Capítulo Oito
THOMAS DINESH
Assim que entrei pela porta principal, fui surpreendido por uma gritaria estridente e Radioactive na caixa de som. Havia um garoto de cabeça para baixo, sendo segurado por outras pessoas ao seu redor, tomando cerveja por uma mangueira. Pela casa, adolescentes bebiam e conversavam. Não pude deixar de lembrar da noite em que estive nesse bairro com Jace, Tyna e Travis e em como fiquei nervoso dentro do carro, apenas os deixando para trás e indo a pé para casa.
Agora, neste exato momento, eu movimento os meus pés até um canto desocupado na cozinha. Travis e Tyna estão bem à minha frente, me guiando. Reconheci algumas pessoas da escola, mas nada de Jane. E ela estava falando a verdade; Billie não está aqui.
Enquanto Travis pegava bebidas para nós, observei a casa. Simples, porém assiduamente decorada, dando um toque de luxo. As escadas que levavam ao andar de cima estava bloqueada por várias pessoas sentadas nos degraus, e pensei em como seria difícil ir ao banheiro e ter que passar por ali.
— Aqui — Travis colocou um copo de plástico na minha mão, e dentro dele havia um líquido verde com pedras de gelo — é limonada com vodca. Nada demais.
Nós três bebemos simultaneamente, e estava mais forte do que eu esperava. Quando acabamos de virar, Stressed Out invadiu meus tímpanos. Eu sairia daqui com uma bela dor de cabeça.
— Ainda bem que Billie não está aqui, eu estava pensando em vasculhar o quarto dela. — Tyna riu, porém sei que falava sério.
— E encontrar o que? Um livro escrito "Como Ser Uma v***a: 5 Passos Cruciais"? — Travis respondeu. Apesar do tom sério, deu um sorriso de lado.
— É sério, quer dizer, por que não? Ela fingiu estar grávida e abortar apenas para tentar arrancar dinheiro da sua família, e ainda tentou ameaçar Jace. Uma vingança não faz m*l, não é? — Tyna sorriu com o copo entre os dentes. Antes que eu pudesse concluir um raciocínio para protestar, ela já havia deixado a cozinha e ido conversar com outras pessoas.
— Ela não tá falando sério — olhei para Travis — não é?
— Uma coisa que aprendi rapidamente com Tyna — encheu o copo novamente e tomou toda a bebida em apenas um gole — é nunca duvidar das suas loucuras. — Encheu o meu, e tentei virar assim como ele.
Um pouco de limão e vodca caiu pelo colarinho, mas não me importei em limpar. Quando coloquei o copo na ilha de granito, Jane apareceu em minha frente, como se tivesse surgido do chão.
— Travis, Thomas. — Nos cumprimentou. — Fiquem á vontade, bebam e apenas aproveitem a noite. — Sorriu.
A sua voz era doce e suave. Estava usando um vestido verde-claro com as mangas bufantes, justo na cintura. Os seus olhos brilhavam como nunca, os seus longos fios loiros balançavam como se uma ventania tivesse invadido a casa.
— Billie não está, como falei. Muito menos Gabriel. Desde quando tudo aconteceu, ele não apareceu mais aqui ou sequer olhou para minha irmã. — É claro, está ocupado olhando para Jace. A lembrança dos dois no hospital queima a minha garganta.
Esqueça eles, esqueça eles, por favor... Pelo menos por essa noite. Pense em você, Thomas.
— É, ele está passando por uma fase difícil — Travis respondeu — não conversa muito comigo, não somos exatamente os irmãos mais próximos do mundo.
Enquanto eles conversavam, enchi um copo para Jane, que percebi que mantinha os olhos fixos em mim durante todo o tempo.
— Oh, gentileza da sua parte, mas eu não bebo. — Disse quando a ofereci o copo. — Apenas Billie... Eu não gosto. — Deu um sorriso tímido, colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha e voltou a atenção à Travis.
Durante o tempo em que eu apenas ouvia a conversa dos dois, olhei para o outro lado do cômodo, onde Tyna estava conversando com um garoto de cabelo vermelho. Ah, eu acho que o conheço...
Meus olhos foram para suas mãos, com veias salientes. Estava usando roupas pretas, o que destacava mais ainda os seus cabelos. Ele era lindo, qualquer pessoa sã consegue ver isso. E claro, uma garota como Tyna chamaria a atenção dele.
