Capítulo Nove
THOMAS DINESH
A minha cabeça dói de uma forma que nunca senti antes, e uma ventania faz as cortinas da janela se abrirem. O meu quarto está todo iluminado, e apenas consigo reclamar e jogar um travesseiro no rosto.
— d***a. — A dor não passa. m*l consigo raciocinar, é como se a minha mente ainda estivesse a dormir.
Sinto a minha boca ficar completamente seca, então, com dificuldade, levanto para pegar um copo de água na cozinha.
— Olha só quem acordou — a minha mãe está a fazer o almoço. Mas já? — Que cara é essa? — Ela pergunta, ao reparar a minha careta.
— Quantas horas? — Abro a geladeira e coloco água gelada no copo de vidro em minha frente.
— Uma da tarde. Você apagou bonito. Eu e o seu pai chegamos agora pouco, aliás. Vá tomar um banho e depois venha almoçar, quero ouvir como foi sua noite ontem.
Não quero me mover. Na verdade, quero me jogar nesse chão e fechar os olhos, sem precisar fazer nada. Mas é claro que não é o que vou fazer.
Até que me lavar não seria uma má ideia. Me sinto sujo, e talvez um banho renove as minhas energias. Isso que é a ressaca? Se sentir um amontoado de lixo, sentir dor de cabeça, sede, e preguiça?
Deixo a água morna percorrer por meu corpo, lavo o meu cabelo e isso realmente me faz sentir melhor. Durante esse momento, não consigo evitar em lembrar da noite de ontem. O gosto daquela bebida h******l, Theo me chamando para o show da sua banda, Jane nos deixando entrar no quarto de Billie...
— Se realmente era o quarto dela. — Sussurro.
Desligo o chuveiro, enrolo-me na toalha e penso se fazia mais sentido ser o próprio quarto de Jane do que de Billie. Aqueles livros, aquelas bonecas... Não faz sentido. Mas talvez a gente apenas não conheça ninguém 100%.
— Aí está o campeão. — Meu pai diz quando sento à mesa com eles. — Com a sua primeira ressaca.
— Está tão óbvio assim? — Pergunto, levando uma garfada de peixe até a minha boca.
— Você é muito novo para beber deste jeito. Sei que foi sua primeira festa, e até gosto que você tenha saído dessa caverna de quarto e socializado. Mas vai com calma. — Minha mãe revirou os olhos.
— Na idade dele, éramos piores. - Ele riu. - A sua mãe pode parecer super responsável agora, mas você não sabe do que essa mulher é capaz de fazer depois de três taças de vinho.
— Pare, por favor. — Massageio a testa.
— Mas como foi a festa?
Tomo um gole do refrigerante.
— Não foi tão legal assim. A Billie não estava lá, o que foi ótimo. Conheci algumas pessoas, mas provavelmente nunca as verei de novo. Ficamos conversando sobre assuntos aleatórios até resolvermos ir embora. Para vocês terem noção, eu nem dancei. Foi uma festa esquisita. — Bocejo. Não estou com sono, mas é como se o meu corpo quisesse desligar.
— Você vai ter mais festas para ir, tenho certeza. E ah — o meu pai fez uma pausa para mastigar a comida — teve notícias de Jace?
Jace.
Tiro o celular do meu bolso e vejo que ele enviou mensagem de manhã. d***a, eu nem vi.
— Ele sai do hospital hoje...
Mando mensagem perguntando se podemos sair, mas ele diz que já tem planos, e que irá me avisar quando estiver em casa. Talvez ele esteja com os pais, ou algo assim. Me sinto culpado por não ter me lembrado antes, por sequer ter pensado nele.
— Que ótimo! Espero que ele esteja melhor, é um garoto bom. Não merece o que lhe aconteceu. — Minha mãe recolhe os pratos da mesa e os deixa na louça.
Penso no que ele pode estar fazendo agora. De qualquer forma, quero o ver mais tarde.
Vultures, de John Mayer, foi a primeira música que aprendei a tocar na bateria. O som nos meus ouvidos combinam com o som que produzo com as baquetas, mas a música pausa quando meu telefone vibra.
O nome Jane aparece no ecrã.
— Thomas! Que bom que você atendeu! — Ela suspira. — Tentei te ligar mais cedo.
— Desculpa, estava dormindo. Acordei numa ressaca h******l, e aproveitei que a dor de cabeça passou para tocar bateria.
