A HERANÇA DOS PECADOS

1147 Palavras
A fotografia descansava sobre a escrivaninha, iluminada apenas pelo abajur. Larissa olhava para ela pela centésima vez, tentando entender o que os sorrisos congelados naquela imagem escondiam. De um lado, Elena Andreadis, mãe de Niko - elegante, fria, poderosa. Do outro, Petros Markatos, pai de Ariadne e Helena - o homem cuja fortuna nascera do nada. Entre eles, um aperto de mãos. E atrás, o logotipo de uma empresa que Larissa já vira antes: Mediterra Holdings. O mesmo nome gravado em um dos contratos da Andreadis Corporation. Ela pegou o laptop e começou a buscar informações. A cada clique, o quebra-cabeça se tornava mais claro - e mais perigoso. A Mediterra Holdings havia sido uma empresa de fachada, criada nos anos 90 para movimentar dinheiro entre os dois impérios. Transferências, investimentos fantasmas, contas offshore. Tudo muito bem escondido. Até que, dez anos atrás, um escândalo quase veio à tona - e, pouco tempo depois, Petros Markatos morreu de forma "repentina". Larissa fechou os olhos por um instante. O "acordo sujo" que Ariadne descobrira começava a ganhar forma. E, se Niko sabia disso, então o casamento por contrato talvez fosse apenas uma tentativa de salvar o império familiar. --- Horas depois, Niko voltou. O semblante dele era sombrio, os olhos duros. - O que aconteceu? - ela perguntou, levantando-se. - Falei com Alexis. Descobrimos que o sistema foi invadido há semanas. - respondeu ele, tirando o paletó. - E o acesso partiu de um servidor em Milão. - Milão? - Sim. Sede de uma das subsidiárias da Mediterra Holdings. Larissa sentiu o estômago revirar. - Niko... preciso te mostrar uma coisa. Ela entregou a foto e explicou o que descobrira. Enquanto falava, observava as expressões dele mudarem - incredulidade, raiva, e por fim, resignação. - Eu sabia que havia algo entre meu pai e Petros - confessou Niko. - Mas minha mãe sempre negou. Dizia que eram apenas "parceiros estratégicos". - Isso não era parceria. Era corrupção. - retrucou ela. - E Ariadne descobriu. Niko passou as mãos pelo rosto. - Ela me contou sobre um dossiê. Disse que tinha provas. Mas eu... - Ele hesitou. - Eu não acreditei. - E agora ela está morta. - completou Larissa, com dor na voz. O silêncio que se seguiu foi denso, pesado demais. - Talvez seja hora de descobrir o que realmente estava nesse dossiê. - disse ela. - Você tem acesso aos arquivos antigos da empresa? Ele assentiu lentamente. - Sim. Mas se o que você está pensando for verdade, abrir isso pode nos colocar em perigo real. Larissa o encarou, firme. - Nós já estamos em perigo, Niko. --- Na manhã seguinte, foram até o antigo escritório da família, em uma ala isolada da sede Andreadis. O lugar cheirava a poeira e segredo. Niko digitou a senha no cofre digital, e o clique metálico ecoou como um disparo. Dentro, havia dezenas de pastas e um envelope pardo com o nome Ariadne M. escrito à mão. Larissa sentiu o coração acelerar. Ele abriu o envelope. Havia ali cópias de e-mails, extratos bancários e um pendrive. - Ela guardou tudo. - murmurou Niko. Larissa conectou o dispositivo ao laptop. Na tela, uma série de pastas apareceu. Entre elas, uma chamada "Acropolis Project". Ao abrir, encontraram documentos datados de sete anos atrás - transferências milionárias entre a Mediterra Holdings e uma conta ligada a políticos gregos e empresários do setor marítimo. Suborno em larga escala. - Isso destrói as duas famílias. - sussurrou Larissa. - Não só as famílias. - disse Niko, sombrio. - Isso destrói metade da elite de Atenas. Ele se levantou e começou a andar de um lado para o outro. - Agora faz sentido. Ariadne tentou expor isso. E alguém... a silenciou. - Seu pai ainda está vivo, Niko. - lembrou ela. - E se ele for o verdadeiro culpado? O olhar dele endureceu. - Meu pai não seria capaz de... Mas a frase morreu no ar. Porque, no fundo, ele sabia que Andreas Andreadis era capaz de tudo. --- De volta à mansão, Larissa estava inquieta. Sabia que mexer naquele passado era cutucar uma fera adormecida. E Niko, por mais determinado que estivesse, parecia cada vez mais dividido entre proteger a verdade e proteger o próprio nome. Ela caminhou até a varanda. O mar parecia em paz - uma ironia c***l. Enquanto observava o horizonte, ouviu passos atrás de si. - Pensando em fugir? - perguntou Niko, com um meio sorriso cansado. - Pensando no que fazer com o que descobrimos. - Ainda não sei. - Ele parou ao lado dela. - Mas uma coisa é certa: quem matou Ariadne não vai parar. - E se for alguém da sua própria família? - arriscou ela. Ele a olhou. - Então vou derrubar cada um deles. Larissa sentiu um arrepio. Aquela promessa soava mais como uma sentença. --- À noite, quando Niko saiu para uma reunião emergencial, Larissa decidiu investigar por conta própria. Foi até o escritório dele e acessou o servidor da Andreadis Corporation. Entre os arquivos criptografados, encontrou algo chamado "Contrato Paros". Ao abrir, o choque foi imediato. O documento detalhava um acordo matrimonial entre as famílias Andreadis e Botelho. Datado de dois meses antes do casamento. Assinado por Elena Andreadis e Rafael Botelho, o pai de Larissa. As mãos dela tremeram. Não fora Niko quem propôs o contrato - e sim as famílias. O casamento era uma transação. Um modo de unir patrimônios e apagar rastros financeiros ligados às investigações internacionais. Ela se afastou, o coração disparado. O casamento por contrato não fora ideia de Niko. Fora o último movimento de um acordo que começara décadas antes. --- Quando Niko voltou, encontrou Larissa na sala, pálida. - O que houve? - perguntou, preocupado. Ela o encarou, os olhos marejados. - Você sabia? - Sabia o quê? - Que o nosso casamento foi arranjado pelos nossos pais. Que isso tudo era só uma forma de limpar o nome da Andreadis Corporation! Niko empalideceu. - Larissa... - Me diga a verdade, Niko! - gritou ela. - Você sabia?! Ele fechou os olhos por um instante. - Sim. O som daquela palavra foi como um tiro. - No começo, sim. Mas depois... - Ele deu um passo à frente, implorando com o olhar. - Depois, tudo mudou. Eu me apaixonei por você. - Não. - Ela recuou, ferida. - Você se apaixonou pela mulher que podia te salvar. Ela correu escada acima, as lágrimas escorrendo, e trancou-se no quarto. Do lado de fora, Niko encostou a testa na porta, a voz baixa e quebrada: - Larissa... você é a única verdade que sobrou. Mas dentro dela, o amor e a raiva já haviam se misturado de forma irreversível. Porque agora ela sabia que o "casamento por contrato" era mais do que uma mentira - era o legado envenenado de duas famílias que trocaram amor por poder.
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