Capítulo Doze
THOMAS DINESH
Por algum motivo, o meu pai está puto comigo.
A minha mãe se recusa a conversar sobre isso, e diz que o problema é entre nós dois, e ela não irá se meter. Mas como vou conseguir arrumar esse problema se ele nem ao menos olha na minha cara?
Resolvo apenas ignorar isso por enquanto. É impossível obter respostas se ele prefere agir desta forma.
Encaro o meu celular, lendo e relendo as mensagens na minha tela. Jace conseguiu provas de que havia sido Ian que havia envenenado a sua égua Deméter, e ele está furioso. Ao invés de responder com outra mensagem, prefiro ligar para ele.
— Acabei de ver as mensagens... Ainda não consigo acreditar — Falo assim que ele atende. Passo a mão por meu rosto, tentando entender como que a minha vida tornou-se isso.
— Viu? Billie o mandou fazer essa m***a. Deve ter sido vingança pelo seu quintal, ou sei lá qual outro motivo. — Jace está muito bravo. — Aquela v***a.
— Não adianta fazer algo contra ela, Jace. Não percebe como as coisas estão? Você faz algo para f***r ela, depois ela se vinga. Dai, você fica puto e faz de novo, e ela se vinga de novo, e por aí vai. Isso nunca vai acabar enquanto vocês não conversarem como pessoas normais e resolverem.
— Acontece que Billie não é uma pessoa normal, e acontece que ela mandou Ian envenenar Deméter. Ele entrou na minha casa, Thomas. E se ela tivesse o mandado me m***r? Eu nem sequer ouvi algo.
— Acho que ela não é maluca a este ponto. — Digo, bocejando.
Hoje a aula havia sido cansativa, e fiz uma prova extremamente chata.
— O pior é que isso não serve de provas para a polícia, já que as fotos foram obtidas de forma... Ilegal. Mesmo assim, acredito que não o deixarão sair impune. Eu com certeza não vou.
— Já entendi que tentar te convencer a não fazer nada, não irá adiantar. Então, pelo menos, compartilhe as suas ideias malucas comigo. — Peço.
— Ian é estagiário no colégio. Ele já se formou, é maior de idade, e nem podia estar tendo algum tipo de relação com Billie Rainbow. Uma boa ligação anônima pode fazer com que ele seja demitido. Mas esse é só o começo.
— Okay, até então é um bom plano. Ele realmente não deveria ter relacionamentos amorosos com uma menor de idade, especialmente no próprio local de trabalho. — Concordo. Nesta parte, ele não estava errado. — O que mais?
— Se ele for mandado embora, os nossos problemas irão diminuir. Ele não colocará mais os pés dentro da escola. Os meus pais são muito influentes, Thomas. Eles são donos dos hospitais mais famosos e caros de Kansas City, além de terem as maiores fábricas dependentes das suas fazendas. São respeitados, entende? Ian foi um i****a por colocar tudo a perder por causa de uma garota. Uma garota que mentiu para ele. E ele vai pagar por isso, assim como a Billie.
— Cuidado, tá bom? — Bocejo novamente. — Estou morrendo de sono... E ah! Falando sobre ela, como está Deméter?
— Está se recuperando gradualmente. Está comendo, o que é ótimo, e está saindo do estábulo às vezes.
— Fico feliz.
— Os meus pais acabaram de chegar da delegacia, acho que voltaram com atualizações. Te ligo mais tarde, tudo bem? — O escuto levantar da cama e abrir a porta.
— Certo. — E ele desliga.
Não acho a coisa mais certa do mundo o que ele está fazendo, mas já conheço Jace o suficiente para saber que ele não irá me escutar, ainda mais quando Tyna o ajuda nessas ideias.
Ela e Travis andam super grudados, e isso fez com que eles até se distanciassem um pouco de mim e de Jace, mas ainda sentamos juntos no intervalo diariamente, e eles nem fizeram questão de falar o que anda rolando entre os dois.
Dou um pulo da cama assim que escuto a porta se abrir, e é meu pai.
— Não era para você estar trabalhando? — Pergunto.
— Estou no meu horário de almoço. — Ele diz. — E pensei em dar uma passada aqui para conversar com você.