— Tudo bem. Não é nada urgente, na verdade. — Jane dá uma longa pausa antes de continuar a falar. — Theo vai tocar com a banda dele nesta quinta, e eu queria saber se você vai.
— Talvez, seria legal. — Respondo enquanto deixo as baquetas em cima do banco.
— A música deles é boa. Lembra quando trombamos perto da sala do diretor, e eu estava com aquela blusa esquisita de Billie? Então, é a logo da banda.
— Aquilo?! — Lembro da blusa, e eu nem consegui identificar uma logo de banda nela. — Quer dizer...
— Tudo bem. É bom ajudá-los a crescer um pouco, não acha?
— Mas eu nem os conheço. Na verdade, no primeiro dia em que vi Theo e o seu amigo Max, eles me deram um baita susto. Como você os conhece, afinal?
— Billie era amiga deles, e ia em todos os shows. Eles frequentam bastante a nossa casa. Imagina ser amiga de astros do rock? — Consigo enxergá-la sorrindo do outro lado da linha.
— Ah. — Não sei bem como reagir à isso.
Não é como se eu quisesse me aproximar mais dessa família, mas talvez eu esteja a pegar muito pesado com Jane. Não posso culpá-la pelos erros de outra pessoa. Afinal, as únicas pessoas que enxergo como ameaças são Gabriel e Billie.
— Chame os seus amigos também! Certeza que na festa Theo convidou Tyna, ele parecia hipnotizado por ela. O que me diz?
— Tudo bem. Nós vamos.
— Ótimo! - Ela estava realmente feliz. — Te vejo na escola amanhã. Até mais! — E desligou.
Eu não consigo imaginar um mundo onde Jane Rainbow esteja me convidando para ir a um show com ela. Quer dizer, olhe para si, Thomas Dinesh. O que uma garota como aquela enxergaria em você?
Tento ignorar os meus pensamentos e subo as escadas do porão, imaginando que toda essa paranoia havia ficado lá em baixo com a bateria.
É por volta das sete da noite, e algumas estrelas já brilham no céu.
Conversei com Tyna e Travis, e ambos vão ao show quinta-feira. Travis aparentou ficar desconfortável quando Tyna disse que Theo havia a convidado para o camarim, mas ela não ligou.
Além disso, fiquei sabendo que os dois também acordaram bem tarde. Tyna chegou a passar muito m*l, e só se recuperou após colocar tudo para fora.
''O que acha de vir aqui em casa? Já chamei Tyna e Travis, eles irão vir. Só a gente, pizza, refrigerante e talvez um filme.''
19:02
Recebi de Jace.
Eu estava com saudade, e, francamente, m*l podia esperar para o ver. Respondo de imediato:
''Eu topo! Que horas?''
19:02
''Pode se arrumar e vir.''
19:03
Pulo da minha cama e começo a procurar uma roupa bonita. c*****o, é sempre a mesma coisa. Eu definitivamente preciso de roupas novas. Já já as férias começam, seria legal arranjar um trabalho nesse tempo. Talvez estejam precisando de um funcionário naquela sorveteria. Ha ha ha.
Coloco uma calça jeans, uma blusa preta bem básica e calço meu all star. Como sempre.
Aviso os meus pais que estou indo para a casa de Jace, e o meu pai se oferece para me levar. Hoje, porém, quero ir de bicicleta e fazer os meus pulmões funcionarem um pouco.
— Você só fala de Jace, Jace, Jace... — Ele diz enquanto me ajuda a encher os pneus da bicicleta.
— E daí? Ele é meu amigo. Que acabou de tentar cometer suicídio.
Não é possível que ele está vindo com esse papo para cima de mim. Ele m*l fica em casa, o que ele acha que sabe?
— Mas você nunca falou de uma garota.
Ele acaba de usar a bomba e a guarda num canto da garagem.
— É claro, como esqueci de contar sobre todas as gatinhas que disputam por mim na escola? — O dou o pior olhar que consigo.
— Não fale uma coisa dessas. Você não é tão mau assim. — Coloca a mão no meu ombro enquanto eu levo a bicicleta para a calçada.
Não o respondo. Tento dar um sorriso, e começo a pedalar.
Estou a arfar, e deveria ter aceitado aquela carona. Enquanto arrasto a bicicleta para a porta da casa de Jace, toco a campainha. Aproveito os minutos de espera para observar o meu redor. A fazenda é bem grande, protegida por cercas de madeira. Consigo ouvir, bem de longe, cavalos relinchando de dentro do estábulo.
