A manhã chegou devagar.
Sem pressa.
Sem o peso sufocante que, por tanto tempo, parecia acompanhar cada despertar de Emily.
Pela primeira vez em dias…
Talvez semanas…
Ela não acordou com o coração apertado.
Nem com aquele vazio frio no peito.
Havia algo diferente.
Algo que ela não queria nomear.
Mas que estava ali.
Presente.
Constante.
E perigosamente confortável.
Emily abriu os olhos lentamente, deixando que a luz suave invadisse o quarto. Ficou alguns segundos imóvel, apenas observando o teto, como se estivesse tentando entender o que exatamente havia mudado.
Então virou o rosto.
O lado da cama ao seu lado estava vazio.
E ainda assim…
Não parecia abandono.
Parecia… continuidade.
Ela franziu levemente a testa.
— Isso não está certo…
Sentou-se devagar, passando a mão pelos cabelos.
— Você está se acostumando… — murmurou para si mesma.
E isso…
Era exatamente o que ela não queria.
Ou pelo menos…
O que ela dizia a si mesma que não queria.
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Ao sair do quarto, o aroma de café fresco a atingiu imediatamente.
Forte.
Quente.
Acolhedor.
Emily parou no topo da escada.
Confusa.
Curiosa.
E um pouco… surpresa.
Desceu lentamente, com passos leves, quase silenciosos.
E então viu.
Alexander.
Na cozinha.
Como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
De camisa social… com as mangas dobradas até os antebraços.
Concentrado.
Preparando café.
Emily encostou-se discretamente à parede, observando-o por alguns segundos.
Havia algo… íntimo naquela cena.
Algo simples.
Mas que mexia com ela de um jeito que ela não gostava de admitir.
— Isso é novo… — disse finalmente.
Alexander virou-se levemente, como se já soubesse que ela estava ali.
— Bom dia.
Ela cruzou os braços.
— Desde quando você cozinha?
— Eu não cozinho.
— Está enganando bem.
Ele serviu o café com calma.
— Só sei fazer o básico.
Ela aproximou-se.
— Isso inclui café decente?
Ele estendeu a xícara para ela.
— Descubra.
Emily pegou.
Os dedos deles se tocaram.
E aquele pequeno contato…
Ainda tinha efeito.
Ela levou a xícara aos lábios.
Provou.
E tentou não demonstrar.
Mas falhou.
— Está bom — admitiu.
Ele ergueu uma sobrancelha.
— Só bom?
Ela deu de ombros.
— Não se empolgue.
Mas o canto dos lábios dela denunciava.
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O silêncio que se seguiu foi confortável.
Quase doméstico.
— Eu vou te levar hoje — disse Alexander, apoiando-se levemente no balcão.
Emily ergueu o olhar.
— Não precisa.
— Eu sei.
— Então por quê?
Ele respondeu sem hesitar:
— Porque quero.
Silêncio.
Curto.
Mas carregado.
Emily desviou o olhar para a xícara.
— Isso vai virar rotina?
— Talvez.
Ela respirou fundo.
— Rotinas são perigosas.
— Só para quem tem medo delas.
Ela voltou a olhar para ele.
— Eu não tenho medo.
Ele aproximou-se um pouco.
— Tem sim.
O olhar dele era firme.
Seguro.
E irritantemente certeiro.
Emily sustentou por alguns segundos.
Mas acabou desviando.
— Eu só não gosto de depender.
— Então não dependa.
— E isso aqui é o quê?
Ele respondeu, mais baixo:
— Escolha.
E aquilo…
Mexeu com ela mais do que deveria.
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A chegada ao trabalho foi tudo menos discreta.
O carro de Alexander parou em frente ao edifício.
Funcionários.
Olhares.
Sussurros.
Emily viu tudo.
— Perfeito… — murmurou.
— Você quer que eu pare de fazer isso? — perguntou ele.
Ela pensou.
Por um segundo.
Dois.
— Não.
Ele sorriu de leve.
— Ótimo.
Ela abriu a porta.
Saiu.
Mas antes de fechar…
Olhou para ele.
E dessa vez não havia ironia.
— Obrigada.
Ele assentiu.
— Eu te busco mais tarde.
Ela não respondeu.
Mas também não negou.
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Enquanto isso…
Em outro ponto da cidade…
O clima era completamente diferente.
Frio.
Calculado.
E carregado de intenções.
Victoria Hale estava sentada em um café elegante, mas sua postura impecável não conseguia esconder a tensão que a consumia por dentro.
