Gustavo
O corredor parecia vivo.
Não pelas luzes fracas que acendiam conforme caminhávamos, mas porque cada passo fazia o ar ficar mais denso — como se a própria casa reconhecesse quem eu era.
Selena caminhava à frente, silenciosa como uma maldição.
— Onde exatamente estamos indo? — perguntei.
— Para o que minha mãe adotiva deixou escondido — ela respondeu, sem parar. — Para o que ela morreu protegendo.
O estômago de Viktor roncou, mas não era fome. Era medo.
Eu senti o mesmo.
Não por Helena.
Mas pela resposta que estava no fim desse corredor.
A porta apareceu como um monólito no fim do caminho: aço preto, runas gregas entalhadas, uma marca que eu não via desde criança — a marca do sangue Galanis.
Meu peito doeu.
— Como você tem acesso a isso? — perguntei.
Selena se virou.
Os olhos azuis brilhavam não com luz… mas com lembrança.
— Porque Helena me deu a chave.
— Por quê?
— Porque você nunca voltou para pegar.
A culpa bateu em mim como corrente.
Ela levantou o braço e mostrou uma tatuagem discreta no pulso: o mesmo símbolo do clã.
Só pessoas do círculo íntimo podiam carregar aquilo.
Eu não fazia parte dele há anos.
Selena encostou o pulso no centro da porta.
O aço tremeu.
As runas se iluminaram em vermelho.
E a porta se abriu com um som que parecia um rugido.
Dentro havia uma sala ampla, circular, paredes de pedra misturadas com concreto moderno.
Um altar.
Arquivos.
Armas antigas.
Mapas.
E no centro…
Uma mesa metálica iluminada por uma luz branca.
Sobre ela, uma pasta preta com meu sobrenome gravado:
GALANIS — CLASSIFICAÇÃO OMEGA
ACESSO NEGADO AO HERDEIRO
Minha respiração travou.
Selena se aproximou primeiro.
— Helena nunca quis que você encontrasse isso sem p******o. Ela sabia o que isso significava. Quem isso irritaria.
— Do que você está falando? — perguntei, a voz mais fria do que eu pretendia.
Ela abriu a pasta.
E ali, diante de mim, estavam:
📌 Ordens de execução assinadas
📌 Fotos do ataque que quase me matou
📌 Relatórios sobre meus movimentos
📌 Minhas rotinas, meus aliados, minhas fraquezas
📌 E um nome repetido dezenas de vezes
Viktor se aproximou, hesitante.
Eu fiquei imóvel.
Imóvel porque reconheci a assinatura que aparecia em absolutamente todos os documentos.
A assinatura do traidor.
Minha garganta queimou.
Viktor praguejou alto.
Selena me olhou com algo entre pena… e fúria.
— Agora você entende por que eu disse que você não estava preparado para essa verdade? — ela sussurrou.
Eu não respondi.
Porque minha mente estava gritando o nome.
O nome que envenenava minha família há anos.
O nome que assinou minha sentença de morte.
O nome do traidor:
ARISTON GALANIS.
Meu próprio pai.
O sangue no meu corpo virou lâmina.
Viktor se afastou, horrorizado.
Selena fechou a pasta.
— Ele vai m***r qualquer um que descobrir isso — disse. — E agora que você sabe… ele já começou a te caçar.
Eu não ouvi mais nada.
O mundo perdeu som.
Cor.
Peso.
Até que percebi algo.
Meu corpo não tremia.
Meu coração não acelerava.
Eu estava calmo.
Calmo de um jeito antinatural.
Daquele tipo de calma que só surge quando um homem descobre que foi traído pelo próprio sangue…
…e decide que vai retribuir.
— Selena — murmurei, encarando a pasta.
— Quanto tempo você sabe disso?
Ela encarou meu rosto, séria, sincera, perigosa.
— Tempo suficiente para saber que, sozinho, você nunca venceria.
— E com você? — perguntei.
— Comigo…? — Ela deu um meio sorriso sombrio. — Comigo você pode derrubar um império.
Eu dei um passo na direção dela.
— E você quer isso por quê?
Ela se aproximou também — lenta, firme — até nossos rostos ficarem a poucos centímetros.
— Porque seu pai destruiu minha família primeiro.
Meu corpo inteiro endureceu.
E naquele instante, eu soube:
Essa guerra não era só minha.
Nem só dela.
Era uma guerra antiga.
Velha demais.
Profunda demais.
E agora… éramos o mesmo lado.
Ou o mesmo fim.
— Então vamos derrubar ele — eu disse.
— Juntos.
Selena sorriu.
Um sorriso que prometia sangue.
— Juntos.
Atrás de nós, as luzes da sala piscaram — como se o próprio clã Galanis sentisse que algo havia sido desencadeado ali.
Algo que não poderia mais ser parado.