Capítulo Onze
Deméter, deusa da agricultura.
A sua vida foi de altos e baixos, como os tempos de colheita.
Disfarçou-se de égua para fugir de Poseidon, que também converteu-se em cavalo e a fecundou de gêmeos.
THOMAS DINESH
— E basicamente é isso. — Fecho o livro de química.
Jane me olha como se eu fosse um gênio, e me dá um abraço.
— Obrigada, obrigada, obrigada! — Diz com entusiasmo. — Você explica melhor que o professor, sem dúvidas. A primeira coisa que irei fazer quando chegar em casa será o trabalho.
— Não há de quê. Fico contente que tenha entendido.
Pego as duas latinhas de energético e as jogo no lixo. Em seguida, pego um prato com farelos de biscoito e vou em direção à cozinha, e sei que ela está me seguindo.
— Então, eu estava pensando...
Não posso evitar e olhar para suas pernas. Quer dizer, ela está usando uma saia.
— No quê? — Desvio os olhos.
— A minha mãe saiu para jantar e vai demorar um pouco para me buscar aqui. Poderíamos fazer alguma coisa enquanto isso?
Pensei no que a entreteria mais, porém não a conheço o bastante para saber.
— Já foi desenhada antes? — Chuto. Ela n**a com a cabeça. — O que acha de ser desenhada pela primeira vez?
Ela não responde, mas me devolve um olhar doce e um sorriso gentil. Entendo isso como um ''sim''.
Peço para que ela se sente no chão, ao lado da janela. Assim, vai ficar parecendo que está melancólica, olhando para a paisagem.
Demoro um bom tempo com o desenho porque quero deixá-lo perfeito. Estou sentado no sofá, observando cada detalhe de Jane. Faço a sua saia, a sua blusa rosa, os seus cachos loiros até a cintura, e finalmente acabo quando termino de fazer as sombras.
— Pronto. — Viro o sketchbook para que ela possa enxergar o desenho.
— Que lindo, Thomas! Não sabia que você era tão talentoso. — Jane se aproxima, sentando-se ao meu lado no sofá. Está tão perto que sinto o cheiro do seu cabelo.
Nunca agradeci tanto por meus pais não estarem em casa.
— Quer ficar para você?
— Não precisa. Pode deixar no seu caderno, vai ficar mais bonito aí. — Responde. — Podemos assistir a um filme agora?
— Claro, eu vou fazer uma pipoca.
Vou até à cozinha e coloco o saco de pipoca no microondas.
— Qual o seu gênero preferido? — Indago.
— Terror! Sei que não parece, mas gosto desde criança.
— Também é o meu — sorrio — então pode colocar um filme bem sangrento.
Depois de dois minutos, a pipoca está pronta. Coloco numa tigela e pego latinhas de refrigerante, e os deixo na mesa do meio.
Começamos a assistir o filme, e fecho as cortinas para não dar reflexo na televisão. De início, estamos apenas sentados um ao lado do outro, mas depois Jane coloca a sua cabeça no meu ombro. Quando nos damos conta, estou deitado no sofá e ela está com o rosto no meu peitoral, também deitada.
O seu cheiro é tão bom, e não consigo prestar atenção no filme, porque tem uma garota deitada comigo. E é uma garota muito, muito bonita. A minha mão direita segura as suas costas, e a esquerda está apoiada no travesseiro. Jane não tira os olhos da televisão.
As suas pernas estão no meio das minhas, e consigo sentir a sua saia.
— Você já assistiu esse? — Ela apoia o queixo em mim para me olhar.
— Não — me recomponho — mas estou gostando.
— Que bom! — Jane sorri, e volta a olhar para a TV.
Sinto algo errado no meu corpo. Não, isso não pode acontecer agora. p***a.
Aperto os meus olhos e apenas espero passar, mas, na verdade, só piora. A culpa não é minha se ela está em cima de mim!
Quando eu estava prestes a pedir licença para ir ao banheiro, Jane olhou para mim com aqueles olhos gigantes. Não disse nada, apenas se movimentou para frente e me beijou, pressionando o seu corpo no meu.
— O que está fazendo? — Pergunto, recuperando o ar.
