Gustavo
O ar dentro da sala mudou.
Não foi vento. Não foi temperatura.
Foi presença.
A sala inteira parecia observar, como se as paredes reconhecessem que o herdeiro banido havia acabado de descobrir a verdade — e que essa verdade estava prestes a incendiar o mundo.
Fechei a pasta devagar. Cada movimento parecia ecoar no concreto.
Ariston Galanis.
Meu pai.
Meu criador. Meu carrasco. Meu fantasma.
E agora, meu alvo.
Viktor se mantinha a uma distância respeitosa, como se tivesse medo de encostar em mim enquanto eu absorvia o que estava lendo.
— Gustavo… — ele tentou.
— Não. — Minha voz saiu firme demais. — Não fale nada.
Não havia nada que ele pudesse dizer.
Nem desculpa.
Nem consolo.
Nem aviso.
Selena ficou parada de frente para mim, o rosto parcialmente iluminado, parcialmente devorado pela sombra que se formava atrás dela.
E por um instante, eu me perguntei se ela sabia o que tinha acabado de fazer.
Ela me mudou.
Não com carinho. Não com confiança. Mas com a verdade mais afiada que o mundo poderia me dar.
Ela me libertou.
Ou me condenou.
Eu não sabia qual dos dois.
— Você está muito calmo — disse ela, observando meus olhos com precisão cirúrgica.
— É assim que eu fico antes de m***r alguém.
Os lábios dela tremeram num quase sorriso.
— Pensei que fosse só comigo.
— Ainda pode ser — respondi.
Selena deu dois passos em minha direção, até ficar tão perto que o calor do corpo dela misturou-se com o meu.
— Eu disse que avisaria quando você estivesse pronto. — Ela tocou meu peito com um dedo, leve como navalha. — Agora você está.
E então, atrás de nós, uma luz piscou.
Viktor levou a mão à arma.
— Movimento no térreo — ele avisou. — Câmeras detectaram três sinais térmicos.
Selena não se moveu.
Eu também não.
— Se são três — murmurei — não vieram para conversar.
Ela passou a mão pelo meu queixo, como se estivesse marcando território.
— Eu disse que assim que você soubesse, seu pai agiria. — Ela ergueu o olhar. — Ele está atirando primeiro.
Um som ecoou lá embaixo:
metal, botas, munição sendo carregada.
Viktor entrou em modo de guerra.
— Precisamos sair agora.
— Não — falei.
Selena ergueu as sobrancelhas.
— Gustavo…
Eu sorri.
Um sorriso que eu não dava há anos.
O sorriso que eu usava antes de m***r.
— Eles vieram até mim.
Puxei a pistola do coldre.
— Então vão morrer aqui mesmo.
Selena inspirou devagar, como se estivesse saboreando a decisão.
— Você não quer fugir? — ela provocou.
— Eu sou um Galanis. — Minha voz saiu grave, mortal.
— Não fujo de quem veio com pouca munição.
Viktor abriu a porta lateral da sala e apagou as luzes.
Selena caminhou até a gaveta de armas antigas do altar e puxou duas facas curvas, brilhantes.
Eu reconheci.
Lâminas de execução do clã.
Reservadas apenas para herdeiros.
Ela jogou uma para mim.
Peguei no ar.
A lâmina encaixou na minha mão como se tivesse sido feita para ela.
— Você ouviu — Selena disse, a voz tão fria quanto aço. — Eles são só o começo.
Eu caminhei para a porta do corredor.
Meu pai tinha acabado de declarar guerra.
E eu…
Eu aceitei.
— Viktor — ordenei — acenda todas as armadilhas.
— Todas? — ele perguntou.
Eu o encarei nos olhos.
— Todas.
Selena sorriu como se estivesse prestes a assistir o nascimento de um monstro.
Ou de um rei.
— Vamos dar as boas-vindas? — ela perguntou.
Eu passei a lâmina pelo polegar, sentindo o metal cortar a pele.
O sangue desceu quente.
— Vamos recebê-los como Galanis recebe inimigo.
E descemos as escadas.
Lado a lado.
Prontos para m***r os primeiros enviados do meu pai.
Os primeiros… de muitos.