Gustavo
A fumaça se abriu como uma ferida.
E dele emergiu o passado.
O homem caminhava devagar, como quem não precisava provar nada. Cada passo era firme, pesado, carregado de uma autoridade que não vinha da arma em sua mão — vinha do que ele era.
Do que ele representava.
O rosto estava parcialmente marcado pelo tempo. Cicatrizes antigas cruzavam a bochecha esquerda e desciam até o pescoço. O cabelo, antes n***o, agora carregava fios brancos. Mas os olhos…
Os olhos eram os mesmos das memórias que eu nunca consegui enterrar.
Selena deu um passo para trás.
Depois outro.
A mão dela tremia.
— Não… — ela sussurrou. — Não pode ser…
O homem parou a poucos metros de nós.
Olhou primeiro para mim.
Depois para ela.
E quando falou, sua voz não tremeu.
Quem tremeu fomos nós.
— Selena.
O nome dela saiu com uma ternura que rasgou o ar.
Ela caiu de joelhos.
Literalmente.
O impacto do corpo dela contra o chão ecoou mais alto do que qualquer tiro.
— Não… — ela repetiu, agora sem força. — Você morreu. Eu vi. Eu… eu enterrei você.
O mundo começou a girar.
Meu cérebro tentava acompanhar, mas meu corpo já sabia:
aquilo não era uma armadilha.
Era algo pior.
Era a verdade voltando para cobrar juros.
Ariston deu um passo à frente, o rosto lívido.
— Isso… — a voz dele falhou pela primeira vez — isso é impossível.
O homem finalmente olhou para Ariston.
E sorriu.
Mas não era um sorriso de vitória.
Era um sorriso de desprezo absoluto.
— Você sempre foi um péssimo executor, Ariston. — A voz dele era baixa, mas cada sílaba parecia um soco. — Nunca confirmou um corpo. Nunca confirmou uma morte. Sempre teve pressa demais em se sentir poderoso.
Meu coração disparou.
Selena ergueu o rosto, os olhos inundados, quebrados, infantis.
— Pai…? — A palavra saiu como um pedido. — É… é você?
Ele se ajoelhou diante dela.
Com cuidado.
Com reverência.
Como se tocasse algo sagrado.
— Eu nunca deixei de ser, minha filha.
Ela soltou um som estranho — meio choro, meio riso — e então o corpo inteiro dela cedeu. Ele a puxou para o peito, segurando-a com força, como se tivesse passado uma vida inteira esperando aquele momento.
E talvez tivesse.
Eu fiquei parado.
Congelado.
Porque enquanto tudo aquilo acontecia…
ele ergueu os olhos para mim.
E naquele olhar havia reconhecimento.
— Você cresceu, Gustavo.
Meu sangue gelou.
— Como… — Minha voz falhou. — Como você sabe meu nome?
Ele respirou fundo.
Soltou Selena com cuidado, segurando o rosto dela entre as mãos.
— Porque eu te vi crescer também. — Então se levantou, devagar, e ficou de frente para mim. — Mesmo à distância.
Ariston sacou a arma.
— Atirem! — ele gritou. — AGORA!
Os homens levantaram as armas.
O homem — o pai de Selena — nem se virou.
Dois disparos ecoaram.
Dois corpos caíram.
Limpos. Preciso. Mortal.
Viktor arfou.
— Meu Deus…
O silêncio que se seguiu era pesado demais para respirar.
Ariston estava tremendo.
— Você deveria estar morto — ele sussurrou. — Eu mandei te executar.
O homem inclinou a cabeça.
— Mandou. — Ele deu um passo à frente. — E eu deixei você achar que conseguiu.
Apontei a arma, ainda sem entender.
— Quem é você? — exigi. — O que você quer de mim?
Ele me encarou por um longo segundo.
E então disse a frase que partiu minha vida em duas:
— Eu sou o homem que seu pai tentou ser.
— E o homem que seu pai tentou m***r.
Meu mundo desabou.
— Você… — engoli seco. — Você treinou Selena?