— O que você quer que eu faça.
Ela parte para cima de mim, e desta vez prende as minhas pernas. Não é como se eu quisesse me mover, de qualquer forma. O meu cérebro apenas parou de funcionar, e levei as minhas mãos até o cabelo de Jane. Tão macios. Trouxe o seu rosto para perto do meu, e a beijei.
— Até amanhã, Thomas! — Jane acena de dentro do carro. — Obrigada pela ajuda. — Sorri.
— Até! — Aceno de volta.
Passo pela porta de casa, ainda tentando entender o que foi que aconteceu. Jane Rainbow veio aqui em casa estudar. Estudamos. Ela entendeu a matéria. Ou pareceu entender.
A desenhei e assistimos filme juntos. Deitamos juntos. Ela me beijou. Eu a beijei.
Acabo de arrumar a casa e jogar as latinhas de refrigerante no lixo, e enquanto isso, penso no que Jace falou mais cedo. Ele realmente não gosta da Jane, e disse que iria me contar o motivo mais tarde. Bom, até agora ele não deu nenhum sinal de vida.
''Tá tudo bem?''
18:45
Sem resposta.
Talvez ele esteja tocando guitarra, ou saiu com Travis e Tyna, já que eles também não me respondem.
Bom, acho que estou sozinho novamente.
Ao mesmo tempo que gostei do que aconteceu, também me senti culpado. Por algum motivo, parece que cometi um erro e que, agora, os meus amigos ficarão decepcionados comigo. Talvez eles estejam errados sobre Jane Rainbow. Talvez eu estive errado sobre ela esse tempo todo.
Minha mãe foi ao shopping e meu pai ainda está trabalhando, e não é como se eu estivesse a fim de desenhar mais alguma coisa, ou estudar, ou tocar bateria. O tédio começa a roer os meus ossos, e talvez seja melhor eu apenas dormir.
Fecho os meus olhos e relaxo meu corpo, mas sou atrapalhado quando meu celular vibra.
''Eu não sabia que você beijava tão bem''
19:02
''Eu não sabia que você iria me beijar.''
19:02
''Por que eu não iria?''
19:02
''Sei lá. Ninguém nunca tentou.''
19:04
''Então fui o seu primeiro beijo?''
19:04
''Talvez.''
19:05
Dou um sorriso para a tela do meu celular. Estou a queimar de vergonha, e o meu corpo parece travar uma batalha entre certo e errado. Seria certo porque é o que eu quero de verdade, e errado porque sei que os meus amigos não concordam. Sei que Jace não concorda.
Mas também não concordei que Jace voltasse a conversar com Gabriel, e sei que ele o visitou muitas vezes no hospital, e quando foi que Jace me escutou? Por mais que ele diga que os dois não têm nada, como posso saber a verdade? Como posso saber que Jace realmente está bem, se ele nunca parece ser honesto?
Francamente, tenho medo de que ele tente novamente.
Foi apenas pensar nele, que recebi a sua ligação. Talvez só queira falar sobre como sou i****a por aceitar ajudar a Jane.
— Oi, Jace.
— Preciso que venha até aqui. — Ele parece desesperado. Ou com medo. Ou os dois.
Consigo o imaginar do outro lado da linha, talvez chorando, e isso aperta o meu coração.
— O que aconteceu?
O meu coração congela. Talvez ele tenha tentado novamente.
— Apenas venha. Preciso de você.
— Estou a caminho, okay? — Digo e desligo.
Deixo um recado para minha mãe, avisando que estaria com Jace. Em seguida, corro até a garagem e pego a minha bicicleta, e parto em direção à fazenda de Miller.
— Peter disse que ela não havia sido envenenada o suficiente para morrer. — Funga. — O veterinário chegou faz mais de uma hora, mas está lá até agora.
Ajeito-me na sua cama, e penso no que posso falar para o confortar.
— Alguém entrou aqui em casa e fez isso. A minha mãe viu alguém de capuz nas filmagens, uma pessoa alta. Não conseguimos ver o rosto, parece que esteve aqui de madrugada. Quem faria isso? E justamente com aquela égua específica? — Ele está intrigado, e com razão.
