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1164 Palavras
A dor veio antes da memória. Uma dor latejante. Pesada. Insistente. Como se algo martelasse dentro da cabeça de Emily, sem ritmo, sem piedade, sem pausa. Ela gemeu baixo, virando o rosto contra o travesseiro. A luz da manhã atravessava as cortinas parcialmente abertas, atingindo seus olhos com força suficiente para fazê-la franzir a testa. — Ah… Sua voz saiu rouca. Seca. Ela tentou abrir os olhos. Arrependeu-se imediatamente. — Minha cabeça… Levou a mão à têmpora. A sensação era de… ressaca. Mas pior. Muito pior. Seu corpo parecia pesado, como se cada músculo estivesse cansado demais para reagir. E então… A memória começou a voltar. Fragmentada. Desorganizada. Perigosa. Luzes. Pessoas. Risos. Demais risos. A sensação estranha no corpo. A leveza… Falsa. Depois… Olhares. Sussurros. Vergonha. E então… A voz. “Isadora não morreu de doença.” O coração de Emily disparou. Os olhos se abriram de uma vez. — Não… Ela sentou-se bruscamente. E se arrependeu. A tontura veio como uma onda. Violenta. — Não… não… não… As mãos tremiam. — Aquilo… não… Respiração acelerada. Descompassada. — Não aconteceu… não pode ter acontecido… Mas aconteceu. E ela sabia. Cada segundo voltava agora. Mais claro. Mais c***l. Ela levou as mãos à boca. — Meu Deus… As lágrimas vieram antes que ela pudesse impedir. — Meu Deus… --- — Emily? A voz de Alexander veio suave. Cautelosa. Ela virou o rosto. Ele estava ali. Sentado na poltrona próxima à cama. Ainda de roupa. Como se não tivesse dormido. Os olhos cansados. Mas atentos. Sempre atentos. — Alex… A voz dela quebrou. E aquilo foi o suficiente. Ele levantou-se imediatamente. Aproximou-se. — Ei… Sentou-se ao lado dela. Com cuidado. — Calma. Mas ela negou. Desesperada. — Não… não tem calma! As lágrimas desciam agora sem controle. — Eu… eu fiz aquilo… — Você não fez nada — interrompeu ele, firme. Ela olhou para ele. Os olhos vermelhos. — Eu fiz! — Emily— — Eu dancei… eu ri… eu… A voz falhou. — Eu me humilhei… Silêncio. Pesado. Alexander respirou fundo. — Você não estava bem. — Todo mundo viu! — Eu vi. Ela parou. O olhar encontrando o dele. — E você…? Silêncio. Por um segundo longo demais. — Você acha que eu fiz aquilo porque quis? Ele respondeu sem hesitar: — Não. E era verdade. Mas… Não era tudo. --- Emily desviou o olhar. — Eles vão falar… — Já estão falando. Ela fechou os olhos. Mais lágrimas. — Minha imagem… — Isso pode ser controlado. Ela soltou uma pequena risada amarga. — Controlado? Olhou para ele novamente. — Me acusaram de assassinato, Alexander. Silêncio. Duro. Frio. Real. — Eu ouvi. — E você acredita? A pergunta saiu baixa. Mas carregada. Ele não respondeu imediatamente. E isso… Já foi resposta suficiente. Emily sentiu. Como um golpe. — Entendi… — Emily— — Não, está tudo bem… Mas não estava. Nem perto disso. Ela afastou-se levemente. — Nem você acredita totalmente em mim. Ele passou a mão pelo rosto. — Eu acredito em você. — Mas…? Silêncio. — Mas eu preciso entender o que aconteceu. E ali… Algo quebrou. De verdade. --- — Sai… — murmurou ela. Ele franziu a testa. — O quê? — Sai. Mais firme. — Emily— — EU DISSE PARA SAIR! A voz ecoou. Cheia de dor. Raiva. Vergonha. E algo mais… Decepção. Alexander ficou imóvel por um segundo. Mas então… Assentiu levemente. — Eu vou estar aqui fora. Ela não respondeu. Apenas virou o rosto. E quando a porta se