jane? Está tudo bem, vamos para a enfermaria, venha. — Digo, com calma.
Quando ela encontra o meu rosto, me olha com medo e se levanta em um pulo.
— Fique longe de mim! — Ela olha para mim e para Thomas, e parece um animal indefeso, sendo caçado.
— Jane, me desculpe, foi sem querer. Precisamos ir até a enfermeira, tudo bem? — Thomas tenta tocar em seu braço, mas ela se afasta antes que ele consiga.
— FIQUEM LONGE DE MIM!
Ela começa a correr pela floresta, e nem sei qual direção está seguindo.
Não consigo raciocinar direito, mas corro atrás dela. Sinto o vento batendo em meu rosto, tropeço em alguns galhos e pedras, mas estou muito m*l.
Me afastei bastante de Thomas, mas não consigo continuar nesse ritmo. Me apoio em uma árvore e coloco tudo pra fora. m***a, eu não deveria ter bebido tanto.
Ela se afasta do meu campo de visão, e nem sequer a escuto mais.
THOMAS DINESH
Gabriel corre atrás de Jane.
Minhas pernas estão fracas, e me jogo no chão, bem ao lado de seu sangue.
Eu espero que isso tudo seja um pesadelo. Acorde, acorde, acorde. Você consegue. Acorda, Thomas.
Estou sujo do meu sangue, e minhas mãos estão com o sangue de Jane. O que aconteceu? Meu Deus. É tudo culpa minha.
A terra fria de baixo dos meus joelhos me lembra que preciso sair dalí, mas não tenho forças. Não consigo.
Preciso correr, chamar ajuda, ir atrás de Gabriel, qualquer coisa! Mas não consigo fazer nada, e meu cérebro ainda está processando o que acabou de acontecer. Me esqueço da dor no rosto e no nariz, nada disso é importante agora.
Que. p***a. Foi. Essa?
Escuto passos ao meu lado, e meu coração congela. Não consigo olhar para nenhum lugar que não seja a pedra ensanguentada. Sinto uma mão tocar meu ombro, me apertando com força.
— Thomas? — Sinto um pouco de medo em sua voz. É Jace.
Olho para ele, que está com uma expressão confusa e amedrontada.
— O que aconteceu?
JACE MILLER
— O QUE ACONTECEU, THOMAS? — Seguro seus dois ombros e o sacudo. Isso parece fazê-lo despertar.
Ele se vira com medo. Seus olhos estão arregalados, e está todo sujo. Sua roupa, seu rosto, suas mãos. Tudo sujo de sangue. De quem é?
Ao me ajoelhar ao seu lado, sinto o cheiro forte de sangue. Para ser tão forte assim, ainda está fresco.
— p***a, Thomas... O que é isso? — Passo as minhas mãos pelas folhas na sua frente, e algo molhado gruda nos meus dedos. Também é sangue. — Vem. Anda.
Levanto abruptamente. Minha mente está girando, e nada faz sentido. Por que ele está sozinho nessa floresta? E por que está coberto de sangue?
— Thomas, vamos! — Digo novamente. Ele me olha, mas apenas vejo um vazio dentro de si. Com força, o puxo pelo braço, obrigando-o a se levantar. — Vá para o banheiro e se limpe. Na verdade... Têm câmeras do lado de fora das cabanas, mas o zelador tem um banheiro na cabana de ferramentas. Eu já te encontro lá, tudo bem? — Estou segurando seu rosto com as duas mãos, para que ele faça contato visual.
Ele assente com a cabeça, e sinto seu bafo de bebida. p**a que pariu.
Enquanto o observo cambalear pela floresta e entrar na cabana do zelador, que não fica longe, retiro minha blusa. Coloco as folhas com sangue em cima dela, bem como a pedra ensanguentada. Amarro tudo como se fosse um saco de lixo.
Seja lá o que aconteceu, é melhor ninguém descobrir.
THOMAS DINESH
Está tudo por minha roupa.
Minha garganta está seca, e tem terra debaixo das minhas unhas. A água da pia do banheiro não fez com que o cheiro de sangue deixe a minha pele.
Olho para o meu reflexo no espelho; meu cabelo desgrenhado cai por meu rosto, e meus olhos azuis estão extremamente atentos, por conta da adrenalina que corre por meu corpo.
Lavo meu rosto uma, duas, três vezes. Como vou sair daqui? A minha roupa está toda fodida, suja de sangue, e as minhas mãos não param de tremer.
