Eduarda Narrando
Me chamo Eduarda, tenho vinte e um anos e sou morena como noite de lua nova, com um cabelo liso e preto que herdei da minha mãe indígena — que eu nem conheci — e que bate na minha cintura quando solto. Na melhor universidade de Engenharia dos Estados Unidos, onde passo a maior parte do ano, me chamam de “a índia genial”. Aqui no Brasil, na casa da minha madrasta, Valquíria me chama carinhosamente de Pocahontas. Adoro o apelido. Tem afeto, tem história, tem um toque de brincadeira que desarma qualquer tensão.
Sou filha única do meu pai, Edson, um empresário do setor de mineração que construiu um império com as próprias mãos e que, há três anos, casou-se com Valquíria. O casamento deles foi um evento discreto. Foi ali, no jardim da casa que é hoje o nosso lar de fim de ano, que conheci o filho dela, Pedro. Meu meio-irmão por afinidade, não por sangue.
Na verdade, “conheci” é uma palavra forte. Nos vimos. Cumprimentamos. Ele tem dois anos a mais que eu, é alto, tem os olhos claros da mãe e uma postura que oscila entre o desinteressado e o levemente arrogante. Naquela época, ele estava prestes a embarcar para a Europa para um mestrado em Economia. Eu, para os EUA, para a graduação. Trocamos meia dúzia de palavras sobre fuso horário e a comida dos respectivos países. Foi isso.
Desde então, nos encontramos mais quatro vezes. Natal passado, Páscoa, uma festa de aniversário surpresa do meu pai e agora, este Natal. Cinco encontros em três anos. Não é suficiente para construir uma irmandade. É suficiente, no entanto, para criar uma curiosidade… estranha.
Cheguei ao Brasil ontem à noite, mas fiquei na casa de uma amiga no Leblon. Hoje, dia 24, passei a tarde comprando últimos presentes — algo sofisticado para Valquíria, uma gravata irreverente para o pai, um livro raro sobre mercados emergentes para Pedro (ouvi do pai que ele curtia). Quando o carro de aplicativo entrou no condomínio fechado na Barra, já eram quase 22h. O Natal, com seu cheiro de pinheiro e expectativa, já respirava dentro da casa.
Valquíria me recebeu na porta com um abraço que cheirava a canela e amor genuíno. Ela é loira, alta, uma ex-modelo que virou galerista de sucesso. E me trata com uma doçura que, confesso, no início me desconfiou. Hoje, só me derrete.
— Minha Pocahontas chegou! Olha você, cada vez mais deslumbrante! O MIT não está cansando essa pele, não? — ela disse, segurando meu rosto entre as mãos, seus olhos azuis examinando-me com orgulho materno.
— Só de você, Val. Que saudade — respondi, sorrindo, e o abraço foi longo e reconfortante.
Foi nesse momento que o vi.
Pedro estava parado na entrada da sala de estar, apoiado no batente da porta, com um copo de whisky na mão. Usava camisa social branca, com os punhos cuidadosamente arregaçados, e um olhar que não conseguia decifrar. Não era hostil. Era… analítico. Como se eu fosse uma equação complexa que ele estava tentando resolver.
— Eduarda — cumprimentou, com um aceno de cabeça seco.
— Pedro. Tudo bem? — respondi, soltando-me de Valquíria.
— Sobrevivendo. A viagem foi boa?
— Longa. Sempre é.
Um silêncio. Valquíria, perceptiva como sempre, cortou o clima.
— Vamos, gente! A ceia está quase pronta. Eduarda, quer ir se arrumar? Seu quarto está pronto, do jeito que você gosta.
Subi as escadas sentindo o peso do olhar dele nas minhas costas. O quarto que uso aqui é aconchegante, com vista para o jardim iluminado com luzinhas natalinas. Troquei de roupa, colocando um vestido simples de seda preta — confortável, elegante. Quando desci, a ceia estava sendo montada na mesa de jantar extensível. Velas, cristais, pratos finos. Meu pai, Edson, chegou da cozinha com uma garrafa de espumante.
