Gustavo
A porta de aço abriu com a lentidão c***l de um predador exibindo os dentes.
O ar mudou.
Não somente pela entrada de mais frio — mas pelo peso.
Um peso que apertou meus pulmões como se mãos invisíveis estivessem fechando meu peito.
Viktor recuou instintivamente.
Selena… não recuou.
Mas o que vi nos olhos dela me fez entender o tamanho da ameaça que acabava de cruzar o limiar.
Ela estava lendo a morte.
A sombra foi a primeira a entrar.
Alta. Firme. Imóvel como um monumento.
E logo atrás dela, o homem que eu passei anos tentando esquecer.
Ariston Galanis.
Meu pai.
Seu rosto estava igual ao das fotos oficiais do clã — só que piorado pelos anos em que eu não o vi.
Rugas mais duras.
Um olhar que antes parecia fogo — agora era gelo.
E um sutil sorriso, aquele mesmo sorriso que ele fazia antes de dar ordens de execução.
Não para me agradar.
Para colocar medo.
— Filho… — ele disse, como se a palavra fosse natural. — Que reencontro desastroso.
Eu me mantive parado.
Não por respeito.
Mas porque qualquer movimento meu ali seria lido como fraqueza.
Selena deslizou para meio passo atrás de mim, seus dedos ainda próximos do cabo das facas.
Mas ela não falou.
Não respirou alto.
Não piscou.
Ela observava Ariston como alguém que reconhece um predador maior do que todos os outros.
Ele deu um passo para dentro.
Os dois homens armados que o acompanhavam posicionaram-se atrás dele como sombras.
Viktor tremia.
Ele tentava esconder, mas era inútil: o medo estava estampado no rosto dele como tinta fresca.
Ariston me analisou dos pés à cabeça.
— Está mais forte — ele comentou. — Eu esperava encontrar um sobrevivente quebrado… mas vejo fogo.
Eu não respondi.
Ele inclinou a cabeça um pouco, estudando Selena.
Os olhos dele brilharam num reconhecimento que fez meu sangue gelar.
— E você…
Ele deu mais um passo.
Selena não se moveu.
Mas eu senti sua tensão explodir como corrente elétrica.
— Tão… familiar — Ariston continuou. — Seu rosto lembra alguém que eu enterrei há muito tempo.
Selena fechou a mão tão forte que os nós dos dedos ficaram brancos.
Ariston sorriu.
Ele sabia.
Ele sempre soube.
E agora… estava se divertindo.
— Você trouxe essa garota para perto de você, filho? — ele provocou, a voz suave como veneno líquido. — É bonito. Ingênuo. Uma fraqueza que eu não esperava ver em você.
Eu finalmente falei — porque o silêncio começava a ser uma arma dele.
— O que você quer?
Ariston suspirou, como se estivesse lidando com uma criança impaciente.
— Quero terminar o que comecei.
Selena deu meio passo à frente.
A voz dela veio baixa, afiada, controlada com esforço sobre-humano:
— O que você começou… foi a morte do meu pai.
Ariston se virou totalmente para ela.
E por um instante, eu não vi o líder da máfia.
Não vi meu pai.
Eu vi o carrasco.
O homem que ordenou execuções sem piscar.
— Seu pai — ele repetiu, degustando as palavras. — Ah. Então você descobriu.
Selena não piscou.
Ele continuou:
— Seu pai era uma ameaça. Forte demais. Leal demais à própria linhagem. Tinha um senso de honra… insuportavelmente inconveniente.
Os olhos de Selena brilharam com algo que eu nunca tinha visto antes:
A dor dela tentando virar ódio, mas falhando.
Virando algo pior: entendimento.
— E por isso você o matou — ela afirmou.
Ariston ergueu uma sobrancelha.
— Eu mato todos que representam ameaça.
E então ele olhou para mim.
Direto.
Profundo.
Cruel.
— Inclusive você, Gustavo.
Viktor arfou.
Selena se moveu instintivamente para a minha frente.
Mas antes que ela completasse o passo, Ariston ergueu um dedo.
— Cuidado, menina. — Ele falou com a calma que se usa para treinar um filhote. — Você tem valor.
Mas não mais do que meu próprio sangue.
Foi então que algo mudou no ar.
Selena parou.
Eu senti, antes de ver:
o exato instante em que a raiva dela virou frieza assassina.
Ela abriu um sorriso leve.
Pequeno.
Perigoso.
— Você errou uma coisa — ela disse. — Eu não estou ao lado do seu filho por fraqueza.
Ariston arqueou a sobrancelha.
— Não?
— Eu estou ao lado dele… — Selena deu um passo à frente — porque você está do outro.
O sorriso de Ariston sumiu.
Ele entendeu.
Tarde demais.
Eu ergui a arma.
Selena sacou a faca.
Ariston deu meio passo para trás.
E antes que qualquer um de nós reagisse…
o teto acima desabou com uma explosão que sacudiu o prédio inteiro.
Fumaça.
Luz branca.
Concreto.
Um corpo caindo.
Selena gritou meu nome.
Eu perdi o chão.
E então — tudo ficou escuro.
[...]
A escuridão não caiu como um véu.
Ela caiu como um golpe.
Seco.
Violento.
Frio.