— p***a! — Soco a pia, fazendo meus dedos latejarem.
Não é um pesadelo. É real.
E parte do que aconteceu é culpa minha. Talvez Jane fique com sequelas para sempre. Talvez eu seja preso. Talvez meus pais me odeiem. E, além disso, Gabriel e eu ainda brigamos. Tudo que ele falou é verdade, eu sou uma pessoa h******l e não mereço Jace. Eu não mereço isso. Não mereço nada.
Começo a chorar sem parar, e não tenho oxigênio o suficiente. Meus soluços são altos, e me jogo no chão. Ela não mereceu aquilo.
Poucos minutos se passam quando a porta é aberta, e Jace aparece. Ele está com uma blusa nova, e segura outra na mão.
— Troque. — E me entrega. — Vamos jogar essa fora.
— O que aconteceu com a sua? — Digo entre soluços.
— Apenas troque de blusa, Thomas. Por favor.
Não consigo o entender. Talvez seja por causa da bebida, mas não faço ideia de como ele deve estar se sentindo.
Enquanto troco de blusa, meu choro se intensifica. Abaixo a cabeça, e tenho vontade de socar a minha cara até arrancar a minha pele.
— Precisamos sair daqui, vamos, Thomas. — Jace diz, de forma suave. Ele tenta me puxar, mas é em vão. Eu não consigo sair daqui.
— É minha culpa. É minha culpa, estou morto, Jace.
Ele me puxa para um abraço apertado, e a dor piora. Tudo piora.
Gabriel estava certo.
Ficamos abraçados nesse banheiro com a pia repleta de sangue e uma blusa jogada na lixeira. A minha pele está fria.
Respiro fundo, e consigo me restabelecer.
Com a ajuda de Jace, limpo toda gota de sangue existente nessa cabana, e em mim mesmo. Retiro a sacola da lixeira, porque não posso simplesmente deixar aqui, caso contrário saberão que viemos nesse banheiro. Jace me ajuda a levar até a floresta, onde ele cavou um buraco e jogou sua própria blusa.
— Jogue ai. — Apontou.
Fiz o que disse, e em seguida cobrimos o buraco com bastante terra e folhas.
JANE RAINBOW
Corro o mais rápido que posso. Que idiotas! Que babacas!
Tento parar de sentir raiva, porque isso faz minha cabeça doer mais ainda. O sangue escorre tanto, que está por toda a minha boca e pescoço.
— Jane! — Olho para trás. Gabriel conseguiu me alcançar.
— Por favor, não me machuque. Eu... Eu não conto para ninguém, eu prometo! — Lágrimas brotam nos meus olhos.
— Eu não vou te machucar, eu juro. Eu não queria ter te machucado, sinto muito mesmo. Vamos para a enfermaria, por favor! Você se machucou f**o, e desmaiou. Precisamos ir até lá para dar pontos, tudo bem? — Ele se aproxima lentamente.
— Vou sozinha. Não chegue perto de mim. — O encaro. Fico na defensiva por um tempo, mas volto a correr. Quando olho para trás, ele parou de me seguir.
Enquanto continuo correndo, vejo através das árvores que estou na ala feminina. Encontro a minha cabana e corro o mais rápido que posso até ela.
BILLIE RAINBOW
A cada dia que se passa, está mais insuportável dividir o mesmo ar com a minha própria irmã.
Tudo que ela faz tem que ser tão perfeitinho, tão bem feito, como se fosse um anjo. Como se não fosse a maluca que manchou o nome de nossa família, fez os meus pais deverem tanto que levou a nossa empresa à falência.
E, agora, ela age como se fosse uma princesa delicada. Todos os garotos caem no chão por ela, comem na sua mão, inclusive o i****a do Thomas Dinesh. Parece que ele gosta de sofrer.
Mas ele tem mais que se f***r, mesmo. Bom que aprende a ser gente. Ele, e todo aquele grupinho m*l amado.
Sinto um ódio profundo por cada um, por tudo que fizeram.
Se intrometeram na minha vida, destruíram o meu quintal, fizeram meu namorado ser preso e, além de tudo, estão vivendo como se não fossem culpados.
Aparentemente todos podem errar e continuar a vida, menos eu. Não importa se a minha opinião é diferente, não importa se faço o possível para tirar todos do meu caminho e me dar bem nessa m***a de vida, eu sempre sou a culpada.