— E como o Jace está? — A garota ao meu lado virou-se para mim.
— Am, é... Ele está bem, — voltei a atenção para Jane e Travis — deve voltar segunda.
— Isso é ótimo! Apesar de vocês terem, é... Feito aquilo... — Ela apontou para uma janela que estava na direção do quintal.
E, então, eu me lembrei que já havia a visto antes. A lembrança me atingiu como um soco.
— Calma, você é a garota que estava no vídeo da Billie, não é? — Perguntei. Ela me olhou como se eu fosse maluco. Olho para o lado na esperança de que Travis me ajudasse nessa, mas ele se foi. — Você estava bem ali, jogando dardos em uma foto da Tyna. Agora me lembro! E você estava bêbada, completamente bêbada.
Ela é igual a irmã. Reviro os olhos e, antes que eu pudesse passar por ela e sair da casa, sinto a sua fina mão segurar o meu pulso. Os seus dedos escorregam pela minha mão, e ela me puxa.
— Thomas, eu nem sabia quem ela era. E é, eu estava completamente bêbada... — Assim que me soltou, fechou os olhos e passou a mão pelas têmporas. — Naquele dia eu passei muito m*l, e desde então não bebo mais. Sinto muito, eu apenas sabia de Tyna pelo que Billie havia me contado e... Ela é minha irmã. Confiei nela. Fiquei tão decepcionada quando descobri a verdade...
Eu não sabia se podia confiar nela. Afinal, ela é uma Rainbow, e essa família está repleta de malucos.
— Eu não acredito. — Falei. — Obrigado pelo convite. Te vejo na escola.
— Não, Thomas, espera — ela me segurou novamente. Olhei para Tyna, e ela agora olhava para nós, assim como o garoto ao seu lado. Sem sinal de Travis. — O que posso fazer para você confiar em mim? Qualquer coisa. Diga. Quer que eu mostre o quarto dela, para vocês poderem rir da quantidade de bichos de pelúcia que ela guarda, ou devido aos pôsteres de boybands?
Olhei para Tyna, e depois para a escada.
— Até que não é uma má ideia.
Após passarmos com dificuldade por aquelas pessoas, eu, Tyna, Jane e Travis estávamos a encarar a porta do quarto de Billie.
— Calma. Antes que eu abra... — A garota se virou para nós — não peguem nada, ela vai saber.
Tyna empurrou Jane para o lado e abriu a porta com força, e nos deparamos com um cômodo completamente limpo e organizado. Uma cama de casal ficava no centro, com um grande tapete cobrindo quase todo o piso de madeira. Do lado esquerdo, uma penteadeira cheia de gavetas estava situada, e do lado direito havia uma estante repleta de livros.
— Eu vou deixar vocês ai, preciso ficar lá em baixo e me garantir que nada será quebrado. Mas por favor, não peguem nada. — Ela nos dá um olhar estranho e sai do quarto.
— Não peguem nada... — Tyna riu enquanto repetia, e em seguida começou a olhar todo o quarto de Billie.
Como a Jane tem coragem de fazer isso com a própria irmã apenas para provar um ponto para mim? Por que ela quer que eu confie nela tão desesperadamente? Talvez não exista nada aqui para ser encontrado, e por isso ela estava tão segura disso a ponto de nos deixar sozinhos. Ela é uma Rainbow, e não posso me esquecer disso.
Enquanto Travis fica deitado na cama de Billie e Tyna vasculha todos os cantos, leio alguns títulos de livros na estante em minha frente. Grandes nomes como Stephen King e Oscar Wilde ocupam uma grande parte apenas para eles. Billie não tem cara de que lê Oscar Wilde - ou qualquer coisa. Talvez nem seja dela, ou está intocado.
Larson pigarreia fortemente, chamando a minha atenção. Quando olho para sua direção, ela segura a porta do closet, que está repleto de bonecas de porcelana.
— Que tipo de bizarrice é essa? — Travis pula da cama e vem na nossa direção.
— Não faço a mínima ideia. Pode ser que ela colecionava quando era criança. — Tyna responde com uma expressão de nojo. — Olha a cara delas. É assustador. — Ela pega o celular e tira uma selfie com as bonecas.
