18 - Imperador

1058 Palavras
Imperador Narrando Passei a noite inteira acordado. Não era insônia, era ódio mesmo. Fiquei ali, sentado no sofá, olhando pro nada, revisando cada palavra que aquela mina me falou. Cada detalhe. Cada porrada que aquele verme deu nela. Cada humilhação. Cada abuso dentro do meu território, e eu sem saber de pörra nenhuma. Isso me consumiu a madrugada inteira. O uísque descia rasgando, mas nem fazia efeito. Minha cabeça tava longe dali, já montando o que ia acontecer quando esse filho da püta aparecer. Porque ele vai aparecer. E quando aparecer, o final já tá decidido. Lembrei da Mina, pörra, novinha, lindinha, mesmo machucada. E aquele arrombado maltratando ela. O dia começou a clarear, aquele azul fraco entrando pelas janelas. Olhei no relógio. Seis e meia da manhã. Foi quando o rádio chiou. — Chefe, o Juca tá subindo. Respirei fundo, devagar. — Deixa subir. Ajustei a postura no sofá, dei o último gole no copo e coloquei ele na mesa com calma. Agora era só esperar. Não demorou muito. Ouvi o barulho do portão, passos, vozes baixas, até ele entrar. — E aí, chefe, qual foi? Aquele tom folgado, como se nada tivesse acontecendo. Como se fosse mais um dia normal. Olhei pra ele sem expressão. — Pitel. O gerente apareceu na hora. — Tranca a porta. — Pode deixar. Ele virou e fechou tudo, deixando o ambiente pesado, fechado, sem saída. Agora era só nós. Levantei devagar do sofá. Sem pressa. Mas cada passo meu fazia o chão parecer mais pesado. Vi na hora quando ele mudou. O corpo dele travou. Deu dois passos pra trás, quase automático, até encostar na parede. Já sentiu. — Tu achou que ia bater na tua esposa, maltratar teu filho, fazer o inferno na vida deles e eu nunca ia ficar sabendo? Minha voz saiu baixa, mas carregada. Ele levantou a mão de leve, tentando se explicar. — Peraí, chefe, essa pauta não cabe aqui não, pô, isso é pessoal. Nem deixei terminar. Avancei e dei um tapa no meio do peito dele com toda força do meu braço direito. O impacto fez o corpo dele bater com tudo na parede atrás. O ar saiu na hora, seco, estatalado. — TU TEM CERTEZA… Cheguei mais perto, encarando ele nos olhos. — Que isso não cabe aqui? Ele tossiu, tentando puxar o ar de volta, claramente sem esperar aquela reação. — No meu morro. Aproximei mais ainda, quase colando. — No meu comando. Apontei o dedo no peito dele, pressionando. Pra ele sentir o peso do meu ódio. — Essa pörra que tu, meu vaporzinho, tá fazendo não cabe aqui? O silêncio ficou pesado. Ele tentou recuperar a postura, mas já tava visivelmente abalado. — Chefe, tu tá ouvindo só um lado. Dei uma risada seca. — Um lado? Balancei a cabeça, incrédulo. — A mina chegou aqui com a cara destruída, moleque. Costela quebrada. Filho com medo de tu. Dei mais um passo pra frente. — Quer que eu escute o teu lado também? Ele não respondeu. Não tinha o que falar. Passei a mão no rosto, respirando fundo, tentando segurar a vontade de acabar com ele ali mesmo. — Tu esqueceu onde tu tá, né? Minha voz saiu mais fria agora. — Aqui não é tua casa não, aqui é meu território. Parei na frente dele, encarando. — E aqui. — Inclinei a cabeça de leve. — Eu sou a lei. O olhar dele já não era mais o mesmo. O medo já tava ali. E eu? Eu só tava começando. Fiquei encarando ele por alguns segundos depois daquilo tudo, só sentindo o sangue ferver dentro de mim. Aí eu falei, devagar, deixando cada palavra pesar no ar: — Quando uma mulher me procura, Juca, o B.O dela passa a ser meu. — Dei um passo pra frente. — E eu comprei o barulho da Lívia. Ele franziu a testa na hora. — Ela te procurou? — Procurou. Inclinei a cabeça de leve, olhando bem no fundo do olho dele. — E eu vi o rosto dela. E o corpo marcado. Foi aí que eu percebi. O movimento. A mão dele fechando devagar, o ombro contraindo, o olhar mudando. Ele ia puxar. Mas eu sou mais rápido. Muito mais. Antes mesmo dele conseguir completar o movimento, eu já tava em cima. Segurei o braço dele com força, torcendo pro lado contrário, travando o pulso. A arma nem chegou a sair direito da cintura. Arranquei da mão dele num puxão seco, jogando pro lado. — Ficou maluco, pörra? Nem dei tempo de reação. Soltei o braço e encaixei um soco direto na cara dele, com toda a força. Senti o impacto subir pelo meu braço enquanto a cabeça dele virava pro lado e o corpo caía pesado no chão. Ele tentou se levantar, meio zonzo, mas não deixei. Avancei e pisei na cabeça dele, pressionando com força contra o chão frio. — Tu acha que eu tô de brincadeira, seu filho da püta? Aumentei a pressão do pé, sentindo ele tentar se mexer lá embaixo. — Tá achando que vai pintar a desgraça no meu morro, e vai ficar por isso mesmo? Ele se debateu, tentando falar, cuspindo as palavras no meio da dor: — Tá comendo ela, ela veio aqui te dar. Pronto. Ali acabou qualquer resquício de controle que eu ainda tinha. — Cala a tua boca! Levantei o pé só o suficiente, e desci com tudo na cabeça dele. O impacto foi seco. O corpo dele relaxou na hora. Apagou. Fiquei olhando ele ali, estendido no chão, respirando pesado, tentando baixar a adrenalina que ainda corria forte no meu corpo. Passei a mão no rosto, sentindo a raiva ainda pulsando. — Desgraçado. Virei de costas e peguei o rádio. — Pitel. — Tô chegando, chefe. Não demorou nem um minuto. Ele entrou rápido, olhando a cena no chão. — Carälho… Apontei com a cabeça pro corpo do Juca. — Junta essa mërda aí. Ele já foi se aproximando, atento. Olhei pra ele, sério. — Tribunal hoje à noite. O clima mudou na hora. Ele assentiu, entendendo exatamente o que aquilo significava. — Pode deixar. Cruzei os braços, encarando o corpo desacordado no chão. — O Juca vai enfrentar nossa ordem. Minha voz saiu firme, sem espaço pra dúvida. — Pode marcar. Porque agora, não tem mais volta.
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