fechou… Ela desmoronou. --- Do outro lado da porta… Alexander fechou os olhos. Respirou fundo. Algo estava errado. Muito errado. E não era só o comportamento dela. Não era só a acusação. Era tudo. Perfeito demais para ser real. --- Enquanto isso… O mundo já sabia. As manchetes se espalhavam rapidamente. “ESCÂNDALO NA ELITE EMPRESARIAL” “HERDEIRA ENVOLVIDA EM POSSÍVEL ASSASSINATO” “COMPORTAMENTO ESTRANHO EM EVENTO LEVANTA SUSPEITAS” Fotos. Vídeos. Emily rindo. Dançando. Descontrolada. Humilhada. Exposta. Sem defesa. --- Na empresa… O clima era de tensão absoluta. Funcionários cochichavam. Reuniões emergenciais aconteciam. E no topo… Vincent havia assumido o controle. — Até segunda ordem, Emily não pisa aqui — disse, firme. Helena estava sentada. Visivelmente abalada. — Isso é sério demais… — E por isso precisa ser controlado. Sofia cruzou os braços. — Eu avisei. Helena lançou um olhar duro para ela. — Não é hora disso. — Sempre é hora da verdade. Vincent interveio: — Chega. Silêncio. — A prioridade agora é a empresa. — E a imagem. Helena suspirou. — E a Emily? Silêncio. Curto. Frio. — Ela precisa ficar fora. --- No quarto… Emily estava encolhida. Abraçando as próprias pernas. O olhar perdido. — Acabou… A voz era baixa. Quase inexistente. — Eles venceram… Lágrimas silenciosas desciam. — Os filhos dela… — Conseguiram… Ela apertou os olhos. — Eu perdi… E pela primeira vez… Ela realmente acreditava nisso. --- Horas depois… Alexander voltou. Devagar. Sem invadir. — Posso entrar? Silêncio. Mas dessa vez… Ela não mandou ele sair. Ele entrou. Encontrou-a no mesmo lugar. Quebrada. — Emily… Ela não olhou. — Eu não vou voltar para lá. — Eu sei. — Eles me tiraram tudo. Ele aproximou-se. — Ainda não. — Já tiraram. Ela finalmente olhou para ele. — Minha reputação… — Meu nome… — Minha credibilidade… A voz falhou. — Tudo… Ele sentou-se à frente dela. — Olha para mim. Ela hesitou. Mas olhou. — Isso não acabou. Ela soltou uma risada fraca. — Você não viu o que aconteceu? — Eu vi. — Então sabe. Ele inclinou-se levemente. — Eu também vi outra coisa. Ela franziu a testa. — O quê? — Você não estava no controle. Silêncio. — E isso não foi coincidência. Ela ficou imóvel. — O que você está dizendo? Ele respondeu, firme: — Você foi manipulada. O coração dela acelerou. — Como? — Eu não sei ainda. Mas os olhos dele escureceram. — Mas eu vou descobrir. Silêncio. Pesado. Diferente. Pela primeira vez desde que acordou… Emily não sentiu apenas dor. Sentiu… Raiva. --- — Se isso for verdade… A voz dela saiu mais baixa. Mais perigosa. — Eu acabo com eles. Alexander sustentou o olhar. — Então levanta. Ela hesitou. — O quê? — Levanta. Ele estendeu a mão. — Porque isso aqui… — Não é o fim. Silêncio. Longo. Emily olhou para a mão dele. Depois para os próprios dedos. Tremendo. Mas… Aos poucos… Ela segurou. E levantou. Ainda frágil. Ainda abalada. Mas não mais no chão. --- Do outro lado da cidade… Catherine observava as notícias. Satisfeita. — Funcionou… Victoria sorriu. — Melhor do que o esperado. — E agora? Catherine apoiou-se na cadeira. — Agora… O olhar escureceu. — Nós esperamos ela tentar se levantar. Victoria arqueou a sobrancelha. — Por quê? O sorriso de Catherine foi lento. Cruel. — Porque derrubar alguém uma vez… Ela inclinou a cabeça. — Não é suficiente. — Eu quero quebrá-la. Silêncio. — Completamente. ---
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