— Não é tão assustador assim, vai. — A voz de Jane surge do além, e quando me viro, ela está na porta do quarto.
É difícil tirar os meus olhos dela. Parece um ímã, e estranhamente me passa uma boa sensação.
— Enfim, se já acabaram, vamos descer antes que essa festa acabe. — Abre um grande sorriso e não move um passo até estarmos fora do quarto.
Após descermos, Jane fez questão de nos entupir de bebida. Provavelmente queria que esquecêssemos aquelas bonecas, mas aquilo nunca seria esquecido. E, além disso, Tyna tirou foto.
A música ficou mais alta, e enquanto estou sentado numa poltrona confortável, observo o garoto de cabelos vermelhos se aproximar.
— Me lembro de você — falou— é o Thomas, certo? — Esticou a mão para que eu o cumprimentasse. Assenti com a cabeça, mas não encostei nele. — Oh, ok.
Pensei que iria embora, mas sentou-se no chão, de frente para mim.
— Caso tenha se esquecido, sou o Theo. — Claro que não esqueci de você, esqueci apenas o seu nome.
— Interessante. — Respondi, olhando para outra direção. Ele devia ter percebido a essa altura que eu estou desconfortável.
— Eu estava conversando com a sua amiga mais cedo. Estou em uma banda, eu e o i****a do Max.
O que tem dentes pontudos.
— E vamos fazer um show na quinta-feira. Estamos no início, então gostaria que fossem. — Passou a mão repleta de anéis pelas chamas vermelhas. Desta vez, o seu cabelo não parecia flutuar como chifres, mas seus olhos não haviam mudado. — E peço perdão pela forma que nos conhecemos. Meus amigos são babacas.
— Então por que são seus amigos? — O encarei.
— Bem, — respondeu, se levantando — não estou te julgando por estar na casa de uma Rainbow, estou? — Deu uma piscadela. — E sei onde te vi antes. Lembra que quando nos vimos pela primeira vez, disse que já havia te visto em algum lugar? É. Eu me lembrei. — Estava andando em direção à porta, mas antes de passar por ela e deixar a casa, continuou. — Me lembrei. Você estava na sorveteria. — Deu uma piscadela e foi embora.
No resto da festa, permiti que meu corpo relaxasse. A maioria das pessoas já tinha ido embora, mas Jane insistiu que eu e os meus amigos ficássemos por mais um tempo. Não posso mentir; havia algo nela. Algo doce, cativante, que me prende feito um inseto numa teia de aranha. Mesmo sem tentar, me vejo preso em algum tipo de encantamento que apenas ela faz. Mas, então, os meus pensamentos correm para Jace. O frágil Jace, deitado na maca do hospital, imaginando o que os seus amigos estariam fazendo uma hora dessas, mas tudo estilhaça feito vidro quando lembro de Gabriel.
Eles provavelmente ficarão juntos, e eu não posso esperar que... Esperar algo acontecer. Nem eu sei o que quero.
Estávamos todos reunidos na sala de estar, Jane sentada ao meu lado no sofá, dizendo algo sobre como as mãos dela estavam geladas e as colocando no meu pescoço. Tyna, mais adiante, sorria para o celular, e Travis estava cochilando no chão, a cabeça apoiada na poltrona. Uma garota n***a, com o cabelo cheio de tranças azuis e olhos verdes contava sobre uma viagem que ela havia feito no ano passado. Desvio a minha atenção para Tyna quando ela se desmonta ao meu lado.
— Com quem estava falando? Estava toda sorridente. — Digo, e vejo Travis abrir os olhos e os fechar novamente.
— Apenas Jace. Lembra dele? Lindo cabelo. — Riu, e colocou o celular em minha frente, o brilho me cegando.
— Claro que lembro, ele é meu... — Paro de falar assim que enxergo a tela com clareza. Tyna havia o enviado uma foto dela, e, no fundo, estava eu e Jane. — Amigo.
JACE MILLER
Acordo com o som dos pássaros do lado de fora. Domingo. Ainda estou nesse maldito hospital, e espero que seja meu último dia. Sinto uma súbita vontade de vomitar, mas passa assim que me levanto. Lembro de ter tido um pesadelo, onde eu estava extremamente desconfortável na casa dos meus pais, e... Tinha um homem lá. Quem era ele? Provavelmente uma invenção da minha mente. Estou farto desse hospital de m***a.