— Ah, que ótimo. Resolveu parar de me ignorar, então.
Estou de péssimo humor, e sei que é por causa dele.
O meu pai nunca fez isso antes, e, como já sei, ele nunca fica bravo facilmente.
— Thomas — a sua expressão é séria, e posso dizer que, se eu falar alguma palavra errada, ele vai perder a pouca paciência que economizou para falar comigo — vou te perguntar algo, mas quero que me diga a verdade.
— O que?
— Você e o Jace tem... Alguma coisa? Porque francamente, você vai muitas vezes para a casa dele, ele te busca aqui em casa todos os dias para o levar pro colégio, sendo que a nossa casa é extremamente perto. — Ele passa a mão pelo rosto, e imagino que o seu coração esteja quase saindo pela boca.
— O que? — Levanto da cama. — Não acredito que está a cogitar isso. Eu e Jace somos AMIGOS! — Saio do quarto, mas ele vem atrás de mim.
— Não importa. Quero que você se distancie dele. Isso é esquisito, essa... Essa proximidade!
— Como assim? — Me viro para encará-lo. As suas palavras não fazem sentido. — Jace é o meu melhor amigo. Viemos para essa m***a de país para VOCÊ trabalhar, para termos uma vida melhor. Além de ter que sofrer na mão dos idiotas daquela escola, você ainda quer que eu fique sem amigos? Pois o senhor não sabe quantas vezes Jace me ajudou. — Estou a sentir tanta raiva, que sinto as minhas veias pulsarem.
— Vocês não precisam ficar colados para serem amigos. É isso, Thomas. Essa é a minha palavra final.
— Eu não ligo para a sua palavra final, o que te faz pensar que vou seguir qualquer coisa que você quiser? Você não sabe de nada, só chega tarde do trabalho e nem ao menos se preocupa em perguntar como foi o meu dia. Desde que Maya se foi, você só ocupa a sua mente com trabalho e trabalho. Você ainda tem um filho, sabia?
Ele abaixa a cabeça. Dou alguns passos para trás, porque sei que fui longe demais.
— Já somos vistos de má forma. Já sofremos muito nesta família. Não preciso de um filho homossexual me trazendo mais vergonha. — Seu rosto está vermelho.
Ele apenas pega a sua maleta e passa por mim, com seu corpo rígido. Bate a porta com força, e fico totalmente sozinho com aquelas palavras ecoando por minha cabeça. Ele literalmente disse que prefere que eu esteja morto a ser homossexual.
Tomo um banho demorado, pensando no que acabei de ouvir. Não apenas isso, mas também em tudo que vem acontecendo na minha vida. Todo o drama, todo o caos. Eu não consigo pensar numa forma de fazer tudo isso parar, ou de, pelo menos, evitar. É como se eu estivesse fadado a estar cercado de problemas, principalmente aqueles que não são meus.
''Topa dar uma saída? Preciso acalmar a minha mente''
16:12
Recebo uma mensagem de Jace. Enquanto troco de roupa, digo que sim. Ele pede que eu leve uma toalha. Estranho, mas okay.
Cerca de meia hora se passa, e ele está parado na rua com a sua picape vermelha. Tyna e Travis também estão no carro.
— Para onde estamos indo? — Travis pergunta após cumprimentar-me com um aceno de cabeça.
— Para um lugar bem bonito. — É o que Jace diz. — Só preciso me distrair, e sinto que vocês vão gostar de lá.
— Contanto que não tenha alguém do colégio, vou gostar. — Tyna responde.
— Mas e então — olho para ela e para Travis — quando é que vão nos contar o que está rolando entre vocês dois?
Jace dá uma risada.
— Eu também estava curioso quanto a isso.
— Bem... — Tyna olhou totalmente constrangida para Travis.
— A gente tá se pegando. — Ele respondeu como se não fosse nada demais.
— Ah. Legal. — Volto a olhar para a rua. — Achei que seria mais empolgante.
Tyna deu uma risadinha, Jace aumentou o som da música e seguimos caminho, cantando.
Wow. Que lugar lindo!
— Como você descobriu isso aqui? — Perguntou Travis.
No momento em que ele viu a água, já havia tirado a blusa. Não estava tão quente, e já já o sol iria se pôr.