— Filha! — seu abraço era forte, seguro, o cheiro do seu hidratante de barba era o cheiro da minha infância. — Como estão os números, engenheira?
— Desafiadores, pai. Mas estou no lugar certo.
— Sempre esteve — ele disse, orgulhoso, apertando meu ombro.
Sentamos. Valquíria à cabeceira, meu pai na outra. Eu de um lado, Pedro do outro, frente a frente.
A ceia começou com brindes. Conversa sobre trabalho, estudos, planos. Pedro falava pouco, mas quando falava, era preciso, inteligente. Seus olhos claros, porém, raramente se desprendiam do seu prato… ou de mim, quando ele achava que eu não estava olhando. Era um olhar intenso, quase intrusivo.
Valquíria, é claro, dirigia a maior parte da atenção e das gentilezas para mim.
— Pedro, passa o molho de cranberry para a Eduarda, ela adora.
— Eduarda, quer mais batata? Sei que no campus não tem igual.
— Conta para o Pedro daquele seu projeto de ponte, filha. Ele vai achar fascinante.
Eu agradecia, sorria, contava. Pedro obedecia, passando o molho, ouvindo. Mas uma tensão minúscula começou a se formar em seu queixo, no modo como ele segurava o garfo.
— Você parece conhecer os gostos dela melhor que os meus, mãe — comentou ele, durante uma pausa, a voz suave mas com a lâmina afiada da ironia.
Valquíria riu, sem perceber o corte. — Ora, Pedro, ela passa tão pouco tempo aqui. Tenho que compensar.
— Compensa bastante — ele retrucou, baixando os olhos para o prato.
Meu pai, sempre o pacificador, interveio. — Elas duas têm uma ligação especial, filho. É bom ver. Família é isso.
Pedro não respondeu. Bebeu um gole de água.
O clima ficou um pouco mais leve com as histórias engraçadas do meu pai, mas a energia entre Pedro e eu era palpável. Não era ódio. Era algo mais complexo. Uma rivalidade por atenção? Inveja? Ou algo mais… primitivo?
Quando a ceia estava terminando e Valquíria se levantou para buscar a sobremesa, Pedro finalmente me encarou diretamente.
— Então, Pocahontas — ele começou, usando o apelido pela primeira vez, mas com uma entonação que soava mais a provocação que a afeto. — Vai ficar quanto tempo? O suficiente para a mãe encher seu quarto de flores e esquecer que eu existo, ou só até o dia 26?
A pergunta foi dita com um meio sorriso, mas os olhos não sorriam. Desafiavam.
Segurei seu olhar, sentindo um calor estranho subir pelo meu pescoço. Não de raiva. De excitação.
— Depende — respondi, mantendo a voz calma. — Se o clima ficar muito… gelado, talvez eu precise ir embora antes.
Ele mordeu o interior da bochecha, um brilho perigoso acendendo em seus olhos. A troca durou apenas três segundos, mas pareceu uma hora.
Foi quando meu pai, nos observando do outro lado da mesa com um olhar divertido e algo mais — algo ciente —, deu uma leve risada e balançou a cabeça.
— Cuidado, crianças — ele disse, erguendo sua taça de vinho num novo brinde, seus olhos piscando maliciosamente. — Daqui a pouco, com essa tensão toda… isso vai dar namoro.
A frase pairou sobre a mesa como um trovão em noite calma.
Valquíria voltou com a torta de chocolate, alheia.
Pedro desviou o olhar bruscamente,uma mancha vermelha subindo pelo seu pescoço. E eu,pega de surpresa pela observação afiada do meu pai, só consegui baixar os olhos para meu prato vazio, sentindo o coração acelerar de um jeito completamente novo, e completamente proibido.
Porque, no fundo, uma parte pequena e rebelde de mim achou que talvez… apenas talvez… meu pai não estivesse totalmente errado. E o pensamento era tão perigoso quanto delicioso.
E faltavam menos de duas horas para a meia-noite.
Continua...