Capítulo Dezessete
THOMAS DINESH
Sinto algo que nunca senti tão forte antes na minha vida: o medo de perder Jace.
Mesmo que eu tente fazer o possível para agradá-lo, nunca parece o suficiente. Eu nunca pareço fazer o suficiente. Talvez, mesmo tentando muito, eu nunca me convença de que sou bom para ele.
Depois do que Miller disse, então... Eu não sei o que fazer. Não sei o que pensar. Eu só queria voltar no tempo e esquecer toda essa bobeira, mas ao invés disso estou aqui, sentado perto de pessoas que não conheço, jogando um jogo e******o.
A minha cabeça dá voltas e voltas no garoto um pouco distante, que, como observo, está aproveitando a atividade para sair matando os alunos. Não consigo parar de pensar. Como ele pode se distrair dessa forma depois do que me falou? Como pode agir tão naturalmente?
Talvez eu nunca tenha significado algo para Jace, de qualquer forma. Eu sou eu, e ele é ele. Somos completamente diferentes, e ele deve ter mil motivos para não gostar mais de mim. Talvez não deveríamos ter tentado ser mais que amigos.
— Cara, assim não dá. Já pisquei para você mil vezes, você tá se fazendo de bobo? — Uma garota diz olhando para mim.
— Oh, desculpe. Não percebi, eu juro. Bom... Acho que estou morto, então. Mas isso faz com que você também esteja fora do jogo, já que se entregou.
Ela bufa, se levanta e senta no sofá atrás de si.
— Preciso de um pouco de ar. Posso ficar na varanda? — Pergunto à Megan.
— Sim, mas não saia da cabana. — Sorri.
As estrelas estão lindas.
É tão bom sair um pouco daquela cidade cheia de carros e casas, e estar aqui, na natureza. Rodeado por um lago e uma floresta, escutando o som dos animais e respirando ar puro.
Pego o meu celular e vejo que está quase na hora do toque de recolher, o que quer dizer que teremos que ir para os dormitórios.
— Oi, Thomas... — Escuto a voz de Jane, e em seguida a porta se fecha. Eu nem ao menos a escutei abrindo.
— Ah, olá, Jane. — Respondo.
— Está tudo bem? Você parecia um pouco... Como posso dizer... Fora de órbita, durante o jogo. — Se aproxima e apoia na pilastra ao seu lado. — Sei que não é da minha conta, e tudo bem se não quiser contar.
Eu sei o motivo de ter tido interesse nela. Ela é linda. A sua pele e os seus lábios são macios, o seu cabelo loiro cacheado está sempre arrumado, e os seus olhos são encantadores. Ela realmente é bonita.
Porém, quando me lembro de que nos beijamos, de que... Já gostei minimamente dela, isso revira o meu estômago. Isso me faz querer vomitar. Eu não quero ela aqui agora. Quero Jace.
Quero os seus cabelos pretos, sua pele pálida, seus olhos cansados, seu sarcasmo. A sua falta de noção.
Sinto o meu peito doer, porque sei que talvez eu nunca mais tenha isso.
— Tem muita coisa acontecendo, só isso. Realmente não é o melhor momento para conversar. — Digo, seco.
— Tudo bem. — Ela dá um pequeno sorriso e coloca a mão na maçaneta da porta.
— Jane, — ela se vira — eu não sou seu namorado. É melhor você mesma desmentir isso tudo para as pessoas, e quero que faça isso logo.
— Tudo bem. — Repete. Está de cabeça abaixada, encarando os pés. — Me desculpe. — E volta para a sala.
Fico sozinho por poucos minutos até que a atividade acabe, e somos obrigados a ir para nossos respectivos quartos.
Tomo um banho rápido para que eu não tenha tempo de pensar ainda mais, e Gabriel entra no banheiro assim que saio.
— O que aconteceu? — Travis me pergunta.
— O que?
— Por que você saiu, e Jane foi logo atrás? — Olha para si mesmo no espelho enquanto arruma o cabelo.
— Sai porque estava precisando pensar. E Jane foi atrás porque pensou que talvez eu precisasse desabafar com alguém, porque nenhum dos meus ''amigos'' se importou o suficiente. — Faço aspas com os dedos.
— Wow, o que é isso, Dinesh? — Arregala os olhos. — Eu não sabia que estava precisando de ajuda.
— Eu não estou, tá bom? Não estou! — Falo alto. As lágrimas aparecem nos meus olhos. — Sabe, esquece. Deixa para lá.
