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1239 Palavras
A manhã chegou devagar. Sem pressa. Sem o peso sufocante que, por tanto tempo, parecia acompanhar cada despertar de Emily. Pela primeira vez em dias… Talvez semanas… Ela não acordou com o coração apertado. Nem com aquele vazio frio no peito. Havia algo diferente. Algo que ela não queria nomear. Mas que estava ali. Presente. Constante. E perigosamente confortável. Emily abriu os olhos lentamente, deixando que a luz suave invadisse o quarto. Ficou alguns segundos imóvel, apenas observando o teto, como se estivesse tentando entender o que exatamente havia mudado. Então virou o rosto. O lado da cama ao seu lado estava vazio. E ainda assim… Não parecia abandono. Parecia… continuidade. Ela franziu levemente a testa. — Isso não está certo… Sentou-se devagar, passando a mão pelos cabelos. — Você está se acostumando… — murmurou para si mesma. E isso… Era exatamente o que ela não queria. Ou pelo menos… O que ela dizia a si mesma que não queria. --- Ao sair do quarto, o aroma de café fresco a atingiu imediatamente. Forte. Quente. Acolhedor. Emily parou no topo da escada. Confusa. Curiosa. E um pouco… surpresa. Desceu lentamente, com passos leves, quase silenciosos. E então viu. Alexander. Na cozinha. Como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo. De camisa social… com as mangas dobradas até os antebraços. Concentrado. Preparando café. Emily encostou-se discretamente à parede, observando-o por alguns segundos. Havia algo… íntimo naquela cena. Algo simples. Mas que mexia com ela de um jeito que ela não gostava de admitir. — Isso é novo… — disse finalmente. Alexander virou-se levemente, como se já soubesse que ela estava ali. — Bom dia. Ela cruzou os braços. — Desde quando você cozinha? — Eu não cozinho. — Está enganando bem. Ele serviu o café com calma. — Só sei fazer o básico. Ela aproximou-se. — Isso inclui café decente? Ele estendeu a xícara para ela. — Descubra. Emily pegou. Os dedos deles se tocaram. E aquele pequeno contato… Ainda tinha efeito. Ela levou a xícara aos lábios. Provou. E tentou não demonstrar. Mas falhou. — Está bom — admitiu. Ele ergueu uma sobrancelha. — Só bom? Ela deu de ombros. — Não se empolgue. Mas o canto dos lábios dela denunciava. --- O silêncio que se seguiu foi confortável. Quase doméstico. — Eu vou te levar hoje — disse Alexander, apoiando-se levemente no balcão. Emily ergueu o olhar. — Não precisa. — Eu sei. — Então por quê? Ele respondeu sem hesitar: — Porque quero. Silêncio. Curto. Mas carregado. Emily desviou o olhar para a xícara. — Isso vai virar rotina? — Talvez. Ela respirou fundo. — Rotinas são perigosas. — Só para quem tem medo delas. Ela voltou a olhar para ele. — Eu não tenho medo. Ele aproximou-se um pouco. — Tem sim. O olhar dele era firme. Seguro. E irritantemente certeiro. Emily sustentou por alguns segundos. Mas acabou desviando. — Eu só não gosto de depender. — Então não dependa. — E isso aqui é o quê? Ele respondeu, mais baixo: — Escolha. E aquilo… Mexeu com ela mais do que deveria. --- A chegada ao trabalho foi tudo menos discreta. O carro de Alexander parou em frente ao edifício. Funcionários. Olhares. Sussurros. Emily viu tudo. — Perfeito… — murmurou. — Você quer que eu pare de fazer isso? — perguntou ele. Ela pensou. Por um segundo. Dois. — Não. Ele sorriu de leve. — Ótimo. Ela abriu a porta. Saiu. Mas antes de fechar… Olhou para ele. E dessa vez não havia ironia. — Obrigada. Ele assentiu. — Eu te busco mais tarde. Ela não respondeu. Mas também não negou. --- Enquanto isso… Em outro ponto da cidade… O clima era completamente diferente. Frio. Calculado. E carregado de