Capítulo 18

732 Palavras
Maike: O primeiro gole de licor desceu queimando, mas não dissipou a irritação que crescia dentro de mim. Já passa das duas da manhã, a tempestade lá fora só tornava tudo pior. A chuva engrossava, os trovões ressoavam pela casa, e Samanta ainda não tinha voltado. Maldito Alessandro. O irresponsável a levou para aquela festa cheia de moleques inconsequentes e, agora, com essa tempestade, nem sinal dela. E adivinha só? Se algo acontecer, é claro que o papai vai me culpar. Ele já disse que estava “amando” essa garota, e quando ela não voltar, ele vai dizer que é culpa minha. Como se eu tivesse alguma coisa a ver com isso. Tomei mais um gole, sentindo a bebida esquentar minha garganta. Cruzei a sala e parei diante da janela, mantendo uma mão no bolso e a outra segurando o copo. As gotas escorriam pelo vidro, refletindo a luz dos relâmpagos que rasgavam o céu. Puxei o celular e disquei o número do segurança. — Alguma movimentação de carros? Perguntei, a voz firme. Segurança — Não, senhor. Tudo tranquilo. Estreitei os olhos para o portão, os dedos apertando o copo. Comecei a andar de um lado para o outro, os passos ecoando pelo chão da sala. — Papai deixou ela sair, depois vai querer me culpar. Alessandro é irresponsável, não tem um pingo de juízo. E Samanta... aquela garota é ingênua demais. Não sabe de nada, não conhece o mundo. A chuva ficou mais forte, quase ensurdecedor. O relâmpago iluminou o céu, e eu apertei o celular na mão, tentando uma ligação para Alessandro. Nada. Sem rede. Passei a mão pelo rosto e soltei um palavrão. Chega. Não vou ficar aqui esperando essa bagunça estourar na minha cara. Peguei minhas chaves e, sem pensar duas vezes, saí de casa. Eu mesmo iria atrás dela. *** Minutos depois... A chuva castigava o para-brisa do carro, e eu m*l conseguia enxergar a estrada direito. Isso só deixava meu humor pior. Maldito Alessandro. Ele tinha uma única responsabilidade: trazer Samanta de volta para casa em segurança. Mas, claro, o irresponsável não conseguiu nem fazer isso. Agora estou aqui, no meio da madrugada, debaixo de um temporal, indo buscá-la como se fosse obrigação minha. Apertei o volante com força, sentindo a raiva crescer dentro de mim. Se algo aconteceu com ela… Meus olhos se estreitaram quando, ao longe, vislumbrei uma silhueta na estrada. Estava correndo, tropeçando, como se fugisse de alguma coisa. Meu estômago revirou. Samanta? Fiquei tenso no mesmo instante, tentando enxergar melhor. O vidro estava embaçado, dificultando minha visão, mas conforme me aproximei, tive certeza. Era ela. — Droga… Murmurei, sentindo um aperto no peito. Ela estava descalça, os cabelos grudados no rosto encharcado, o vestido colado ao corpo molhado. Parecia desesperada. Sem perder tempo, acelerei um pouco, acompanhando seus passos sem assustá-la ainda mais. Mas antes que pudesse abaixar o vidro e chamá-la, ela olhou para trás, os olhos arregalados, e disparou novamente. Ela está fugindo? Sem pensar, joguei o carro na frente dela e freiei bruscamente. Saí feito um louco, ignorando a chuva que me ensopava no mesmo instante. — Samanta! Mas antes que eu pudesse segurá-la, ela começou a se debater. — Me solta! Me solta! Num me leva, num! O desespero na voz dela me atingiu em cheio. Fiquei rígido, surpreso com a reação dela. Ela tentava me bater, os braços fracos, trêmulos. Mas não era pelo frio. Era puro pavor. — Samanta, sou eu! Falei firme, segurando-a pelos ombros. — Sou eu, Maike. Lembra? Ela resistiu por um segundo, mas então seus olhos encontraram os meus, e algo mudou. — Não vou machucar você. Se acalma… shhh… passou. Venha, vou levá-la para casa. Foi como se a última gota de resistência dela desabasse. Num instante, ela se jogou contra mim, os braços ao redor do meu pescoço, se agarrando a mim como se sua vida dependesse disso. E talvez dependesse. Algo revirou dentro de mim. Samanta não é vulnerável. Não é o tipo de mulher que se agarra a alguém desse jeito. O que diabos aconteceu? Ignorando todas as perguntas rodando na minha cabeça, a peguei nos braços e a levei até o carro. Ela não disse uma palavra. Mas também não me soltou. Respirei fundo antes de ligar o motor. Dirigir com ela no meu colo era perigoso. Mas, naquele momento, afastá-la de mim parecia ainda pior.
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