Olho de relance para Jace, que encara a parede.
Vou para a minha cama, e cubro-me totalmente com o cobertor, já que a luz acesa machuca os meus olhos. Dessa forma, posso deixar as lágrimas caírem.
Um novo dia, finalmente. Não me sinto melhor, mas o sol aquece a minha pele, e gosto dessa sensação. Nada me impede de apreciar as pequenas coisas, mesmo que me sinta h******l por dentro.
No café da manhã, Tyna não calou a boca sobre um filme que ela assistiu no celular, alegando ser um plágio descarado de Harry Potter. Ela até me mostrou alguns trechos.
Nenhum dos meninos falou comigo.
Me sinto um i****a por pegar recuperação de propósito, achando que estar nessa viagem com os meus amigos iria ser legal para todos nós. Tyna parece ser a única de nós aproveitando algo daqui.
— Prontos para a primeira atividade do dia, galera? — Derisse pergunta. Ela está com roupa de academia. Que visão do inferno. — Estou gostando bastante de como cada um de vocês estão se saindo... Bom, com algumas exceções. — Percebo que ela faz contato visual com Billie. — Mas antes disso, coloquem uma roupa especial, porque terão que correr, escalar, pular e rastejar. Em quinze minutos nos encontraremos no campo. Vamos lá!
Ótimo. Mais uma atividade aonde vou me dar m*l.
Após nos encontrarmos no campo, fizemos uma pequena trilha que nos levou até um campo maior ainda, cheio de obstáculos, cordas, cercas e muito barro. Já entendi que nada de bom vai sair daqui.
— Thomas — assusto-me quando uma mão toca no meu ombro, enquanto eu prestava atenção no lugar em que estamos. — Foi m*l por ontem a noite, não foi minha intenção te deixar chateado.
Não respondi Travis. Simplesmente não sei o que falar, e também não sei se tenho algo que eu queira dizer.
— Errei em não ter perguntado como você estava, se queria conversar. — Coçou a cabeça. — Estamos de boa? — Estendeu a mão.
— É, claro. — Estendi a minha mão de volta, apertando a dele. — Ai, cara, o que é isso. — Afasto-me quando ele aperta muito forte.
Travis apenas sorri como o bobão que é.
Jace, que está um pouco atrás dele, nos observa em silêncio.
Bom, ele que escolheu isso para si. Ele que está se importando mais com um garoto do seu passado do que conosco. Ele que apenas sabe me julgar, mas não olha para as suas próprias atitudes. Ele que pediu um tempo ao invés de tentar resolver as coisas.
Volto a olhar para Travis.
— Está animado para a competição? — Pergunto.
— Se estou animado? — Ergue os braços, mostrando os músculos. — Estou preparado. Irei vencer! — Diz de forma teatral, atraindo a atenção dos outros alunos.
Não consigo evitar e solto uma risada.
— Acredito no seu potencial.
As garotas começam a alongar enquanto um monitor explica o percurso que deveremos percorrer. Tiramos os nossos chinelos, saímos da grama e pisamos no barro. As coisas irão ficar sujas.
— VAMOS LÁ! — E apita.
Começamos a correr, e o primeiro obstáculo que me deparo são os verticais, e, de forma desajeitada, consigo pular. Depois, tenho que me agarrar em uma corda e escalá-la, e pular numa poça de barro que está repleta de gente.
Grito para saírem da frente antes de me jogar, e toda a água lamacenta suja o meu corpo e o meu rosto. Observo que alguns alunos riem, enquanto outros, como Travis, dão a sua vida para vencer.
Levanto-me com dificuldade, e m*l posso reconhecer as pessoas à minha volta.
Corro até uma segunda poça, que mais se parece uma piscina de lama. Tenho que me arrastar para me movimentar, já que ela é muito mais grossa que a outra. Demoro um pouco, e já estou extremamente cansado.
Um pequeno muro de pedra está erguido em minha frente, e nem sei como consigo passar por ele. Logo atrás, tem um muro médio, mas não consigo pular a tempo. Uma perna vai, e a outra fica. Caio no chão, sentindo uma dor latente no joelho e na cabeça, que bateu no muro.
— THOMAS! — Escuto Derisse gritar.
Estou jogado no chão, de olhos fechados. Tudo dói, mas não quero abrir os olhos e ver que todos estão a rir da minha cara.
— Está tudo bem? — É a voz de Jace. Sinto que está ajoelhado ao meu lado. — Você não tá machucado, pelo menos. O tombo foi f**o.