Ela mexia lentamente o café.
Mas sua mente estava longe dali.
— Emily… — murmurou, com irritação evidente.
A lembrança do jantar ainda queimava.
O sorriso.
A postura.
A segurança.
E pior…
O olhar de Alexander.
Aquilo era o que mais a incomodava.
Ele nunca tinha olhado para ela daquela forma.
Nunca.
— Interessante…
A voz surgiu atrás dela.
Calma.
Fria.
E calculada.
Victoria ergueu os olhos.
E viu Catherine.
Parada.
Observando.
— Você demorou — disse Victoria, sem surpresa.
Catherine puxou a cadeira e sentou-se.
— Eu precisava ter certeza.
— De quê?
Catherine apoiou os braços na mesa.
— De que você era exatamente quem eu pensava.
Silêncio.
Victoria inclinou levemente a cabeça.
— E o que você pensa que eu sou?
Catherine sorriu.
Lento.
Perigoso.
— A ex de Alexander.
Direto.
Sem rodeios.
Victoria não negou.
Apenas sustentou o olhar.
— E você… — continuou Catherine — odeia Emily.
Silêncio.
Mas dessa vez…
Mais pesado.
Victoria cruzou os braços.
— Cuidado com as suas conclusões.
Catherine inclinou-se levemente.
— Eu não faço conclusões.
Ela sorriu.
— Eu observo.
Victoria ficou em silêncio.
E isso…
Já era uma resposta.
Catherine recostou-se na cadeira.
— Ótimo.
— Ótimo o quê?
— Porque eu também odeio.
Victoria arqueou a sobrancelha.
— Por quê?
E então…
Catherine deixou de sorrir.
Pela primeira vez.
— Porque ela me tirou tudo.
O tom mudou.
Mais baixo.
Mais duro.
— O amor da minha mãe…
Victoria ficou imóvel.
— A atenção…
— O lugar que deveria ser meu…
— E o dinheiro.
Cada palavra era mais carregada que a anterior.
— Ela entrou… e tomou tudo como se fosse dela por direito.
Silêncio.
Victoria observava com mais interesse agora.
— Então isso é pessoal.
Catherine soltou uma pequena risada sem humor.
— Sempre foi.
Ela inclinou-se novamente.
— E você?
Victoria demorou um pouco.
Mas respondeu:
— Eu não gosto de perder.
— E perdeu?
Victoria apertou levemente os dedos.
— Não ainda.
Catherine sorriu.
— Mas vai… se não fizer nada.
Silêncio.
As duas se encararam.
Medindo forças.
— O que você quer? — perguntou Victoria.
Catherine respondeu sem hesitar:
— Derrubar Emily.
— Como?
— Devagar.
O sorriso voltou.
Frio.
Calculado.
— Tirando tudo dela.
Victoria inclinou a cabeça.
— Isso inclui Alexander?
Catherine não hesitou.
— Principalmente ele.
Silêncio.
Pesado.
Perigoso.
Victoria pensou.
Calculou.
E então…
Sorriu.
— Eu gosto disso.
Catherine ergueu levemente a xícara.
— Então estamos alinhadas.
Victoria fez o mesmo.
— À queda dela.
— À ruína completa.
As xícaras se tocaram.
E naquele instante…
Uma guerra começou.
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Enquanto isso…
Emily ria.
Simplesmente… ria.
Clara a observava, desconfiada.
— Você está estranha.
— Eu estou feliz.
— Isso é ainda mais estranho.
Emily revirou os olhos.
Mas não negou.
Porque pela primeira vez…
Era verdade.
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No final do dia…
Alexander estava lá.
Como prometido.
Encostado no carro.
Esperando.
E quando Emily o viu…
Algo dentro dela suavizou.
— Você realmente veio.
— Eu disse que viria.
Ela aproximou-se.
Mais devagar dessa vez.
— Isso está ficando perigoso.
— Por quê?
Ela parou na frente dele.
O olhar mais suave.
— Porque eu posso começar a gostar disso.
Silêncio.
Ele abriu a porta para ela.
— Então pare de lutar.
Ela entrou.
Mas dessa vez…
Não respondeu.
Porque no fundo…
Ela já sabia.
Já era tarde demais.
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E em algum lugar da cidade…
Duas mulheres sorriam.
Planejando.
Esperando.
Preparando o golpe.
Porque enquanto Emily começava a se sentir segura…
O chão sob seus pés…
Começava a ceder.