— Pessoa alta? Talvez seja o Ian. Acho que é a maior pessoa que conhecemos. — Respondo.
— Não sei se ele teria coragem de fazer isso... Além disso, pode ser o marido da Sra. Willis, talvez ele tenha descoberto sobre a traição e quis se vingar do meu pai. Não dá para ver o rosto. — Jace se joga na cama.
— Entreguem para a polícia o mais rápido possível, tá bem? — Ele concorda. O seu cabelo está completamente bagunçado, e delicadamente o arrumo. — Vai ficar tudo bem. O veterinário saberá o que fazer.
— Sim, essa não é minha preocupação... — Ele me encara. — Estou preocupado que ele tente novamente. Poderia ter me machucado, machucado os meus pais ou Peter. Poderia ter matado todos os animais. Se ele conseguiu entrar, poderia ter colocado fogo na p***a toda.
— Ainda bem que não fez isso. Olha, vamos encontrar quem quer que tenha feito isso, certo? A sua mãe deveria ter chamado a polícia a este ponto. — Digo, impaciente.
— Todos nós estamos preocupados em saber se Deméter ficará bem. Depois disso, iremos a uma delegacia enquanto Peter fica de olho. — Ele rola no lençol. — Podemos falar de outra coisa, por favor? Preciso me distrair. Não quero ficar pior.
— Claro, claro, o que quiser. — Respondo de imediato.
— Como foi com Jane? — Apoiou o rosto nas mãos.
Nem tudo o que quiser, penso. Não vou contar-lhe que a beijei.
— Foi... Normal. A expliquei a matéria e ficamos falando sobre o trabalho até sua mãe chegar e levá-la embora. — Minto.
— Só isso? Sério? — Ele não compra a minha resposta. — Você estava em casa com uma garota daquelas, e só estudou? — Sei que ele está apenas me provocando para tentar arrancar algo.
— Sim — arregalo os olhos — se fosse você, teria partido para cima dela?
— Não para cima dela. — Revira os olhos. — E isso me lembra que tenho que te contar uma coisa.
— Lá vem. — Deito e apoio a cabeça nos braços.
— Conheci uma garota chamada Suzie, e ela era melhor amiga de Jane. Me contou que ela ficou obcecada pelo namorado que teve aos treze anos, e quando ele foi terminar com ela, Jane simplesmente surtou e disse que iria m***r toda a família dele. Daí, os pais dela a colocaram num internato.
— E por que, do nada, você descobriu isso? — Pergunto. Ah. — Travis realmente havia falado que te viu na biblioteca.
— Deve ser porque nós não sabemos nada sobre ela, e acabei de descobrir que Jane é maluca. E não acabou, tá bom? Ela foi pro internato, mas foi expulsa de lá porque pegou um caco de vidro e machucou uma das garotas. E se não acredita em mim, Suzie tem cartas que recebeu de Jane no tempo em que ela estava lá.
— E o que te garante que isso tudo não passa de uma mentira, Jace?
— Por que você está tão disposto a defendê-la? — Ele fala alto.
— Por que você está tão disposto a culpá-la? — Tento reverter a situação. — Parece que sempre que estamos perto um do outro, acabamos discutindo. — Reviro os olhos.
Me arrependo, na hora, de ter falado isso. Há dois dias, ele estava deitado numa maca de hospital.
— Não estou a dizer que não quero ficar perto de você, mas quero entender o motivo de estar tão obcecado em tentar me convencer de que Jane é uma pessoa r**m.
— Literalmente acabei de dizer que ela ameaçou o ex-namorado e machucou uma garota do internato. Além de tudo isso, ela também foi internada numa clínica psiquiátrica, e do nada voltou como a melhor pessoa do mundo. Não estou tentando te convencer, estou te afirmando que ela é.
— Você, mais que qualquer um, deveria saber que as pessoas possuem a capacidade de mudar.
— Não me diga que você já está apaixonadinho pela psicopata da Jane Rainbow — ele me encara.
— E se eu estiver, Jace? — Levanto da cama. — O que isso muda na sua vida? Como isso te afeta?
