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1269 Palavras
A manhã chegou pesada. Não havia suavidade no nascer do dia naquela casa. A luz que atravessava as cortinas parecia dura demais, quase agressiva, como se até o sol tivesse se tornado um inimigo. Emily acordou antes mesmo de o despertador tocar. Na verdade, ela m*l havia dormido. Cada vez que fechava os olhos, via novamente o salão cheio, os olhares, os murmúrios, a vergonha estampada em todos os rostos. E, pior de tudo… Aquela voz. Aquela maldita voz. “Isadora não morreu de doença… ela foi assassinada.” Emily abriu os olhos de uma vez. Seu peito subia e descia rapidamente. — Droga… — murmurou, passando a mão pelo rosto. A cabeça ainda doía. Menos do que no dia anterior, mas a sensação estranha ainda estava ali, como um eco do que havia acontecido. Ela sentou-se lentamente na cama. O quarto estava silencioso. Alexander não estava ali. Provavelmente já tinha acordado. Emily respirou fundo. — Eu preciso ver… Ela levantou-se e caminhou até a sala. E foi aí que tudo desmoronou novamente. A televisão estava ligada. E seu rosto estava na tela. --- “ESCÂNDALO ENVOLVE HERDEIRA DA EMPRESA MONTCLAIR HOLDINGS.” “COMPORTAMENTO ESTRANHO EM EVENTO LEVANTA SUSPEITAS SOBRE MORTE ANTIGA.” “EMILY LAURENT É ACUSADA PUBLICAMENTE DE ASSASSINATO.” As imagens começaram a passar. Vídeos. Malditos vídeos. Emily rindo. Dançando. Girando no meio do salão. A expressão perdida. A risada fora de controle. E então… O momento da acusação. A gravação da voz ecoando no salão. Isadora. Assassinato. O vídeo repetia aquilo como se fosse entretenimento. Como se fosse um espetáculo. Emily ficou imóvel por um segundo. Dois. Três. E então… — ALGUÉM DESLIGA ISSO! Ela pegou o controle remoto e desligou a televisão com força. Mas o silêncio que veio depois foi ainda pior. — MALDITOS, MALDITOS! A voz dela ecoou pela sala. Ela respirava com dificuldade agora. As mãos tremiam. — Como eles podem…? Emily andava de um lado para o outro. — Como podem dizer que eu matei alguém?Minha Dora, eu daria a minha vida para a ter de volta . Ela passou as mãos pelos cabelos, desesperada. — Ela morreu vítima de uma maldita doença. A lembrança veio clara. Isadora no hospital. Fraca. Pálida. Doente. — Eu estava lá… A voz dela começou a quebrar. — Eu vi… Mas a mídia não queria saber disso. A mídia queria escândalo. E ela tinha se tornado o escândalo perfeito. --- — Emily. A voz de Alexander surgiu atrás dela. Ela virou-se imediatamente. Os olhos vermelhos. Cheios de raiva. — Você viu isso?! Ele assentiu. — Vi. — Eles estão me chamando de assassina! — Eu sei. Ela apontou para a televisão desligada. — Aqueles vídeos… aquelas imagens… A respiração dela estava descontrolada. — Eu pareço uma louca! Alexander aproximou-se devagar. — Você foi drogada. Ela parou. O olhar encontrou o dele. — Eu sei. Ele falou aquilo com tanta certeza que não parecia uma teoria. Parecia um fato. — Eu tenho certeza — continuou ele. Emily franziu a testa. — Como? — Eu vi você naquela noite. Ele cruzou os braços. — Aquilo não era comportamento normal. — Eu sei que não era! — Você não bebeu o suficiente para ficar daquele jeito. Silêncio. Emily pensou. A taça. O garçom. A sensação estranha. O calor. — A bebida… — murmurou. Alexander assentiu. — Foi ali. Ela fechou os olhos por um momento. — Então… eles fizeram isso comigo. A voz dela saiu mais baixa. Mais fria. Mais perigosa. — Eles planejaram tudo. Alexander não respondeu imediatamente. Mas no fundo… Ele pensava exatamente a mesma coisa. --- Antes que pudessem continuar… A campainha tocou. Emily franziu a testa. — Quem seria? Alexander caminhou até a porta. Quando abriu… Encontrou Vincent. Elegante. Calmo. Mas com um olhar que fingia preocupação. — Bom