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1244 Palavras
A delegacia parecia sufocante. Não pelo espaço. Mas pelo peso. Era um lugar onde verdades eram arrancadas à força, onde mentiras eram desmontadas lentamente… e onde qualquer palavra m*l colocada podia destruir uma vida inteira. Emily sentia isso. Cada segundo ali dentro parecia mais longo do que o anterior. A sala de interrogatório era simples demais para o tipo de situação que ela enfrentava. Uma mesa fria de metal, cadeiras desconfortáveis e paredes claras que refletiam uma luz branca quase agressiva. Nada ali era acolhedor. Nada ali era humano. Ela estava sentada. Postura ereta. Mas apenas por fora. Por dentro… Era um turbilhão. Suas mãos estavam entrelaçadas sobre a mesa, os dedos pressionando uns contra os outros com força suficiente para doer. Era uma tentativa silenciosa de manter o controle. De não desmoronar. De não mostrar fraqueza. Ao lado dela, Alexander permanecia em silêncio. Mas sua presença era sólida. Firme. Como uma âncora em meio ao caos. Ele não falava. Não precisava. O simples fato de estar ali já dizia tudo. A porta se abriu. O som ecoou de forma seca. Um homem entrou. Passos calculados. Expressão neutra. Olhos atentos. Ele carregava uma pasta nas mãos. Grossa. Pesada. Cheia de coisas que poderiam mudar tudo. — Senhorita Emily Laurent — disse ele, acomodando-se na cadeira à frente deles. Emily levantou o queixo. — Sim. A voz saiu firme. Mais firme do que ela realmente se sentia. — Sou o inspetor responsável pela reabertura do caso de Isadora. Silêncio. Pesado. A palavra “reabertura” ecoou na mente de Emily como um aviso. Aquilo não era apenas um procedimento. Era uma ameaça. — Vamos direto ao ponto — continuou ele, abrindo a pasta com calma irritante. Emily assentiu levemente. — Prefiro assim. O inspetor passou algumas folhas. Sem pressa. Como se estivesse saboreando o momento. — A senhora esteve presente nos últimos dias de vida de Isadora. — Sim. — Tinha acesso direto a ela. — Sim. — Era considerada uma das pessoas mais próximas. Emily estreitou os olhos. — E isso é um crime? Ele ignorou. — E afirmou anteriormente que a causa da morte foi doença. — Porque foi. Silêncio. O inspetor levantou o olhar. Fixou nele. — Tem certeza? O coração dela acelerou. Mas ela não recuou. — Tenho. Ele puxou um documento. Deslizou pela mesa. — Então talvez a senhora devesse ler isso. O papel parou bem à frente dela. Emily hesitou por um instante. Mas pegou. Os olhos começaram a percorrer as linhas. Relatório. Termos técnicos. Resultados. E então… Ela parou. Os olhos travaram em uma parte específica. Releu. Uma vez. Duas. Três. O ar pareceu faltar. — Isso… está errado… A voz saiu mais baixa. Mais fraca. Alexander inclinou-se. — O que é? Ela não respondeu imediatamente. Ainda presa àquelas palavras. — O exame toxicológico… Silêncio. — Foi reavaliado. O inspetor cruzou as mãos sobre a mesa. — E encontramos algo que não havia sido identificado antes. Emily levantou o olhar. E havia algo novo ali. Não era só medo. Era choque. — Não faz sentido… — Faz — respondeu ele, firme. — Não faz! Ela bateu levemente a mão na mesa. — Ela estava doente! — Estava. Ele inclinou-se levemente para frente. — Mas não morreu apenas disso. Silêncio absoluto. O ar ficou mais pesado. Denso. Quase impossível de respirar. — Foram encontrados traços de substâncias tóxicas no organismo dela. Emily congelou. — Não… — Em pequenas quantidades. — Não… — Administradas ao longo do tempo. — NÃO! A voz dela explodiu na sala. As mãos agora tremiam abertamente. — Isso é impossível! — Não é. Simples. Direto. Cruel. --- Alexander passou a mão pelo rosto. — Você está dizendo que