Capítulo 8

891 Palavras
Gustavo O som das botas ecoava pelo corredor estreito enquanto descíamos. Não era pressa. Não era medo. Era ritmo. O ritmo de quem está indo para a morte — ou para o m******e. As lâmpadas fracas tremeram no teto, avisando que Viktor havia ativado o sistema de defesa antigo. Um sistema que meu pai acreditava que só ele controlava. Hoje, ele descobriria o contrário. Selena caminhava ao meu lado, lâmina em uma mão, pistola na outra, como se tivesse nascido para aquela cena. O brilho azul dos olhos dela refletia sangue antes mesmo dele existir. Viktor vinha atrás, silencioso, calculado, mortal. Três sombras descendo para encontrar três intrusos. — Estão na sala de entrada — Viktor sussurrou, verificando o tablet que segurava. — Termografia indica que estão armados até os dentes. — Não vieram negociar — murmurei. Selena deu uma risada curta. — Vieram te levar de volta para o pai deles. “Pai deles.” Eu odiei a forma como ela disse isso. Odiava mais ainda que fosse verdade: Ariston criava homens. Transformava-os em cães. E mandava-os m***r como se fosse rotina. Hoje ele havia mandado três cães famintos para me buscar. E hoje… eu os sacrificaria. Viktor subiu a trava da espingarda com um estalo. — Primeira armadilha acionada. Um som metálico ecoou logo abaixo. Um dos intrusos praguejou alto. — m***a! Algo disparou aqui! Selena sorriu. — Eu adoro quando eles percebem tarde demais. A fastidiosa calma dentro de mim se solidificou. Era quase confortável. — Abre a câmera — ordenei. Viktor virou o tablet para mim. Os três intrusos estavam no saguão de entrada. Roupas táticas. Máscaras pretas. Fuzis com mira térmica. Profissionais. Bem treinados. Mortos. Eles não sabiam, mas já estavam mortos. — Eles são do esquadrão interno — murmurei. Selena girou a faca entre os dedos. — Do tipo que só é enviado quando Ariston quer um recado claro. — Ele acha que estamos com medo — Viktor completou. — Mas não estamos — finalizei. Respirei fundo. O primeiro homem se aproximou do corredor. Pisou exatamente onde eu sabia que pisaria. Um estalo seco. O chão sob ele se abriu como a mandíbula de uma b***a. O grito ecoou, interrompido por metal perfurando carne. — Aham — Viktor comentou. — Esqueceu de olhar para baixo. Os outros dois deram um passo para trás, apavorados. Selena suspirou. — Homens bem treinados deveriam saber que casas antigas têm segredos. O segundo intruso ergueu o fuzil. — PROCUREM! ELE ESTÁ AQUI! Eu tomei a dianteira. — Chega de brincar — murmurei. Desliguei as luzes. O corredor mergulhou numa escuridão absoluta. Selena riu, satisfeita. — Agora é justo. Avançamos. Nossos passos eram fantasmas. Os deles, peso. Uma sombra se moveu à frente. O intruso apontou para a escuridão. — EU VI ALGO! EU— Eu alcancei ele antes da frase terminar. A faca entrou abaixo da costela, atravessando o pulmão. Segurei o corpo dele enquanto a vida escapava pelos olhos. Senti o calor do sangue escoando, respingando no chão. — Shhh — murmurei. — Não precisa gritar. Ele caiu a meus pés. Selena apareceu ao meu lado, observando meu rosto. — Você queria guerra? — ela murmurou. — Agora tem. O último homem disparou às cegas, tentando acertar algo — qualquer coisa. Selena avançou primeiro, silenciosa e mortal. A lâmina dela cortou o tendão atrás do joelho. Ele gritou. Ela o puxou para trás pelo cabelo, expondo a garganta. — Quer que eu termine ou você? — ela perguntou. — Eu — respondi. Peguei o fuzil da mão dele. Apontei para a cabeça. — Fala quem te enviou — ordenei, mesmo sabendo a resposta. Ele chorou. — O Príncipe… mandou buscar você… Príncipe. O codinome de Ariston dentro da máfia. Meu pai. O rei do inferno. E mandando seus anjos caídos atrás de mim. — Bom — murmurei. — Agora ele vai saber que errou. Atirei. O corpo caiu. O sangue respingou nas paredes. Silêncio. Respirei fundo, saboreando a calma perigosa que voltava a me preencher. Viktor baixou a arma. — Isso foi… rápido. — Foi o começo — Selena corrigiu. Ela secou a lâmina na roupa do inimigo e ergueu o olhar para mim. — Ariston vai saber que você não é mais o filho obediente. Eu passei a mão pelo rosto, deixando uma mancha de sangue no queixo. — Ele vai saber que eu não sou mais filho nenhum. As luzes voltaram a piscar. O sistema reiniciou. E então… O telefone da casa começou a tocar. Não celular. Não rádio. O telefone fixo antigo. Aquele que só uma pessoa no mundo podia usar. Selena arregalou os olhos. Viktor congelou. Eu caminhei até o aparelho, cada passo pesado, controlado, mortal. Atendi. A voz do outro lado não era humana. Era grave. Fria. E reconhecível demais. — Filho. Eu respirei fundo. — Ariston. — Matando meus homens? A risada dele era a de um deus entediado. — Que bela forma de pedir minha atenção. Eu apertei o cabo da faca até meus dedos quase sangrarem. — Não estou pedindo. — Não? — ele murmurou. — Então venha tomar. O telefone desligou. O silêncio depois parecia um cadáver no chão. Selena se aproximou atrás de mim. — Ele acabou de te convidar para o trono — ela sussurrou. Eu virei a faca na mão. — Então vamos derrubar o rei.
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