Capítulo Dez
THOMAS DINESH
Ontem foi simplesmente... Maluco. Não tem outra palavra para descrever.
Tyna e Travis discutiram e depois conversaram, mas não sei o que foi resolvido entre os dois. Eu fiquei completamente dopado daquela coisa h******l, e foi minha primeira e última experiência. Credo.
E, bom... Talvez eu tenha deixado transparecer demais a minha infelicidade com o relacionamento entre Gabriel e Jace, mas eu juro que na minha mente eu estava a ser sutil. Não faço ideia do que pode ter passado pela cabeça dele, especialmente após ter dado aquele abraço que pareceu durar uma eternidade.
Mas não tenho muito tempo para pensar nisso, porque o meu despertador não para de tocar. Pego o meu celular e faço o som cessar, mas meu corpo parece afundar na cama, e ela está tão confortável...
— Thomas, você vai se atrasar — a minha mãe aparece na porta — anda logo.
Será que eu consegui disfarçar o cheiro e o meu comportamento quando cheguei em casa? p***a, eu só faço idiotice.
— Já vou... — Digo entre resmungos.
Com relutância, saio da cama e parto para o chuveiro, onde tomo uma ducha gelada para acordar.
Estou arrumado, mas não sinto vontade de tomar café da manhã. O meu estômago deve estar me odiando a este ponto.
— Acho que Jace chegou - ela olha pela janela — ele tem uma picape vermelha?
— Sim, eu nem sabia que ele viria. — Pego a minha mochila e vou até a porta. — Até mais tarde.
Entro na caminhonete sem nem olhar no rosto do garoto ao meu lado. Estou morrendo de vergonha da noite anterior.
— Algum problema, Dinesh? — Jace pergunta. Sei que está olhando na minha direção, mas não consigo parar de encarar os meus pés.
— Não, nenhum.
— Então olhe para mim. — Ele ordena. A sua voz é firme, mas sinto que se eu olhar, ele vai rir da minha cara. — É sério.
Respiro fundo e faço o que pede.
— Okay. — É a única coisa que ele fala ao perceber que a minha mãe nos observa pela janela. — Vamos conversando durante o caminho. — E acelerou.
Ele parece estar pensando. E muito.
É bom saber que Jace não esconde mais o seu corpo. Por outro lado, dói olhar para essas marcas que estão cravadas na sua pele, que nunca irão sumir. Será que isso não o deixa triste?
— Você está encarando as minhas cicatrizes.
— Desculpa. — Respondo, e logo presto atenção nos meus dedos.
— Está preocupado com o que aconteceu ontem?
Talvez não seja esperto evitar essa conversa. Talvez ele vai insistir até eu responder.
— Um pouco. — Sussurro.
— Não precisa. Eu te levei de volta para casa, deixei a sua bicicleta na garagem e você foi direto para o quarto. Os seus pais não perceberam nada. E sobre o cheiro, bem, você meio que tomou um banho com o meu perfume.
— Ah. Que bom. Eu estava pensando nisso mais cedo. — Estou um pouco decepcionado, para falar a verdade. Achei que ele iria trazer à tona tudo aquilo que falei.
Ele apenas olhou para mim e sorriu.
No colégio, somos obrigados a ouvir uma palestra sobre as férias. Eu e Jace sentamos lado a lado, Travis e Tyna estão meio afastados, mas às vezes comentam algo entre si. Jane está sentada mais adiante, prestando atenção. Billie está do lado de Gabriel, mas os dois não se olham e não trocam uma palavra sequer. No palco do auditório, o diretor continua a falar.
— Para os novatos que adentraram este ano no colégio, vocês estão prestes a conhecer a viagem mais incrível que a escola pode proporcionar. Ficou de recuperação e nenhuma prova pode te salvar? Fiquem tranquilos. — Ele fala como um líder. — Aqui, nós não apreciamos apenas notas que não representam um por cento das suas capacidades. Nós apreciamos trabalho em grupo, esforço, aprendizado, mudanças.
— Ele só faz isso porque ganha muito dinheiro. — Jace sussurra no meu ouvido, fazendo os meus pelos arrepiarem. Engulo seco.