Abro os olhos e me deparo com o seu olhar de preocupação.
— Me ajude a levantar, por favor. — Peço.
Ele me dá a mão e, tentando ignorar a dor, fico de pé.
JACE MILLER
Thomas se levanta, e Derisse corre até nós para verificar se está tudo bem.
— Garoto, você está bem? — Olha todos os cantos procurando por um ferimento.
— A minha cabeça dói. — Diz de forma arrastada.
— Vamos, irei te levar à enfermaria, tudo bem? Devemos colocar um gelo nisso.
Derisse o segura pelo braço, e os dois andam até a saída do campo, de volta para a trilha.
Uma pontada de preocupação me atinge, e mesmo que ele não tenha machucados externos, ele bateu muito forte em um muro de pedras. Talvez seja necessário fazer um raio-x. Não consigo me concentrar na atividade, muito menos presto atenção nos monitores me mandando voltar à ativa.
Quando olho para o meu lado, vejo que Jane também estava os observando deixar o campo, como se preocupasse com isso. Antes que ela pudesse perceber que estava a encarando, volto a minha atenção para a competição.
A atividade finalmente chega ao fim.
Travis teve a vitória que tanto sonhou, e não calou a boca sobre isso. Ficou exibindo seus músculos, jogando o seu cabelo lamacento em todos nós e dizendo que era por isso que ele comia cinco ovos por refeição.
O estranho é que m*l vi Gabriel por aqui. Talvez ele tenha aproveitado quando Thomas se machucou para poder esconder-se e não fazer essas coisas idiotas que tivemos que fazer. Sorte a dele.
Por ganhar esse jogo, Travis Willis recebeu o direito de escolher a próxima atividade, e a primeira coisa que perguntou foi se tem uma piscina de natação aqui. E sim, existe. Então, tudo indica que o h******l Jace aqui estará apostando na sua habilidade de segurar o fôlego enquanto nada.
Somos levados de volta ao campo principal, e os monitores nos obrigam a tirar toda a lama com mangueiras, para que os dormitórios não fossem sujos. Mesmo que o dia ainda esteja começando, me sinto exausto. Isso aqui não é um acampamento de férias, está mais para treino de exército.
— Tudo bem, pessoal. Agora vocês podem descansar por quinze minutos, e logo os chamarei para o almoço! — Ella disse em um megafone. De onde ela tirou essa p***a?
É reconfortante ver que todos estão tão cansados quanto eu. Dessa forma, não me sinto um inútil completo.
— Gabriel — o encontro andando até o dormitório. — Onde estava todo esse tempo?
— Me escondendo, claro — ri — não queria participar daquela maluquice.
— Eu sabia. — Me sinto verdadeiramente satisfeito comigo mesmo. Travis dá uma risada sarcástica.
— Enquanto isso, eu estava ocupado ganhando e exibindo o meu corpo sarado para a minha namorada-super-gata.
Nós três rimos, e continuamos a andar.
— Ah! — Bato a mão na testa, me lembrando de repente. — Thomas está na enfermaria. Vou passar lá para saber como ele está.
Sigo por um caminho diferente.
Admito que me senti um pouco culpado por não ter me lembrado disso antes, mas não sei ao certo o motivo.
— Também vou. — Escuto Travis dizer, e ele dá uma pequena corrida para me alcançar. Então, seguimos juntos até a cabana.
Paro bruscamente, fazendo Travis trombar nas minhas costas.
— Ai, i****a. — Reclama.
Pela janela da cabana, vejo Jane sentada ao lado de Thomas enquanto ele segura uma bolsa de gelo na cabeça.
Aparentemente está o consolando por, além de ter caído de forma ridícula na frente de todos, também ter perdido a competição.
Ela é terrivelmente parecida com a irmã, mas, às vezes, é muito diferente. Eu não sei ler essa garota, não sei desvendá-la, e isso me assusta. Ela é imprevisível.
Jane dá uma risada, ou finge, pelo menos. Não posso evitar e reviro os olhos.
— Algum problema? — Travis me assusta, porque por um instante esqueci que ele estava comigo.
— Não, problema algum.
— Pare de olhar fixamente para ela, cara. Eles estão juntos. — Ele diz isso, e solto uma risada.
— Isso é mentira, você sabe. Eles não estão namorando.
— Bom, mas todo o mundo pensa que sim. Só estou dizendo o que as pessoas falam. — E faz uma careta de ''não me julgue''.
— Como quiser.