— Não só ela.
Ele deu mais um passo.
Ficamos frente a frente.
— Fui eu quem interferiu nos relatórios sobre você quando Ariston tentou te eliminar pela primeira vez.
— Fui eu quem apagou seu nome de algumas listas.
— Fui eu quem garantiu que você sobrevivesse tempo suficiente para se tornar o que é.
Selena olhava de mim para ele, horrorizada.
— Você… — ela sussurrou — você sabia dele?
— Desde sempre.
Ela levou a mão à boca.
— Então… então tudo… tudo foi planejado?
O homem fechou os olhos por um segundo.
— Planejado não. — Ele abriu novamente. — Preparado.
Meu estômago revirou.
— Você me usou — rosnei.
Ele não negou.
— Eu te protegi.
— Você me jogou numa guerra que eu não escolhi!
— Você já estava nela no dia em que nasceu, Gustavo.
Ariston riu.
Um riso histérico.
— Olha pra você — ele cuspiu. — Sempre se achou justo. Sempre se achou melhor. E no fim… fez exatamente o que eu fiz. Usou crianças. Moldou armas.
Selena se levantou de um salto.
— NÃO! — Ela apontou para Ariston. — NÃO compare ele a você!
Ela tremia.
— Você me matou por dentro!
— Você matou minha mãe!
— Você matou meu pai!
Ariston abriu os braços.
— E olha só você agora. — Ele sorriu. — Viva. Forte. Mortal.
Ela gritou.
Um grito cru, rasgado, primal.
E avançou.
Eu a segurei por trás.
— Selena! — gritei. — NÃO!
Ela se debatia.
— SOLTA! EU VOU m***r ELE!
O pai dela se aproximou.
— Selena… — A voz dele quebrou. — Olha pra mim.
Ela parou.
As lágrimas desciam livres agora.
— Você me deixou achar que eu estava sozinha — ela sussurrou. — Anos. Você me deixou acreditar que eu não tinha ninguém.
Ele fechou os olhos.
— Foi o preço para você sobreviver.
Ela riu, em choque.
— Sobreviver pra quê? — ela perguntou. — Pra virar isso?
Silêncio.
Eu senti algo dentro de mim se romper.
— E eu? — perguntei, baixo. — O que eu sou nisso tudo?
Ele me encarou com seriedade.
— Você é a escolha que eu não tive.
— Não fale como se eu fosse um experimento.
— Você não é. — Ele se aproximou mais. — Você é o erro que pode corrigir tudo.
Ariston gritou.
— CHEGA! — Ele apontou a arma para Selena. — Dê mais um passo e eu atiro.
O mundo parou.
Eu soltei Selena e fiquei à frente dela.
— Encosta nela e eu te mato — falei.
— Você não consegue — Ariston respondeu. — Você ainda é meu filho.
— Não — respondi. — Eu sou o seu fracasso.
Ele apertou o gatilho.
Nada.
A arma falhou.
O pai de Selena já estava em movimento.
Em segundos, Ariston estava no chão, imobilizado, a arma longe.
Ele se ajoelhou ao lado do rosto do homem que tentou destruir tudo.
— Você perdeu — disse, baixo.
Ariston riu, cuspindo sangue.
— Vocês acham que venceram? — Ele olhou para mim e Selena. — Isso é só o começo. Vocês são produtos do mesmo veneno.
Eu o encarei.
— Talvez.
Me inclinei.
— Mas somos a dose errada.
Selena se aproximou de mim.
Segurou minha mão.
Apertou.
— Seja o que for que eles fizeram conosco… — ela disse — a próxima escolha é nossa.
Eu olhei para ela.
Para o homem que a criou.
Para o homem que tentou me m***r.
E entendi.
A guerra não era só contra Ariston.
Era contra tudo que nos moldou sem permissão.
— Então vamos terminar isso — eu disse. — Do nosso jeito.
Selena assentiu.
E naquele instante, eu soube:
Nada mais seria como antes.
E ninguém sairia inteiro.