— A viagem é para Blue Springs, e fica a menos de uma hora de Kansas City. Pensem na viagem como um acampamento de férias, onde o dever de vocês é completar todas as atividades para recuperarem os seus pontos. Estamos, agora, na última semana de provas. Semana que vem, será liberada uma lista com o nome de todos que ficarem de recuperação. Estes, deverão optar por ir para Blue Springs ou estudarem para realizar a prova final, que lhes garanto que é muito difícil.
— Não é. Meu irmão ficou de recuperação e fez a prova final. Mas todo o mundo vai para viagem porque é bem mais legal. — Jace cochicha novamente.
— Vocês terão mais atualizações sobre a viagem ao decorrer da semana. Enquanto isso, foquem nas provas!
Após alguns minutos, a palestra é encerrada.
— Mas isso não é meio esquisito? E se uma pessoa ficar de recuperação de propósito apenas para ir ao acampamento? — Pergunto enquanto vejo as pessoas saírem.
— Nah, ninguém faz isso. Imagina passar a suas férias sendo obrigado a cortar lenha, pescar e fazer origami, quando você pode arrumar um trabalho temporário. Além disso, alunos que já foram para essa viagem de férias sempre falam que alguma tragédia acontece. Ano passado, um amigo do meu irmão perdeu o celular no lago.
— Entendi. Ainda não faz muito sentido para mim, mas tudo bem.
Começamos a andar para nossa respectiva sala de aula, mas parei assim que escutei Jane me chamar.
— Thomas, Thomas! — Ela veio correndo.
— Oi, tudo bem? — Perguntei.
Ela está linda. Usa uma saia branca e uma grande blusa rosa, maior que os seus braços. O seu cabelo está preso num r**o de cavalo.
— Oi, Jace. — Ela diz, sem tanta empolgação. Ele apenas acena com a cabeça.
— Vou andando, tá bom? Não quero me atrasar. — Jace nem espera a minha resposta e anda pelos corredores.
— Okay, isso foi estranho — ela dá um sorriso tímido — mas enfim, eu só queria perguntar se você pode me ajudar com o trabalho de química. É para entregar depois de amanhã, e não fiz nada... Eu simplesmente não consigo entender essa matéria estúpida. — Ela bate levemente no próprio rosto.
— Você está falando do trabalho que eu já fiz? — Digo. — E que tenho certeza que vou tirar total? — Coloco o indicador no queixo como se estivesse pensando.
— Deixa de ser exibido. Você vai ou não? — Ela junta as mãos de forma adorável.
— Sim, eu ajudo. — Respondo. — Na saída a gente se encontra, tudo bem? Vou atrás de Jace para saber o que aconteceu.
E agora ela está querendo ajuda com trabalho de química. Ah, por favor. Ou eu sou h******l com garotas e tenho uma péssima autoconfiança, ou ela realmente está me enganando. Isso que dá andar com pessoas más... Você sempre vai ser visto como elas, por mais diferente que seja.
— Claro, tudo bem. Obrigada! — Ela se despede e também vai embora.
Quando ela sai, vejo Billie Rainbow escorada na parede, me olhando.
As aulas são monótonas, e parecem levar uma eternidade para acabar. Quando acho que o tempo literalmente parou e sou o único lúcido, o sinal para o intervalo toca.
— Finalmente. — Sussurro.
Ando até a cantina e pego a minha bandeja de comida. Purê de batatas, pedaços de frango, cenouras e um pedaço de bolo de chocolate. Na mesma mesa de sempre, já estão Travis e Tyna.
— Vocês viram o Jace? Ele praticamente fugiu quando a Jane apareceu para conversar comigo, e não o encontrei desde então. — Falo.
— Vi ele na biblioteca — Travis respondeu — estava procurando algo. Talvez ele esteja se preparando para as provas.
Apenas me conformo e começo a comer. Ele esteve fora por muito tempo, então faz sentido ir atrás do que perdeu.
— CALMA, estou enxergando coisas? — Tyna grita entre a gente. — Ou é real? É um sonho? — Ela está fazendo careta enquanto olha para a mesa ao nosso lado.
— Fala baixo! — Travis chama a sua atenção.
