Capítulo 16

1070 Palavras
Gustavo O silêncio que ficou depois não foi paz. Foi um tipo de luto. Ariston estava vivo — contido, algemado, sangrando — mas sua presença ainda ocupava o espaço como uma doença que não some quando a febre baixa. Os homens dele estavam mortos ou fugidos. O prédio gemia com o eco distante das sirenes internas sendo desligadas uma a uma por Viktor. A guerra tinha respirado fundo. Agora vinha o peso. Selena permanecia em pé ao meu lado, mas era só o corpo. O resto… o resto parecia suspenso fora dela. Os olhos fixos em algum ponto invisível à frente. As mãos sujas de poeira e sangue seco. O rosto rígido, como se qualquer expressão fosse um risco. O homem que se dizia pai dela — que era pai dela — mantinha distância. Não por medo de mim. Por respeito ao espaço frágil que se abriu entre nós dois. Entre nós três. — Precisamos sair daqui — Viktor disse por fim, quebrando o silêncio com cuidado. — Antes que reforços cheguem. Isso aqui não vai aguentar mais um ataque. Eu assenti. Não confiava na minha voz ainda. Olhei para Ariston. Ele levantou os olhos lentamente, o sorriso ferido ainda tentando existir. — Você sempre foi impaciente, Gustavo — ele provocou, rouco. — Quer fugir de novo? Caminhei até ele. Ajoelhei para ficarmos na mesma altura. — Você vai sair daqui vivo — eu disse. — Não porque merece. Mas porque ainda tem coisas que só você pode responder. O sorriso dele morreu. — E você acha que controla isso? Inclinei-me um pouco mais. — Acho. Ele desviou o olhar pela primeira vez. Isso ficou gravado em mim. Selena se moveu então. Um passo. Depois outro. Ela parou diante do pai — o homem que a criou nas sombras e o homem que a usou para sobreviver. — Você vai embora conosco — ela disse. A voz não tremia. — Mas não ache que isso muda alguma coisa. Ele assentiu. — Eu não espero perdão. — Ainda bem — ela respondeu. — Porque não existe. Não era raiva. Era constatação. Aquilo doeu mais do que qualquer grito. Viktor coordenou a retirada com precisão mecânica. Corredores alternativos. Portas secundárias. Veículos de contingência. Tudo funcionava… mas diferente. Como se o lugar tivesse perdido a alma. Quando entramos no carro, ninguém falou nada. O motor ligou. E seguimos. A cidade parecia indiferente à guerra que quase a rasgara por dentro. Luzes comuns. Pessoas comuns. Vidas que não sabiam que tinham sido poupadas por um fio. Eu observava tudo pelo vidro enquanto sentia o peso cair, camada por camada. Não era mais só minha guerra. Era um legado podre tentando se reescrever à força. Selena quebrou o silêncio quando já estávamos longe. — Você vai entregá-lo? — ela perguntou, sem me olhar. — Não. Ela assentiu. Não surpresa. Só… cansada. — Ele não pode sumir — continuou. — Se sumir, tudo isso vira mentira de novo. — Ele não vai sumir — garanti. — Ele vai falar. — E depois? Respirei fundo. — Depois… a gente decide. Ela finalmente me olhou. Havia algo novo ali. Não confiança. Não amor. Algo mais duro. Parceria consciente. — Então decide comigo — ela disse. Assenti. Quando chegamos ao abrigo secundário, o céu já começava a clarear. Um cinza pálido, sem promessa. Só continuidade. O lugar era simples. Seguro. Frio. Paredes grossas. Quartos separados. Viktor levou Ariston para a ala de contenção sem cerimônia. O pai de Selena ficou no corredor, parado, como alguém que não sabe mais onde pertence. Ela parou também. — Eu preciso ficar sozinha — disse. — Eu sei. — Não me siga. — Não vou. Ela hesitou. Depois assentiu e entrou no quarto, fechando a porta devagar. O clique foi baixo. Mas definitivo. Eu fiquei ali alguns segundos. Depois fui para a sala de comando. Viktor já estava sentado, mãos trêmulas pela primeira vez desde que o conheci. — Isso mudou tudo — ele disse. — Mudou — concordei. — Seu pai… — Ele parou. — O que você vai fazer com ele? — Vou ouvir. — E depois? — Depois vou fazer o que ele nunca fez comigo. Viktor franziu a testa. — O quê? — Escolher. Ele engoliu seco. — E ela? Olhei para a porta fechada do quarto de Selena. — Ela vai decidir o que quer ser — respondi. — Pela primeira vez. O silêncio voltou. Mas era diferente agora. Menos explosivo. Mais perigoso. Horas depois, encontrei o pai dela no terraço interno. Ele olhava o céu como quem tenta se lembrar de como respirar. — Você destruiu a vida dela — eu disse. — Eu salvei — ele respondeu. — Do jeito que pude. — Salvou para quê? Ele demorou a responder. — Para que ela tivesse escolha — disse por fim. — Mesmo que me odiasse por isso. — E eu? — perguntei. Ele me encarou. — Você foi a variável que eu não controlei. — Isso te assusta? Ele assentiu. — Muito. — Ótimo. Deixei-o ali. Quando voltei para dentro, encontrei Selena sentada no chão do quarto, costas na parede. Os joelhos dobrados. Os olhos secos. — Não vou chorar — ela disse antes que eu falasse qualquer coisa. — Não pedi que chorasse. — Eles sempre esperam isso. Sentei ao lado dela, mantendo distância. — Eu não espero nada. Ela respirou fundo. — Eu sinto como se tudo que vivi tivesse sido escrito por outras mãos. — E agora? Ela virou o rosto para mim. — Agora eu quero escrever. Assenti. — Então vamos te dar papel e fogo suficientes. Ela soltou um meio sorriso. O primeiro. Pequeno. Cansado. — Você não parece quebrado — ela observou. — Estou — respondi. — Só aprendi a funcionar assim. — Eu não quero funcionar — ela disse. — Quero sentir… e mesmo assim continuar. Olhei para ela. — Então não foge quando doer. Ela assentiu. — E você? — Eu fico. Ela fechou os olhos por um segundo. Quando abriu, havia algo novo ali. Não esperança. Direção. — Então isso não acaba aqui — ela disse. — Não — respondi. — Aqui começa de verdade. Lá fora, o dia finalmente nasceu. E com ele, a certeza: Nada seria simples. Nada seria limpo. Nada seria perdoado. Mas agora… Agora a guerra tinha rosto, nome e escolha. E nós dois estávamos conscientes demais para fingir que ainda éramos vítimas.
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