— Internet. — Jace o respondeu.
Da picape, ele tirou um pano para estender na grama para podermos sentar, alguns sanduíches naturais e suco. Estávamos numa espécie de campo que também tinha um lago maravilhoso, com uma floresta não tão densa ao redor.
— Isso é de alguém? — Pergunto. — É muito bonito para não ser.
— Você viu alguma placa? Porque eu não vi. — Jace dá um sorriso malicioso enquanto tira os tênis. — Tire a roupa, Dinesh. Vamos nadar.
— Ninguém me disse que era para trazer biquíni. — Tyna cruzou os braços e pegou um sanduíche.
— Todos nós vamos entrar na água. Dê o seu jeito, Larson! — Jace disse enquanto tirava a blusa com estampa de alguma série de televisão. Os meus olhos pararam direto no seu abdômem, que tem a cor de uma folha de papel.
— Anda logo, tá refletindo o sol. — Ri.
O meu sorriso logo se foi quando me lembrei das palavras do meu pai.
— Só quando você tirar também! — Suas mãos foram para a barra da minha blusa, e começou a tentar tirá-la de mim.
Tentei resistir, empurrando a sua mão para longe, mas ele conseguiu mesmo assim.
— Não me faça tirar as calças também, garoto. Vamos nadar!
Quando procurei por Travis, ele já estava se divertindo no lago.
— Vai ficar parada aí? — Olhei para Tyna, que comia com uma expressão melancólica.
— Eu poderia entrar só de blusa e calcinha, mas vocês são homens. — Fez expressão de nojo.
— Bom, eu não me importo, e nós sabemos que Jace muito menos. De qualquer forma, você sabe que em pouco tempo Travis vai te arrastar pelas pernas e te jogar na água, não é mesmo?
Sem ouvir a sua resposta, sai correndo e pulei no lago.
A água estava terrivelmente gelada e, além disso, o sol não me aquecia o suficiente.
— c*****o! — Tremi de frio.
— Logo mais você se acostuma — Travis jogou água no meu rosto.
— Ei! Lute com alguém do seu tamanho! — Jace se aproximou e jogou água no rosto de Travis. — Apenas eu posso afogar esse indiano! — E jogou água em mim também.
Fechei os meus olhos para evitar que água caísse neles, mas ela entrava por minha boca, já que eu não consigo tirar o sorriso do rosto.
— BOMBA! — Escutamos Tyna gritar, mas não conseguimos nos afastar o suficiente antes dela pular no meio de nós, jogando água nos três de uma só vez.
— Temos uma ganhadora, senhores! — Travis pegou Tyna pelo braço e o levantou, como se estivéssemos numa luta de boxe.
— Não aceito perder! — Gritou Jace, e continuamos a jogar água uns nos outros até que as estrelas apareceram no céu.
— Foi sua mãe que fez? — Aponto para o último pedaço de sanduíche em minha mão.
— Claro que não — respondeu — até parece.
Por alguns minutos, observamos Tyna e Travis na água, brincando de quem fica mais tempo sem respirar.
O céu está lindo, e deitado aqui consigo enxergar milhares de estrelas.
— Foi Ian. — Ele quebra o silêncio. — Meus pais disseram que a polícia conseguiu melhorar a qualidade da câmera e dar zoom, conseguiram ver uma parte do rosto. A marca do pneu também condiz com o do carro dele. — Suspirou. — Não sei o que acontece agora.
— Você decide o que acontece agora.
Olhei para os seus olhos, mais bonitos que qualquer coisa nesse mundo. O leve vento fazia os seus cabelos pretos se bagunçarem ainda mais. Ele sorriu, pegou o celular e discou para a secretaria do colégio.
— Alô? Boa noite... Eu gostaria de fazer uma denúncia anônima sobre um colaborador. — Jace me olhou com travessura. — O nome é Ian. Isso, i-a-n. Ele é estagiário, e está mantendo relações amorosas e sexuais com uma aluna menor de idade. Isso. O nome dela é realmente necessário? Poxa, não queria a expor. — Fez uma cara de coitadinho. — Billie Rainbow.
JACE MILLER
Após fazer a denúncia anônima, voltei a encarar as estrelas enquanto escuto o som de Tyna e Travis na água. Agora estão brincando de lutinha.