O meu estômago não dói mais, o que é um grande avanço. Lasanha, pizza, hambúrguer... Não vejo a hora de poder comer essas belezinhas novamente.
Alcanço o meu celular na mesa ao lado e o desbloqueio, vendo que não tenho nenhuma notificação, nem mesmo da minha família. Talvez seja melhor assim, já que não tenho um momento de paz nos últimos dias.
— Oh, olá Jace. — A enfermeira entra no quarto. — Hoje provavelmente você terá a sua última consulta. Como está se sentindo? — Segurou a prancheta com as duas mãos e me deu um sorriso caloroso.
— Cansado — falei — e querendo voltar para casa.
— Certo. Os seus pais não estão aqui no momento, mas já irão chegar. Sobre a sua saúde, os exames constataram que está tudo nos padrões. Está a sentir dor, incômodo, ou algo do tipo?
— A dor de estômago passou. Tudo o que sinto é um grande e profundo alívio. — Tento sorrir. — Fisicamente. — Completo.
— Sua consulta é após o almoço, espero que tudo ocorra bem e que possa voltar à sua vida normal. Relaxa, o pior já passou. Agora você tem ajuda. — Ajeitou o cabelo preso na trança e, com um último sorriso, deixou o quarto.
Após alguns minutos, um enfermeiro entrou, deixou o café da manhã e retirou-se sem dizer nada. A comida daqui não é totalmente r**m, apenas não tem gosto. Exceto pelo pudim de chocolate.
Por esse motivo, sou grato pelo Sr. Clark e a comida no seu escritório. Claro que o chocolate e o chá são fiscalizados pelas enfermeiras e eu só posso comer porque tenho autorização, caso contrário nem ficaria visível. Talvez seja isso que não faz eu odiar completamente esse lugar.
Como enquanto assisto um desenho na televisão na minha frente, mas meus pensamentos estão concentrados em saber o que o meu pai e a minha mãe estão fazendo. Devem ter ido descansar, tomar um banho e comer comida de verdade. Não os julgo por deixarem-me sozinho aqui, eu me sentiria m*l se eles deixassem de se cuidar para me fiscalizarem toda hora.
Lembro da minha casa. A grande mansão na fazenda, um pouco contraditória e irônica. Eu adorava observar o gigante jardim com flores coloridas e os animais andando pelo campo enquanto eu tocava guitarra. Mas às vezes eu me sentia sozinho, sem nenhuma companhia. Mesmo quando meu irmão ainda morava lá, ele nunca parava em casa. A primeira coisa que farei quando sair daqui, será levar os meus amigos para lá. Nadar, rir e comer porcaria.
Olho o meu celular novamente em busca de alguma mensagem, mas nada. Ninguém. Nem mesmo os meus pais. Ótimo.
Então, me lembro da foto que Tyna havia me enviado. Fico triste por não poder ter ido à festa com eles.
Os meus pais chegaram no horário do almoço, e falaram que haviam ido ao supermercado para fazer as compras de casa, e depois o meu pai foi resolver uma papelada com o seu advogado.
— Seus amigos vieram aqui mais cedo? — Minha mãe perguntou enquanto ajeitava o buquê de lírios brancos ao meu lado.
— Não... Foram a uma festa ontem, então devem estar de ressaca. — Bufo. — O dia está a ser um tédio.
Na mesma hora, a enfermeira de mais cedo entrou com o meu almoço.
— É o seu último no hospital. Assim que acabar de comer, pode ir até à sala do Sr. Clark, tudo bem? — Ela dá o mesmo sorriso meigo e se retira do cômodo.
— Você os avisou que é seu último dia aqui? — O homem sentado na poltrona perguntou. — Seria legal sairmos juntos para jantar. Todos nós.
Acho que ele não entende muito bem que não é só porque ele deu um discurso meia boca, que estamos bem.
— Na verdade, eu já combinei de sair com eles. Talvez segunda. — Minto.
— Tudo bem. Bom que temos tempo de pensar em algo mais legal que um jantar. — Diz, e se levanta fazendo um grunhido chato. Meu pai tem o talento de me incomodar até com os seus pequenos atos.