— Só faltava você. — Jace falou ao abrir a porta. Tirei os meus olhos do estábulo e o observei. A sua pele não está mais tão pálida, assim como a sua boca, que agora voltou ao tom rosado. Está com um sorriso meigo no rosto, e sinto um impulso de abraçá-lo, mas não o faço.
— Que ótimo que todos já estão aqui — coço a nuca — posso deixar a bicicleta em algum lugar?
— Pode deixar escorada aqui na parede mesmo, ninguém vai pegar. — Ele me ajuda a colocá-la numa posição em que não irá cair. — Vamos? — Acena para dentro da casa.
— Ah, Jace — seguro o seu braço — fico muito feliz que esteja aqui. Muito mesmo.
E então, rendo ao meu impulso. O dou um abraço apertado, segurando o seu cabelo. Sinto a textura macia e bem cuidada dele, e também sinto os seus braços me segurarem de volta. Ele tem um cheiro bom, levemente adocicado, e não quero o largar.
— Fico contente em te ver. — Diz.
Ainda estamos abraçados, e fecho os meus olhos. Jace é um pouco mais alto que eu, mas é uma diferença tão pequena que eu nem havia percebido antes. Ele também não me solta, nem sequer afrouxa os braços ou dá leves tapinhas como alguém que quer sinalizar ''tá bom, tá bom''. Talvez esteja tão bom para ele quanto está para mim.
— As garotas se emocionaram. — Escuto Tyna falar.
— Cale a boca, elas estão num momento especial. — Travis responde.
Neste momento, eu e Jace separamos o nosso abraço enquanto seguramos uma risada. Os dois estão com a cabeça para fora da porta, e nem tentam disfarçar.
— Idiotas. — Ele diz, e me puxa para dentro da casa.
A casa de Jace é impecável. Janelas cobrem do teto ao chão no canto da sala, o sofá é enorme e várias poltronas estão em volta da mesa de centro. A lareira está apagada, e sobre ela estão algumas fotos.
— Os meus pais estão no andar de cima, mas não irão nos incomodar — disse e tirou da geladeira um fardo de latinhas de refrigerante.
— Sem mamães pela área, então — Tyna sorriu e apoiou-se na bancada — vocês vão ao show de quinta, então? Os famosos Melancolic's. Aquele de cabelo vermelho é um gato.
Travis limpa a garganta.
— É. Talvez eu vá. Não sei como você confia em um estranho dessa forma a ponto de entrar no camarim dele. — Ele olha firmemente para Tyna.
— Sai fora, pai. Vai cuidar da sua vida. — A garota revirou os olhos. — O que tem com você, Travis? — Ela encarou-o, perplexa.
Jace me olhou como se eu soubesse o porquê deles estarem a agir desta forma.
— O que tem comigo? c*****o, Tyna. Por que não conta para eles sobre quando eu fui te visitar todas as noites porque você estava tendo ataques de pânico, e só voltava para casa quando você já tinha adormecido? Por que não conta sobre o beijo que me deu enquanto pedia para que eu não te deixasse? — Travis está vermelho de raiva. Os seus olhos estão lacrimejando. — Tudo isso... PRA NADA! Você fala de outros garotos como se eu não significasse nada. Me ignora como se eu nem existisse. — Ele acaba de beber o refrigerante e o joga na lixeira. — Não tem uma cerveja aí? — Pergunta para Jace, que tira da geladeira uma garrafa.
— Eu... — A expressão perplexa da garota se foi, e agora ela apenas parece culpada.
— Talvez você realmente goste de ser vista como uma v***a sem coração. Todo aquele discursinho no primeiro dia de aula... Que i****a. — Deu um gole, e passou por uma porta de vidro que leva até o quintal.
E ficamos nos três ali, apenas encarando uns aos outros.
JACE MILLER
Me sequei com a tolha que Gabriel trouxe, e deitei no lençol que se estendia na grama. Gabe trocava de roupa ao meu lado, mas eu ainda estava me aquecendo no sol.
— Esse biscoito de frutas vermelhas é o melhor biscoito do mundo. — Digo.
— Isso porque você não provou o de limão. — Ele começa a guardar as coisas que trouxe, e vejo que é minha deixa para colocar a roupa. — Acho melhor irmos logo antes que escureça.
— Sim, claro. - O ajudo com as coisas. — Obrigado por me trazer aqui, esse lago é maravilhoso.