Opto por não atrapalhar o momento dos dois pombinhos e sigo até o dormitório. Travis fica parado por alguns segundos, confuso, mas anda atrás de mim em silêncio.
Enquanto descanso na cama, penso no que estaria fazendo caso estivesse em casa. Cuidando de Deméter, com certeza. Sinto falta dela. Estaria compondo música, talvez lançando uma ou outra na internet e levando isso mais a sério. Teria as minhas sessões de terapia presencialmente.
Quase me esqueci que Dylan provavelmente ainda está lá. Não conversei muito com os meus pais pelo celular, porque se tenho a oportunidade para evitar contato com eles, estarei evitando. Não que eu os odeie ou algo do tipo, mas ainda somos a família que só parece perfeita quando vista pela sociedade. Dentro de casa os problemas estão escondidos no porão.
Me deixo perder nos meus próprios pensamentos, que vão e voltam em um indiano de olhos claros. Acho que seja melhor colocar um ponto final nisso, e acabar com o que vem acontecendo. Para ser sincero... Me arrependo de sequer ter contado meus sentimentos a ele. Não estou pronto para estar com alguém que tem vergonha de ser quem é, estar com alguém que não posso andar de mãos dadas publicamente, ou qualquer coisa do tipo. Já sofri muito para aceitar isso. Acho que, se não estivéssemos nessa confusão envolvendo a Jane, caso eles nunca tivessem ficado juntos... Acredito que eu até poderia continuar a manter isso entre mim e Dinesh até que ele estivesse pronto para se assumir, ou algo parecido. Mas eu não consigo mais. Preciso conversar com ele.
— Vamos almoçar? Os quinze minutos já se passaram. — Gabriel diz quando sai do banheiro, e vejo que esconde algo rapidamente no bolso de trás.
— Sim, mas só se você me disser o que acabou de guardar aí. — Dou um sorriso malicioso. — Não me diga que...
— Exatamente. — Tira do bolso um cantil de whisky. — Não é possível que você achou que eu viria sem nada. — Estende a mão, me oferecendo.
— Melhor não, estou tomando uns remédios fortes. — n**o. — E toma cuidado para não ficar bêbado, essas professoras farejam qualquer rastro de álcool, vai por mim.
— Não se preocupe, Miller, a melhor coisa que sei fazer é guardar segredos. — Dá uma piscadela. — Além de descobrir alguns. — E dá um gole de bebida.
— O que quer dizer com isso?
Meu coração palpita de forma errada.
— Nada, Jace. — Sorri de forma irônica. — Vamos nos preocupar com o almoço, tudo bem? Agora ande logo.
Ele deixa o cantil escondido em um armário e abre a porta do dormitório.
Travis saiu mais daqui assim que tomou banho, e deve ter ido ficar com Tyna em algum canto desse lugar. Thomas, por outro lado, nem apareceu.
— Tudo bem, eu acho.
Sinto-me desconcertado, ansioso. É como se estivesse acontecendo algo muito errado e não sei o que é. De qualquer forma, vou até o refeitório, que estava começando a se encher de hormônios adolescentes.
— Mas resumindo, a enfermeira disse que tive sorte em não ter me machucado mais ainda. Só vou precisar tomar um remédio pra dor de cabeça e ficar atento caso sinta alguma outra coisa. — Thomas diz para Tyna e Travis. Ainda está segurando uma bolsa de gelo.
— Ah, olá. — Gabriel diz enquanto se senta. — Está melhor?
Deve ter sido esquisito para Thomas ter visto eu e Gabriel chegarmos ao mesmo tempo.
— Sim. — Responde, e começa a comer o seu almoço.
É impressionante como ele nem sequer olha para mim. Mas bem, depois do que falei... Eu entendo.
Coloco a minha comida e me sento com eles. Conversamos sobre a viagem e sobre o tombo de Dinesh em cada perspectiva, até que Tyna parece se lembrar de algo. Enquanto ela acaba de mastigar, arregala os olhos e fica grunhindo, batendo as mãos na mesa.
— Gente, gente! Como me esqueci disso? — Diz, ansiosa, quando engole a comida e dá um gole no suco de uva. — Billie está querendo ir embora. Ouvi ela conversando com alguém no telefone, talvez a própria mãe, ou o pai... Mas enfim, ela disse que não aguenta mais ficar aqui.
— Se eu fosse ela, não aguentaria existir — Travis ri. — Tomara que ela vá embora, mesmo.
— Seria uma bênção. Talvez eu começaria a ser religioso. — As pessoas na mesa riem.