alguém estava envenenando ela… lentamente? — Exatamente. Silêncio. O tipo de silêncio que muda tudo. --- Emily recostou-se na cadeira. O olhar perdido por alguns segundos. A mente tentando reorganizar tudo. Tudo o que ela acreditava. Tudo o que ela viu. Tudo o que ela viveu. — Então… A voz saiu quase inaudível. — Ela foi assassinada… O inspetor não respondeu. Mas não precisava. A verdade já estava ali. Crua. Exposta. --- Emily voltou à realidade com um pensamento brutal. — E agora vocês acham que fui eu? O tom dela mudou. Mais frio. Mais controlado. Mais perigoso. — A senhora tinha acesso. — Eu tinha cuidado. — Também tinha oportunidade. — Eu tinha motivos para ajudar, não para matar! O olhar dela agora era firme. Desafiador. — Quem mais tinha acesso? Silêncio. O inspetor observava. — Quem mais estava lá todos os dias? — Quem cuidava dela quando eu não estava? Ela inclinou-se para frente. — Vocês estão olhando para a pessoa errada. O homem sorriu levemente. — Ou talvez estejamos olhando para todas. --- Horas depois… O mundo parecia diferente. Quando saíram da delegacia, o ar não parecia mais leve. Parecia mais pesado. Mais carregado. Mais perigoso. Emily caminhava em silêncio. Mas por dentro… Algo havia mudado. — Isso não foi só uma acusação — disse Alexander. Ela parou. Virou-se lentamente. — Não. Os olhos dela estavam mais escuros agora. — Foi um plano. Silêncio. — Eles sabiam. — Sabiam de tudo. — Do envenenamento… — Da festa… — Da droga… Ela deu um passo em direção a ele. — Eles estão me ligando a um assassinato real. Alexander assentiu. — E quase conseguiram. --- Naquela noite… A casa estava silenciosa. Mas não calma. Nada ali era calmo. Dois laptops abertos. Luzes baixas. Respirações tensas. — Eu consegui acesso às câmeras — disse Alexander. Emily sentou-se ao lado dele. — Mostra. O vídeo começou. O salão. Movimento. Pessoas. Elegância. Normalidade. Uma normalidade falsa. — Aqui — disse ele, pausando. — O garçom. Emily aproximou-se. — Foi ele. — Tenho certeza. O vídeo continuou. Frame por frame. Cada detalhe importava. Cada movimento podia ser uma pista. — Volta — disse ela. Ele voltou. — Mais devagar. O garçom parava. Por um segundo. Quase invisível. — Ele fez alguma coisa — sussurrou Emily. — Sim. Zoom. A imagem granulada. Mas suficiente. — Ele mexeu na taça. Silêncio. — Foi ali. --- O vídeo seguiu. E então… — Espera. Emily apontou. — Olha isso. O garçom olhava para alguém. Fora do quadro. Mas claramente… Recebendo um sinal. — Ele não agiu sozinho — disse Alexander. — Nunca. Outro ângulo. Outra câmera. Mais ampla. E então… Uma figura apareceu. Parcial. De costas. Mas… Familiar. Demais. Emily prendeu a respiração. — Não… — O que foi? Silêncio. Longo. Pesado. — Eu conheço essa pessoa. A voz saiu baixa. — Tenho certeza. --- Ela recostou-se lentamente. A mente trabalhando. Ligando tudo. — Isso começou antes. — Muito antes. — A morte dela… — A festa… — Tudo… Ela levantou-se. Caminhou até a janela. A cidade brilhava. Mas para ela… Aquilo já não era beleza. Era campo de batalha. --- — Eles me chamaram de assassina… Ela virou-se. Os olhos agora firmes. Sem lágrimas. Sem fragilidade. — Mas eu vou descobrir quem realmente matou. Alexander observava. E entendeu. Aquilo não era mais defesa. Era ataque. --- — E quando eu descobrir… Ela deu um passo à frente. — Eu não vou parar. Silêncio. — Eu vou destruir todos eles. --- E naquela noite… Nascia algo novo. Mais frio. Mais calculista. Mais perigoso. Emily não era mais a mulher que foi humilhada. Agora… Ela era a mulher que ia caçar a verdade. E quem estivesse por trás disso… Ia desejar nunca ter começado.
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