Quando me virei, Billie estava conversando com o seu grupo de amigos, e Ian estava sentado ao seu lado, com o braço na sua cintura. Ela sorri, para de falar e lhe dá um selinho.
— Eu vou vomitar. —Travis diz.
Na mesa onde Billie e Ian estão, também vejo Jane, que apenas mexe no celular, Gabriel, que brinca com a comida, duas garotas que nunca vi antes e um outro cara, que está conversando com eles.
Paro de olhar quando Billie me vê a encarando. Ela faz uma expressão do tipo ''tá olhando o que, seu i****a?'', e volta a prestar atenção na conversa em sua mesa.
— Então quer dizer que eles voltaram. E o mais esquisito de tudo é ver Gabriel ali. — Tyna afasta a sua bandeja. — Até perdi a fome.
— Ele só está ali porque não tem mais onde ficar. — Travis responde de forma ríspida, como se tivesse sido obrigado a falar.
Billie novamente nos pega olhando. Ela parece ficar muito irritada, e, então, sai do seu lugar e começa a vir na nossa direção.
— De novo não. — Tyna revira os olhos.
— Vocês perderam algo em mim? Precisam de ajuda? — Rainbow coloca a mão na cintura e nos olha como se fôssemos inferiores.
As pessoas em sua mesa apenas observam, inclusive Jane.
— Não. É que a sua feiura é tão óbvia que está chamando a minha atenção. — Tyna responde. Os seus olhos estão semicerrados, como se estivesse preparada para bater em alguém caso precisasse.
Billie dá um riso malvado.
— Você precisa crescer, querida. O mundo inteiro já sabe que você deu um beijinho no Ian ano passado, mas eu não sabia que era tão fácil assim te enganar. Admita, você sempre teve uma quedinha por ele, e quando ele finalmente te deu uma oportunidade, você pensou que o tinha. Que fofo. — Disse sarcasticamente. — E agora que ele voltou para mim, aposto que você está se remoendo por dentro. Coitadinha. — Fez biquinho.
De qualquer lugar e, ao mesmo tempo, de lugar algum, alguém jogou um copo de suco na cara da Billie.
— Sai de perto dos meus amigos, sua v*******a. — Era a voz de Jace.
Me virei, o vendo segurar um copo de plástico. Billie estava com suco de laranja por todo o rosto e cabelo, boquiaberta. Absolutamente todos no refeitório olhavam para a cena dramática. Ela está parada feito uma estátua, e em questão de segundos, corre para o banheiro.
Como se nada tivesse acontecido, Jace se senta ao meu lado e passa o braço por meus ombros.
— Perdi alguma coisa? — E dá um sorriso gigante.
Eu queria muito continuar a olhar para seus dentes, mas Ian está se aproximando, e parece tão bravo que poderia bater em todos nós.
— Jace Miller. — Ele o chama.
Ian é maior que nós, e mais musculoso também.
— Pois não, meritíssimo?
— Você é um covarde. Não sei como teve coragem de fazer isso com uma garota. — O olha de cima para baixo.
— Eu não sei como você pode fazer isso com uma garota. Quer dizer, não foi você quem a engravidou? Ou foi Gabriel? Meio que me esqueci.
— Você sabe que é mentira. Todo o mundo já sabe que ela nunca engravidou. — Ele se aproxima ainda mais.
— Exato. Agora vou mudar a minha pergunta. Como você pode estar tão desesperado a continuar com uma garota que te traiu e mentiu descaradamente?
Ian não responde, apenas respira profundamente, como se estivesse se controlando.
— Não vejo como isso pode ser da sua conta. Apenas fique longe dela, combinado?
— Bom, quem se levantou e veio até os meus amigos foi sua namoradinha. E enquanto ela continuar a ser uma v***a, eu vou continuar a ser pior. — Jace se levantou. — Agora, por que você não se senta e fica bem quietinho?
— Quem você pensa que é, garoto?
Não sei como Jace consegue parecer tão pleno dessa forma. Ele está com uma expressão neutra, como se nada o afetasse. Quer dizer, esse garoto já passou pelo inferno.