Olho para o lado, e Thomas está me encarando.
— Perdeu algo, i****a? — O cutuco. Ele devolve as cosquinhas, mesmo sabendo que sou extremamente sensível a isso. Não consigo parar de rir, e as minhas costas doem. — Pa... Ra! — Digo entre mais risadas.
Quando ele finalmente para, dou-lhe um leve soco na perna.
— i****a.
— Acho que devemos ir andando — disse — meus pais não vão gostar se eu chegar tarde.
— Mas ainda são nove da noite. — Faço beicinho.
— É, eu sei. Mas estamos em semanas de provas, e eles querem que eu estude e seja bom em tudo nessa p***a de vida. — O garoto revira os olhos.
Os olhos mais lindos que já vi na vida.
— Você não precisa ser bom em tudo. — Respondo. Ele dá um sorriso falso, como se dissesse ''não é assim que funciona''. — Aliás, com certeza vou ficar de recuperação e terei que ir naquela viagem estúpida mês que vem. — Bufo e me jogo de costas.
— Sério? — Thomas parece animado. Vejo um vislumbre de agitação passando por seu olhar.
— Não é legal — rio ironicamente — Travis com certeza está também, porque não faz nada além de ir para os jogos de basquete. Na sala de aula, ele fica brincando de acertar bolinhas de papel na lixeira. É um completo i****a.
— Então vocês dois irão estar lá?
— Nós três. Tyna chutou todas as questões de Física só para ir para o acampamento com Travis. — Peguei o meu copo de suco e tomei um pouco.
— Calma. Então eu vou ser o único o****o sozinho nas férias? — Thomas segura meu ombro.
Apenas concordo com a cabeça. Ninguém o mandou ser um nerdzinho.
Me sinto feliz neste momento. Mesmo com tudo que vem acontecendo, eu sou grato. Grato por Deméter estar sendo forte, por ter amigos tão legais, por meus pais finalmente estarem me dando um ar, por tudo.
— Estou feliz. — Deixo escapar.
— Mesmo?
— Mesmo.
Tyna e Travis começam a andar em nossa direção, ambos com sorrisos idiotas no rosto. É bom saber que agora eles estão bem, e parecem felizes juntos.
— Que frio! — Tyna pega a sua toalha e começa a se secar.
— Jace estava me dizendo que vocês três estarão no acampamento nas férias. Não quero ficar sozinho. — Thomas se levanta e começa a me ajudar a guardar as coisas e separar o lixo.
— Você não vai ficar sozinho. Ou você vai ter a bela companhia dos seus pais, ou vai pegar recuperação de propósito para ir também. — Travis sorri enquanto coloca a sua blusa. — Quem vai, tá planejando fazer uma festa secreta. Talvez esse ano seja legal, ao contrário de todas as outras viagens.
Thomas se mantêm calado.
Aos poucos, guardamos tudo de volta na picape e os levo de volta para casa.
Finalmente é quinta-feira, o dia do show.
Acordo um pouco mais feliz, porque será a primeira vez em que estarei em um lugar assim com os meus amigos.
Mesmo que tenha que fazer a prova ridícula de Derisse, hoje vai ser um dia bom, e nada vai me tirar isso. Portanto, resolvi fazer waffles com gotas de chocolate, suco de amora e ovos com bacon. Um café da manhã digno de um vencedor.
Escovo os dentes, penteio o cabelo, colocando-o de lado, mas vejo que fiquei simplesmente ridículo. O bagunço até que fique normal.
''Me espere no meio da rua para ser atropelado.''
06:43
Envio para Thomas. Ele responde com um emoji bravo.
Acabo de me arrumar, passo um pouco do meu perfume favorito, despeço da minha mãe e vejo que o meu pai está a observar Deméter correndo pelo campo.
É uma cena muito linda.
— Vou marcar todas as erradas de propósito — é a primeira coisa que Thomas diz quando entra no carro — na prova de Derisse.
O espero colocar o cinto e se ajeitar. Ao colocar as mãos no volante, olho para meus pulsos. Às vezes, sinto falta de usar a base.
— Só para ir à viagem? Isso é ridículo. Estamos indo porque somos burros.
