Gustavo
O silêncio que ficou depois não foi paz.
Foi um tipo de luto.
Ariston estava vivo — contido, algemado, sangrando — mas sua presença ainda ocupava o espaço como uma doença que não some quando a febre baixa. Os homens dele estavam mortos ou fugidos. O prédio gemia com o eco distante das sirenes internas sendo desligadas uma a uma por Viktor.
A guerra tinha respirado fundo.
Agora vinha o peso.
Selena permanecia em pé ao meu lado, mas era só o corpo. O resto… o resto parecia suspenso fora dela. Os olhos fixos em algum ponto invisível à frente. As mãos sujas de poeira e sangue seco. O rosto rígido, como se qualquer expressão fosse um risco.
O homem que se dizia pai dela — que era pai dela — mantinha distância. Não por medo de mim. Por respeito ao espaço frágil que se abriu entre nós dois. Entre nós três.
— Precisamos sair daqui — Viktor disse por fim, quebrando o silêncio com cuidado. — Antes que reforços cheguem. Isso aqui não vai aguentar mais um ataque.
Eu assenti. Não confiava na minha voz ainda.
Olhei para Ariston. Ele levantou os olhos lentamente, o sorriso ferido ainda tentando existir.
— Você sempre foi impaciente, Gustavo — ele provocou, rouco. — Quer fugir de novo?
Caminhei até ele.
Ajoelhei para ficarmos na mesma altura.
— Você vai sair daqui vivo — eu disse. — Não porque merece. Mas porque ainda tem coisas que só você pode responder.
O sorriso dele morreu.
— E você acha que controla isso?
Inclinei-me um pouco mais.
— Acho.
Ele desviou o olhar pela primeira vez.
Isso ficou gravado em mim.
Selena se moveu então. Um passo. Depois outro. Ela parou diante do pai — o homem que a criou nas sombras e o homem que a usou para sobreviver.
— Você vai embora conosco — ela disse. A voz não tremia. — Mas não ache que isso muda alguma coisa.
Ele assentiu.
— Eu não espero perdão.
— Ainda bem — ela respondeu. — Porque não existe.
Não era raiva.
Era constatação.
Aquilo doeu mais do que qualquer grito.
Viktor coordenou a retirada com precisão mecânica. Corredores alternativos. Portas secundárias. Veículos de contingência. Tudo funcionava… mas diferente. Como se o lugar tivesse perdido a alma.
Quando entramos no carro, ninguém falou nada.
O motor ligou.
E seguimos.
A cidade parecia indiferente à guerra que quase a rasgara por dentro. Luzes comuns. Pessoas comuns. Vidas que não sabiam que tinham sido poupadas por um fio.
Eu observava tudo pelo vidro enquanto sentia o peso cair, camada por camada.
Não era mais só minha guerra.
Era um legado podre tentando se reescrever à força.
Selena quebrou o silêncio quando já estávamos longe.
— Você vai entregá-lo? — ela perguntou, sem me olhar.
— Não.
Ela assentiu. Não surpresa. Só… cansada.
— Ele não pode sumir — continuou. — Se sumir, tudo isso vira mentira de novo.
— Ele não vai sumir — garanti. — Ele vai falar.
— E depois?
Respirei fundo.
— Depois… a gente decide.
Ela finalmente me olhou.
Havia algo novo ali. Não confiança. Não amor. Algo mais duro.
Parceria consciente.
— Então decide comigo — ela disse.
Assenti.
Quando chegamos ao abrigo secundário, o céu já começava a clarear. Um cinza pálido, sem promessa. Só continuidade.
O lugar era simples. Seguro. Frio. Paredes grossas. Quartos separados.
Viktor levou Ariston para a ala de contenção sem cerimônia. O pai de Selena ficou no corredor, parado, como alguém que não sabe mais onde pertence.
Ela parou também.
— Eu preciso ficar sozinha — disse.
— Eu sei.
— Não me siga.
— Não vou.
Ela hesitou. Depois assentiu e entrou no quarto, fechando a porta devagar.
O clique foi baixo.
Mas definitivo.
Eu fiquei ali alguns segundos.
Depois fui para a sala de comando.
Viktor já estava sentado, mãos trêmulas pela primeira vez desde que o conheci.
— Isso mudou tudo — ele disse.
— Mudou — concordei.
— Seu pai… — Ele parou. — O que você vai fazer com ele?
— Vou ouvir.
— E depois?
— Depois vou fazer o que ele nunca fez comigo.
Viktor franziu a testa.
— O quê?
— Escolher.
Ele engoliu seco.
— E ela?
Olhei para a porta fechada do quarto de Selena.
— Ela vai decidir o que quer ser — respondi. — Pela primeira vez.
O silêncio voltou.
Mas era diferente agora.
Menos explosivo.
Mais perigoso.
Horas depois, encontrei o pai dela no terraço interno. Ele olhava o céu como quem tenta se lembrar de como respirar.
— Você destruiu a vida dela — eu disse.
— Eu salvei — ele respondeu. — Do jeito que pude.
— Salvou para quê?
Ele demorou a responder.
— Para que ela tivesse escolha — disse por fim. — Mesmo que me odiasse por isso.
— E eu? — perguntei.
Ele me encarou.
— Você foi a variável que eu não controlei.
— Isso te assusta?
Ele assentiu.
— Muito.
— Ótimo.
Deixei-o ali.
Quando voltei para dentro, encontrei Selena sentada no chão do quarto, costas na parede. Os joelhos dobrados. Os olhos secos.
— Não vou chorar — ela disse antes que eu falasse qualquer coisa.
— Não pedi que chorasse.
— Eles sempre esperam isso.
Sentei ao lado dela, mantendo distância.
— Eu não espero nada.
Ela respirou fundo.
— Eu sinto como se tudo que vivi tivesse sido escrito por outras mãos.
— E agora?
Ela virou o rosto para mim.
— Agora eu quero escrever.
Assenti.
— Então vamos te dar papel e fogo suficientes.
Ela soltou um meio sorriso. O primeiro. Pequeno. Cansado.
— Você não parece quebrado — ela observou.
— Estou — respondi. — Só aprendi a funcionar assim.
— Eu não quero funcionar — ela disse. — Quero sentir… e mesmo assim continuar.
Olhei para ela.
— Então não foge quando doer.
Ela assentiu.
— E você?
— Eu fico.
Ela fechou os olhos por um segundo.
Quando abriu, havia algo novo ali.
Não esperança.
Direção.
— Então isso não acaba aqui — ela disse.
— Não — respondi. — Aqui começa de verdade.
Lá fora, o dia finalmente nasceu.
E com ele, a certeza:
Nada seria simples.
Nada seria limpo.
Nada seria perdoado.
Mas agora…
Agora a guerra tinha rosto, nome e escolha.
E nós dois estávamos conscientes demais para fingir que ainda éramos vítimas.