ENTRE MENTIRAS E VERDADES

1128 Palavras
O som do relógio marcando a meia-noite parecia ecoar dentro da mente de Larissa. A foto no celular ainda queimava sua visão - ela e Niko, juntos, observados de algum lugar invisível. O mar rugia lá fora, e pela primeira vez desde que chegara à Grécia, ela se sentiu verdadeiramente vulnerável. Respirou fundo, tentando decidir se devia contar a ele. Mas o instinto - aquele mesmo que a havia guiado por toda a vida - sussurrava que esconder era mais perigoso do que falar. Com passos decididos, atravessou o corredor silencioso e bateu na porta do escritório. - Entre. - A voz de Niko veio grave, cansada. Larissa entrou, o celular ainda tremendo em sua mão. Niko estava de pé junto à janela, o rosto meio iluminado pela luz do luar. Parecia uma escultura viva - linda, mas feita de dor. - O que houve? - perguntou ele, percebendo o tom dela. Larissa entregou o celular. - Isso. Recebi há quinze minutos. Ele pegou o aparelho e observou a imagem com a expressão fechada. O maxilar dele tensionou. - De onde veio? - Número bloqueado. Niko passou a mão pelo cabelo, furioso. - Estão nos observando. - "Estão"? - repetiu Larissa. - Então você acha que não é só Helena? - Helena é o tipo de mulher que suja as mãos apenas quando pode culpar alguém depois. - Ele devolveu o celular. - Isso é coisa de alguém mais próximo. - Mais próximo de quem? - Ela o encarou. - De mim ou de você? O olhar dele endureceu. - Está insinuando o quê? - Que talvez nem tudo o que você me contou seja verdade. - A voz de Larissa saiu baixa, mas firme. - Helena me avisou que Ariadne descobriu algo. Que havia outro motivo para o amor de vocês. - E você acreditou nela? - Ele se aproximou, o rosto a poucos centímetros do dela. - Acreditou na mulher que me odeia desde o dia em que nasci? - Acreditei no medo que vi nos seus olhos. - respondeu ela, com a mesma intensidade. Por um instante, o ar entre eles ficou pesado. O silêncio não era vazio - estava carregado de tudo o que ainda não haviam dito. Niko desviou o olhar e deu um passo para trás. - Eu nunca usei Ariadne. Mas também não consegui salvá-la. E agora... - Ele suspirou, cansado. - Agora parece que alguém quer me fazer pagar por isso. Larissa o observou. Ele parecia mais humano do que nunca - despido da arrogância, vulnerável. E, de alguma forma, aquilo a tocou. Ela deu um passo à frente. - Niko... nós precisamos confiar um no outro. Ele a olhou, e algo no rosto dele se suavizou. - Você confia em mim, Larissa? Ela hesitou, o coração acelerado. - Quero confiar. - Isso não é o mesmo. - É o que posso te dar agora. - respondeu ela, sincera. Ele se aproximou novamente, mais devagar desta vez. - Então deixa eu te mostrar por que deve. Antes que ela respondesse, Niko a puxou para perto. O beijo aconteceu como um desabafo - urgente, contido por tempo demais. Larissa sentiu o mundo desaparecer, o gosto do sal e da raiva e da confissão misturados. Quando se separaram, os dois respiravam rápido. - Isso não devia ter acontecido. - murmurou ela. - Tudo entre nós nunca devia ter acontecido. - respondeu ele. - Mas aqui estamos. Larissa recuou, confusa entre desejo e medo. - Niko... Antes que pudesse terminar, um barulho alto ecoou lá fora - vidro se estilhaçando. Os dois congelaram. Niko reagiu primeiro, puxando-a para trás da mesa. - Fique aqui. Ele pegou a arma que guardava na gaveta - um reflexo instintivo de quem viveu tempo demais sob ameaça. Larissa o observou sair do escritório e desaparecer pelo corredor escuro. O som dos passos dele se misturava ao vento que entrava pela janela quebrada. Minutos depois, Niko voltou, o olhar tenso. - Ninguém. Mas jogaram algo contra o vidro. Larissa se aproximou e viu no chão um pedaço de pedra envolto em um papel. Niko abriu o bilhete. > "O contrato termina quando a verdade for revelada." Larissa sentiu o sangue gelar. - Eles sabem do contrato. Niko olhou para ela, incrédulo. - Isso não é possível. - É possível sim, se alguém aqui dentro falou demais. Os olhos dele escureceram. - Você está me acusando? - Eu estou dizendo que alguém quer nos dividir. E parece estar conseguindo. Por um instante, Niko ficou imóvel - e então jogou o papel no fogo da lareira. As chamas o engoliram rapidamente, consumindo a ameaça junto com o silêncio. - A partir de agora, você não sai sozinha. - ordenou ele. - Nem um passo fora desta casa sem mim. - Isso é proteção ou controle? - perguntou ela, desafiadora. - É sobrevivência. - respondeu ele, frio. - E você vai precisar de mim, Larissa, quer admita ou não. Ela respirou fundo, lutando contra o impulso de retrucar. Sabia que ele estava certo, mas odiava admitir. --- Na manhã seguinte, Alexis trouxe notícias. - Senhor Andreadis, o sistema de segurança foi invadido. Alguém acessou as câmeras externas na última semana. - De dentro ou de fora? - perguntou Niko. - Ainda não sabemos. Mas... há algo mais. - Alexis hesitou. - O carro da senhora Larissa foi adulterado. Os freios estavam cortados. Larissa arregalou os olhos. - O quê?! Niko se levantou tão rápido que a cadeira tombou. - Quando? - Ontem à noite, provavelmente. Se ela tivesse saído sozinha, não teria voltado. O silêncio que se seguiu foi absoluto. Larissa sentiu as pernas fraquejarem. Alguém queria matá-la. Niko caminhou até ela e a segurou pelos ombros. - Isso acabou de mudar tudo. Ela o encarou, assustada. - Você acha que Helena... - Não sei. Mas vou descobrir. - A voz dele agora era aço. - E quem quer que tenha feito isso, vai se arrepender. --- Horas depois, Niko saiu para "resolver algo". Larissa ficou na mansão, observada discretamente pelos seguranças que ele colocara à porta. Mas, ao cair da noite, ela encontrou um envelope sob sua porta. Sem remetente. Dentro, uma única frase: > "Você está mais próxima da verdade do que imagina. Não confie em ninguém." E junto, uma fotografia antiga - Elena Andreadis e o pai de Ariadne, em uma reunião de negócios. Sorrindo. Larissa sentiu o coração disparar. A conexão entre as famílias não era apenas social... Era o mesmo "acordo sujo" que Ariadne havia descoberto. Ela guardou a foto e respirou fundo. Se fosse verdade, significava que Niko e Helena eram apenas peças de um jogo muito maior - um jogo iniciado por aqueles que vieram antes deles. E agora, ela estava no centro dele.
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