Gustavo
O som das botas ecoava pelo corredor estreito enquanto descíamos.
Não era pressa.
Não era medo.
Era ritmo.
O ritmo de quem está indo para a morte — ou para o m******e.
As lâmpadas fracas tremeram no teto, avisando que Viktor havia ativado o sistema de defesa antigo.
Um sistema que meu pai acreditava que só ele controlava.
Hoje, ele descobriria o contrário.
Selena caminhava ao meu lado, lâmina em uma mão, pistola na outra, como se tivesse nascido para aquela cena.
O brilho azul dos olhos dela refletia sangue antes mesmo dele existir.
Viktor vinha atrás, silencioso, calculado, mortal.
Três sombras descendo para encontrar três intrusos.
— Estão na sala de entrada — Viktor sussurrou, verificando o tablet que segurava. — Termografia indica que estão armados até os dentes.
— Não vieram negociar — murmurei.
Selena deu uma risada curta.
— Vieram te levar de volta para o pai deles.
“Pai deles.”
Eu odiei a forma como ela disse isso.
Odiava mais ainda que fosse verdade: Ariston criava homens.
Transformava-os em cães.
E mandava-os m***r como se fosse rotina.
Hoje ele havia mandado três cães famintos para me buscar.
E hoje… eu os sacrificaria.
Viktor subiu a trava da espingarda com um estalo.
— Primeira armadilha acionada.
Um som metálico ecoou logo abaixo.
Um dos intrusos praguejou alto.
— m***a! Algo disparou aqui!
Selena sorriu.
— Eu adoro quando eles percebem tarde demais.
A fastidiosa calma dentro de mim se solidificou.
Era quase confortável.
— Abre a câmera — ordenei.
Viktor virou o tablet para mim.
Os três intrusos estavam no saguão de entrada.
Roupas táticas.
Máscaras pretas.
Fuzis com mira térmica.
Profissionais.
Bem treinados.
Mortos.
Eles não sabiam, mas já estavam mortos.
— Eles são do esquadrão interno — murmurei.
Selena girou a faca entre os dedos.
— Do tipo que só é enviado quando Ariston quer um recado claro.
— Ele acha que estamos com medo — Viktor completou.
— Mas não estamos — finalizei.
Respirei fundo.
O primeiro homem se aproximou do corredor.
Pisou exatamente onde eu sabia que pisaria.
Um estalo seco.
O chão sob ele se abriu como a mandíbula de uma b***a.
O grito ecoou, interrompido por metal perfurando carne.
— Aham — Viktor comentou. — Esqueceu de olhar para baixo.
Os outros dois deram um passo para trás, apavorados.
Selena suspirou.
— Homens bem treinados deveriam saber que casas antigas têm segredos.
O segundo intruso ergueu o fuzil.
— PROCUREM! ELE ESTÁ AQUI!
Eu tomei a dianteira.
— Chega de brincar — murmurei.
Desliguei as luzes.
O corredor mergulhou numa escuridão absoluta.
Selena riu, satisfeita.
— Agora é justo.
Avançamos.
Nossos passos eram fantasmas.
Os deles, peso.
Uma sombra se moveu à frente.
O intruso apontou para a escuridão.
— EU VI ALGO! EU—
Eu alcancei ele antes da frase terminar.
A faca entrou abaixo da costela, atravessando o pulmão.
Segurei o corpo dele enquanto a vida escapava pelos olhos.
Senti o calor do sangue escoando, respingando no chão.
— Shhh — murmurei. — Não precisa gritar.
Ele caiu a meus pés.
Selena apareceu ao meu lado, observando meu rosto.
— Você queria guerra? — ela murmurou. — Agora tem.
O último homem disparou às cegas, tentando acertar algo — qualquer coisa.
Selena avançou primeiro, silenciosa e mortal.
A lâmina dela cortou o tendão atrás do joelho.
Ele gritou.
Ela o puxou para trás pelo cabelo, expondo a garganta.
— Quer que eu termine ou você? — ela perguntou.
— Eu — respondi.
Peguei o fuzil da mão dele.
Apontei para a cabeça.
— Fala quem te enviou — ordenei, mesmo sabendo a resposta.
Ele chorou.
— O Príncipe… mandou buscar você…
Príncipe.
O codinome de Ariston dentro da máfia.
Meu pai.
O rei do inferno.
E mandando seus anjos caídos atrás de mim.
— Bom — murmurei. — Agora ele vai saber que errou.
Atirei.
O corpo caiu.
O sangue respingou nas paredes.
Silêncio.
Respirei fundo, saboreando a calma perigosa que voltava a me preencher.
Viktor baixou a arma.
— Isso foi… rápido.
— Foi o começo — Selena corrigiu.
Ela secou a lâmina na roupa do inimigo e ergueu o olhar para mim.
— Ariston vai saber que você não é mais o filho obediente.
Eu passei a mão pelo rosto, deixando uma mancha de sangue no queixo.
— Ele vai saber que eu não sou mais filho nenhum.
As luzes voltaram a piscar.
O sistema reiniciou.
E então…
O telefone da casa começou a tocar.
Não celular.
Não rádio.
O telefone fixo antigo.
Aquele que só uma pessoa no mundo podia usar.
Selena arregalou os olhos.
Viktor congelou.
Eu caminhei até o aparelho, cada passo pesado, controlado, mortal.
Atendi.
A voz do outro lado não era humana.
Era grave.
Fria.
E reconhecível demais.
— Filho.
Eu respirei fundo.
— Ariston.
— Matando meus homens?
A risada dele era a de um deus entediado.
— Que bela forma de pedir minha atenção.
Eu apertei o cabo da faca até meus dedos quase sangrarem.
— Não estou pedindo.
— Não? — ele murmurou. — Então venha tomar.
O telefone desligou.
O silêncio depois parecia um cadáver no chão.
Selena se aproximou atrás de mim.
— Ele acabou de te convidar para o trono — ela sussurrou.
Eu virei a faca na mão.
— Então vamos derrubar o rei.