Minha cabeça girou com o impacto, o mundo se partindo em sons desconexos:
— GUSTAVO!
— Cuidado!
— Avançar!
— Recuar!
— Atirem!
Mas tudo parecia distante demais, como se eu estivesse submerso num tanque de água pesada.
Alguma coisa… ou alguém… me arrastou para longe do concreto que despencava.
Uma mão no meu ombro.
Firme.
Urgente.
— Gustavo, olha pra mim! — a voz de Selena cortou a névoa. — FICA COMIGO!
Aos poucos, a visão voltou. Não completamente.
Mas o suficiente para ver:
Poeira no ar.
Concreto rachado.
Fios elétricos faiscando.
E a sombra imponente de Ariston recuando enquanto seus homens formavam um semicírculo protetor ao redor dele.
Ele não havia caído.
Claro que não.
Monstros não caem tão fácil.
Eu tentei me levantar, mas uma dor latejante explodiu na lateral da minha cabeça. Sangue quente escorreu pela minha têmpora.
— Não força — Selena segurou meu pescoço, estabilizando minha postura. — Você bateu forte. Eles provocaram o colapso de propósito pra nos separar.
Ela parecia intacta.
Mas o olhar…
Havia algo novo nele.
Algo que eu ainda não tinha visto:
Pânico.
Por mim.
Ela me puxou para trás, me encostando na parede parcialmente destruída. Viktor apareceu ao nosso lado, tossindo poeira, o rosto branco como papel.
— Eles vão avançar! — ele gritou, a voz trêmula. — Vão nos cercar— A entrada principal tá bloqueada! A gente não tem saída! Não temos—
Selena o silenciou com um único olhar.
Depois ela se virou para mim, e sua voz veio baixa, precisa e afiada como uma lâmina recém-polida:
— Ele não veio só pra te m***r.
Meu estômago virou.
— O que você quer dizer?
Ela respirou fundo.
Engoliu seco.
E soltou a verdade como se estivesse arrancando um pedaço de si mesma:
— Ele veio… pra me levar de volta.
A frase bateu em mim como uma explosão.
Eu senti algo primal acordar em meu peito — algo que eu não reconhecia como raiva, nem como medo.
Era posse.
Proteção.
Ódio ancestral por qualquer coisa que ameaçasse arrancá-la de mim.
— Nem morto ele encosta em você — rosnou minha voz.
Selena abaixou o olhar por um instante.
Quando levantou de novo, havia lágrimas — não caindo, não soltas — mas presas, queimando.
— Gustavo… — ela falou tão baixo que só eu ouvi. — Você não entende. Se ele me levar… eu desapareço. Eu deixo de ser eu. Deixo de ser livre. Deixo de…
A voz dela falhou.
E aí veio o som que silenciou tudo:
CLACK.
O barulho metálico perfeito, familiar demais: um carregador sendo encaixado numa arma de precisão.
Selena congelou.
Eu também.
Ariston avançou entre a poeira, a silhueta dele recortada pela fumaça e pelos LEDs vermelhos dos capacetes táticos de seus homens.
O sorriso havia voltado.
Lento.
Cruel.
Certeiro.
— A família sempre volta para casa — ele declarou. — E vocês dois… estão atrasados.
Selena deu um passo à frente, colocando-se entre nós como uma barreira viva.
— Eu não sou sua família.
— Oh, mas você é — Ariston respondeu. — Mesmo que não saiba… menina.
Selena empalideceu.
Ele continuou:
— Seu pai… não morreu sem motivo. Eu finalizei a linhagem dele. Para que a sua… pudesse viver sob a minha.
O ar desapareceu dos pulmões dela.
— Você é do meu sangue, criança.
— E você, Gustavo…
— sempre esteve destinado a comandar ao meu lado.
O chão pareceu tremer.
Não da explosão anterior.
Mas do peso da revelação.
— NÃO — Selena sussurrou, indo para trás sem perceber que eu a segurava.
Ariston ergueu a mão.
Os homens dele levantaram as armas ao mesmo tempo.
Laser vermelho atravessou a fumaça, mirando no peito de Selena.
Ela estremeceu.
— Entreguem-se — Ariston ordenou. — Agora.
Eu me levantei.
A dor na minha cabeça desapareceu, ou talvez só tenha sido engolida pela adrenalina.
— Você não vai tocar nela — falei, cada palavra um corte.
Ariston sorriu, cansado.
— Ainda tão dramático.
— Atirem nas pernas.
— Os dois vivos.
Selena agarrou meu braço.
— Gustavo, corre—
Mas era tarde.
Os tiros vieram.
Rápidos.
Precisos.
Direcionados.
E então…
Uma silhueta apareceu no corredor ao fundo.
Rápida.
Baixa.
Impossivelmente silenciosa.
Os disparos foram interrompidos.
Gritos.
Armas caindo.
Corpos colapsando como sacos vazios.
Selena arregalou os olhos.
Viktor gritou.
Eu m*l conseguia acreditar.
A figura emergiu da fumaça.
E a voz — rouca, fria, e absurdamente familiar — ecoou:
— Tirem as mãos dos meus filhos.
Selena travou.
Eu congelei.
Ariston empalideceu.
Porque quem saiu da névoa…
não deveria estar vivo!