— Vou almoçar antes que esfrie, tudo bem? Vocês deveriam ir até à lanchonete para comer algo também. — Puxo a bandeja para meu lado e ligo a TV.
— Claro, voltaremos antes que saia para sua consulta. — Minha mãe diz, enquanto passa o seu cachecol pelo pescoço.
Eu nem havia notado o quão frio estava.
Quando eles já haviam saído, olho através da janela. As árvores estão a perder as cores, e as crianças no parquinho usam botas e toucas. Eu não sinto frio algum, exceto nos pés, que tocam o piso gelado do quarto.
Por algum motivo, toda essa cena me faz sentir sozinho. Então, pego o meu celular e mando mensagem para Thomas.
''Oi, vocês vão vir à tarde? Saio hoje.''
12:13
Sem resposta. Ainda deve estar dormindo.
''Tyna, como foi ontem? Pelo jeito que você estava, parece ter sido legal. Algo aconteceu?''
12:13
Nada.
''Você bebeu tanto quanto Tyna, Travis? Se der, gostaria muito de ver vocês hoje.''
12:14
Aparentemente, foi uma madrugada agitada. Talvez seja melhor tentar de novo quando a minha consulta acabar.
Escovo os dentes e vou com os meus pais até a sala do Sr. Clark, e eles esperam do lado de fora. Dessa vez, não sinto cheiro de nada além do sabonete que o homem usou antes de vir trabalhar. Sem brincadeiras, sem pegadinhas. Hoje é dia de ir embora, não de mergulhar em mais lembranças.
— Último dia, em? — Ele me olha através dos óculos. — Como se sente quanto a isso?
— Ansioso. m*l posso esperar para viver a minha vida novamente. Mas sinto como se... Se eu não tivesse tentado... Sabe? — Ele assente com a cabeça. — As coisas na minha família não estariam resolvidas. Os segredos ainda seriam segredos, como a traição, ou sobre a minha sexualidade. Tudo isso ainda estaria debaixo do tapete.
— É realmente decepcionante. Acontece que as coisas não dependem apenas de nós, entende? Nós não controlamos as outras pessoas, e pensar que elas serão honestas conosco apenas por estarmos feridos... É uma forma tola de pensar. Então eu sugiro que, de agora em diante, tente apenas observar em como você irá reagir com os eventos ao seu redor, e não em como as pessoas devem ou não agir.
— É uma forma de começar. Mas quando está na minha família, eu não sei... Depois que Dylan, o meu irmão, foi embora, sinto que eu tivesse que arrumar as coisas. Ele mantinha a família unida. — Quando disse isso, o psicólogo pareceu olhar-me com mais interesse.
— Então, por que ele foi embora?
— Ele se foi quando formou no ensino médio, no mesmo colégio em que estudo atualmente. O dia em que ele foi embora, ele estava bem melancólico... Os meus pais estavam sérios, me lembro de não insistirem muito em fazê-lo ficar. Não recebo muitas notícias, Dylan se afastou muito. Mas, até onde eu sei, ele está casado e mora em Luisiana, onde também faz mestrado.
— E vocês eram próximos antes dele se mudar? Se davam bem?
— Sim, muito bem, na verdade. Por isso foi bem esquisito quando tudo isso rolou. Mas tá tudo bem, ele precisava seguir a vida longe dos meus pais, e eu entendo. Eu também faria isso em seu lugar.
Um silêncio perpetuou no seu escritório. Era como se ele não acreditasse em mim.
— Bom, talvez seja interessante perguntar aos seus pais o que aconteceu, ou o motivo de Dylan não manter tanto contato. Talvez, até mesmo, você pergunte diretamente a ele. Agora, Jace... — Removeu os óculos — Você é um garoto esperto. Inteligente o suficiente para sair dessa situação.
Mas não fui eu que me meti nela?
— Você já pensa qual graduação deseja fazer, e em qual universidade? É importante ter planos.
— Ah, esse assunto de novo. — Jogo a minha cabeça para trás e respiro fundo. — Meus pais querem que eu faça medicina, mas eu sei que música é o que eu realmente quero. Na verdade, nem sei se quero me graduar. Meu sonho, na verdade, é entrar em uma banda. Mesmo que eu não ganhe dinheiro. Posso trabalhar com outra coisa enquanto componho e toco guitarra. Não quero uma vida excêntrica como a deles.
