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1100 Palavras
A segunda-feira parecia não ter fim. Mesmo depois de tudo o que já tinha acontecido… Ainda assim havia mais. --- O regresso de Emily à empresa tinha sido um grande marco. Um daqueles momentos que não se esquecem facilmente. Os olhares surpresos. Os aplausos. O silêncio que se transformou em respeito. A forma como ela retomou o seu lugar… Sem pedir permissão. Sem hesitar. Sem se justificar. Apenas tomando o que é dela por direito. --- Mas Emily sabia uma coisa com clareza absoluta: Aquilo não era o fim. Era apenas o início. --- O escritório estava silencioso. Demasiado silencioso. --- A luz natural entrava pelas janelas, iluminando a mesa perfeitamente organizada. Os relatórios alinhados. Os objetos no lugar certo. Tudo sob controlo. Ou pelo menos… Era isso que parecia. --- Emily estava sentada na sua cadeira. A sua cadeira. O símbolo de tudo o que tinha recuperado. --- Ela folheava um documento. Mas não estava a ler. A mente estava longe. --- Voltava ao corredor. Ao olhar de Catherine. Àquele momento. Àquela tensão quase palpável. --- Catherine tinha sentido. Ela tinha visto. --- E isso significava… Que estava no caminho certo. --- Uma leve batida na porta interrompeu os seus pensamentos. --- — Entre. --- Clara entrou. Mas algo estava errado. --- Emily percebeu imediatamente. Não foi pelo que ela disse. Mas pela forma como entrou. Pelo olhar. Pela postura. --- — Senhora Emily… --- A voz saiu mais baixa do que o habitual. Mais contida. --- Emily pousou lentamente o documento. — O que aconteceu? --- Clara aproximou-se. Devagar. Como se cada passo tivesse peso e estivesse sendo medido --- Na mão… Um envelope. --- Branco. Simples. Sem identificação. --- Mas havia algo nele. Algo que não precisava de palavras para ser entendido. --- — Isto… apareceu na sua mesa. --- Silêncio. Imediato. Pesado. --- Emily franziu levemente a testa. — Como assim apareceu? --- Clara engoliu em seco. — Eu verifiquei a sala antes de sair. — Estava trancada. — Ninguém tinha acesso. --- O ar mudou. --- Emily levantou-se lentamente. O salto ecoou suavemente no chão. --- Ela aproximou-se. E pegou o envelope. --- O toque foi frio. Leve. Mas carregado de intenção. --- Por um segundo… Ela apenas segurou. Sentindo. Analisando. --- Depois abriu. Sem pressa. --- E leu. --- “Dizem que gatos têm sete vidas… Vamos ver se és uma gata… Já se foi uma. Só faltam seis.” --- O tempo pareceu abrandar, por alguns segundos já não sabia mais como respirar. --- O coração dela deu uma batida mais forte. Depois outra. --- Mas o rosto… Permaneceu inalterado. --- Clara observava. Ansiosa. Tensa. À espera de uma reação. --- Mas ela não veio. --- Emily dobrou o papel. Com precisão. Com controlo. --- — Clara. --- A voz saiu calma. Mas gelada. --- — Quero as gravações de todas as câmeras. — Sem exceção. — E quero saber exatamente quem entrou neste andar. --- Pausa. --- — E se alguém falhou… --- Ela levantou o olhar. E naquele momento… Havia algo assustador nele. --- — Vai responder por isso. --- Clara assentiu imediatamente. — Sim, senhora. --- Quando a porta se fechou… O silêncio voltou. --- Emily ficou sozinha. --- O bilhete ainda na mão. --- Ela abriu novamente. Leu outra vez. Mais devagar. --- “Só faltam seis.” --- Um arrepio percorreu-lhe a espinha. --- Mas não era medo. --- Era irritação. --- — Estás a brincar comigo… Sentou-se na sua cadeira, respirou fundo. --- Ela deixou escapar um pequeno riso. Sem humor. --- — Então joga. --- Horas depois… Ela tomou uma decisão. --- Não ia ficar ali. Não ia permitir que aquilo dominasse o dia. --- E decidiu sair. --- O shopping era o oposto do escritório. Caótico. Vivo. Cheio de movimento, agitação. --- Era exatamente o que ela precisava. De distração --- Ao sair do carro… Ela já não era a CEO. --- Era apenas Emily. --- Ou pelo menos… Era isso que queria aparentar. --- A roupa reflectia isso. --- Calça jeans de cintura alta, ajustada com perfeição ao corpo. O tecido desenhava as curvas com naturalidade. Sem esforço. Sem exagero. --- Um top leve, de tecido fino, com um caimento suave que deixava os ombros parcialmente à mostra. Elegante. Feminino. --- Óculos de sol grandes, protegendo o olhar… Mas não a presença. --- Saltos altos. Sempre. Porque aquilo fazia parte dela. --- O cabelo solto. Com ondas naturais. Movendo-se com o vento. --- Ela parecia leve. Mas os olhos… Continuavam atentos. --- — Estás atrasada. --- Emily virou-se. E encontrou Sofia. --- Sofia estava radiante. --- Vestia uma saia midi fluida, num tom neutro sofisticado, que se movia com elegância a cada passo. Uma blusa delicada, ajustada ao corpo, com pequenos detalhes que davam charme sem esforço. --- Nos pés, sandálias de salto médio. Confortáveis. Mas elegantes. --- O cabelo preso num r**o de cavalo alto. Deixando o rosto iluminado. --- — Tive uma manhã interessante — disse Emily. --- Sofia cruzou os braços. — Isso quer dizer perigosa. --- Emily sorriu. — Muito. --- E caminharam. --- Entraram em lojas. Experimentaram roupas. Riram. Comentaram. --- — Este vestido — disse Sofia — é perfeito para ti. --- Emily olhou. — Isto parece uma toalha. --- — Não exageres! --- — Estou a ser simpática. --- Riram. --- — E homens? — perguntou Sofia. --- Emily suspirou. — Lá vem. --- — Tu e o meu irmão. --- Emily ficou em silêncio. --- — Ele está apaixonado por ti — disse Sofia. --- Emily desviou o olhar. Mas não negou. --- — E tu? --- Pausa. --- — Estou a tentar não estar. --- Sofia riu. — Já estás. --- Mais tarde… Com sacolas nas mãos… Elas sentaram-se no McDonald’s. --- O ambiente era barulhento. Cheio de vida. --- — Isto devia ser proibido — disse Sofia. --- Emily deu uma mordida no hambúrguer. — Hoje não. --- Riram. --- Conversaram sobre tudo. Homens. Roupas. Vida. --- — Sabes qual é o problema dos homens? — disse Sofia. --- — Qual? --- — Pensam que são complicados. --- Emily riu. — E são simples. --- — Exatamente. --- Mais risos. --- Mas então… Emily parou. --- Por um segundo. --- O bilhete voltou. --- “Só faltam seis.” --- Ela olhou ao redor. --- Pessoas. Movimento. Normal. --- Mas… Algo dentro dela dizia o contrário. --- Sofia percebeu. --- — Estás bem? --- Emily respirou fundo. E sorriu. --- — Estou. --- Mas no fundo… Ela sabia. --- Aquele jogo… Tinha apenas começado.
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