Ele por um instante apenas para me observar.
— Fico feliz que tenha gostado, Jace.
Nesse pôr do sol, o brilho nos seus olhos fica ainda mais bonito. Os seus fios loiros ainda estão molhados, e instintivamente passo a minha mão por eles.
— Desculpa. — Retiro rapidamente.
— Tá tudo bem, não peça desculpa. — Gabriel pega a minha mão e a leva novamente até o seu cabelo.
Me aproximo mais, até que o meu braço toque no dele. Ondas elétricas passam por mim, e não paro de olhar para sua boca entreaberta.
— O que está fazendo? — Pergunto. — O que está fazendo comigo?
— Eu que te pergunto, Jace Miller. O que está fazendo? — Novamente, ele toca na minha mão. Desta vez, a leva até a sua boca.
— Pare com isso.
— Foi você quem se aproximou. — Ele dá um beijo na palma da minha mão. — Pode se levantar a hora que quiser. É só mandar eu parar, entramos no carro e te deixo em casa. — Gabriel não interrompe o contato visual.
— Já te falei que não quero nada com você. — Tiro rispidamente minha mão da sua boca.
— Estou ciente disso. Não te obriguei a nada. — Ele sorri.
Raiva, confusão e desejo se misturam dentro do meu corpo. Sem pensar, o puxo para mim e beijo os seus lábios. Espero sentir uma faísca da mesma coisa que senti quando fiz isso pela primeira vez ano passado, mas nada.
Apenas me lembro do quanto ele me fez sofrer por causa daquele maldito beijo.
— Nada. — Digo quando nos separamos. — Agora eu tenho certeza que não sinto nada por você. O meu corpo queria descobrir, mas ele já tem uma resposta.
— Que bom — ele passa o indicador pela boca — que bom que agora vai poder me superar. Podemos ficar em paz agora, filho da p**a? — Ele estende a mão.
Eu dou uma risada e aperto a mão de Gabriel, como se estivesse a selar um contrato.
Gabriel para na porta da minha casa, mas antes de sair, passo um momento apenas olhando para a rua.
— Então é isso. Um ponto final. — Olho para o lado.
— Sim. Sem ameaças, sem brigas, sem assuntos pendentes. — Ele responde, mas não olha para mim.
Eu posso ter o perdoado, porque ele realmente mereceu o meu perdão. Mas a v*******a da Billie Rainbow vai pagar pelo que fez.
— E quanto a Billie? — Pergunto.
— Nós já sabemos que tudo aquilo foi uma mentira. Ela nunca esteve grávida, muito menos abortou. Acontece que eu e ela estávamos a ter problemas de relacionamento, e ela fez aquilo para, sei lá... Me enganar. Me deixar preocupado. Mas acontece que ela se fodeu. — Girou o alargador e deu um sorriso de desprezo. — Depois de tudo que aconteceu, a última coisa que quero é ela perto de mim.
— É uma boa ideia. — Respondo. — Bom, acho que está na minha hora. Os meus pais devem querer jantar comigo.
— Tudo bem. A gente se vê segunda, então? — Pergunta.
— Sim, com certeza.
Antes de abrir o carro, Gabriel me chama novamente.
— O terceiro. — E me entrega o último bombom de chocolate com menta. — Pelos finais felizes.
Pego o chocolate da sua mão, e antes de sair, o abraço.
— Obrigado.
— Finalmente em casa, um? — Minha mãe me abraça quando passo pela cozinha. — Estou fazendo seu prato favorito. É um dia bom para todos nós. — Sei que ela está se esforçando muito, mas consigo perceber que está segurando as lágrimas.
— Sim, está certa. É bom estar em casa. — Digo. — Vou tocar guitarra enquanto a comida não fica pronta, tudo bem?
— Claro, vá em frente. Te chamo quando for a hora. E ah, o seu pai está no estábulo dando comida para os cavalos, mas já deve voltar. Ele anda aprendendo muito com o caseiro, aparentemente começou a gostar desse lance de cuidar de fazenda. — Sorri enquanto mistura algo na panela.
Apenas assinto e subo as escadas em direção ao meu quarto.
Aqui está essa criatura não viva maravilhosa. Dona das minhas composições favoritas, aquela que emite o melhor som desse planeta. Pego a guitarra vermelha nas minhas mãos como se fosse a primeira vez.