— Eu sou filho de quem coloca comida no seu prato. Agora, senta no seu lugar e não se atreva a olhar para nenhum de nós.
Demorou uns minutos até que Ian raciocinasse. Mas faz sentido, já que os seus pais são simplesmente muito ricos e influenciam bastante a cidade. Ian, por mais genial que fosse, era apenas o Ian.
— Tanto faz. — Disse enquanto andava em direção aos banheiros, à procura de Billie.
— É bom estar de volta. — Jace se senta novamente ao meu lado, mas ninguém parou de nos encarar.
JACE MILLER
No colégio, todos me encaram como se eu fosse uma assombração. Como se não fosse para eu estar vivo.
Graças à Tyna, que espalhou para todo o mundo que tentei me m***r, todos os professores me dão olhares solidários e dizem que, caso eu queira, posso conversar com eles. Grande idiotice. Como se eles pudessem ajudar alguém.
Não preciso deles, até porque já tenho um psicólogo e um psiquiatra. Tenho terapia toda sexta-feira, e me encontro com o psiquiatra a cada 15 dias, e estou tomando um remédio que, ao mesmo tempo que me faz querer virar uma pedra, também me ajuda a controlar os nervos.
Mas, sendo bem sincero, é como se eu não ligasse para mais nada. Como se eu tivesse todo o controle que nunca tive, e essa coragem me faz querer enfrentar todos os meus problemas de uma vez só.
Nem mesmo os olhares ridículos que recebo me afetam.
— Thomas, Thomas! — Escuto a voz de Jane Rainbow.
Ela, sim, me afeta. E afeta de uma forma muito r**m.
Mal consigo olhá-la nos olhos, porque cada parte sua me lembra a sua irmã. Então, apenas dou uma desculpa qualquer e ando em direção à minha sala de aula.
— Que coincidência — vejo Gabriel entrar na sala na minha frente — acho que nós dois estamos correndo de algo. — Ele diz.
— Estou correndo de uma obsessiva esquisita. — Digo. — E você?
— De tudo. De todos esses idiotas. — Parece irritado. — Eu não tenho mais com quem conversar além do i****a do Ian e do Dave.
— Bom, você os aturava antes. Você acha que não seria uma boa ideia você tentar andar comigo e com os meus amigos? — Eu sei, foi uma ideia estúpida, mas não custava saber.
— De forma alguma. — Falou de forma rude, mostrando que não queria discutir sobre.
— Se é o que diz... — estava prestes a sentar em uma cadeira quando uma ideia passou por minha mente. — Você conhece muito bem a Billie, não é? O que sabe sobre a irmã dela? — Perguntei. — Nunca ouvi falar muito. Já a vi pelo bairro, mas aparentemente Billie se destaca tanto que a Jane parece não existir.
Gabriel colocou a mochila na mesa ao lado e fez uma expressão pensativa.
— Vamos ver... Pelo que eu sei, ela não é a melhor companhia, claro. É uma Rainbow. Foi enviada para um internato feminino aos treze anos, mas foi expulsa quando ameaçou uma colega de morte. Voltou para a cidade, e tudo aparentava estar normal, até que ela teve um surto e foi internada numa clínica psiquiátrica. Não sei bem o motivo, mas ela voltou ano passado e aparenta estar bem melhor, totalmente diferente de quem era no passado. Apenas a família da Billie sabe, e eu só fiquei sabendo porque ela me contou. Para o resto das pessoas, disseram que ela estava fazendo intercâmbio na França. Pura mentira.
— Wow. Isso é muita informação de uma só vez. — Respondo.
— Eu que o diga. Não ligo para segredo algum delas, depois do que aconteceu. Na verdade, eu até conheço alguém que pode te ajudar. Venha.
Ele passou por mim, e o segui por todo o caminho até a biblioteca.
Sentada numa mesa distante, completamente sozinha, estava uma garota de cabelo trançado e óculos redondos.
— Gabriel, olá. — Diz calmamente ao perceber a nossa presença. — E Jace. — Está séria.
— Am... — Olho confuso para toda a situação.
— Suzie, ex-melhor amiga de Jane. — Ele me explica. — Nós nos conhecemos recentemente, quando todo esse lance do aborto estava acontecendo, não é?