— COMO ISSO MUDA NA MINHA VIDA? — Ele grita, e dou um passo para trás, encostando na parede. — Você reclamou de Gabriel por muito tempo, e por VOCÊ eu fiz questão de tirá-lo da minha vida de uma vez por todas. — Jace aponta para mim.
— Você fala como se eu te devesse algo. — O olho com certo rancor. — Isso é muito egoísta.
— Egoísta é deixar uma garota como ela atrapalhar a nossa amizade. De novo, esse sobrenome está nos causando problemas... — Se aproxima. — E tudo bem, Tommy. Se você pensa que sou egoísta por tentar te proteger, que seja. Quer que eu seja egoísta? QUER QUE EU SEJA A p***a DE UM EGOÍSTA? — Ele está de frente para mim, e consigo enxergar raiva na sua íris. Dá um soco forte ao lado do meu rosto, na parede. — Se você estiver sentindo qualquer tipo de coisa por Jane Rainbow que envolva paixão, amor, ou qualquer m***a dessas... Vá embora agora.
Continuo parado. O seu peito sobe e desce devido à respiração ofegante.
— E nunca mais fale comigo.
Não me mexo.
Ele olha desesperadamente para meus olhos, e depois para minha boca.
— Eu odeio você, Thomas.
E se distancia, indo em direção à janela.
— A luz do estábulo apagou-se. — Falo. — Acho que já acabaram.
— Vamos descobrir como Deméter está. — Ele diz.
— Calma. Esse é o nome da égua que foi envenenada... Deméter... Não me é estranho. — Digo.
— É, eu dei esse nome porque estava obcecado por um desenho, e nele tinha uma fazenda com esse nome. — Enquanto ele diz, pego o meu celular e digito ''Deméter'' no campo de busca.
— Nome para uma fazenda? Que esquisito. Aqui está! Deméter, deusa da agricultura... Estranho terem envenenado justo ela.
— Deve ser alguém que queira prejudicar as vendas da fazenda... Mas isso é realmente esquisito. A única fazenda que foi vendida atualmente foi para a família Willis, não há motivos para eles quererem problemas. A não ser que realmente seja o pai do Travis.
— Acho que isso é mais um trabalho para a polícia. Vamos ver o que eles dizem na delegacia, talvez encontrem uma pista nova. — Apesar da gritaria de alguns minutos atrás, é estranho como tudo foi pacificado tão rápido.
— Está certo. — Saímos em direção à sala de estar, onde os pais de Jace, o veterinário e o caseiro aparentam estar conversando. Antes que eles pudessem nos ver, Jace parou. — Obrigado por não ter ido embora.
JACE MILLER
Apesar da discussão já ter acabado, o meu sangue ainda ferve. O meu estômago está se revirando, e a ansiedade toma conta do meu ser.
— Como ela está? — Pergunto ao veterinário.
Ele é um homem de estatura média, bigode longo e sempre usa um chapéu Fedora preto.
— Estável. Parece que o veneno foi injetado, o que é estranho em situações como essa. A pessoa que fez isso não queria matá-la, e sim passar um aviso. — Ele pega a sua maleta e se levanta do sofá. — Voltarei durante a semana para cuidar de Deméter. Enquanto eu não estiver aqui, apenas se certifiquem de que ela se alimente e hidrate bem. Soltá-la pelo campo com os outros cavalos e éguas ainda não parece a melhor opção, ela ainda está fraca. Além disso, é importante que fiquem de olho e, se puderem, reforcem a segurança da casa. — Diz para meus pais. Em seguida, aperta a mão de cada um de nós e sai pela porta da frente.
— Nunca aconteceu nada parecido conosco. — Meu pai coloca as mãos no rosto. — Vamos à delegacia logo, tudo bem? — Eles se levantam. — Jace, precisa ir com a gente, foi você quem a encontrou. Thomas, se quiser nós podemos te deixar em casa, os seus pais já devem estar preocupados devido o horário.
— Claro, obrigado.
Observo o estábulo mais uma vez, e o caseiro está lá.
No carro, Thomas se mantém calado, e eu estou tão nervoso, que m*l consigo dizer uma palavra.