Enquanto penteio os meus cabelos e me olho no espelho, vejo a boneca de Jane no chão, que agora está quebrada. De manhã, eu e ela tivemos uma discussão f**a, e eu estava tão brava quanto estou agora. Eu quebrei essa boneca ridícula na parede, e a porcelana se estilhaçou. Ela era igualzinha a Jane.
Além de se dar bem com meus pais, mesmo depois do que causou, é sempre vista como uma santa. Como o contrário de mim.
Tentou apagar o seu passado e escondê-lo a todo custo, mas isso acaba aqui. Sei que fiz uma promessa aos meus pais para ajudar a manter isso fora das mãos de outras pessoas, mas pra mim já deu. Ela precisa pagar.
Não é justo ela se dar bem em tudo, enquanto eu continuo perdendo, não importa o quanto eu tente.
Acabo de arrumar meu cabelo e deixo a escova na penteadeira em frente a janela, e vejo algo estranho na floresta. É Jane. Ela está correndo em direção à cabana.
Mas tem algo... Esquisito. Ela está sangrando. Muito.
— O que é isso? — Pergunto assim que ela abre a porta.
Ela não responde. Apenas vai para o banheiro e liga o chuveiro.
A sigo, com certa curiosidade. Se está andando, está viva, então não me preocupo.
Puxo a cortina do banheiro, e ela está dentro da banheira, de roupa e tudo. Está ensanguentada.
— Que p***a é essa, Jane Rainbow? — A olho, séria.
— Eu... — Ela tenta falar, mas parece estar passando muito m*l.
Não consigo me preocupar, nem ao menos sentir tristeza.
— Não está vendo que estou péssima, sua p**a? — Diz de forma rude.
Francamente, me surpreendo com a forma que fala. Sinto vontade de esganá-la ali mesmo.
— Claro que estou vendo, mas quero saber o que aconteceu. Quem mais por aí está brava com você? Por acaso beijou algum menino que tem namorada? Isso é a sua cara...
— Cala a p***a da boca. Você não serve pra nada.
A cada comentário que ela faz, o meu sangue ferve mais e mais.
— Depois que o o****o do Ian foi preso, ainda fiquei do seu lado e tentei te consolar. Mas mamãe estava certa. Você não mudou. Continua a mesma cretina de sempre. — Ela cospe sangue em si mesma.
Gostaria de poder sentir o mínimo de empatia por ela.
— Mas é você que está com a testa arrombada, lutando para não desmaiar. Não vai pedir a minha ajuda?
— A sua ajuda? — Ela ri, de forma sarcástica. — E você vai fazer o que? Billie... Você não entende. Você não vê como é inútil. Não consegue fazer nada sozinha.
— Impressão minha, ou você esqueceu que quem estava internada em um centro de reabilitação era você? Sua maluca. Seu cérebro deve estar todo fodido, não é? — Me aproximo. — Você até pode enganar as outras pessoas com sua mudança de personalidade do c*****o, fingindo ser uma garota boazinha. Mas eu te conheço. Você já estragou a minha vida uma vez, e não vou deixar isso se repetir.
Eu poderia matá-la ali mesmo. Poderia fazer isso e fugir daqui. Poderia sair. Já estou com as malas feitas, de qualquer forma.
Ando até a boneca de porcelana quebrada, e pego a parte mais afiada que encontro.
— Você não tem coragem. Quando foi que teve? Agora, me passe a p***a da toalha para eu estancar esse sangue. Gabriel está fodido.
— Então foi ele? — Solto uma risada e coloco o caco no meu bolso.
— E aquele esquisito do Dinesh. Argh, que nojo.
— Se você o odeia tanto, por que se aproximou desse garoto? Você fala m*l dele desde quando o conheceu.
— Para me aproximar de Jace, é óbvio. Não dava pra dar em cima de Travis, porque ele tinha olhos apenas pra v*******a da Tyna, e Gabriel estava fora de questão. Mas Thomas... Ele tinha cara de que nunca havia beijado uma garota. Não uma bonita, pelo menos. — Ela ri e tosse. — Afinal, fiquei sabendo que Dylan iria ser pai antes mesmo da família de Jace descobrir.
Arregalo os olhos. Como... Como assim?
— O que? Do que você está falando, Jane? Depois do que aconteceu... Você foi para a clínica exatamente por isso. Como pôde?