— Então serei e******o de errar só para ir com vocês. Já menti para os meus pais dizendo que a viagem é um acampamento que a escola oferece. Não sabem que é para quem está com nota baixa. — Ele ajeita o cabelo no espelho.
— Que i****a. — Continuo a dirigir.
Assim que chegamos na escola, vejo Gabriel parado perto da vaga onde costumo estacionar. Ele muda de expressão quando vê Thomas no banco ao meu lado.
— Gabriel? — Saio do carro. Quando olho para Thomas, ele está agarrando a alça da mochila com força, olhando para frente.
— Ian foi preso. — Ele diz com a voz trêmula. Neste momento, Thomas olha para nós, mas não está surpreso.
— Ah é? Por qual dos dois motivos? — Pergunto com um sorriso no rosto. — Ou pelos dois?
— Do que você está falando? Eu não sei.
— Estou falando que Ian tentou m***r uma égua dentro da minha própria fazenda.
— Mas e o outro motivo? — Coçou a cabeça.
— Segredo. — Continuo a andar para a entrada do colégio, e Thomas prossegue ao meu lado.
Escuto Gabriel correr atrás de nós para me alcançar, e paro de andar.
— Eu vou nessa. Depois a gente se fala. — Thomas pronuncia e olha de relance para Gabriel.
O observamos entrar pelas grandes portas do prédio, e encaro Gabe em silêncio.
Ele parece cansado. Está com olheiras, as unhas roídas e a sua postura está péssima. Deve estar a ter uma semana pesada.
— Você está bem? O seu animalzinho está bem? — Ele está muito esquisito. Fala olhando para os lados, como se estivesse sendo perseguido.
— Você está bem? Quer dizer, olhe para si. Você está tremendo, Gabriel. — Seguro a sua mão. Rapidamente, ele se fasta e a segura.
— Não. Mas não se preocupe. — Tenta dar um sorriso, mas é super forçado.
Ele parece estar chapado.
— Vem aqui — o abraço. Ele fica parado, sem retribuir.
Não sei o que está a acontecer. Não faço a mínima ideia do que ele andou fazendo nos últimos dias, se usou alguma d***a pesada ou o que quer que seja. Mas eu sei que ele precisa de ajuda.
Ele não se move, nem retribui o abraço, mas também não reclama.
— As coisas estão um pouco difíceis em casa. Nada de mais. — Novamente, força o sorriso.
— Se você diz... Qualquer coisa me manda uma mensagem. E sobre Ian, ele não foi preso injustamente. Ele mereceu.
— E-eu sei disso. Claro. Mas não é isso o que eu realmente queria falar — se aproxima com cautela — você vai ao show hoje?
— Sim, quer ir comigo e com meus amigos?
Gabriel está acanhado. Dá um sorriso e concorda várias vezes com a cabeça.
— Tem certeza que quer entrar ali? — Aponto para a escola.
— É a última prova.
— Você não parece bem para prestar atenção.
— Só... — Ele coloca a mão entre nós dois, indicando para eu parar de falar. Depois, passa por mim e sai andando, sem olhar para trás.
Definitivamente tem algo muito errado acontecendo.
Se fora da escola tudo já estava bizarro, dentro estava ainda pior. Talvez seja por causa dos exames finais, talvez por Ian ter sido preso aqui, ou talvez esteja acontecendo outra coisa que não sei.
Faço a prova, e realmente me esforço, mesmo sabendo que não há como voltar atrás nas notas ridículas que tirei.
No intervalo, vejo Gabriel sentado com Tyna, Travis e Thomas. Que p***a está acontecendo? Será que estou vivendo em outra linha do tempo e não descobri? Talvez um universo paralelo...
— Oi. — Ele diz quando me aproximo.
Thomas parece normal, enquanto Tyna e Travis estão preocupados.
— Perdi alguma coisa?
Então, eles me explicam que Gabriel levou uma surra do pai porque descobriu que ele havia saído com um garoto na noite passada. Isso parte o meu coração de uma forma inexplicável, e eu apenas queria que não fosse assim. Aparentemente, Gabe esqueceu o notebook ligado e desbloqueado, e o pai dele encontrou as mensagens. Depois que acabaram de contar, percebi que não eram olheiras nos olhos de Gabriel.