— É um bom plano. No final, é a sua vida, e não a deles. O seu irmão formou-se em medicina?
— Sim.
Clark levantou-se da cadeira e foi até a sua estante de livros, de onde tirou um livro novo, de capa marrom. ''Família, expectativas e reconciliações''.
— Já ouviu falar desse livro? — Me entregou. — O título pode te desagradar, mas no final do livro você entende que reconciliação não significa tolerar o intolerável. Significa perdoar e seguir em frente, para seu próprio bem. Pode mantê-lo para si.
— Oh, obrigado. — Observo e folheio o livro nas minhas mãos, que não possui tantas páginas quanto eu pensava.
— Você será atendido por um psiquiatra uma vez a cada quinze dias. O nome dele é Ed, um amigo próximo que irá te auxiliar no que for necessário. Sobre as nossas sessões, gostaria de saber se você quer manter a terapia comigo, semanalmente, ou prefere mudar de profissional.
— Pensei que você só atendia em hospitais.
— Atendo aqui e na minha clínica, por isso não fico no hospital o dia inteiro. Nós progredimos bastante por todo esse tempo em que esteve internado se recuperando, e passamos por um importante momento juntos. Eu gostaria de continuar a atendê-lo, por isso abro essa exceção.
O Sr. Clark realmente havia me ajudado muito a progredir, colocar as coisas nos lugares e entender-me mais. Além de que recomeçar tudo com um novo psicólogo, ter que contar o que aconteceu... Parece exaustante.
— Claro, eu também prefiro.
Após conversarmos mais um pouco, a sessão terminou. Os meus pais assinaram um contrato com o psicólogo e já haviam acertado as consultas com o psiquiatra. Tudo parecia estar em ordem, mas eu ainda sentia algo estranho. Sair do hospital significa que as coisas vão voltar ao normal, e que eu vou voltar ao normal. E se eu não conseguir melhorar mais que isso? E se eu piorar? E se os meus pais estiverem apenas fazendo cena e, quando eu chegar em casa, brigarão comigo?
Sou tirado dos meus pensamentos quando vejo Gabriel sentado no chão ao lado da porta do meu quarto.
— Oi, tudo bem? — Ele se apressa em levantar. — Te mandei mensagem, mas você devia estar na consulta. Desculpa não avisar antes, Sr. e Sra. Miller. — Gabriel parece nervoso.
Não posso evitar abrir um sorriso quando ele me abraça.
— Sem problemas, ele acabou de ser liberado. Filho, por que não arruma as suas coisas e troca de roupa para irmos embora? Eu e seu pai vamos passar na recepção para a enfermeira te dar alta.
Antes que eu possa responder, os dois passam por mim, me deixando a sós com Gabriel no quarto. A minha mochila está na poltrona, e nela contém roupas para eu me vestir e tirar essa coisa ridícula do hospital. Após trocar-me no banheiro, finalmente começo a me sentir eu mesmo.
Mas ainda é estranho não usar um moletom para cobrir os meus braços.
— Como foi a última consulta?
— Por que voltou? Depois de ontem... O que aconteceu? — O corto.
— Não é porque você não quer nada comigo, que me deixo de preocupar com a sua saúde. Quer dizer, onde estão os seus amigos?
Tento ignorar a última frase.
— Tá. Eu não vou discutir, tá bom? O que você quer? — Ajeito o meu cabelo e tento dar uma arrumada no quarto enquanto Gabe fala.
— Te ver, claro. Também quero te tirar daqui, e pensei em irmos a um lugar legal. Você vai gostar.
Após explicar para meus pais que iria sair com Gabriel e passar quinze minutos apenas tentando convencê-los, consegui entrar no carro e respirar o ar fresco fora do hospital.
— Não vou acabar morto, não é? — Brinco, enquanto coloco o cinto de segurança.
— Não se você não tentar de novo. — Ele ri.
Ao mesmo tempo que sinto uma saudade imensa de passar momentos como esse com Gabe, algo me diz que estou a cometer um erro. Que irei machucar-me novamente, assim como da primeira vez. Mas, dessa vez, ele sabe que eu não quero nada além de amizade, e acredito que ele está, de verdade, tentando compensar por tudo o que fez. Eu sei que deveria, mas nunca conseguiria o odiar.