— Sim, tudo devido à família Rainbow — ela utiliza o marca página na página onde parou e fecha o livro — se teve uma pessoa que sofreu na mão de Jane Rainbow, essa pessoa sou eu. E é sempre um prazer falar m*l dela.
O seu semblante sempre está muito sério, e ela tem uma aura assustadora.
— Vou indo nessa, realmente não posso perder a aula de agora. Se precisar de qualquer coisa, já sabe. — Gabriel disse, apertou o meu ombro e saiu da biblioteca.
O lugar está silencioso, e somos só nós dois e a bibliotecária, que está jogando baralho no computador.
— Gabriel está se redimindo, não está? — Perguntou, ainda olhando para a saída. O seu olhar era fixo, e movia-se com perspicácia.
— Definitivamente. Então... Eu gostaria muito de entender toda essa história. É que o meu amigo está se envolvendo com Jane, e nós nem a conhecemos.
— Thomas. Claro que está. Como ele poderia dizer não para a garotinha loira, inocente e até mesmo infantil? Como ele poderia dizer não para uma pessoa que ele nunca acreditou que poderia alcançar? — Suzie levanta uma sobrancelha.
— Você o conhece? Como está supondo tantas coisas?
— Eu sou as paredes dessa escola. Sei muita coisa de muita gente. — Me olhou no fundo da alma. Que medo. — Mas não é sobre isso que você quer falar, não é? Bom... Eu e Jane éramos melhores amigas de infância. Ela dividia os seus segredos comigo, e vice-versa, mas ela sempre foi muito rebelde, e estava sempre a querer fazer coisas que não podia. Aos treze anos, teve o primeiro namorado. Ela era obcecada por ele, sempre querendo saber onde o garoto estava, com quem estava, o que fazia e o que comia. Até que, um dia, ele resolveu terminar com ele. Jane não ficou feliz, e disse que mataria toda a família dele, caso ele tomasse essa decisão. — Ela contava como se fosse uma história de terror. — O menino, se borrando de medo, contou tudo aos pais, que ameaçaram processar Jane e toda a sua família, que nunca havia feito nada para a impedir. Para evitar quaisquer problemas, a enviaram para um internato feminino.
Demorei um tempo para absorver tudo que Suzie havia falado. A família de Jane realmente conseguiu colocar tudo por baixo dos panos, não é mesmo?
— Durante o internato, ela me enviou cartas. Disse que eu era a única pessoa em que ela poderia confiar, e que ela me amava. Me amava tanto, que estava apaixonada por mim. Ainda tenho todas as cartas, caso precise de provas. — Passou as unhas pontiagudas pela capa do livro marrom e velho que lia mais cedo. — Até que ela foi expulsa de lá, no mesmo ano. Ela ficou tão brava com uma das garotas, que quebrou, com a própria mão, o espelho do banheiro. Pegou um caco e quase cortou o pescoço da menina. Foi impedida por outras residentes que estavam por perto, mas uma delas acabou ferida, de tão descontrolada que Jane estava.
Então quer dizer que Jane tem sérios problemas psicológicos, principalmente quando se trata de controlar a raiva. Não parece, nem um pouco, a garota delicada e sensível que vejo quase que diariamente.
— Nem parece que falo da mesma pessoa, não é? Mas acredite. Ela foi expulsa e voltou para a cidade, mas seus pais não deixaram barato. No seu último dia aqui, antes de ir para a clínica, nós nos encontramos. Ela tentou me beijar, mas eu evitei. Virei o rosto, e no mesmo instante ela me deu um t**a. Foi tão forte que jogou o meu óculos no chão. Depois disso, apenas voltei para casa e não a vi até o dia que ela voltou da clínica. Parecia uma princesa. Deve ter tomado tanto remédio e tanto choque no cérebro que apagou totalmente a sua memória. — Riu sarcasticamente.
— E ninguém sabe? Além de você, Gabriel, e a família dela?
— Você sabe. — Ela retirou os óculos e os limpou na blusa. — E se quiser contar para seu amigo, tudo bem. Talvez assim ele se dê conta de quem realmente o ama. — E, novamente, me encarou.