É como se eu nunca vá conseguir ter paz em minha vida. Se não é por um problema meu, é por um problema dos meus pais, ou da minha família.
— Tchau, senhor e senhora Miller. Até amanhã, Jace. Me mande mensagem quando tiver alguma atualização, tudo bem? — Ele me abraça e sai do carro.
O esperamos entrar na sua casa para podermos dar continuidade.
— Gosto dele — a minha mãe diz — mais do que de Gabriel.
— Mãe! Isso é mesmo necessário? Logo agora? — Reviro os olhos.
Durante o caminho, só consigo pensar em quem pode ter feito isso. Pensei em Ian, mas briguei com ele hoje, então por que ele teria vindo aqui de madrugada? Só se alguém mandasse. Só se Billie mandasse.
Pela imagem na câmera, é um homem. Isso descarta qualquer opção feminina do jogo.
Pode ser o marido da senhora Willis. Pode ser uma pessoa que nem conhecemos.
Agora, me preocupo com o caseiro, que está sozinho.
— Foi realmente uma boa ideia deixar Peter sozinho? — Externalizo meus pensamentos.
— Nós ligamos para a polícia quando estávamos conversando na sala. Falaram que uma viatura chegaria em alguns minutos. Até este momento, já devem estar por lá. — O homem no volante respondeu.
Ele estaciona o carro, e estamos de frente para a delegacia mais próxima de nossa casa.
Demoramos um pouco lá. Dei o meu depoimento, entregamos um pen drive com as filmagens das câmeras da casa, e eles até ligaram para o veterinário para confirmar o envenenamento. Disseram que iriam analisar o material, e entrariam em contato com os policiais que estão na fazenda, para interligarem as informações.
— Iremos ligar, ou ir até a sua casa, quando tivermos atualizações. Talvez os policiais que estão lá, tenham vasculhado e descoberto algo novo. — Uma mulher de cabelos presos diz.
— Tudo bem. Obrigado por seu tempo. — Meu pai agradece, e entramos novamente no carro. — Vou ligar para uma empresa de segurança e mandar colocarem um alarme. Além disso, seria bom ter uma porteira no caminho para a fazenda. Colocar muros em volta dela.
— Sim. Nós devemos investir na segurança. — Minha mãe responde.
Eu sei que todos nós vamos ter problemas para dormir esta noite.
Quando estamos quase chegando, vimos uma viatura passar por nós. Talvez seja a que estava na fazenda.
— Eles acabaram de sair — Peter está na porta quando entramos — e encontraram umas coisas. Tem algumas pegadas lá fora, e são de botas pesadas. Número 41. — Diz. — Além disso, marcas de pneu perto da porta dos fundos. Não é do pneu de nenhum dos seus carros. A moça disse que é de uma Porsche.
— A única pessoa que conheço que dirige uma Porsche é o Dylan. — Meu pai fala. — E ele está feliz vivendo uma vida bem longe da gente.
— Como você sabe isso? — Pergunto.
— Eu que dei a ele. Nem vem achar r**m, quando tentei fazer o mesmo com você, você comprou essa picape surrada.
— É...
— Minha amiga Susan e o seu marido dirigem uma Porsche também, mas é claro que eles nunca fariam isso. — A minha mãe falou.
Eu conheço uma pessoa que dirige a p***a de um Porsche cinza.
E o nome dele é Ian.
No outro dia, de manhã, antes de ir para a aula, eu e os meus pais estamos na delegacia. Thomas está esperando no carro, e veio conosco porque insistiu que viesse junto, pois estava muito ansioso, e eu sem querer esqueci de mandar mensagem na noite de ontem.
Eles dizem, novamente, que estão trabalhando nas câmeras de segurança e irão verificar se realmente era o carro de Ian. Não sei ao certo como funcionam essas investigações, então apenas confio em suas palavras e deixo os meus pais tomarem conta disso.
Fico pensando no porquê dele ter feito isso... E ainda não teve vergonha em me confrontar ontem, como se não tivesse feito o que fez. Eu sei que foi ele, mas não sei seus motivos.
— Jace? — Thomas me chama. Estamos no banco de trás do carro dos meus pais, em direção ao colégio.
