Lívia Narrando
O Imperador, não é só um homem. É uma muralha.
Muito alto, muito forte, muito, tudo. A presença dele ocupa o espaço inteiro, como se não tivesse como ignorar que ele tá ali. Confesso que, na hora que eu vi ele vindo na minha direção, meu corpo travou.
Deu medo.
Mas mesmo assim, eu fui.
— Gostaria de falar a sós com o senhor.
Minha voz saiu mais firme do que eu esperava. E ele me ouviu. Me levou pra um lugar mais reservado, me mandou sentar, e me escutou.
De verdade.
Isso já foi estranho por si só.
Mas o que mais me assustou, foi quando ele levantou de repente. A cadeira arrastou no porcelanato com um barulho alto, seco, que ecoou no espaço. Meu corpo inteiro estremeceu.
E depois, o soco na parede.
— FILHO DA PÜTA!
Eu senti aquele impacto dentro de mim. Não foi nem o barulho, foi a força. A raiva. A energia que saiu dele naquele momento.
Por um segundo, eu achei que tinha feito besteira em ir até ali. Mas aí ele foi se acalmando. Respirando fundo. Se controlando.
— Eu vou resolver isso. — Foi o que ele disse.
E, pela primeira vez em muito tempo, eu quis acreditar em alguém.
Ele mandou eu ir pro hospital, disse que ia colocar gente de confiança pra cuidar do Noah e da minha mãe. Aquilo me deu um alívio que eu nem sei explicar.
Peguei minha bolsa dentro do carro e fui com o vapor que ele chamou.
Entrei no carro dele, sentei no banco do passageiro e fiquei quieta, tentando processar tudo.
O carro começou a andar, e depois de alguns minutos em silêncio, ele falou:
— Tu é a mulher do Juca, né?
Respirei fundo.
— Sou.
Olhei pra ele.
— Mas, por favor, não avisa ele que eu fui lá.
Ele soltou um riso baixo, de canto.
— Fica tranquila, mina.
Olhou rápido pra mim e depois voltou pro trânsito.
— O chefe deu a ordem, a gente cumpre.
Assenti de leve.
— Ninguém quer desobedecer o Imperador, ainda mais por causa daquele Zé ruela.
Aquilo me chamou atenção.
Virei o rosto pra ele.
— Ele é gerente mesmo?
O cara soltou uma risada curta.
— Foi.
Franzi a testa.
— Como assim?
— Foi gerente há uns cinco anos atrás.
Ele deu de ombros.
— Na época eu ainda era aviãozinho.
Meu coração deu uma apertada estranho.
— E agora?
— Agora o gerente é o Pitel.
Ele virou o volante com uma mão só.
— O Juca é vapor só.
Fiquei em silêncio.
Processando aquilo.
Então quer dizer que além de tudo, ele mentiu pra mim esse tempo todo.
Nunca foi o que dizia ser.
Respirei fundo, olhando pela janela.
Aquilo não me surpreendia mais. Mas doía mesmo assim.
Chegamos no hospital.
Ele desceu comigo, me acompanhando até a recepção. Fiz a ficha, respondi as perguntas e depois sentei pra esperar.
O corpo ainda doía inteiro. Latejando. Peguei o celular e liguei pra minha mãe.
Ela atendeu rápido.
— Lívia?
— Mãe, eu tô no hospital.
— Meu Deus, e se aquele maluco for atrás de você?
— Calma, eu tô bem.
Respirei fundo.
— Vai ter dois seguranças na frente de casa. É homem do chefe, pro Juca não entrar.
Do outro lado, silêncio por um segundo.
— Graças a Deus.
A voz dela saiu aliviada.
— Tomara que esse chefe mate aquele infeliz.
Fechei os olhos por um instante. Respirei fundo.
— Eu espero também.
— Lívia Gomes.
Ouvi meu nome sendo chamado e me levantei com cuidado, sentindo o corpo inteiro reclamar. O homem que tava comigo levantou junto, como se fosse automático.
Entramos na sala, e ele não perdeu tempo.
— E aí, doutor, cuida dela direitinho. Faz todos os exames. O chefe que mandou.
O médico só assentiu com a cabeça, sério, sem fazer pergunta nenhuma.
— Pode deixar.
O homem saiu logo em seguida, puxando a porta atrás dele, mas eu sabia que ele tava ali fora. Vigiando.
Fiquei de frente pro médico, meio sem jeito, esperando ele falar alguma coisa.
— Foi espancamento? — Ele perguntou direto.
Engoli seco.
— Foi.
Ele anotou alguma coisa e começou a me examinar. Pediu pra eu deitar, apertou algumas partes do meu corpo, e cada toque doía como se fosse uma pancada nova.
— Tá doendo aqui?
— Tá.
— E aqui?
— Também.
Ele não demonstrava surpresa. Parecia que já tinha visto aquilo mil vezes.
Depois disso, começou a bateria de exames.
Tirei raio-x do tórax, dos braços, da coluna. Fizeram exame de sangue. Me levaram pra fazer uma tomografia, e até uma ressonância.
Fiquei de um lado pro outro dentro daquele hospital, sendo guiada por enfermeiros, máquinas, corredores frios, enquanto meu corpo doía cada vez mais.
Voltei pra sala depois de tudo, mas ainda tinha que esperar os resultados.
O médico entrou de novo e já foi falando:
— Vou passar uma medicação pra dor.
Assenti, porque eu já não tava aguentando mais.
A enfermeira veio logo depois com a medicação e colocou na veia.
Senti o líquido gelado entrando no braço, e aos poucos a dor começou a aliviar. Não sumiu, mas ficou mais suportável.
Fechei os olhos por alguns segundos, respirando fundo.
Do lado de fora, dava pra ver a sombra do homem parado na porta. Ele não saiu dali em nenhum momento.
Tempo depois, me chamaram de novo pra voltar na sala.
Sentei na frente do médico, esperando.
Ele olhou os exames, folheando com calma.
— Você teve duas costelas fraturadas.
Meu coração deu uma apertada.
— Mas não tem nada quebrado além disso. Nenhuma lesão mais grave.
Respirei fundo, aliviada, dentro do possível.
— Vou te passar medicação pra dor e você vai precisar de repouso.
Assenti devagar.
— Retorna em dez dias pra reavaliação.
— Tá bom.
Peguei a receita, agradeci e saí. Quando passei pela porta, o homem já se afastou da parede e veio até mim.
— Já foi?
— Já.
Saímos do hospital juntos.
O dia já tava clareando, o céu começando a ficar mais claro, anunciando o amanhecer.
Respirei fundo, sentindo o ar fresco bater no rosto, mesmo com o corpo ainda doendo.
Olhei pra ele.
— Qual teu nome?
Ele deu um sorriso de canto, meio brincando.
— Meu nome tu não vai saber.
Franzi a testa de leve.
— Mas tu pode me chamar pelo apelido.
— E qual é?
— Bial.
Assenti de leve.
— Obrigada, Bial.
Ele deu de ombros.
— Tamo junto.
Entramos no carro e ele me levou de volta pra casa.
Quando chegamos, vi os dois homens parados na frente, atentos. Aquilo me deu uma segurança estranha, mas necessária.
Desci do carro devagar e entrei. Minha mãe tava na sala, em pé, esperando.
Quando me viu, veio na hora.
— Minha filha.
Eu só queria uma coisa naquele momento.
Um banho.
Uma cama.
E acordar com a notícia, de que o Juca passou dessa pra pior.