Thomas não está normal. Está paralisado.
— Ele te expulsou de casa? Te ameaçou? Se precisar, pode ficar um tempo na minha casa. — Digo.
— Sério?
— Sim, pelo tempo que precisar. Não se preocupe.
Thomas me olha e sorri, como se apoiasse a minha decisão.
— É uma boa ideia. Sabe-se lá o que ele faria caso você continuasse lá. Além disso, a mãe de Jace é muito cuidadosa com esse tipo de coisa. — Thomas finaliza a comida em sua bandeja.
Tyna está com a cabeça apoiada no ombro de Travis, com o olhar triste.
— Sinto muito que isso tenha acontecido. — Ela diz.
Olho para o lado, procurando pelo grupo de Billie. Na mesa onde eles costumam sentar, está Dave, Jane, e Billie. Nada de Ian. Billie parece muito triste, e está de mãos dadas com a sua irmã.
— Vou descobrir quem fez essa denúncia ridícula. — Ela tenta falar baixo, mas presto tanta atenção que consigo escutar. — Provavelmente foi algum professor.
— Foi anônimo, não tem como saber... — Dave diz.
— Eu sei que não, seu i****a. Mas eu queria. — Billie Rainbow o fuzila com o olhar.
Então, paro de ouvir a conversa e foco nas pessoas que estão na mesa comigo.
— É aqui? — Estaciono o carro ao lado de um edifício completamente preto.
— Exato. — Tyna praticamente pula do carro enquanto estou a manobrar. Essa garota é maluca.
Os demais aguardam no carro até que eu consiga parar. Travis, Thomas e Gabriel descem da picape.
É um show de rock, então todos nós estamos caracterizados para tal. O clima esfriou bastante, o que condiz com a temperatura de Kansas City. Logo mais, estará nevando.
Quando a aula terminou, dei carona para todos até em casa, e fui com Gabriel para a fazenda. Fizemos carinho nos cavalos, os vimos correr pelo campo, fomos até os porcos e as vacas, passamos pelo galinheiro, pelo jardim de flores, pelas árvores e hortas. Ele gosta muito de animais, então foi bom para renovar as energias. Entramos em casa, e por sorte os meus pais estavam lá. Conversamos, a minha mãe ofereceu-se para fazer curativos de outros machucados de Gabriel, e eles acharam melhor ele passar um tempo em casa enquanto procura algum lugar para ficar. Temos alguns quartos desocupados, mas ainda precisamos passar na sua casa para ele buscar as coisas. Portanto, pegou uma roupa emprestada para vir pro show.
— Vai ser incrível! — Tyna dá pulinhos na porta. — Chegamos atrasados, parece que todos já estão lá dentro.
— É, mas meia hora de atraso não é nada. — Digo.
Um segurança nos para na porta e pede por nossas identidades. O show não é permitido para menores de 14 anos.
Quando entro no local, o que vejo é um espetáculo.
Todas as paredes são pintadas de preto, porém possuem desenhos de alienígenas, ovnis, cogumelos, tudo desenhado de uma forma meio alucinatória. As luzes de palco, que ficam penduradas no teto, iluminam tudo em branco, verde, azul e roxo. A decoração me faz sentir drogado sem ao menos ter fumado nada.
— Muito — Thomas diz — f**a. Muito f**a mesmo.
— Vamos pegar algo para beber. — Falo alto, devido à música que está tocando.
Tem muitas pessoas aqui, mas não está lotado a ponto de me perder dos meus amigos, o que é ótimo. A banda de Theo ainda não está no palco, e sim um dj, que toca música eletrônica.
— Vocês vieram! — Escuto a voz de Jane quando nos aproximamos do bar.
— Cinco shots de vodca, por favor. — Peço ao bartender, ignorando a garota ao meu lado.
Ela abraça cada um, exceto eu.
— Vamos virar — falo.
Thomas, Tyna, Travis, eu e Gabriel viramos de uma vez. Tyna não faz expressão alguma, como se já estivesse acostumada. Thomas, por outro lado, quase vomita. A diferença é até bonitinha.