— Falando em Rainbow, o que está acontecendo entre você e Jane? — Travis olha para Thomas, que se endireita na cadeira.
— Ela espalhou para todos que estava namorando comigo, e talvez seja por isso que Billie parou de encher o nosso saco, mas ontem a mandei desmentir isso. — Ele olha rapidamente para mim. — Ela só se preocupou e foi atrás de mim para saber se eu estava bem.
Mesmo não olhando na direção de Gabriel, sinto o seu olhar pesado em mim. Finalizo o meu almoço em silêncio, enquanto eles conversam sobre outros assuntos.
Após sairmos do refeitório, fomos levados à sala da cabana principal e assistimos um filme sobre um cachorrinho perdido, que fez a maioria das garotas chorar, e os monitores nos disseram que estava na hora de nos arrumarmos para a natação.
Então, estou aqui. Sentado em um banco do vestiário, tentando evitar olhar para os lados. Já estou trocado, mas não me sinto animado para me jogar na água e competir. Eu nem sei nadar direito, fiz aulas de natação por dois anos, mas faz um bom tempo.
A atividade não é obrigatória, mas uma parte de mim quer se sentir afogado e perder oxigênio. Talvez o meu terapeuta fique preocupado.
— Aposta quanto que ganharei nessa competição também? — Travis fecha o armário ao seu lado.
— Nada. Você tem corpo de atleta, cara.
— Mas não só eu. Aquele garoto... Qual o nome dele? Cristopher? Não importa... Mas ele também é bom. — Bufa.
— Você não se precisa provar para ninguém. Aliás, por que sente essa necessidade de vencer todas as atividades? Ou a maioria, pelo menos?
Enquanto aguardo por sua resposta, guardo a minha blusa e a minha bermuda no armário.
— Não sei. — Respira fundo. — Sinto que preciso me provar o tempo inteiro... Quer dizer, quero que Tyna veja o melhor em mim, porque não quero a perder. Além disso, o buraco é mais embaixo. — Dá um sorriso amarelo.
— Bom, Tyna está perdidamente apaixonada em você. Vocês vivem grudados, e mesmo quando um está longe do outro, ela não para de falar sobre você. Chega a ser um saco, na verdade. — Rio.
— É, sei lá. Vamos logo, antes que a gente se atrase. — O garoto coloca a mão no meu ombro e andamos até a saída.
Mal consigo respirar, e sinto os meus pulmões queimando, mas é exatamente isso que quero sentir. Não me importo se ainda estou na metade dessa piscina enorme enquanto os outros já estão chegando no final.
A sensação que tenho é indescritível, como se eu fosse explodir a qualquer segundo. A falta de ar me faz sentir vivo.
Quando o tempo acaba, a primeira coisa que faço é puxar todo ar possível para o meu corpo. Tiro o meu óculos de natação, saio da piscina e deito no chão. Respiro, inspiro.
— O que foi? Estava tentando se m***r? — Gabriel aparece no meu campo de visão.
— Uma vez já foi o suficiente. Estava tentando me sentir vivo. — Sorrio, mas ele está de cara fechada.
O observo voltar para a arquibancada, onde a maioria dos alunos está.
Os monitores se entreolham, e chamam o próximo grupo para nadar.
Travis não ganhou essa competição, porque ele não sabe nadar.
Porém, ficou em terceiro lugar.
Tyna ficou o elogiando sem parar enquanto voltávamos para os nossos respectivos dormitórios, para tomar banho e jantar. É nítido o quanto os dois se amam.
Me pergunto se, um dia, terei algo assim.
— Vejo vocês já já! — Tyna se despede. — Tomara que de sobremesa seja bolo de morango! — E sai correndo para o lado contrário do nosso.
Eu, Travis, Thomas e Gabriel andamos em silêncio.
— Por que você fez aquilo? — Sua voz corta como uma faca afiada.
Termino de abotoar a camisa, e o olho pelo espelho.
— Aquilo o que? — Pergunto de volta.
Ele já está de banho tomado, assim como eu. Gabriel, que está sentado na beirada da cama, nos observa.
— Na piscina. Todo o mundo viu que você precisava parar pra respirar, mas não o fazia. O que deu em você?
— Thomas, calma ai. — Semicerro os olhos. — Sua hipocrisia m*l me deixa escutar sua voz, porque ela ecoa muito alto. Recentemente você reclamou que seus amigos não te deram apoio, e agora você vem usar esse tom comigo? Parece que você está sendo um bom amigo para cobrar isso de alguém? — Meu sangue ferve. Tenho muitas coisas para dizer a ele, mas não quero falar nenhuma delas na frente de Gabe.
