Capítulo 5

793 Palavras
Gustavo A estrada secundária parecia estreitar conforme avançávamos, como se a própria escuridão tentasse engolir o carro. Nenhuma luz. Nenhuma casa. Só árvores retorcidas e o som do motor, rouco depois do impacto. Selena estava no banco ao meu lado, quieta demais. Quietude dela nunca era calma. Era prenúncio. — Se esse “lugar seguro” for uma armadilha… — Viktor começou, no banco de trás. Selena nem o olhou. — Se fosse uma armadilha, você não estaria respirando. Viktor rosnou algo em grego que faria um padre desmaiar. Eu não respondi. Minha atenção estava em Selena. Ela não tremia. Não parecia exausta. Não parecia ferida. Parecia… calculando. — Estamos quase — ela murmurou. — Fica atento. — Estou sempre atento — respondi. — É. — Ela sorriu de canto. — Esse é o problema. Mais dez minutos e a estrada terminou num portão de ferro gigantesco, coberto de símbolos gregos antigos. Não era propriedade comum. Não era esconderijo. Era santuário. Ou tumba. Desliguei o motor. — Onde estamos? — perguntei. Selena desceu do carro sem responder. Abri a porta com a mão já na arma. Viktor fez o mesmo. Ela caminhou até o portão e encostou a palma da mão em um símbolo circular. O ferro chiou e… abriu. Sozinho. Viktor engoliu seco. — Isso é bruxaria? — Tecnologia — Selena respondeu. — Grega demais pra vocês entenderem. Caminhamos atrás dela. A propriedade se abriu diante de nós como um templo esquecido: paredes altas, arquitetura antiga misturada com concreto moderno, luzes baixas e câmeras escondidas em cada canto. — Quem mora aqui? — Viktor perguntou. — Ninguém — ela disse. — Não mais. Entrei no saguão com cautela. O cheiro era de poeira antiga e metal limpo. Algo dentro de mim latejou — memória antiga, memória dolorosa. — Selena — falei — chega de rodeios. — Quem te mandou aqui? — E por que você sabe tanto sobre a minha família? Ela parou no centro do saguão. Se virou devagar. E por um instante… ela parecia outra pessoa. Mais velha. Mais marcada. Mais perigosa. — Porque eu cresci aqui — disse. O chão sumiu debaixo dos meus pés. Selena deu dois passos na minha direção. — Cresci aqui… sob p******o de alguém que você perdeu e nunca soube por quê. Meu coração bateu forte — um golpe seco no peito. — Quem? Ela olhou direto nos meus olhos. — Helena Galanis. Meu mundo parou. Viktor praguejou atrás de mim. Helena. Minha tia. A única pessoa que tentou impedir meu exílio. A única que morreu sem explicação. A única que desapareceu com metade dos segredos dos Galanis. — Ela me criou — Selena continuou. — Me treinou. Me ensinou a sobreviver ao que vinha aí. Ela deu mais um passo. — E morreu tentando manter você vivo. A frase entrou em mim como faca quente. — Não mente comigo — rosnei. Selena se aproximou até ficar perto demais. Perto o suficiente para eu sentir o calor da respiração dela. — Gustavo… — sussurrou — você acha que sabe quem quer sua morte. Se tivesse ideia de quem realmente está por trás… não estaria aqui. Estaria se escondendo. Eu segurei o braço dela e a empurrei contra a parede, não com força para machucar — mas com força para exigir a verdade. Os olhos dela não vacilaram. — Fala — ordenei. Ela sorriu. Um sorriso sombrio… quase triste. — Você quer a verdade? — Agora. O sorriso sumiu. — A verdade é que o traidor que você procura… não está entre seus inimigos. A respiração dela encostou na minha. — Ele está na sua família, Gustavo. O impacto dessa frase foi pior que o do caminhão. Meu sangue gelou. Meu peito ferveu. Minha garganta fechou. — Quem? — perguntei, a voz grave demais para ser humana. Selena colocou a mão no meu rosto — não como carinho, mas como aviso. — Se eu disser agora… nós morremos antes do amanhecer. Ela tirou minha mão do braço dela com um toque leve — e me soltou. — Primeiro, você precisa ver. — Ver o quê? — O que a sua tia escondeu antes de morrer. O santuário ficou em silêncio absoluto. E então, Selena deu as costas e começou a caminhar pelo corredor escuro adentro. — Vem, Gustavo — disse sem olhar para trás. — A verdade está esperando. Viktor se aproximou do meu ombro. — Vamos confiar nela? Olhei para a silhueta de Selena sumindo na escuridão. A mulher que sabia demais. A mulher que quase morreu comigo. A mulher que carregava segredos da minha própria família. — Não — respondi, avançando. — Mas vamos seguir. E entrar naquele corredor foi como atravessar a porta do inferno. Um inferno que, agora, tinha nome. Selena.
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