dia. Alexander não parecia muito feliz em vê-lo. — O que você quer? Vincent suspirou levemente. — Vim ver como Emily está. Emily apareceu na sala. Quando o viu… Seu corpo ficou rígido. — Vincent. Ele abriu um sorriso pequeno. — Emily… minha querida. Ela cruzou os braços. — Poupe disso, não preciso da tua pena . Ele ignorou o comentário. Entrou. Observou o ambiente. — Imagino que a situação esteja difícil. Emily soltou uma pequena risada amarga. — Difícil? Ela apontou para a televisão. — Eu estou sendo chamada de assassina em rede nacional. Vincent assentiu lentamente. — Sim. O tom dele era… estranho. Controlado demais. — E é por isso que eu vim. Emily estreitou os olhos. — Para quê? Ele sentou-se no sofá com calma. — Para dizer que estou assumindo as operações da empresa. Silêncio. Pesado. — Temporariamente, claro — acrescentou ele. Emily ficou imóvel. — O quê? Vincent cruzou as mãos. — Você entende que neste momento não pode aparecer publicamente. A voz dele era quase paternal. — A empresa não pode ser associada a esse escândalo. Emily sentiu o sangue ferver. — Esse escândalo é uma mentira! — Eu espero que seja. — Espera?! Ela avançou um passo. — Você acha que eu fiz isso? Vincent levantou as mãos. — Eu não disse isso. — Mas está agindo como se fosse verdade! Alexander observava tudo em silêncio. Analisando cada gesto. Cada palavra. Vincent virou-se para ele. — Eu só estou protegendo o negócio. Alexander respondeu seco: — Parece mais que você está tomando controle. Vincent sorriu levemente. — Alguém precisa. Emily sentiu o estômago revirar. — Eu não perdi a empresa. Vincent levantou-se. — Não. Ele ajeitou o paletó. — Mas por enquanto… você também não pode liderá-la. As palavras eram suaves. Mas o significado era brutal. Emily apertou os punhos. — Eu vou voltar. Vincent inclinou levemente a cabeça. — Veremos. --- Antes que ela pudesse responder… A campainha tocou novamente. Todos olharam para a porta. Alexander abriu. E seu olhar mudou imediatamente. — Polícia. Emily sentiu o coração parar. Dois policiais estavam ali. Sérios. Formais. — Senhorita Emily Laurent? Ela deu um passo à frente. — Sou eu. O policial mais velho falou: — Precisamos que a senhora nos acompanhe até a delegacia. O silêncio caiu na sala. — Para quê? — perguntou Alexander. O policial respondeu: — Precisamos que ela preste um novo depoimento sobre a morte de Isadora. Emily ficou pálida. — O quê? O policial continuou: — Após os acontecimentos recentes, precisamos revisar o caso. Emily sentiu o sangue ferver novamente. — Isso é ridículo! A voz dela subiu. — Isadora morreu de doença! — Senhora, pedimos que mantenha a calma. — CALMA?! Ela avançou um passo. — Estão me acusando de assassinato! O policial manteve o tom neutro. — Estamos apenas investigando. Emily riu sem humor. — Investigando o quê?! Alexander colocou a mão no braço dela. — Emily. Mas ela estava furiosa. — Como podem pensar que eu matei alguém?! Os policiais trocaram um olhar. — Senhorita, por favor nos acompanhe. Emily respirava com dificuldade agora. O olhar dela estava cheio de fogo. — Eu vou. Silêncio. Ela pegou a bolsa com força. — Porque eu não tenho nada a esconder. Mas quando passou por Vincent… Ele estava sorrindo. Um sorriso quase imperceptível. E aquilo… Aquilo fez algo dentro dela se revirar. Emily parou. Virou-se lentamente para ele. — Se você estiver envolvido nisso… A voz dela saiu baixa. Perigosa. — Eu juro… — Eu acabo com você. Vincent apenas levantou as sobrancelhas. — Emily… — Você está muito nervosa. Ela o encarou por um segundo. Depois virou-se. E saiu. Alexander foi atrás dela. Porque ele sabia… Que aquela batalha estava apenas começando. E desta vez… Seria muito mais suja.
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