— Oi? — Me disperso dos pensamentos. — Estava pensando nisso tudo...
— Se Ian estiver no colégio hoje, não o confronte, por favor. Ele pode fazer algo pior, sei lá... Só deixa a polícia resolver isso.
— Ele tem razão. — Meu pai responde. — Se meter em mais problemas só vai atrapalhar as coisas. — Me olhou pelo retrovisor.
— E você pode se machucar — minha mãe disse e virou-se para me ver. Em seguida, sorriu. — Não queremos isso.
Sei que é o que eles querem para mim, e não estão errados.
— Vou tentar não meter o meu nariz nisso. — É a única coisa que falo, mas sei que não irei cumprir. Olho para Thomas e lhe dou uma piscadela, indicando que não estava a falar sério.
Ele apenas semicerra os olhos e balança a cabeça em negação.
— ROUBAR O CELULAR DELA? — Tyna grita no banheiro masculino. — COMO QUE EU VOU FAZER ISSO? TÁ MALUCO?
— CALA A BOCA,c*****o! — Grito mais alto em simultâneo, para tentar abafar a sua voz.
— Desculpa — agora está quase sussurrando — mas não vai dar.
— Eu já bolei um plano, tá bom? Ela sempre guarda o celular no armário e apenas o pega na hora do intervalo. É só arrombar.
— E como que eu vou arrombar? Eu nunca fiz isso antes. p**a que pariu, Miller. — Ela respira fundo e apoia as costas na pia.
Um cara aleatório entra no banheiro e nos olha, confuso. Em seguida, nos ignora e dá meia volta. Aparentemente desistiu de usar o banheiro.
— Eu arrombo para você, e dai fico de olho para que ela não apareça. Tudo que você precisa fazer é pegar o celular, entrar na conversa dela com o Ian e tirar fotos com o seu celular. Tudo bem? — Chego mais perto e seguro os seus ombros. — Isso é muito importante, Tyna.
— Eu sei que é, Jace. Mas eu nem sei a senha do telefone!
— Ele desbloqueia com o rosto dela. É só você pegar uma foto. Eu já a vi desbloqueando o celular umas mil vezes, e ela sempre age como se estivesse tirando uma selfie. — Faço cara de nojo.
Tyna anda de um lado para o outro, parecendo pensar. Subitamente, ela para.
— Tudo bem. — Comemoro. — MAS, você vai ter que me fazer um favor em troca. Ainda não pensei em nada, mas quando eu pensar, você vai ter que fazer.
— Combinado, Larson! — Ergo a mão, e ela aperta-a.
Estamos andando em direção ao armário de Billie, matando a segunda aula. Por sorte, Thomas é tão nerd que nem irá pensar que estamos aqui, pois estará focado na aula. Eu espero.
— É esse aqui — paro no armário 23 e encosto nos demais. — Aprendi a arrombar cadeados pequenos porque Dylan tinha um diário trancado com um desses. — Sorri com a memória.
Tiro do bolso dois grampos de cabelo, e fico tentando arrombar o cadeado por aproximadamente seis minutos.
— Prontinho! — Falo quando finalmente escuto um click do cadeado, que cai nas minhas mãos. — Pegue o celular e faça o que te falei. Vou ficar no corredor e, caso alguém apareça, eu volto correndo. Depois que acabar, é só guardar o celular e colocar o cadeado de volta. — Deixo o objeto em suas mãos e saio correndo, sem esperar por sua resposta.
Por sorte, ninguém aparece.
— Feito, capitão. — Tomo um susto quando escuto Tyna ao meu lado. Nem ouvi os seus passos.
— Que susto, c*****o! — Reviro os olhos. Pego o meu celular, e vejo que Tyna me enviou várias fotos que tirou da conversa.
— Já coloquei o celular de volta e tranquei tudo. Vamos embora antes que toque o sinal para o intervalo. — Ela passa a mão por minha cintura e andamos em direção ao refeitório.
— Você sempre topa participar das minhas maluquices.
— É porque sou sua amiga. — Ela diz enquanto sorri, e os seus olhos estão a sorrir também.