— Como eu poderia ter pensado em te deixar? — Dou um beijo nela.
Sento na mesma cama onde apaguei semanas atrás. Olho para a gaveta ao meu lado, e quando a abro, o pequeno pote que guardava a lâmina afiada não está mais lá. Ainda bem.
Pensei ter visto o d***o esta manhã
Olhando no espelho
Uma gota de rum na minha língua com um aviso
Para me ajudar a me ver mais claramente
Eu nunca quis iniciar um incêndio
Eu nunca quis fazer você sangrar
Eu serei um homem melhor hoje
Eu serei bom, eu serei bom
E eu vou amar o mundo como deveria, sim
Eu serei bom, eu serei bom
Por todas as vezes que eu nunca pude ser
Meu passado tem um gosto amargo há anos
Então eu apresento uma fachada dura
Bondade é apenas fraqueza, pelo menos é o que me falaram
Eu fui frio, eu fui implacável
Mas o sangue em minhas mãos me assusta até a morte
Talvez eu esteja acordando hoje
Paro de cantar I'll Be Good de Jaymes Young quando ouço a minha mãe me chamar no andar de baixo. Guardo a guitarra em seu devido lugar, respiro fundo e olho pela janela.
As flores ainda estão vivas. Os animais lá fora ainda estão vivos. Eu ainda sinto o vento.
— Estou pensando em chamar os meus amigos para virem aqui. — Digo, comendo o mais rápido que posso. — Na verdade, já mandei mensagem para eles. Daqui a pouco eles chegam. — Acabo com o frango no meu prato, m*l mastigando.
— Meu Deus. — Meu pai fala, e a cena dos dois comendo rápido me faz dar boas risadas.
— Do que está rindo? Você deveria ter avisado. — Minha mãe faz uma careta, mas sua boca está cheia de frango à parmegiana.
— Vocês parecem crianças. — Recolho os pratos quando acabam de comer. — Pode deixar, vou lavar a louça. — Falo enquanto apenas coloco tudo no lava-louças. Eles me olham sarcasticamente, e apenas lhes dou uma piscadela. — Podem ir pro andar de cima, velhinhos. Coloquem um filme e podem roncar a noite inteira.
— Esses adolescentes...
— Mãe, você me entende. Não dá para socializar quando tem gente muito velha na sala.
— Eu só vou me retirar porque senão vou brigar com você, Jace Miller. Não estou tão velha assim. — Ela responde, subindo as escadas.
Assim que chega no topo, a campainha toca e vejo Tyna pelo olho mágico.
— Meu melhor amigo! — Ela pula em mim, me assustando. Se eu não tivesse reflexos para a segurar, nós dois teríamos caído f**o no chão.
— Tyna, como é bom te ver. E aquela foto que você me mandou? O que foi aquilo? — Me faço de bobo, claro.
— Eu estava super bêbada, cara. — Ela tira o cachecol e o deixa pendurado na cadeira onde eu estava sentado no jantar.
— Deu para perceber. Mas tô falando do fundo da foto. Jane e Thomas... O que foi aquilo? — Pergunto.
Ela não soube responder, nem ao menos entendeu a minha pergunta. Tive que pegar o meu celular e mostrá-la do que estava dizendo.
— Ah! — Ela faz cara de surpresa. — Não sei, para ser sincera. Mas não tá acontecendo nada entre eles, se é o que quer saber. — Ela sorri e me abraça pela cintura, feito uma criança. — Tem chocolate aqui?
Sou obrigado a arrastá-la enquanto ando porque ela não me solta, e vou até o armário para pegar uma barra de chocolate. Tyna agarra a barra de chocolate e se joga no sofá, com as penas em cima da mesa.
Antes que eu pudesse reclamar, Travis chega. Ele não toca a campainha e muito menos bate na porta, ele apenas gira a maçaneta e entra.
— Entrei.
— Jura? Sério, qual o problema de vocês? — Pergunto.
Travis vem na minha direção e me dá um aperto de mão.
— Bom te ter de volta. — Ele anda até Tyna e dá um peteleco na sua cabeça.
— Vocês sabiam que agora eu só posso fumar um cigarro por dia? — Falo. — Os médicos estão tentando me fazer parar.
— Cigarro... d***a? Aquele de... — Tyna pergunta.
— Sim, a d***a. — Respondo, a interrompendo.
— Já fumou o de hoje? — Ela me olha com empolgação, e eu balanço negativamente a cabeça.