intenções. Victoria Hale estava sentada em um café elegante, mas sua postura impecável não conseguia esconder a tensão que a consumia por dentro. Ela mexia lentamente o café. Mas sua mente estava longe dali. — Emily… — murmurou, com irritação evidente. A lembrança do jantar ainda queimava. O sorriso. A postura. A segurança. E pior… O olhar de Alexander. Aquilo era o que mais a incomodava. Ele nunca tinha olhado para ela daquela forma. Nunca. — Interessante… A voz surgiu atrás dela. Calma. Fria. E calculada. Victoria ergueu os olhos. E viu Catherine. Parada. Observando. — Você demorou — disse Victoria, sem surpresa. Catherine puxou a cadeira e sentou-se. — Eu precisava ter certeza. — De quê? Catherine apoiou os braços na mesa. — De que você era exatamente quem eu pensava. Silêncio. Victoria inclinou levemente a cabeça. — E o que você pensa que eu sou? Catherine sorriu. Lento. Perigoso. — A ex de Alexander. Direto. Sem rodeios. Victoria não negou. Apenas sustentou o olhar. — E você… — continuou Catherine — odeia Emily. Silêncio. Mas dessa vez… Mais pesado. Victoria cruzou os braços. — Cuidado com as suas conclusões. Catherine inclinou-se levemente. — Eu não faço conclusões. Ela sorriu. — Eu observo. Victoria ficou em silêncio. E isso… Já era uma resposta. Catherine recostou-se na cadeira. — Ótimo. — Ótimo o quê? — Porque eu também odeio. Victoria arqueou a sobrancelha. — Por quê? E então… Catherine deixou de sorrir. Pela primeira vez. — Porque ela me tirou tudo. O tom mudou. Mais baixo. Mais duro. — O amor da minha mãe… Victoria ficou imóvel. — A atenção… — O lugar que deveria ser meu… — E o dinheiro. Cada palavra era mais carregada que a anterior. — Ela entrou… e tomou tudo como se fosse dela por direito. Silêncio. Victoria observava com mais interesse agora. — Então isso é pessoal. Catherine soltou uma pequena risada sem humor. — Sempre foi. Ela inclinou-se novamente. — E você? Victoria demorou um pouco. Mas respondeu: — Eu não gosto de perder. — E perdeu? Victoria apertou levemente os dedos. — Não ainda. Catherine sorriu. — Mas vai… se não fizer nada. Silêncio. As duas se encararam. Medindo forças. — O que você quer? — perguntou Victoria. Catherine respondeu sem hesitar: — Derrubar Emily. — Como? — Devagar. O sorriso voltou. Frio. Calculado. — Tirando tudo dela. Victoria inclinou a cabeça. — Isso inclui Alexander? Catherine não hesitou. — Principalmente ele. Silêncio. Pesado. Perigoso. Victoria pensou. Calculou. E então… Sorriu. — Eu gosto disso. Catherine ergueu levemente a xícara. — Então estamos alinhadas. Victoria fez o mesmo. — À queda dela. — À ruína completa. As xícaras se tocaram. E naquele instante… Uma guerra começou. --- Enquanto isso… Emily ria. Simplesmente… ria. Clara a observava, desconfiada. — Você está estranha. — Eu estou feliz. — Isso é ainda mais estranho. Emily revirou os olhos. Mas não negou. Porque pela primeira vez… Era verdade. --- No final do dia… Alexander estava lá. Como prometido. Encostado no carro. Esperando. E quando Emily o viu… Algo dentro dela suavizou. — Você realmente veio. — Eu disse que viria. Ela aproximou-se. Mais devagar dessa vez. — Isso está ficando perigoso. — Por quê? Ela parou na frente dele. O olhar mais suave. — Porque eu posso começar a gostar disso. Silêncio. Ele abriu a porta para ela. — Então pare de lutar. Ela entrou. Mas dessa vez… Não respondeu. Porque no fundo… Ela já sabia. Já era tarde demais. --- E em algum lugar da cidade… Duas mulheres sorriam. Planejando. Esperando. Preparando o golpe. Porque enquanto Emily começava a se sentir segura… O chão sob seus pés… Começava a ceder.
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