capítulo 15

1248 Palavras
Gustavo A fumaça se abriu como uma ferida. E dele emergiu o passado. O homem caminhava devagar, como quem não precisava provar nada. Cada passo era firme, pesado, carregado de uma autoridade que não vinha da arma em sua mão — vinha do que ele era. Do que ele representava. O rosto estava parcialmente marcado pelo tempo. Cicatrizes antigas cruzavam a bochecha esquerda e desciam até o pescoço. O cabelo, antes n***o, agora carregava fios brancos. Mas os olhos… Os olhos eram os mesmos das memórias que eu nunca consegui enterrar. Selena deu um passo para trás. Depois outro. A mão dela tremia. — Não… — ela sussurrou. — Não pode ser… O homem parou a poucos metros de nós. Olhou primeiro para mim. Depois para ela. E quando falou, sua voz não tremeu. Quem tremeu fomos nós. — Selena. O nome dela saiu com uma ternura que rasgou o ar. Ela caiu de joelhos. Literalmente. O impacto do corpo dela contra o chão ecoou mais alto do que qualquer tiro. — Não… — ela repetiu, agora sem força. — Você morreu. Eu vi. Eu… eu enterrei você. O mundo começou a girar. Meu cérebro tentava acompanhar, mas meu corpo já sabia: aquilo não era uma armadilha. Era algo pior. Era a verdade voltando para cobrar juros. Ariston deu um passo à frente, o rosto lívido. — Isso… — a voz dele falhou pela primeira vez — isso é impossível. O homem finalmente olhou para Ariston. E sorriu. Mas não era um sorriso de vitória. Era um sorriso de desprezo absoluto. — Você sempre foi um péssimo executor, Ariston. — A voz dele era baixa, mas cada sílaba parecia um soco. — Nunca confirmou um corpo. Nunca confirmou uma morte. Sempre teve pressa demais em se sentir poderoso. Meu coração disparou. Selena ergueu o rosto, os olhos inundados, quebrados, infantis. — Pai…? — A palavra saiu como um pedido. — É… é você? Ele se ajoelhou diante dela. Com cuidado. Com reverência. Como se tocasse algo sagrado. — Eu nunca deixei de ser, minha filha. Ela soltou um som estranho — meio choro, meio riso — e então o corpo inteiro dela cedeu. Ele a puxou para o peito, segurando-a com força, como se tivesse passado uma vida inteira esperando aquele momento. E talvez tivesse. Eu fiquei parado. Congelado. Porque enquanto tudo aquilo acontecia… ele ergueu os olhos para mim. E naquele olhar havia reconhecimento. — Você cresceu, Gustavo. Meu sangue gelou. — Como… — Minha voz falhou. — Como você sabe meu nome? Ele respirou fundo. Soltou Selena com cuidado, segurando o rosto dela entre as mãos. — Porque eu te vi crescer também. — Então se levantou, devagar, e ficou de frente para mim. — Mesmo à distância. Ariston sacou a arma. — Atirem! — ele gritou. — AGORA! Os homens levantaram as armas. O homem — o pai de Selena — nem se virou. Dois disparos ecoaram. Dois corpos caíram. Limpos. Preciso. Mortal. Viktor arfou. — Meu Deus… O silêncio que se seguiu era pesado demais para respirar. Ariston estava tremendo. — Você deveria estar morto — ele sussurrou. — Eu mandei te executar. O homem inclinou a cabeça. — Mandou. — Ele deu um passo à frente. — E eu deixei você achar que conseguiu. Apontei a arma, ainda sem entender. — Quem é você? — exigi. — O que você quer de mim? Ele me encarou por um longo segundo. E então disse a frase que partiu minha vida em duas: — Eu sou o homem que seu pai tentou ser. — E o homem que seu pai tentou m***r. Meu mundo desabou. — Você… — engoli seco. — Você treinou Selena? — Não só ela. Ele deu mais um passo. Ficamos frente a frente. — Fui eu quem interferiu nos relatórios sobre você quando Ariston tentou te eliminar pela primeira vez. — Fui eu quem apagou seu nome de algumas listas. — Fui eu quem garantiu que você sobrevivesse tempo suficiente para se tornar o que é. Selena olhava de mim para ele, horrorizada. — Você… — ela sussurrou — você sabia dele? — Desde sempre. Ela levou a mão à boca. — Então… então tudo… tudo foi planejado? O homem fechou os olhos por um segundo. — Planejado não. — Ele abriu novamente. — Preparado. Meu estômago revirou. — Você me usou — rosnei. Ele não negou. — Eu te protegi. — Você me jogou numa guerra que eu não escolhi! — Você já estava nela no dia em que nasceu, Gustavo. Ariston riu. Um riso histérico. — Olha pra você — ele cuspiu. — Sempre se achou justo. Sempre se achou melhor. E no fim… fez exatamente o que eu fiz. Usou crianças. Moldou armas. Selena se levantou de um salto. — NÃO! — Ela apontou para Ariston. — NÃO compare ele a você! Ela tremia. — Você me matou por dentro! — Você matou minha mãe! — Você matou meu pai! Ariston abriu os braços. — E olha só você agora. — Ele sorriu. — Viva. Forte. Mortal. Ela gritou. Um grito cru, rasgado, primal. E avançou. Eu a segurei por trás. — Selena! — gritei. — NÃO! Ela se debatia. — SOLTA! EU VOU m***r ELE! O pai dela se aproximou. — Selena… — A voz dele quebrou. — Olha pra mim. Ela parou. As lágrimas desciam livres agora. — Você me deixou achar que eu estava sozinha — ela sussurrou. — Anos. Você me deixou acreditar que eu não tinha ninguém. Ele fechou os olhos. — Foi o preço para você sobreviver. Ela riu, em choque. — Sobreviver pra quê? — ela perguntou. — Pra virar isso? Silêncio. Eu senti algo dentro de mim se romper. — E eu? — perguntei, baixo. — O que eu sou nisso tudo? Ele me encarou com seriedade. — Você é a escolha que eu não tive. — Não fale como se eu fosse um experimento. — Você não é. — Ele se aproximou mais. — Você é o erro que pode corrigir tudo. Ariston gritou. — CHEGA! — Ele apontou a arma para Selena. — Dê mais um passo e eu atiro. O mundo parou. Eu soltei Selena e fiquei à frente dela. — Encosta nela e eu te mato — falei. — Você não consegue — Ariston respondeu. — Você ainda é meu filho. — Não — respondi. — Eu sou o seu fracasso. Ele apertou o gatilho. Nada. A arma falhou. O pai de Selena já estava em movimento. Em segundos, Ariston estava no chão, imobilizado, a arma longe. Ele se ajoelhou ao lado do rosto do homem que tentou destruir tudo. — Você perdeu — disse, baixo. Ariston riu, cuspindo sangue. — Vocês acham que venceram? — Ele olhou para mim e Selena. — Isso é só o começo. Vocês são produtos do mesmo veneno. Eu o encarei. — Talvez. Me inclinei. — Mas somos a dose errada. Selena se aproximou de mim. Segurou minha mão. Apertou. — Seja o que for que eles fizeram conosco… — ela disse — a próxima escolha é nossa. Eu olhei para ela. Para o homem que a criou. Para o homem que tentou me m***r. E entendi. A guerra não era só contra Ariston. Era contra tudo que nos moldou sem permissão. — Então vamos terminar isso — eu disse. — Do nosso jeito. Selena assentiu. E naquele instante, eu soube: Nada mais seria como antes. E ninguém sairia inteiro.
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