— Obrigado pela informação, eu acho. — Respondi e me levantei da cadeira. — E ah... Como você conhece Gabriel? Quer dizer, se sabe sobre tudo, deve saber o que ele andou fazendo nos primeiros dias de aula.
— Claro que sei, mas não o compare com Jane Rainbow. Agora, se me dá licença, vou voltar a ler. — Abriu o livro.
E fui para a sala de aula, mesmo sabendo que o meu cérebro só conseguiria pensar no que Suzie havia me contado.
Talvez eu só tenha me livrado da detenção porque o diretor teve dó, mas não antes de me dar um sermão que durou duas horas. E, talvez, eu não me arrependa de ter jogado suco de laranja na cara da Billie Rainbow. Por outro lado, queria muito que tivesse sido na Jane.
— Então você vai fazer um trabalho com ela na sua casa? — Pergunto para Thomas.
Estamos parados em frente ao meu carro, e Jane está bem afastada de nós, o esperando. Tyna e Travis estão escutando tudo ao meu lado.
— Sim, ela disse que está precisando de ajuda. — Reviro os olhos. — Qual o problema?
Não posso contar aqui e agora.
— Nenhum. Mas ela — aponto disfarçadamente — não entra no meu carro.
— Sério? Que isso, cara! Ela não fez nada de r**m pra gente — ele iria continuar a falar, mas tive que o cortar.
— Ainda. Sei de coisas que você não sabe, mas não posso falar agora. Essa garota não entra no meu carro, e ponto final. — Abro a porta do motorista e sento no banco. — Vocês não vão vir? — Pergunto à Tyna e Travis.
Eles olham com certa pena para Thomas.
— Não acho certo você fazer isso com ele. — Tyna diz olhando para mim.
— Não acho certo ele estar com Jane Rainbow. — Afirmo.
— Tudo bem. — Thomas responde, bravo. Parece até desesperado. — Você se acha no direito de julgar tudo e todos. Logo você, que sabe como é r**m ter expectativas colocadas em si.
— Não é isso, Thomas. Já falei que te explico depois, tudo bem? Faça o que quiser. Se quiser uma carona, entre no carro sem ela. Ou você pode ir andando. A sua casa nem é tão longe, não é mesmo?
Dito isso, viro a chave do carro e Tyna e Travis entram. Thomas vira de costas e começa a andar em direção à Jane.
— Sua escolha.
Durante o caminho, conto tudo para os dois no banco de trás. Falo as mesmas coisas que Suzie me contou, sem poupar nenhum detalhe.
— Nem. — Travis faz uma pausa dramática. — Fodendo.
— Como ela disse que guarda as cartas, vou atrás disso. Talvez Thomas não acredite sem provas.
— É, a gente sabe que ele é meio teimoso. — Tyna observa.
Ao lembrar da conversa que tive mais cedo na biblioteca com a garota dos óculos redondos, me recordo dela me olhando profundamente, como se estivesse a ler a minha mente e, para isso, precisasse se concentrar.
— Todos os Rainbows são uns malucos. — Digo. — Mas sabem esconder bem um crime. Isso é meio assustador, para falar a verdade.
— Mesmo não sendo a família com maior poder monetário, eles são muito ativos nas reuniões promovidas aqui. — Travis fala.
— Sim, eu sei. Eu só queria poder me livrar de todos eles. A vida seria uma paz. — E paro o carro na frente da casa de Tyna. — Próxima parada, casa do Travis.
Olho com um sorriso para trás, mas me surpreendo ao ver que os dois estão a descer do carro.
— Oh! — Tyna deixa um riso escapulir quando digo isso. — Coisas estão acontecendo, não é mesmo?
— Isso é assunto para depois. — Ela sorri, acena em despedida e fecha a porta do carro.
Começo a me distanciar, mas dou uma última olhada pelo retrovisor.
Eles estão se beijando.
— O que tá acontecendo com as pessoas dessa cidade?
Quando chego em casa, percebo que estou sozinho. Aproveito para tomar um banho, limpar o meu quarto e ir até o jardim.