— Vocês ficaram sabendo que Ian foi preso? — Jane nos pergunta, sem tirar o canudo da boca. Está tomando uma batida de frutas.
Nem sei como eles servem bebidas para menores de idade aqui. Por não ter nenhum nome no edifício, aposto que é tudo clandestino.
— Não. Nós moramos numa caverna igual ao Patrick Estrela. — Respondo.
Gabriel solta uma curta risada, mas Jane ignora.
Ela está usando um vestido rodado verde-claro, totalmente diferente de nós e de qualquer outra pessoa aqui.
— É sério, Jace. — É a primeira vez que a escuto falar o meu nome. — E fiquei sabendo do que lhe ocorreu, Gabriel... — Ela o olhou com pena e esfregou o seu braço. — Não deixe isso acabar com você. Use a capacidade que tem. Afinal, a floresta ficaria silenciosa se só o melhor pássaro cantasse.
— Eu não sabia que você curtia Oscar Wilde. — Gabriel diz.
Como assim?
Jane se desfaz do olhar de pena e parece ser pega em uma mentira. Tyna e Travis se entreolham, mas não entendo nada que está a acontecer.
— Oi?
— Essa frase é do livro ''O Retrato de Dorian Gray'', não é?
Peço mais cinco shots.
— Não faço ideia, na verdade. Lembro de ter visto isso em algum lugar na internet. — Ela sorri. — Bom, é sempre um prazer encontrar você. — Ela olha para Thomas.
Mas ela o olha diferente. Antes, ela o olhava como se quisesse algo. Agora, é como se já tivesse conseguido.
— Thomas — o chamo, quebrando a sua atenção da garota — vira.
O entrego o copo de shot, e os demais pegam em cima do balcão. Viramos novamente, e então andamos em direção à pista de dança.
Finalmente a banda de Theo chega, e eles são recepcionados por uma gritaria sem fim. Tyna está colada no palco, e Travis atrás dela, segurando a sua cintura. O garoto de cabelos vermelhos começa a cantar enquanto toca guitarra, e não consigo observá-los sem um brilho nos olhos. Eu gostaria de estar ali.
O baterista é um cara que nunca vi, de cabelos castanhos e um olhar mortal. Quando ele olha na minha direção, quase derreto.
— Obrigado a todos que vieram — Theo dá uma pausa para falar — a maioria de vocês já estiveram presentes em outros pequenos shows. Obrigado pelo apoio.
E volta a cantar e a tocar.
A música deles é realmente boa, superou minhas expectativas. Mas, como não conheço nenhuma, apenas bebo enquanto curto o ambiente.
Thomas está ao meu lado direito, e Gabriel do lado esquerdo. Para ser sincero, nunca imaginei que Gabriel estaria junto de nós, muito menos que Thomas compreendesse isso.
Vou até o bar, pego três drinks e nós bebemos. Já sinto o meu corpo reagir ao álcool. Normalmente, eu demoraria muito mais para ficar tonto, mas faz bastante tempo que não bebo. Estava acostumado com soro, remédios e comida sem gosto do hospital. Gabriel parece bem, e Thomas está péssimo, consigo ver no seu rosto. Parece uma criança.
— Preciso ir ao banheiro. — Digo, e deixo o meu copo em uma mesa redonda perto de nós.
Saio brevemente, e aproveito que vejo o meu reflexo para analisar a minha aparência. Lavo as minhas mãos e molho um pouco o meu rosto. Apesar do frio lá fora, aqui está quente como o inferno.
Quando volto, vejo apenas Gabriel no mesmo lugar. Nada de Thomas. p***a, ele não pode desaparecer, tenho que o entregar intacto para os seus pais.
— Você viu o Thomas? — Pergunto para Gabe.
— Jane o levou para algum lugar. — Sua voz está calma. Volta a tomar o seu drink e a contemplar sei lá o que. Esqueci que quando ele começa a beber, viaja para fora do planeta.
Começo a procurar por todos os cantos. Mais pessoas começam a chegar no local, dificultando a minha visão. Ele não está no bar, perto dos banheiros e nem perto do palco.
Quando estou prestes a desistir e apenas esperá-lo voltar, vejo o vestido de Jane no meio da multidão.
Eles estão agarrados um no outro, se beijando.