— Eu sempre amei aquele homem. Achou mesmo que eu desistiria tão fácil? — Riu. — Assim que voltei para a cidade e fui para a escola, já tinha pensado em todos os passos. Descobri onde Dylan Miller estava morando, com quem havia se casado... E bum! Ele até se assustou quando me viu.
— Então você continuou o perseguindo? Você é muito maluca, c****e. — Sento na tampa do vaso sanitário, e massageio as têmporas.
— Não consegui o esquecer. E, mesmo que ele não tenha admitido, sei que sentiu a minha falta também.
— DEIXA DE SER MALUCA, p***a! — Me levanto e grito. — Ele NUNCA te amou, ele NUNCA te quis, garota! Você o traumatizou e fodeu toda a família dele.
— Ah, não é para tanto. Uma chantagem aqui, uma ameaça alí, e ele concordou em voltar para Kansas City e ficar por um tempo.
— Mas você está aqui, não é? O que isso adiantou, sua burra?
— Faz parte de tudo. Ele precisa estar lá, longe da mulher e... Daquilo que ela carrega.
— Você diz... Do bebê? Pelo amor de Deus, Jane. A mulher está grávida. — Minha cabeça começa a doer.
Sempre soube que ela não havia mudado. Mas vê-la confessar tudo assim... É diferente.
— Ele precisa achar uma forma de contar para a família que vai continuar em Kansas, que está traindo a esposa comigo e que iremos morar juntos. Espero que ele já esteja escolhendo a casa. — Ela olha para o teto e sorri, como se fosse um sonho que ela sempre teve. — Senão, aquela mulher e o pequeno bebê irão sofrer bastante. Melhor terminar do que perder tudo na sua vida, não é?
Eu ando até a beirada da banheira e desligo o chuveiro.
— Com certeza.
Pego o caco de porcelana em meu bolso, e corto a sua garganta sem pestanejar.
Jane tenta respirar, tenta estancar o sangue e levantar da banheira, mas não consegue.
— É melhor terminar do que perder tudo na sua vida. — Repito a sua última frase.
A observo perder lentamente a vida, até que não tenha nada em seus olhos desesperados. Seus cachos dourados estão sujos de sangue, e seu vestido azul também.
Com a minha própria mão, quebro o caco em pedaços menores, jogo no vaso sanitário e dou descarga.
— Agora, o que farei com você? — Olho para Jane, sem vida, na banheira.
Ela teve o que mereceu. Ela sabia que, um dia, isso aconteceria.
Sinto um peso deixar meus ombros, e acredito que, por mais doentio que foi fazer isso, ela era mais doente ainda. Ameaçar m***r uma mulher grávida, que por acaso é casada com um homem que você persegue desde a infância?!
Jane estava suja da cabeça aos pés, e ninguém estava fazendo nada para pará-la, porque ela conseguiu enganar todos, até mesmo os meus pais. Eles ficarão melhor sem ela.
Tudo vai ficar melhor.
JACE MILLER
Thomas me conta tudo que aconteceu.
Me sinto um i****a por ter feito um buraco para jogar a pedra e as blusas com sangue, já que foi apenas um ferimento.
— Tenho certeza que ela está bem, Thomas. Deve ter ido sozinha para a enfermaria ou para o próprio dormitório. Não se preocupe, tudo bem?
— É claro que eu me preocupo. Ela poderia ter morrido. Além do mais, Gabriel não voltou até agora.
— Bom, então vamos procurá-lo.
Pensei que ele seria relutante, mas me acompanha pela floresta. Será que estamos fazendo barulho demais? Será que tem algum monitor nos procurando?
Esses pensamentos me dão calafrios. Já é quase meia noite, e não podemos deixar que eles nos encontrem antes de encontrarmos Gabriel.
Começo a correr, e Dinesh acompanha o meu passo. Jane provavelmente seguiu reto enquanto corria, porque não conhece a floresta. Seria arriscado ir muito longe, então ela estava perto o suficiente do acampamento para observar o caminho ao seu lado. Se a enfermaria fica para trás, aposto que seguiu em direção ao próprio dormitório.
— Jace, tem certeza que estamos no caminho certo? — Thomas pergunta quando paro de correr. Ele se apoia nos joelhos e respira profundamente.
— Sim.
Continuo andando, e vejo Gabriel apoiado em uma árvore.
— Tenho certeza, vamos lá.
Ao nos aproximarmos, vejo que ele está passando m*l. Isso está longe de acabar, não é?
— Cadê a garota? — Pergunto.