O que custa dar uma segunda chance?
— Abra o porta-luvas, você vai encontrar algo interessante — ele dá partida no carro, e o sol começa a aparecer entre as nuvens. Pego de lá mais um bombom de chocolate com menta. — Esse é por você voltar para casa.
Novamente, um sorriso genuíno brota em mim. Esse gesto foi... Tão especial. Esse é o segundo chocolate, e se eu o entreguei três, quando ele irá me dar o terceiro?
— Você não está tentando me conquistar, ou está? — Pergunto. — Se estiver, boa tentativa. Se não estiver, já me entregue o terceiro.
— Que terceiro? Não sei do que está falando. — Diz ironicamente, sem tirar os olhos da estrada.
Sem falar mais nada, coloco o chocolate na boca e o sinto derreter enquanto escuto Billie Eilish e presto atenção no caminho. Passamos por árvores lindas, e em pouco tempo consigo ver um lago no meu lado esquerdo.
— Onde estamos? — Não havia prestado atenção em nenhuma placa de trânsito.
— É surpresa, já falei. Tente não ser um birrento. — Seus olhos prestavam atenção no volante, e eu sentia a temperatura aumentar à medida que o sol aparecia. O verde do lago reluzia no vidro, e não pude evitar soltar um suspiro profundo. Estou vivo.
Meu celular vibra, e quando olho as notificações, Thomas, Tyna e Travis haviam me respondido só agora. Respondi que já sai do hospital, mas que farei algo antes de ir para casa.
Fecho os olhos, confiando que eu e Gabe chegaremos à salvo onde quer que estejamos a ir.
— Não é lindo?
A grama recém cortada ao redor do lago está incrivelmente verde, e tenho vontade de deitar nela. Então, me jogo.
— É explêndido. — Eu nunca havia usado essa palavra antes. — Para um c*****o.
Gabriel vai até o carro, que estacionou em uma trilha que leva ao lago. Do porta-malas ele retira uma mochila e uma cesta, e traz os dois na minha direção.
Da mochila ele retira um lençol, e pede para que eu deite nele. Em seguida, tira um cobertor e duas toalhas. Da cesta, tira garrafinhas de água, algumas frutas e sobremesas de padaria.
— Pensei em trazer bebida, mas vamos pegar leve com o seu estômago durante um tempo, okay?
Não consigo responder.
As visitas, o ursinho de pelúcia, os chocolates... E agora isso. Por que ele estaria tão empenhado em pedir desculpas se eu já as aceitei? Por que ele está fazendo isso? Será que os meus pais pediram?
— Gabriel... — O chamo para perguntar o que está a acontecer. Mas ele está longe de mim, tirando os tênis, a calça e a blusa, e entrando no lago.
A minha pele queima e me lembro do sol acima de nós.
— Está ótima! — Ele grita e dá um mergulho.
Eu seria um b****a se só ficasse aqui, de cara fechada, sendo um ingrato.
Fico apenas de cueca e corro na direção da água, mergulhando de cabeça. Por um segundo, sinto como se o lago estivesse me abraçando, e a água está tão refrescante que não quero voltar para a terra.
— Muito... Boa... — Recupero o ar após emergir. Viro de barriga para cima e boio, tampando os raios do sol com a mão. — Esse lugar é seu?
— Não. Não sei de quem é. — Responde entre gargalhadas. — Encontrei porque passei aqui de carro uma vez.
— E se for propriedade privada?
— Você viu cercas ou placas? Porque eu não vi.
— Você é maluco.
Ele boia ao meu lado, e fechamos os olhos. Nunca foi tão bom respirar.
— Eu estava pensando... — Ele começa — No que vamos fazer quando tudo acabar.
— A escola?
— Sim. Quando nos formarmos.
— Não gosto de pensar nisso, Gabe. Talvez ainda tenhamos nossas amizades. Talvez Thomas, Travis e Tyna ainda me mandem mensagem. Talvez eu desapareça como o meu irmão.
Gabriel era próximo de Dylan, e também usava isso como desculpa para frequentar a minha casa.
— Eu não quero ficar sozinho. — Digo.
— Nem eu.