Sou salvo por Thomas, que acabou de chegar.
Ele está com uma bicicleta ao lado do corpo, e parece exausto. Os seus olhos extremamente claros me olham de volta, e conversamos um pouco antes dele me envolver no melhor abraço do mundo.
Parece aliviado, ou com medo, não sei dizer. É como se, caso me soltasse, nunca mais iria me ver. É como se ele necessitasse disso. E eu também necessito.
Thomas segura a minha cabeça e passa as mãos pelo meu cabelo, e está ali. Está ali o que eu não senti com Gabriel mais cedo.
Infelizmente, o nosso abraço é separado pela inconveniência de Tyna e Travis, que não conseguem guardar a língua dentro da boca. Apenas pego o garoto pela mão e entramos de volta para minha casa.
— Que p***a foi essa? — Thomas pergunta depois da cena que aconteceu na cozinha.
— É verdade, ele tá certo. Mas também tá sendo um i****a. — Tyna levanta as mãos como se houvesse uma arma apontada para ela.
— Então vocês estão... Juntos? — Pergunto.
— Claro que não, i*****l. — Ela responde de forma rude. — E esse é o problema. Eu não posso demonstrar fragilidade perto de um cara que ele já acha que estamos comprometidos. Não é porque eu estava passando por um tempo difícil e precisava de um apoio que eu queria dar para ele. Que i****a.
— Eu não ligo para a intriguinha de vocês. Acabei de voltar pra casa, e não poderia me importar menos. — Dou um sorriso irônico. — Agora, se me dão licença... — Corro para as escadas.
Todos estão precisando de um baseado nessa m***a.
Quando volto (com quatro cigarros no bolso), chamo os dois para irem comigo até o quintal, onde Travis está. Quando nos vê, ele não diz nada.
Nos sentamos no chão e entrego um cigarro para cada. Travis aceita de forma indiferente, mas eu duvido que já tenha feito isso antes. Tyna segura o cigarro como se fosse um item raro. Thomas me olha como se eu fosse maluco.
— Você vai colocar isso na boca?
— E você vai colocar na sua. — Tiro o cigarro da sua mão, o acendo e movo em sua direção. Thomas abre parcialmente os lábios, mas aceita. — É só puxar.
Acendo o meu e depois passo o isqueiro para Tyna.
— Eu provavelmente vou ter que ir para aquela viagem ridícula — falo para quebrar o gelo.
— Que viajem? — Thomas pergunta.
— É, eu também. — Travis solta fumaça pelo nariz. — É uma viagem que a escola organiza nas férias, mais como trabalho social, onde alunos que ficam de recuperação vão para recuperar nota enquanto fazem atividades em equipe.
— E eles pagam tudo?
— Quase tudo. Nós pagamos o transporte e o nosso quarto compartilhado. Duas pessoas em cada quarto. Mas relaxa, é separado em ala feminina e ala masculina. Nada de dar beijinhos na Jane. — Respondo. Um gosto amargo surge na minha boca, mas finjo ser devido ao cigarro.
— Do que você tá falando? — Ele me olha, confuso.
— Nah. — É o que respondo.
Ficamos a conversar sobre as férias, recuperação, volta às aulas e cigarros enquanto a fome não batia. Depois de uns minutos, fomos até a cozinha e devoramos quase tudo que vimos pela frente. Travis e Tyna pareciam ter se resolvido, e conversam num canto. Thomas parece deslocado... E totalmente chapado.
— Você não pode voltar assim para casa. Eles vão perceber.
— Ah? — Seus olhos estão vesgos. — Mas eu tô tentando muito.
— Tente mais. Venha, vamos lavar esse rosto. Foi uma péssima ideia ter te dado aquele cigarro. — Sussurro.
O levo para o banheiro mais próximo e, depois que ele esfrega o rosto, se encara no espelho. Olha profundamente nos seus olhos, e depois nos meus. Não consigo imaginar o que se passa em sua cabeça.
Pego a toalha para secar o seu rosto, mas antes que eu pudesse tocá-lo, Thomas me olha com raiva.
— O que foi?
— Você e Gabe. Que ridículo. Estão juntos?
— Não, Thomas. Não estamos. — Suspiro, e passo gentilmente a toalha por seu rosto.
— Jura? — Parece estar prestes a chorar.
Um cigarro não bate em mim, mas certamente o derrubou.
— Por tudo que é mais sagrado. — Respondo.
E não estou mentindo.