— Ela... Ela saiu correndo... — Diz entre longas pausas. Parece que correu uma maratona.
— Parabéns, seu i****a — Dinesh dá voltas em círculos — agora não sabemos onde ela pode estar.
— Falou que iria para a enfermaria sozinha, mas continuou correndo pela direção errada.
Bufo, porque me sinto um adulto cuidando de dois recém-nascidos.
— O que tem na cabeça de vocês? Primeiro que vocês nem deveriam ter vindo para a floresta, para início de conversa. Muito menos beber aqui. Agora um está maluco e alucinado e o outro não para de vomitar. Jesus. — Levo a palma da mão em meu rosto, mas tento me estabilizar.
Eles não falam nada.
— Vocês dois tratem de voltar para a nossa cabana, tomar um banho e dormir. Irei procurar Jane. — Digo.
— Sozinho? Não, Jace, vou com você. — Thomas coloca a mão no meu braço, mas a retiro.
— Sozinho. Andem logo. — Não olho em seu rosto.
Estou numa situação que nunca, na minha vida, havia imaginado estar; no meio de uma floresta em Blue Springs, Newland, procurando por Jane.
Antes de seguir até a ala feminina, acompanho Thomas e Gabriel com o olhar, até ter certeza que os dois estão no caminho certo para o dormitório.
Lembro de Tyna, que antes de tudo acontecer, estava conversando com Jane perto da entrada do ginásio. Se Jane escutou o que estava acontecendo na floresta, Tyna também deve ter ouvido. Mas então, onde ela está?
Pego o meu celular e mando uma mensagem para Travis, perguntando se ele a viu. Quase que instantaneamente recebo uma foto dos dois, onde ela está dormindo ao seu lado, e ele está com o maior sorriso do mundo.
Isso me tranquiliza, fico feliz que ela esteja bem. E, pelo visto, Travis também.
Bato na porta. Nada acontece.
Bato novamente, e, outra vez, nada.
Quando estou prestes a bater de novo, Stacy abre a porta. Está com cara de sono, esfregando os olhos.
— O que foi?
— Jane está aqui? — Tento observar dentro do dormitório, mas está tudo escuro.
— Não, por que?
— Ela está machucada. Deveria estar aqui. — Me preocupo.
— O que? Como assim machucada? — Isso a faz despertar. — O que aconteceu?
— É uma história longa, mas acho que ela bateu a testa e saiu correndo. Só queria ter certeza de que ela está tendo ajuda, mas... Se não está aqui... Onde ela está?
Stacy olha para dentro da cabana, e acende a luz. Billie também não está em nenhuma das camas. A garota em minha frente parece suspirar de alívio.
— Billie também não está. Eu cheguei tão cansada, que só me joguei na cama e dormi. Nem olhei se as meninas estavam aqui ou não. Mas... Fique tranquilo. Talvez as duas estejam na enfermaria.
Talvez.
— Acho que vou até lá para ter certeza. — Digo.
— É mesmo? Uma hora dessas? Se alguém te ver, você está fodido. Olha, pode ficar calmo. Vou esperar elas chegarem e te mando uma mensagem, tudo bem? — Ela boceja de sono.
De toda forma, Stacy tem razão. Já fiz mais que o necessário.
Gabriel e Thomas que deveriam estar desesperados procurando por ela, mas devido ao estado dos dois, eu que estou pagando o pato, procurando essas duas cobras venenosas que, por mim, poderiam desaparecer para sempre.
— Certo. Obrigado, Stacy. — Respondo.
Ela não diz mais nada, apenas fecha a porta na minha cara. Ouch.
Ando com cautela pelo que parece ser cinco minutos, até chegar na ala masculina e entrar no meu dormitório. Travis está dormindo com Tyna, Thomas parece estar de banho tomado e jogado na parte de cima da beliche, apagado. Gabriel ainda está tomando banho.
Em poucos minutos ele termina, e já aparece com outra roupa.
— Quer me contar por que você e Thomas estavam bebendo na floresta? — O encaro.
— Na verdade, não. — Suspira. — Você encontrou Jane?
— Não, e Billie também não estava lá. Devem ter ido juntas para a enfermaria. Stacy vai me avisar quando elas chegarem.
Gabriel assente com a cabeça. Ele deita na cama, e fecha os olhos.
— Obrigado pela ajuda.
Não respondo.
Estou deitado encarando o vazio, e, sem querer, adormeço.