— Peço perdão se não estou sendo tão compreensivo quanto você foi quando pediu um tempo sem ao menos me olhar na cara.
Nossa, essa doeu.
— Você vai mesmo querer discutir sobre isso agora? — Tento me manter firme.
— Por que? Você só quer resolver as coisas quando é conveniente para você? Está preocupado só porque Gabriel está aqui?
— Vocês são patéticos. — Gabe se levanta, com as mãos no rosto. Ele pega o cantil, coloca no bolso e sai do quarto.
— O que está acontecendo agora? — Travis grita do banheiro. — Estou me sentindo como uma babá. — Abre a porta. — É sério. Vocês estão como Billie e Jane. Que vergonha.
Encaro Thomas, e me sinto decepcionado. Não esperava que ele estivesse se sentindo tão m*l com tudo, e muito menos tomando esse tipo de atitude ridícula achando estar certo.
— Eu estou faminto. — Abro a porta e saio sem responder Travis.
Enquanto ando até o refeitório, minha mente rodopia. Eu e Thomas estamos em um momento muito delicado, e parece que perdemos tudo que já tivemos um dia. Toda aquela amizade, todo aquele amor... Eu sempre contava com ele quando estava m*l, desde quando o conheci me apaixonei por seus desenhos e por sua forma de ver o mundo. Por sua força.
E das outras vezes que discutimos, resolvemos. Dessa vez, parece que não há solução que vá nos manter juntos.
O avisei sobre Jane, o avisei sobre tudo isso, e mesmo assim ele pulou de cabeça. Não me escutou.
Como que se dizia tão apaixonado por mim, mas mesmo quando começamos a criar um laço romântico, ainda se importava com o que Jane pensava?
Para ser sincero, estou puto. Estou cansado. E com muita fome.
Janto com Tyna e Gabriel, enquanto Travis e Thomas sentam em outra mesa. Eles estão conversando sobre algo que não consigo entender. Resolvo não prestar mais atenção, e continuo a comer.
Não conversamos sobre nada, já que o clima está pesado. Finalizo minha janta, me despeço dos dois e sigo sozinho até a cabana.
Sinto como se todos nós estivéssemos nos desfazendo.
Escovo os dentes, me jogo na cama e fecho os olhos por um instante. A única fonte de luz é a da Lua, que atravessa a janela do quarto. É uma visão maravilhosa, que me ajuda a refletir ainda mais. Porém, estou cansado de pensar na vida. Só quero descansar um pouco.
Então, é isso que resolvo fazer.
Acordo três horas depois, desesperado. d***a, dormi mais do que havia planejado. Fui burro de não ter colocado um despertador.
Olho em volta, mas nenhum dos garotos está aqui. Se já está tarde, onde é que eles se meteram? E o que estão fazendo?
Levanto da cama, e assim que encosto os pés no chão de madeira, me lembro das roupas no armário do ginásio. Eu havia levado um conjunto de roupa a mais, e acabei me esquecendo de buscar quando a natação terminou. d***a.
Talvez esteja acontecendo uma atividade extra, que extrapolou o horário. É melhor eu ir checar. Coloco uma blusa de frio e saio da cabana, mas está tudo quieto.
Escuto passos correndo pela floresta, e congelo. Confesso que isso arrepiou até a minha espinha. Calma, Jace. Está tarde e muito quieto, pode ser apenas um animal na floresta. Apenas isso. Respiro fundo, e continuo a andar. Ou talvez seja apenas algum monitor verificando se não há ninguém por lá.
Caminho, com cuidado, até a quadra de natação. Tudo deve ser feito com extrema cautela, já que o toque de recolher é 19h25, e já são dez da noite. Então, os monitores e as professoras não podem farejar o meu rastro.
Passo por uma cabana de ferramentas, e sinto o cheiro da grama e dos pinheiros. A lua está maravilhosa. Em outro contexto, eu e Thomas estaríamos escondidos na floresta para a observar.
O cascalho faz sons engraçados à medida que piso neles, e rapidamente me encontro na porta da quadra. Porém, antes que eu entre, escuto risadas femininas perto de mim.
Olho sorrateiramente para a direção do som, e vejo Tyna e Jane sentadas com as costas apoiadas na parede externa da quadra, conversando sobre algo. Elas não percebem a minha presença, então apenas entro no local e fecho a porta atrás de mim.