Algumas horas depois...
Acordei com a cabeça pesada, como se tivesse levado uma pancada. Abri os olhos devagar e vi um quarto enorme e bonito. As paredes tinham cores suaves, e os móveis brilhavam de tão limpos. Nunca tinha visto nada assim na vida.
— Puxa... Murmurei, com os dedos na boca, meio boba.
Tentei me mexer, mas senti um troço grudado no meu braço. Olhei e vi um negócio esquisito: uma coisa transparente saindo do meu braço e indo para uma bolsa pendurada ao lado da cama. O que será que é isso? Antes que eu pudesse entender, a porta se abriu, e uma moça entrou carregando uma bandeja.
Isabela — Ah, você acordou! Disse ela com um sorriso. — Eu sou Isabela, irmã do Maike. Trouxe uma sopa pra você.
Olhei pra ela, depois pro troço no meu braço, e perguntei:
— O que é isso no meu braço?
Isabela — É um soro. Explicou Isabela, colocando a bandeja ao meu lado. — Você tava desidratada, então médico colocou para te ajudar a melhorar.
Assenti, mesmo sem entender direito. O cheiro da sopa fez meu estômago roncar.
— Pode comer. Incentivou ela. — Vai te fazer bem.
Peguei a colher e comecei a tomar a sopa com pressa, quase engolindo sem mastigar. Tava deliciosa, e senti uma sensação boa me aquecendo por dentro.
— Onde... onde eu tô? Perguntei, olhando ao redor.
Isabela — Você está na casa do meu irmão.Respondeu Isabela, sentando-se na beira da cama. — Nosso pai insistiu que cuidássemos de você depois do que aconteceu no pomar.
Lembrei do homem dos olhos verdes, do cachorro enorme e de como tudo deu errado. Baixei a cabeça, envergonhada.
— Desculpa por pegar as frutas... eu só tava com fome.
Isabela — Não se preocupe com isso agora. Disse ela, tocando meu ombro de leve. — O importante é que você tá bem. Descanse, e depois conversamos mais.
Assenti novamente, sentindo uma mistura de gratidão e confusão. Enquanto terminava a sopa, pensei em como minha vida tinha mudado de repente. Não sabia o que esperar, mas, por enquanto, estava em um lugar seguro.
Ela se levantou, pegou a bandeja vazia e se dirigiu à porta. — Vou deixar você descansar um pouco. Qualquer coisa, é só chamar.
Ela saiu do quarto, fechando a porta suavemente. No corredor, encontrou seu pai, Rodolfo, que a aguardava.
Rodolfo — Vamos, filha? Chamou ele, fazendo um gesto para que o acompanhasse.
Isabela — Pai, vamos deixar essa pobre menina aqui, debaixo do mesmo teto que o Maike? Questionei, preocupada.
Ele deu um sorriso travesso e respondeu:
Rodolfo — É parte do meu plano. Adorei ver aquela garota enfrentando o Maike e deixando-o louco.
Rimos juntos, e lembrei do pequeno hematoma na testa do meu irmão.
Isabela — Bem feito! Disse, rindo sem parar.
Meu pai suspirou e, com um tom mais sério, acrescentou:
Rodolfo — Acredito que essa menina seja a salvação do seu irmão.
Isabela — Mas, pai, os dois sozinhos aqui... Ainda estava preocupada.
Rodolfo — Não se preocupe. O Maike não fará nada. Ele não está trabalhando e vive de mesada. Além disso, mandarei a Calcilda para ficar com eles durante o dia.
Isabela — Calcilde? Arqueei uma sobrancelha.
Rodolfo — Sim, ela saberá como cuidar de tudo. Agora, espere um momento. Vou conversar com a garota.
Meu pai deu um tapinha no meu ombro e se dirigiu ao quarto onde Samanta está.
**
A pobre garota me encarou assustada, os olhos arregalados como os de um animal acuado. Por um instante, senti um aperto no peito. Havia algo no olhar dela que me fez hesitar… Uma ingenuidade tão pura que contrastava com sua aparência suja e machucada. Era como se o mundo ainda não tivesse apagado a esperança dentro dela, apesar de tudo.
Mas logo ela desviou o rosto, envergonhada.
— Vai ficar igual um pé de árvore aí parado? O senhor é igual aquele… aquele… Ela franziu a testa, tentando encontrar a palavra certa, mas desistiu com um suspiro.
Sorri de leve, colocando uma das mãos no bolso.
Rodolfo — Não, eu até gostei que você deu uns tapas nele. Me desculpe pelo comportamento rude do meu filho. Vou pedir para Calcilda ficar com você, ela vai te ajudar. Você ficará aqui por enquanto.
Ela piscou algumas vezes, absorvendo minhas palavras. Seu rosto se iluminou por um breve momento, mas logo a dúvida voltou a tomar conta dela.
— O senhor é bozinho… Como pode ser pai daquele… Nem sei do que xingar. Mas eu vou me embora, ele num me quer aqui.
Cruzei os braços e a encarei com firmeza.
Rodolfo — Ele não tem que querer nada. Você fica até quando quiser.
Vi seus olhos marejarem, e em seguida, as lágrimas caíram silenciosas pelo seu rosto sujo.
— O senhor é tão bonzinho… Obrigada. Queria ter um pai bom que me cuidasse…
Seu jeito de falar, sua emoção pura e desprotegida, tudo nela exalava inocência. O mundo parecia não ter lhe ensinado a maldade ainda, mesmo tendo sido tão c***l.
Suspirei e dei um sorriso leve.
Rodolfo — Não sou seu pai, mas pode me considerar como um tio. Ou um padrinho, se quiser. Se sentir à vontade.
Ela arregalou os olhos, como se aquilo fosse um presente inesperado.
— Puxa… Posso mesmo?
Balancei a cabeça em confirmação.
Rodolfo — Meu nome é Rodolfo. Qual é o seu?
— Samanta. Então… vou te chamei de tio Rodolfo.
Sorri, surpreso com a rapidez com que ela aceitou o vínculo.
Rodolfo — Bem, vou indo. Tenha um bom descanso, Sam. Posso te chamar assim?
Ela assentiu, os olhos brilhando com um resquício de alegria. — Daqui a pouco a Calcilda estará aqui para cuidar de você. Boa noite.
— Boa noite, tio!
Sorri de leve e saí do quarto, mas a imagem dela permaneceu em minha mente. A ingenuidade no seu olhar, a forma como segurava as lágrimas, como se temesse que fossem arrancar até isso dela…
— Coitada… Tão jovem e tão sozinha… Murmurei, sentindo um nó na garganta.
Ela era uma criança jogada ao mundo, mas ainda assim, tinha esperança. Algo dentro de mim me dizia que aquela menina ingênua, que falava errado e não sabia quase nada da vida, ainda surpreenderia a todos.