Os lírios brancos que estavam no meu quarto no hospital haviam sido removidos daqui. Minha mãe adora ajudar o jardineiro, já que adora plantas e flores. Eles também plantam árvores frutíferas, legumes e verduras. Olho para o pé de amora, e me lembro de que, quando eu era criança, adorava vir aqui recolhê-las para as comer enquanto assistia algum desenho.
Essa é uma visão linda.
Com cuidado, pego algumas amoras e começo as comer, sentindo o doce explodir na minha boca. Devo estar todo roxo.
Sento-me no banco de madeira ao meu lado, mas logo tenho vontade de ir até os cavalos. Então, vou até em em casa, entro na cozinha e pego algumas cenouras.
— Hoje vocês irão fazer a festa. — Digo.
Entro no estábulo, e percebo que eles devem ter passado o dia inteiro aqui. Não é o que deveria ser feito. Os cavalos só ficam no estábulo para dormir.
— Estão agitados, o que aconteceu?
Vou até o Sparkle, meu favorito. Passo a mão por seu nariz, e ele me devolve o carinho esfregando sua cara na minha mão.
— Bom garoto. — E lhe dou uma cenoura.
Faço isso com Twilight, Nix, Trovão e Perseu. Todos estão muito agitados, mas aceitam meu carinho e comem as cenouras, e isso parece os acalmar um pouco.
— Agora só falta você, Deméter. — Ela é uma das últimas no estábulo.
Percebo algo de errado quando não a vejo como todos os outros.
— Deméter? — A chamo. — Se vocês souberem aonde ela está, me digam logo. — Apontei para os cavalos próximos à mim.
Chego mais perto de sua divisão e, quando consigo olhar melhor, a vejo caída no feno.
— Deméter! — Grito. Abro a portinha, me ajoelho ao seu lado e tento conferir os batimentos cardíacos. Estão muito lentos.
Ela ainda está acordada, e me olha tristemente.
— Vou procurar ajuda para você. — Digo, e saio correndo em direção à casa do caseiro.
A luz está acesa, mas ninguém atende a porta. Bato mais forte, e a minha garganta já está doendo de tanto gritar por ele.
— Que isso, garoto — ele aparece com o cabelo todo desarrumado — pode nem cochilar mais, é? O que foi?
— Desculpa te acordar, mas é uma emergência. Deméter está caída no chão, parece estar quase morrendo. — Ele prontamente pega o chapéu na cadeira ao lado da porta e começamos a andar em direção ao estábulo.
— Ah é? E o que aconteceu?
— Eu não sei! Estava os alimentando, e quando fui a procurar, a achei caída. Não faço ideia do que pode ter acontecido.
— Então pega o telefone e liga para os seus pais enquanto eu tento dar uma olhada nisso. — Diz segurando o meu ombro. O deixo ir na frente, e enquanto o vejo ao lado da égua, espero o meu pai atender.
Alguns segundos se passam, e ele finalmente atende. O sol já está se pondo, e meu desespero só aumenta com o passar do tempo. Conto a ele o que aconteceu, e o meu pai responde que está vindo para casa junto com a minha mãe, e irá ligar para o veterinário que cuida dos animais da fazenda.
— Parece que foi envenenada — o caseiro está com uma careta no rosto — mas felizmente não foi o suficiente para m***r a éguinha.
— Peter, você viu alguém entrando aqui? — Os meus batimentos ficam acelerados.
— Não, mas para ser sincero, eu estava dormindo. Almocei e fui dar aquela cochilada, sabe? E meu sono é pesado, filho, você sabe.
E ficamos ali, eu e ele, ao lado de Deméter, a vendo sofrer, enquanto esperamos o meu pai e a minha mãe chegarem. Ele parece ter vindo correndo, porque chega em poucos minutos. Nós explicamos a situação, e esperamos o veterinário enquanto a minha mãe começa a olhar as gravações das câmeras de segurança.
— Vai ficar tudo bem, garoto. — Peter fala. Ele trabalha aqui desde quando eu era criança, e me viu nomear cada um dos animais da nossa fazenda. Ele sabe o quanto todos eles são importantes e significativos para mim. — Sei muito de animais, ela vai ficar bem.
Mas só consigo relaxar quando o veterinário aparece.