Capítulo 7

642 Palavras
Gustavo O ar dentro da sala mudou. Não foi vento. Não foi temperatura. Foi presença. A sala inteira parecia observar, como se as paredes reconhecessem que o herdeiro banido havia acabado de descobrir a verdade — e que essa verdade estava prestes a incendiar o mundo. Fechei a pasta devagar. Cada movimento parecia ecoar no concreto. Ariston Galanis. Meu pai. Meu criador. Meu carrasco. Meu fantasma. E agora, meu alvo. Viktor se mantinha a uma distância respeitosa, como se tivesse medo de encostar em mim enquanto eu absorvia o que estava lendo. — Gustavo… — ele tentou. — Não. — Minha voz saiu firme demais. — Não fale nada. Não havia nada que ele pudesse dizer. Nem desculpa. Nem consolo. Nem aviso. Selena ficou parada de frente para mim, o rosto parcialmente iluminado, parcialmente devorado pela sombra que se formava atrás dela. E por um instante, eu me perguntei se ela sabia o que tinha acabado de fazer. Ela me mudou. Não com carinho. Não com confiança. Mas com a verdade mais afiada que o mundo poderia me dar. Ela me libertou. Ou me condenou. Eu não sabia qual dos dois. — Você está muito calmo — disse ela, observando meus olhos com precisão cirúrgica. — É assim que eu fico antes de m***r alguém. Os lábios dela tremeram num quase sorriso. — Pensei que fosse só comigo. — Ainda pode ser — respondi. Selena deu dois passos em minha direção, até ficar tão perto que o calor do corpo dela misturou-se com o meu. — Eu disse que avisaria quando você estivesse pronto. — Ela tocou meu peito com um dedo, leve como navalha. — Agora você está. E então, atrás de nós, uma luz piscou. Viktor levou a mão à arma. — Movimento no térreo — ele avisou. — Câmeras detectaram três sinais térmicos. Selena não se moveu. Eu também não. — Se são três — murmurei — não vieram para conversar. Ela passou a mão pelo meu queixo, como se estivesse marcando território. — Eu disse que assim que você soubesse, seu pai agiria. — Ela ergueu o olhar. — Ele está atirando primeiro. Um som ecoou lá embaixo: metal, botas, munição sendo carregada. Viktor entrou em modo de guerra. — Precisamos sair agora. — Não — falei. Selena ergueu as sobrancelhas. — Gustavo… Eu sorri. Um sorriso que eu não dava há anos. O sorriso que eu usava antes de m***r. — Eles vieram até mim. Puxei a pistola do coldre. — Então vão morrer aqui mesmo. Selena inspirou devagar, como se estivesse saboreando a decisão. — Você não quer fugir? — ela provocou. — Eu sou um Galanis. — Minha voz saiu grave, mortal. — Não fujo de quem veio com pouca munição. Viktor abriu a porta lateral da sala e apagou as luzes. Selena caminhou até a gaveta de armas antigas do altar e puxou duas facas curvas, brilhantes. Eu reconheci. Lâminas de execução do clã. Reservadas apenas para herdeiros. Ela jogou uma para mim. Peguei no ar. A lâmina encaixou na minha mão como se tivesse sido feita para ela. — Você ouviu — Selena disse, a voz tão fria quanto aço. — Eles são só o começo. Eu caminhei para a porta do corredor. Meu pai tinha acabado de declarar guerra. E eu… Eu aceitei. — Viktor — ordenei — acenda todas as armadilhas. — Todas? — ele perguntou. Eu o encarei nos olhos. — Todas. Selena sorriu como se estivesse prestes a assistir o nascimento de um monstro. Ou de um rei. — Vamos dar as boas-vindas? — ela perguntou. Eu passei a lâmina pelo polegar, sentindo o metal cortar a pele. O sangue desceu quente. — Vamos recebê-los como Galanis recebe inimigo. E descemos as escadas. Lado a lado. Prontos para m***r os primeiros enviados do meu pai. Os primeiros… de muitos.
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